O guisado maravilhoso
1 Capítulo 1
Com dificuldade, subi a colina enlameada. Havia uma estrada de chão, aberta no meio da campina amarela e do matagal, mas fazia tempo que nada com rodas passava por ali e por isso, o terreno aos poucos ganhava um ar selvagem e acidental. Galhos retorcidos e tocas de coelhos; flores e arbustos campestres davam à paisagem um tom mais rústico do que se podia ver lá embaixo, onde a cidadezinha se amontoava num número reduzido de casebres de adobe, cortadas por trilhas de terra vermelha que desaguavam em campos abertos, circundados por uma estrada secundária pouco utilizada.
Aquilo era estar no meio do nada, sob um sol filisteu de verão que piscava como uma mancha amarela no céu limpo quase sem nuvens, mais cansado e dolorido do que me lembrava ter estado antes. Aos poucos me aproximava do casarão de madeira que em pelo menos um terço da vida tanto odiei. Se pudesse partir, fugiria daquela casa de horror tropeçando colina abaixo, só parando esfolado no rio que corria a dois quilômetros daquele vilarejo pitoresco e avermelhado. Mas não podia. Estava envolvido naquele drama profundo e tenebroso.Quando a subida terminou, me vi no cume da planície sobre uma elevação plana de campo aberto. O casarão erguia-se imponente, produzindo sombras largas de três ou quatro andares no melhor estilo vitoriano, irrompendo como uma garra dos fundos da propriedade, onde galinhas ciscavam entre as ervas daninhas.O quintal tinha uma forma circular quase perfeita. Quando criança, costumava brincar por ali, montando numa vassoura que fingia ser meu cavalo. A visão dos lençóis estendidos sob o varal, movimentando-se suavemente ao sopro da brisa leve fez-me lembrar de mamãe, quando anos atrás, ainda trabalhava naquele mesmo descampado. Na época, ela era apenas uma empregada da mansão.Havia uma pilha de lenha não cortada, colocadas sem zelo sob uma lona preta de frente para o chiqueiro de porcos, onde o machado — provavelmente para abater suínos — estava jogado de qualquer maneira ainda brilhando o sangue do último abate.Engoli em seco e senti um arrepio frio tomar conta da espinha e por muito pouco não desisti daquela ideia de seguir em frente. Mas não... Não podia desistir.Atravessei o quintal e bati na porta do casarão.Ninguém atendeu. Tremia e talvez não tivesse batido com força suficiente. Fiz uma nova tentativa e alguns minutos depois, a porta se abriu.O homem parado no umbral era alto, tinha cabelos marrons luminosos, curtos e olhos profundos e cinzentos que me observavam de cima para baixo — e de baixo para cima — com interesse analítico. Vestia um terno elegante, todo coordenado em preto, verde e ouro.- Que bom que você finalmente decidiu aparecer. — ele disse.Lembro-me não ter respondido de imediato. Apenas enfiei as mãos no bolso do jeans e tirei de lá um papel amassado. Entreguei o papel ao homem.- Sim... — disse o homem pegando o papel e amassando-o sem ler. — Te chamei para tratarmos de negócios. Você, como filho da sua mãe têm alguns direitos...O homem fez sinal para que eu pudesse segui-lo para dentro de casa. Relutante e assustado, obedeci.O interior do casarão era tão sombrio quanto o lado de fora. Continuava tão inumano como sempre fora, desde a última vez que eu estive ali, e isso já fazia muitos anos.Todas as janelas estavam fechadas e o ar abafado era sufocante. A única fonte de luz vinha do fogo crepitando na lareira e sombras dançavam horripilantes na penumbra. Segui o homem e me sentei no sofá conforme o anfitrião indicou.- Como eu estava dizendo, você como filho de sua mãe tem direitos, agora que ela morreu.Posso me lembrar que o homem dissera aquelas palavras com certo quê de prazer sádico.- Gostaria de ter me despedido dela. — eu disse.- Sei que gostaria. Mas não podíamos esperar você voltar de viajem não é? Precisávamos enterrá-la.- Porque não fizeram no cemitério da cidade? Falei com o padre e...- Todos os membros da família foram enterrados na colina. — A voz do homem era natural e calma. Eu não gostava disso.- Ela não era da família.- Se tornou quando aceitou meu pedido de casamento, e você também seria parte desse clã caso não tivesse escolhido ir embora, viver com o fracassado...- Não ouse falar do meu pai...Agora eu estava de pé e gritava. Todo o medo e pavor que sentia daquele homem, que casara com minha mãe e destruíra o que antes eu chamava de família, se fora num sopro de brisa. Estava vermelho e as têmporas latejavam. Apertava os nós dos dedos com tanta força que estavam brancos. Mas a expressão fria e sonhadora do homem não se alterou e ainda mais calmo, se era possível, falou:- Sinto muito. — mas não parecia sentir — Quero dizer... Embora você nunca aceite, sua mãe teve uma vida feliz e relativamente longa ao meu lado. Infelizmente a Chaga tem sido cruel...As chagas. Claro, as chagas. Sempre ela. A doença que responde a perguntas indigestas, sejam por não ter respostas ou por verdades inconvenientes. Eu não acreditava, e ainda não acredito, em nem um pingo daquela baboseira.- Podemos ir direto ao ponto?- Claro... Er... Sua mãe era uma mulher esperta e muitas das suas aplicações financeiras fizeram dinheiro. Obviamente, parte desse dinheiro pertence a você...- E a outra parte? — Perguntei, mas sabia a resposta.
- Como deve saber, pertencem a mim.- Fique com ela.- Pensei que fosse dizer isso.- Não quero esse dinheiro.- Precisa assinar alguns papéis.- Assinarei.- Ótimo.Naquele momento eu já estava pronto para ir embora. Não queria ficar mais um minuto naquela maldita casa e nem na companhia do ex-marido de minha mãe falecida. Mas algo despertou em minha mente; uma coisa que estava gritando sufocada, implorando para sair.- Sabe o que eu acho?O homem levantou as sobrancelhas surpreso e sinceramente curioso.- Adoraria saber.- Que o senhor matou minha mãe.Toda a calma na face do homem desapareceu. Quase como em câmera lenta, o semblante frio e tranquilo foi sendo substituído por uma expressão furiosa. Quando percebi, o homem já estava de pé, segurando-me pelo colarinho e sacudindo-me freneticamente.- O que você disse, moleque?! O que você disse?!Gritava cuspindo rios de saliva em meu rosto. Não conseguia pensar em nada para dizer. Tocara no ponto fraco do tigre e agora os dentes arreganhados da fera me deixavam paralisado de medo.- Eu nunca mataria sua mãe, entendeu? Eu amava aquela mulher mais do que minha própria vida...Lágrimas peroladas escorriam pela face pálida do homem. Quando enfim largou-me, cai tonto sobre o sofá, ainda branco de pavor e tremendo.O homem suava a cântaros enquanto respirava com dificuldade.- Não sou o monstro que você e seus colegas da cidade pensam.Não respondi.- Nunca faria mal a sua mãe porque amei aquela mulher desde o primeiro minuto que coloquei meus olhos nela. Jamais fiz ou faria mal à uma mosca. Sabe o hospital da cidade? Fui eu quem dei dinheiro para concluírem a reforma; fui eu quem financiei o ginásio esportivo da escola; fui eu quem saldei as dívidas da prefeitura; e fui eu quem durante a seca da década passada trouxe caminhões de água para salvar a plantação. Não faço mal às pessoas, André. Nem a sua mãe, nem a ninguém, entendeu?Confirmei com a cabeça, ainda sem responder. Não sabia se acreditava ou não naquele homem, mas agora, pelo menos, lhe parecia surgir traços mais humanos e menos vampirescos.- Você parece estar com fome. — disse — Vai comer comigo hoje. Sei que lá embaixo da colina costumam jantar ao escurecer, mas lhe prometo uma comida leve.Então minha voz finalmente retornou.- Não... — disse procurando manter um tom calmo e educado. — É melhor não.- Eu insisto. Depois você pode assinar os malditos papéis e prometo que nunca mais nos falaremos de novo.- Realmente acho não ser uma boa ideia.- Ora, vamos, por favor. Sua mãe não teve o prazer de nos ver agindo como dois seres humanos enquanto viva. Faça por ela, como um último tributo a sua memória.O tom de voz do homem voltou a tranquilidade educada habitual. E seu pedido soara tão doce que parecia estupidez recusá-lo. Alguma coisa pulsava desesperada em meu coração, gritando em estado de alerta, disparando mensagens para os pés agirem e darem o fora daquele casarão, mas eu os ignorei.Por minha pobre e falecida mãe...- Tudo bem. — disse. — Comeremos juntos.O homem respondeu com um sorriso amistoso e os dois foram para a cozinha nos fundos. Era infinitamente mais agradável do que a escura sala de estar. Não havia fogo na lareira, mas uma agradável luz de tarde que adentrava pelas portas e janelas abertas, iluminando ácaros de poeira flutuantes.Odiava aquele homem mais do que qualquer outra coisa naquele mundo, mas mesmo assim comportei-me com toda a educação que mamãe me dera enquanto com ela vivi.Sentei-me no lado extremo da mesa, e fui servido por uma mulher tão gorda que, até então, não sabia que algumas pessoas podiam chegar naquele estado. A velha gorducha me fitava com um olhar choroso, de pena. Talvez fosse amiga de minha mãe quando ela ainda era empregada naquela casa.Nos próximos instantes, foi-me servido num prato fundo, o guisado de carne mais gostoso que eu já comera em toda a vida. Nem mesmo o ódio que sentia pelo homem, fitando-o do outro lado da mesa, abafaria sua expressão de deleite quando mastigava aquela carne docemente afogada num maravilhoso molho amarelo.- O que achou? — O homem perguntou. — O que achou do guisado?- Está ótimo, senhor. — Respondi.- Parece porco, não parece?Confirmei acenando a cabeça.- Não é porco. — ele sorria — É uma carne muito especial.- Está muito bom. — repeti.- Ótimo, fico feliz que esteja gostando tanto quanto eu.O sorriso que me dera pareceu o mais sincero daquela tarde. E quando deixei aquela casa, atravessando o quintal pronto para descer a colina, passe mais uma vez pelo chiqueiro de porcos, pela lenha e pelo machado ensaguentado. Não sabia porque, mas associei a figura do machado ao guisado maravilhoso que acabara de comer.Hoje, vinte e cinco anos depois, tenho uma estranha e perturbadora ideia daquela associação.
Notas finais
Se você leu este conto ( e agradeço por dispor do seu tempo) comente dizendo o que achou. Tem alguma crítica? Em que pontos acha que posso melhorar? Agora, se você desistiu já nas primeiras linhas, não deixe de dizer porque desde cedo pensou ser essa leitura uma total perca de tempo. Comente.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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