Capítulo 2

Entrei na conhecida Mercedes Negra reluzente.

– Então? Como foi o fim de semana em Caxias, na festa da uva? – eu perguntei.

– Ótimo. Bebi muito vinho. Comi muito queijo. Me diverti bastante.

– Legal. – e eu dei um sorriso leve.

– Não se arrepende de não ter ido comigo, Lizzy?

– Hum hum. Por quê? Você sentiu minha falta? – eu impliquei.

– Não muito, na verdade. A minha segunda escolha também era uma companhia agradável. Não me deixou muito tempo livre para pensar. Se é que você entende. – fez uma expressão que sugeria sacanagem.

– Há-há-há. Você não presta, George.

– Só me divirto. Afinal, a vida é curta. E você nem merecia um novo convite meu, depois de ter me deixado na mão sábado passado.

– Você jura que eu era mesmo a primeira escolha? – eu brinquei.

– Era mesmo.

– Ahãm, sei.

– Por que não? Você é ótima, Lizzy. E não enche meu saco depois com cobranças. Não se apega como as outras mulheres. Até penso que você é uma versão feminina de mim. Além disso, é muito gostosa. – e ele gargalhou.

– Hum... – eu franzi minha testa e emudeci.

– Tem certeza que quer mesmo sair para dançar? Não quer ir ao meu apartamento?

– Não.

– Você está estranha, Lizzy. Quando vai me contar o que aconteceu no sábado?

– Depois, lá dentro.

– Promete?

– Hum rum.

Entramos na casa noturna. Ainda estava pouco movimentada e a música soava baixa, apesar de ser bem agitada. Sentamos numa mesa central, com lugares disponíveis para quatro pessoas. E como ninguém mais chegaria, ocupei uma das cadeiras extras com minha bolsa e meu casaco.

– O que quer beber? – ele indagou, casual.

– Caipirinha.

– Uma para cada ou a gente divide?

– Uma para cada.

– Você quer encher a cara, não? – ele brincou.

– Hum rum. – eu concordei e sorri.

Após meia caipirinha e um pouco de papo furado, eu indaguei:

– George, se você desse de cara com uma paixão arrebatadora ou um amor a primeira vista, não sei bem, você fugiria ou mergulharia de cabeça?

– Que pergunta, Lizzy! É Lógico que eu fugiria! A vida está tão boa assim, para que complicar?

– Pois é! Foi o que eu fiz! Eu fugi. Devo ter parecido uma criança medrosa, mas eu me assustei e fugi. Só que ele me persegue tanto, George! Ele não sai da minha cabeça.

– Ele não sai da tua cabeça? E como foi que você permitiu que ele entrasse? – ele brincou.

– Não sei, não sei. – eu resmunguei e baixei meus olhos para o copo.- A culpa foi tua, não devia ter me levado àquela festa.

– Rá! Eu disse que você estava estranha! Quem é ele?

– Advinha.

– Charles Bingley?

– Não.

– Tom Collins?

– Não!

E ele foi dizendo vários nomes, e eu sempre negando.

– Já sei! William Darcy! – ele exclamou.

– Hum rum. – eu assenti com um movimento de cabeça.

– Rá! Então você está ferrada! Ele não dá mole para ninguém. – ele estava achando engraçado.

– É... Mas a gente se beijou e...

– QUE? – ele agora gritou e várias pessoas viraram para nos olhar – Peraí, peraí, peraí. Um momento. – e ele se levantou de maneira dramática – Eu ouvi bem? – esfregou as orelhas, brincalhão – Você beijou o Darcy?

– Sim. – eu sorri meio sem graça.

– Não, não, não, não. Algo está errado nessa história. Você o amarrou e o beijou a força?

– Não né!

– Então você o ameaçou com um chicote?

– Há-há-há. Claro que não.

– Colocou um revolver na testa dele e ameaçou disparar caso ele não te beijasse?

– Claro que não! Para George, não é legal rir das desgraças dos outros.

– Eu sei. Desculpa – ele então respirou fundo e voltou a se sentar. – Você beijou o Darcy... – ele revirou os olhos, tentando assimilar a informação. – Poxa, Lizzy! Não podia escolher outro cara ao invés do meu chefe? – agora parecia chateado.

– Teu chefe? É sério? Eu achei que ele fosse teu amigo.

– Hum hum. É meu chefe. A gente não se dá. Aliás, ele não se dá com ninguém com exceção de Charles Bingley.

– Nossa, tô ferrada mesmo. – resignada, apoiei meus cotovelos sobre a mesa. – Teu chefe... E ainda antipático... – e eu suspirei.

– Então. Como foi?

– A gente se beijou.

– Essa parte eu já entendi.- ele resmungou meio mau humorado.

– E ele me convidou para ir até a casa dele.

– Sério? – novamente seu rosto se contraiu com incredulidade. – E você não foi?

– Não.

– Por quê?

– Porque eu me assustei, George. Foi tão forte! Eu não estava preparada para aquilo e pensei que seria mais fácil se eu fugisse. Mas não está sendo nada fácil! Nada mesmo.

– E o que você pretende fazer?

– Não sei. Esperava que você me desse alguma sugestão.

– Eu? Você por acaso espera que eu te ajude a ficar com o meu chefe? – indagou perplexo.

– Hum rum. Você é meu amigo.

– Sou mais do que amigo. – ele cruzou os braços e resmungou.

– George! Não é hora para ter ciúmes. Você sabe como é difícil para mim me abrir com alguém.

– Eu sei. – ele grunhiu. – Mas você escolheu a pessoa errada para isso.

– Não. Não escolhi não. Você é legal. É meu amigo. E está sempre para frente e de bom humor. Você me diverte e me anima.

– Eu sou legal. – estufou o peito, meio convencido. – Diz que eu sou gostoso também.

– Exibido. – e eu ri – Você é super gostoso, George. – e eu belisquei a coxa dele.

– Abusada. – ele brincou – Se quiser pode beliscar o resto também. – ele propôs, meio cafajeste.

– Não.

– Não? – ele enrugou a testa e fez cara de cachorrinho pidão – Não me quer mais?

– Não, George. Não seria justo a gente ficar junto quando eu estou com outro homem na minha cabeça.

– Nunca mais?

– Não sei.

– Poxa, Lizzy... Você é tão gostosa. Não faz isso comigo.

– Mas sou descartável.

– Como assim?

– Você sempre me disse que as mulheres são descartáveis, George.

– São mesmo. – ele se inclinou para trás com as mãos sobre a cabeça e riu.

– Vamos dançar? – uma música irresistível começou a tocar.

– Peraí, não acabamos de conversar.

Então ele pediu outra caipirinha.

– George, você por acaso não está planejando me embebedar para me levar para cama, não é mesmo?

– Claro que não, Lizzy. Eu só abuso de mulheres sóbrias... — e eu fiz uma careta — ou de bêbadas afim de mim.

– Há-há-há. Maluco. – fiz uma pausa, pensativa – Ele pediu meu telefone.

– E não te ligou?

– Eu não dei.

– Por que não?

– Sei lá. Fiquei com medo. Mas disse a ele que se ele quisesse era só pedir para ti.

– Para mim? Há-há-há. Pode esquecer isso, Lizzy.

– Por quê?

– Você acha que ele iria se rebaixar, orgulhoso do jeito que é, e pedir teu telefone para um funcionário qualquer?

– Você não é um funcionário qualquer.

– Mas ele não sabe disso. – e ele sorriu.

– Hum... Pelo visto escolhi bem... Um homem orgulhoso e arrogante. Um desafio e tanto. – e eu suspirei.

– Lizzy! Pensei em uma coisa que seria interessante para mim.

– Hum? – ele me deixou intrigada.

– O Darcy é mesmo muito mal humorado, arrogante e esnobe e eu sempre pensei que o problema dele fosse falta de mulher. Melhor dizendo: falta de sexo! E agora eu cheguei a conclusão que você pode facilitar a minha vida.

– Hum?

– Por favor, Lizzy. – ele esticou os braços sobre a mesa e me sacudiu — Dê um trato nele! Faça o meu chefinho feliz! Pelo bem de todos os seus reles subordinados. Por favor?

– Você quer que eu vá contigo no teu trabalho e arranque as roupas do teu chefe no escritório dele? – eu debochei.

– Você faria isso por mim?

– Lógico! Com o maior prazer! – e eu sorri.

– Maluca.

– Maluco é você.

– Segunda-feira. Esteja lá às 10 horas da manhã. Tenho esse horário a tua disposição.

– Tá bom.

– Você vai mesmo?

– Hum rum. De manhã tenho uma reportagem fora do jornal. Vou a campo tirar umas fotografias. Ninguém perceberá se eu der uma escapadinha.

– E você terá coragem de entrar na sala dele?

– Você duvida?

– Lógico que não. Você é a maior cara de pau que eu conheço.

– Hum hum. Você é pior do que eu, George.

– Eu sei. Só estava esperando que você me elogiasse. – e ele riu.

E eu acabei meu segundo copo de caipirinha.

– Vamos dançar? – de novo eu propus.

– Vamos. – e ele caminhou pelas minhas costas até a pista de dança. Chegando lá me enlaçou pela cintura. Roçou o nariz no meu pescoço. – Lizzy... – ele murmurou ao meu ouvido. – Já que você será a mulher do meu chefe e não estará mais ao meu alcance, será que pode me dar um último beijo?

– George! Eu não serei a mulher do teu chefe. – o repreendi.

– Será sim. Ele não resistira a ti Lizzy, nenhum homem resiste.

– Nem você? – eu me virei de frente para ele e indaguei, perspicaz.

– Hum hum. Um último beijo e eu faço o que você quiser. – ele brincou, fazendo uma reverência.

– Ok.

E eu o beijei. Que mal havia nisso? Já o havia beijado mais de mil vezes. Mas de alguma forma, não era mais a mesma coisa. Não era mais bom. Era estranho.

Depois de conhecer o homem certo, os homens errados não tinham mais a mesma graça. Mesmo.