O herdeiro de Hera
21 O sangue dos faraós
Notas iniciais
Pov – Autor
– Klonos! – Gritou Sophia já com a adaga na mão.
O deus das transformações, ainda com a forma de Hera, riu e bateu no peito. Mudando de forma, assumira agora a forma de um grande pavão negro com olhos que brilhavam alternando entre verde-esmeralda e dourado.
– Exatamente, querida. – Sua voz era estranha, como se houvesse levado um soco na garganta e estivesse se esforçando para falar.
As penas traseiras do pavão eram verdes e douradas, como seus olhos, tão bonitas que Sophia perdia a concentração. Parecia que ele fazia de propósito para tirar-lhe a atenção. Mas agora, raiva percorria o corpo da menina, ela queria sua mãe de volta.
– Me leve de volta. Agora! – Ela ordenou.
– Não, querida. Não antes de lhe dizer umas coisinhas.
Sophia agora estava parada em um corredor de imagens flutuantes. Ela viu um garoto afro-americano e uma menina loira com mechas roxas pintadas em seus cabelos, ambos estavam em frente a uma grande pirâmide vermelha, então a imagem passou voando ao seu lado. Em seguida, viu o mesmo garoto negro conversando com uma menina aparentemente mais velha com a pele bronzeada e cabelo curto.
– Esse garoto é seu pai, Sophia. – Disse Klonos do outro lado do corredor. – Logo após descobrir que descendera de dois faraós egípcios, Narmer e Ramsés, o Grande. A garota loira é sua tia, Sadie Kane. Eu sei, eles não se parecem. A menina de cabelos curtos é Zia Rashid, paixão de infância de seu pai, Carter.
– Eu não me importo com nada disso, Klonos! – Disse Sophia com ódio em sua voz.
Sophia avançou na direção do grande pavão negro com a adaga em punho. Uma barreira invisível, como a do acampamento, surgiu de repente e Sophia colidiu com a mesma.
– Tenha calma, criança. Você terá a chance de vingar o seu namoradinho. – Ironizou Klonos.
– Nico... Nico não era meu namorado! – Sophia sentia seu formigar.
– Mas você queria que fosse. Haha! – Riu ele.
– Cale a boca, seu pavão estupido!
Uma das imagens flutuantes parou em frente à Sophia, sua mãe e um homem afro-americano, alto e bonito conversando em um quarto de hotel. Ambos diziam se amar e começaram a se beijar.
– Você possui o sangue dos faraós, Sophia. – Disse Klonos, calmo. – Assim como seu pai e sua tia.
– Eu não sei o que é isso! – Gritou ela. – E nem quero saber.
– Você é simplesmente a garota mais forte do mundo. Existe o poder de dois grandes impérios dentro de você. Grego e egípcio. Você possui os poderes da rainha dos deuses gregos e a magia da Casa da Vida.
Um símbolo aparecera em frente à Sophia, um que ela já vira nos livros de história. Per Akhn, um símbolo usado pelos antigos egípcios. O símbolo Akhn, que significa Vida, coberto por um retângulo, como uma caixa. O Per Akhn se dissolveu em fumaça e então uma figura parecida com o desenho feminino dos banheiros de estabelecimentos comerciais apareceu no lugar do símbolo da Casa da Vida, ao seu lado um olho que parecia usar maquiagem em estilo egípcio.

– Esses são os símbolos de dois grandes deuses egípcios. O Tyet, símbolo de Ísis, deusa da magia e o Olho de Hórus, deus dos céus e da guerra. – Informou Klonos. – Anos atrás, seu pai foi o hospedeiro de Hórus, sua tia foi a de Ísis, assim, além do sangue dos faraós, eles possuíam o poder e aconselhamento dos deuses. Eram as crianças mais poderosas já vistas, até você nascer.
– Eu já mandei calar a boca! – Sophia não estava mais pensando em suas ações.
Jogou a adaga enfeitiçada na direção de Klonos com toda a sua força, como se fosse um dardo e o pavão fosse o alvo, não deu tempo ao menos dela se arrepender quando viu David em frente a Klonos, imóvel, como se estivesse em transe. A adaga parou no ar, a ponta quase perfurara o crânio de seu amado.
– NÃO! – Ela gritou.
David sumiu outra vez e Klonos apenas ria com sua voz de pavão.
– Essa foi digna de um filho de Hermes, não acha? – Falou ele. – Hahaha!
– Nada engraçado, seu idiota!
A adaga voou levemente de volta a Sophia e o cabo pousou em suas mãos tremulas.
– Você parece tensa, criança. – Falou ele com tom de sarcasmo. – Aceita uma massagem?
– Vai se ferrar! – Respondeu ela.
– Opa, calma, calma. – Ele levantou suas asas em posição de defesa.
Agora não estavam mais no corredor de imagens voadoras, estavam em um grande salão com tronos gigantes rodeando o mesmo. Pessoas gigantes estavam sentadas nos tronos e discutiam. Sophia reconheceu Zeus sentado no trono do meio. Eles falavam sobre Klonos, que não voltara desde o episódio do cassino Lótus.
– Estamos no Olimpo? – Indagou Sophia.
– Não exatamente, ainda estamos no Duat, – Respondeu Klonos. – um tipo de realidade paralela criada pelos egípcios.
– Então você é um monstro egípcio?
– Ah, não. – Negou ele balançando a cabeça de pavão. – Eu sou um deus grego, porém me aperfeiçoei bastante na cultura egípcia, eu previ que teríamos essa... Discussão, mais cedo ou mais tarde. Eu sou a mistura de duas religiões, assim como você... EU SOU KLONOS!
– Mas eu não sei nada sobre magia egípcia! – Disse ela. Parecia confusa. – Eu mal domino os poderes de Hera.
O cenário do Olimpo sumiu. Agora os dois estavam em um espaço totalmente escuro, não importava para onde Sophia olhava... Tudo era um breu.
– Eu não podia arriscar, não é? – Perguntou ele. – Um dia, talvez não muito distante você entenderá os caminhos dos deuses, terá de escolher um para seguir.
– Klonos... Eu já disse que não quero saber disso. – Respondeu ela. – Tudo que eu quero agora é matar você!
Sophia pôs tanta vontade em suas palavras que a barreira invisível que separava ela e Klonos se quebrou e se despedaçou como se fosse vidro. Sophia avançou outra vez com a adaga apontada para a garganta de Klonos. Ela fechou os olhos e sentiu sangue espirrar em seu rosto, soltou a adaga e ouviu o barulho de algo colidindo com o piso. Uma incrível ânsia de vômito percorreu seu estomago e quando ela teve a coragem de abrir os olhos, Klonos estava intacto.
Sophia não conseguia olhar para baixo, não queria saber o que havia acertado com a adaga, mas ela desperdiçara a única chance de derrotar Klonos. Com o que? Pensou ela. Com o que eu desperdicei minha adaga? Sophia abriu os olhos lentamente, só deu tempo de Klonos abrir as asas e o vento que saiu delas jogou Sophia para longe. Aos pés de pássaro de Klonos, estava o corpo de David. Sangue jorrava de seu peito, a adaga sumira como Meg dissera que iria acontecer. Apenas grãos de areia estavam próximos ao corpo de David que tremia e piscava com uma luz amarela. A visão de Sophia escureceu. Seus olhos estavam cheios d’água, ela queria gritar, mas a voz não saía. Queria correr, mas suas pernas não se moviam. Queria matar Klonos, mas perdera sua arma.
Sophia caiu desmaiada no piso escuro. Ao acordar, estava ao lado de Carter Kane, seu pai. Carter à ajudou a levantar com cuidado.
– Onde está Klonos?! – Perguntou ela fazendo um grande esforço. – Preciso mata-lo!
– Mata-lo como? – Perguntou Carter. – Com a arma que você não tem mais?
– Ele... Ele me fez acertar o David... – Falou ela quase caindo ao chão novamente.
– Eu sinto muito, minha filha... – Falou Carter fechando os olhos em sinal de respeito.
– Eu tenho que vinga-lo... – Disse ela com tristeza. – Eu preciso mandar Klonos para as profundezas do Tártaro.
– Você precisa escolher qual caminho divino vai seguir, Sophia.
– Caminho? – Perguntou ela.
– Você precisa encontrar sua tia e treinar magia com ela no Vigésimo Primeiro Nomo da Casa da Vida.
– Meu namorado morreu e é nisso que você está pensando?!
– Me desculpe... – Disse ele. – Eu sei como é perder quem você ama, Zia Rashid, meu primeiro amor se foi. Eu sei que David era importante para você, mas você precisa seguir adiante.
Um homem com cabeça de falcão, vestindo uma armadura de couro e segurando uma lâmina curva em suas mãos apareceu diante de Carter e Sophia.
– Olá, Hórus. – Disse Carter. – Há quanto tempo, não é?
– Olá, meu velho amigo. – Respondeu o deus com uma voz grossa.
Hórus olhou diretamente nos olhos de Sophia, seus olhos hipnotizaram a menina, um prateado brilhante e o outro dourado.
– Não que eu goste de ter uma criança nascida de duas religiões diferentes, – falou Hórus. – mas é a primeira vez que isso acontece desde o começo dos tempos. A junção de dois grandes impérios dos tempos antigos em uma única criança.
– Calma. Calma senhores. – pediu Sophia. – É muita coisa para eu assimilar de uma vez só.
– Você precisa focar em sua missão, – respondeu Carter. – eu entendo.
– Antes de tudo... – falou ela. – DAVID MORREU MESMO?!
– Sinto muito, minha filha... – disse Carter. – O ritual usado pelas crianças do seu acampamento é algo muito sério, não existem exceções. A arma enfeitiçada mata qualquer coisa que tocar a lâmina.
Sophia respirou fundo. Aquilo abalou toda a sua estrutura, mas seu segundo amor morrera alguns dias antes. Sophia aprendeu a controlar suas próprias emoções após a morte de Nico. Sua prioridade era terminar a missão.
– Eu escolho o caminho de Hórus. – Disse ela com firmeza.
Hórus e Carter se entreolharam parecendo confusos.
– O que? – Disseram em uníssono.
– Eu quero seguir o caminho de Hórus. – disse ela. – Procurarei por minha tia, Sadie, e treinarei magia egípcia.
– Você não sabe o quanto me alegra ouvir isso, minha filha. – Disse Carter com os olhos brilhando de orgulho. – Sophia... Tudo que você precisa para derrotar Klonos é saber o seu nome secreto.
– Nome secreto? – Perguntou ela. – O que é isso, pai?
– O nome secreto de qualquer coisa lhe permite ter total controle sobre ela, mas só essa pessoa pode dizê-lo a você. Pense Sophia... – A voz foi morrendo aos poucos.
A imagem desapareceu. Carter e Hórus haviam sumido. Sophia abriu os olhos como se não tivessem passado mais de 5 segundos, Klonos ainda estava no mesmo local e David caído aos seus pés. Sophia resolveu não olhar para o corpo de seu namorado, apenas sentiu todos os seus poderes passando pelo seu corpo. Cinco mil anos de magia egípcia, três mil anos de poderes gregos.
Quer uma ajudinha? A voz do deus egípcio dos céus falou na mente de Sophia. Hórus? Onde você está? Perguntou ela mentalmente. Considere-me... Hospedado dentro do seu corpo. Apenas uma pequena ajuda durante sua batalha. O corpo de Sophia começou a brilhar com uma luz verde, logo ela estava coberta por um grande guerreiro com cabeça de falcão, vestido como Hórus. Quando descobrir o nome secreto de Klonos, lembre-se de recitar as seguintes palavras: “Eu te nomeio”, são necessárias para que você tenha domínio sobre ele. Sophia movimentou a cabeça positivamente, sorrindo com uma expressão que mostrava o quanto estava se divertindo com aquela missão, e avançou para cima de Klonos que olhava para ela boquiaberto e com os olhos arregalados.
– C- c- Como assim?! – Gaguejou ele.
Sophia moveu o braço na direção de Klonos e o avatar de combate imitou o movimento. A mão de Sophia se fechou e ela imaginou que estivesse se fechando ao redor de Klonos e o guerreiro verde segurou Klonos e apertou com tanta força que qualquer pessoa ou animal normal teria sido esmagado facilmente. Mas Klonos apenas se transformou em fumaça negra e voou, tomara agora a forma de um grande corvo de olhos vermelhos sobrevoando a cabeça do guerreiro falcão. Sophia tentou acertar o corvo movendo as mãos do avatar de combate, mas foi em vão. Klonos era muito rápido e o avatar não era nenhum sinônimo de velocidade.
Foi então que algo passou pela mente de Sophia. Seu pai havia lhe dito que apenas Klonos poderia dizer-lhe seu nome secreto... E se o que ele disse mais cedo for seu nome secreto? Pensou ela. O que? Do que está falando? Perguntou Hórus em sua mente. Espere e verá, meu amigo... Espere e verá.
Sophia moveu seu braço com toda a força na tentativa de aumentar a velocidade, o que funcionou. Ela não era exatamente uma filha de Atena, mas sabia que quanto maior a potência aplicada no soco, mas rápido ele seria e quanto mais rápido, mais forte. O punho do guerreiro falcão acertou em cheio o peito do corvo e o olho de Hórus queimou em cima da mão do guerreiro falcão. O corvo colidiu sabe lá com o que já que tudo não passava de uma grande escuridão. O avatar de combate pegou o Corvo com a mão amassando-o outra vez.
– EU TE NOMEIO, KLONOS! – Gritou Sophia.
Imediatamente o corvo começou a mudar de forma sem parar, desde Bianca di Angelo, irmã de Nico, até Hera, mãe de Sophia. Na forma da deusa do casamento, o deus começou a se contorcer.
– Como você descobriu?! – Gritou ele com uma voz chiada.
– Você me pareceu muito orgulhoso falando o próprio nome, meu querido. – Respondeu Sophia ironicamente. – Me disseram que só você poderia me dizer o seu nome secreto, assumi que seu próprio nome seria seu nome secreto quando o disse com tanto orgulho em sua voz. Eu sou uma pessoa bem detalhista.
– Você não passa de uma vadiazinha imprestável!
– Eu só precisava prestar o bastante para te derrotar. – Disse Sophia.
O avatar de combate foi sumindo aos poucos e então só estava ela e Klonos na forma de sua mãe.
– Quer mesmo fazer isso, Sophia? – Falou Klonos se levantando, sua voz mudando aos poucos para a voz de Hera. – Quer mesmo mandar sua mãe para as profundezas do Tártaro?
– Infelizmente terei de fazer esse pequeno sacrifício. – Falou Sophia com frieza em sua voz. – Eu te exilo, Klonos! Eu te exilo ao buraco mais profundo do Duat!
Quando Sophia disse isso o corpo de sua mãe se dissolveu em fumaça preta e sumiu deixando apenas o eco de um grito abafado.
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