Estava frio.

O Auror sentiu a humidade da manhã que se iniciava envolver o seu corpo e preenche-lo com um calafrio ameaçador. Não gostava daquele lugar e de todas as lembranças que ele trazia.

Varinha em riste. Lumus. Embora o sol começasse a despontar lá fora, as cortinas vermelhas e pesadas não permitiam a entrada da luz, nada ali era claro, tudo o remetia a trevas.

Com cautela subiu a escadaria, se a denúncia que recebera horas antes estivesse correta, ele estaria no andar de cima, provavelmente. Ao chegar no corredor, sentiu um cheiro forte que enjoou o seu estômago de imediato e não precisou dar mais dois passos para identificar a presença de um corpo jogado ao chão.

Ele aproximou-se e constatou que a morte já havia se instalado ali. Ajoelhou-se próximo ao cadáver e percebeu que o rosto estava desconfigurado, mas, no braço esquerdo, uma marca lhe chamou a atenção, era sombria e denunciava a condição daquele bruxo, tratava-se de um Comensal da Morte.

Ele passou a varinha sobre o corpo para fazer a identificação, embora já soubesse de quem se tratava. Após a guerra, apenas um comensal sobreviveu e vivia enclausurado naquela mansão sem estabelecer contato com ninguém, Draco Malfoy.

Sentiu a sua cicatriz doer. Assustou-se. Após a morte de Voldemort, pensou que ele jamais sentiria aquela dor novamente...

O Guardião

Batidas fortes na porta assustaram Hermione que fumava compulsivamente enquanto lia um artigo de jornal antigo, do tempo da guerra, do tempo em que achava que algo em sua vida fazia sentido.

—Hermione, por favor, abra a porta! – A voz inconfundível de Harry Potter denunciava a ansiedade que ele sentia.

—O que você quer? – Ela perguntou rispidamente. Há meses os dois não se falavam.

—Apenas abra essa maldita porta! Precisamos conversar! Acredite, eu não estaria aqui se não fosse sério. – Harry estava nervoso e sem paciência.

Um pouco hesitante, ela retirou o feitiço que impedia qualquer bruxo de entrar em sua casa. No instante seguinte, Harry aparatou na sala e assustou-se com a cena que viu. Os sofás estavam repletos de papéis, recortes de jornais espalhados pelo chão e, na parede, um labirinto de fotografias ligadas por um fio vermelho, todas levavam à uma imagem central, nela um rosto conhecido, Malfoy.

—O que você quer? – Hermione repetiu a pergunta. Queria livrar-se dele o mais rápido possível.

—Ele está morto. – Respondeu Potter aproximando-se da parede coberta de fotografias. Colocou a ponta do dedo indicador sobre a imagem de Draco. – Assassinado. – Disse friamente. – Mas acredito que isso não seja novidade para você.

Hermione empalideceu. Sentiu a garganta secar. O ar lhe faltou por frações de segundos.

—Me dê a sua varinha, Hermione. – Ele ordenou.

Ela o encarou. Seu olhar era enigmático. Harry, ainda que não quisesse estar com Hermione, não poderia sair dali sem confiscar a varinha dela. Precisava saber qual havia sido o último feitiço conjurado.

Hermione estendeu a varinha sem proferir uma palavra sequer. Enquanto Potter verificava o objeto, pensava em como as coisas haviam mudado após a guerra, em como ele, Rony e Hermione haviam se distanciado um do outro. Dos três, ele havia sido o único a persistir no sonho de se tornar um Auror, enquanto Rony havia decidido ir trabalhar com Jorge no Beco Diagonal e Hermione tornou-se obcecada por estudar Voldemort e os Comensais da Morte.

A jovem parada ali, à sua frente, não se parecia em nada com a amiga de anos atrás. Estava pálida, as roupas velhas e o cabelo sem cuidados denunciavam o quanto ela não se importava mais com a aparência. A olheiras revelavam as noites sem dormir e a garrafa de firewhisky sobre a mesa ao lado de um cinzeiro evidenciava o quanto os hábitos dela haviam mudado.

—Faça o que veio fazer. – Ela estendeu os braços.

—Hermione... – Ele hesitou. Não queria acreditar no que o último feitiço da varinha dela lhe indicava. – Hermione...

—Faça! – Ela gritou.

—Por favor, se defenda. – Ele pediu. – Diga que alguém a sabotou! Diga que esta varinha não é sua! – Harry aproximou-se dela. – Diga que não o matou... eu preciso acreditar que, por mais que você tenha mudado, jamais se tornaria uma assassina.

—Nada que eu lhe diga fará a diferença. Nunca fez. Você só se importa consigo mesmo. – Ela aproximou-se dele. – Harry. Potter. O escolhido. O salvador. Aquele que destruiu Voldemort. – Ela o olhou. Lembrou-se do tempo em que arriscou a própria vida para defende-lo. Lembrou-se do tempo que o seguiria para as trevas caso ele pedisse. – Como eu fui ingênua. Como eu não percebi quem você realmente era? Como eu pude acreditar na história do garoto que queria ser “somente Harry” – Ela fez sinal de aspas com o dedo. – Você nunca foi meu amigo. Você só queria provar que era tão poderoso quanto Voldemort. Você destruiu a minha vida e a de Rony também.

Potter respirou fundo, precisava ser superior a tudo aquilo.

—Cale a boca Hermione! Não seja ridícula! Não me culpe pelos seus próprios atos.

Ela soltou um riso nervoso.

—Você me seduziu, Harry Potter.

—Você quis tanto quanto eu, Hermione.

—Sim. Eu quis. – Ela o olhou com nojo. – Mas você sabia que ele chegaria, sabia que ele nos veria. – Você me usou para mostrar a ele quem era realmente o melhor. – Tenho nojo de você. Tenho nojo de mim. Tenho pena de Rony.

—Cale a boca. A situação em que se encontra não lhe favorece em nada. Se estou aqui é porque ainda valorizo todo o seu apoio quando saí em busca das Horcruxes.

—APOIO? – Ela gritou. – Se não fosse por mim você nem saberia como destruí-las. Se não fosse por mim, teria morrido na primeira tentativa em encontra-las. Convenhamos Harry Potter, você não passa de um bruxo mediano que sempre teve pessoas à sua volta para fazer o que nunca teve competência para executar.

—Hermione...

—Eu te odeio. — Ela o interrompeu. – Não suporto ouvir o seu nome. Não suporto ouvir as mentiras que bruxos e bruxas acreditam a seu respeito. Você é uma farsa!

Hermione mal terminou de falar e já sentiu em seu rosto um forte tapa que a jogou ao chão. Harry a olhou com desdém.

—Comigo você poderia ter tido tudo. – Ele falou. — Galeões, fama e glória. Ao meu lado você poderia ter sido a mulher mais poderosa do mundo bruxo, mas preferiu essa vida ridícula de pesquisas sobre Voldemort e seus comensais.

Hermione tentou mover-se, mas sentiu o pé dele sobre o seu corpo.

—Sabia que Rony e eu continuamos amigos? Que percebemos que a grande vadia da história foi você! – Harry Potter riu sarcástico. – E, para falar a verdade, sexo com você, nem foi tão bom assim. – Ele retirou o pé que a prensava contra o chão. – Levante-se. – Ordenou.

Ela levantou-se sem nenhum sinal de emoção. Nada que vinha de Harry Potter a afetava.

—Hermione Jane Granger. Em nome do Ministério da Magia, está presa sob a acusação de assassinato do bruxo Draco Black Malfoy ocorrido na madrugada de hoje na mansão onde a vítima morava.

Ela sentiu os braços serem envolvidos por um feitiço de trancamento. Não conseguia os separar.

—Sua varinha será confiscada como prova do crime. Você tem direito a um guardião de defesa em seu julgamento que ocorrerá após ser submetida a um interrogatório no próprio Ministério da Magia.

Ela percebeu o prazer que ele tinha em lhe prender, afinal, sua presença o lembrava dos seus fantasmas, das suas fraquezas e livrar-se dela seria mais um passo para ele ser quem realmente queria. Sem máscara.

Hermione ainda vislumbrou o seu labirinto de fotografias pela última vez, estava a um passo da sua condenação, mas diria a verdade, acima de tudo.

***

Ao ser jogada na cela como uma criminosa, Hermione sentiu vontade de gritar, mas quem a ouviria? Não tinha mais amigos, não tinha mais história, sentia-se vazia, sua vida até ali havia sido uma farsa, um castelo frágil que uma leve brisa ruiu.

Sentada ao chão, ela encostou-se em uma parede abraçada às próprias pernas. Lembrou-se de como tudo aquilo começara na noite em que Rony descobriu que ela o traia com Harry. Lembrou-se do olhar raivoso dele e de como Potter se sentiu satisfeito com toda aquela situação, de como ele a exibiu durante alguns meses. Um troféu em festas e eventos, uma namorada de luxo, um brinquedinho, descartável. Harry Potter e Hermione Granger. Um casal adorável e popular.

Passos apressados invadiram o imenso corredor de celas. Delas se podia ouvir pedidos por clemência e gemidos. Alguns reclamavam de fome, outros diziam palavras indecifráveis como um mantra de súplica por paz e liberdade. Em cada cela, um bruxo fazia a guarda do local.

—Hermione, sou eu, Neville. – Ele olhou para a amiga com carinho. – Estou aqui para te ajudar. Serei seu Guardião de Defesa.

—Não precisa. – Ela mal conseguia responder, aquele local escuro e úmido lhe tirava as forças.

—Você não está em condições de se defender sozinha. – Pelas grades, ele estendeu a mão. – Você sabe que comigo pode contar. Sempre.

Hermione olhou para ele e fez sinal afirmativo com a cabeça. Ela levantou-se e retribuiu o gesto do amigo. Aquele toque de mãos deu-lhe forças para prosseguir, deu-lhe forças para tentar provar a sua inocência.

—Eu vou estar com você durante todo o interrogatório e, quando necessário vou interferir. Não deixarei que eles a façam confessar algo que não fez.

—Como você tem tanta certeza disso, Neville? Para aceitar a sua ajuda, eu preciso saber.

—Hermione, você sempre acreditou em mim, sempre me ajudou. Sou grato por tudo o que fez, por seus sacrifícios, por sua sobriedade e inteligência. Deixe-me ajuda-la, eu peço.

Neville fez sinal para o guarda e ele abriu a cela em que ela se encontrava.

—Aqui não é lugar para você! Já providenciei um local mais adequado. – Ele disse seguro. – Prepare-se, eles vão querer saber tudo sobre a sua entrevista com Draco Malfoy. Tudo.

Enquanto os dois se dirigiam à sala de interrogatório, Hermione lembrou-se de como chegou até ele após meses de insistência. Ser jornalista não era a vida que havia almejado, afinal, poderia ter sido o que quisesse, desde auror, professora em Hogwarts, até mesmo Ministra da Magia, mas, uma pergunta lhe afligia, uma pergunta não a deixava em paz e, para encontrar a resposta que queria, havia aceitado todas as imposições do único que poderia satisfazer o seu desejo pela verdade, Draco Malfoy.

Ao entrar no lugar, Hermione percebeu que Harry Potter e Luna Lovegood a esperavam. Enfim, talvez tivesse alguma chance, embora não fossem mais próximas, Hermione acreditava na capacidade de julgamento da antiga amiga.

—Hermione Jane Granger, você sabe o motivo que a trouxe aqui?

—Sim. – Ela respondeu.

—Sente-se, por favor. Vou lhe fazer algumas perguntas para depois decidir se você vai ser julgada ou não pelo crime que foi acusada de cometer.

—É óbvio que ela é culpada. – Interrompeu Harry Potter nervoso.

—Mais uma intromissão e você será convidado a se retirar desta sala senhor Potter. – Advertiu Luna. – Sua presença aqui foi aceita apenas sob uma condição, ficar calado.

Hermione não segurou o sorriso sarcástico, o que irritou ainda mais Harry.

—Senhorita Granger, como aconteceu o seu primeiro contato com Draco Malfoy?

—Como é de conhecimento de todos, sou jornalista e, desde que me formei em Hogwarts, trabalho no Profeta. Ao entrevistar uma historiadora ela me chamou a atenção para algumas peças que não se encaixavam na história de Voldemort, além de especular que ele poderia ter deixado, propositalmente, memórias com seus comensais.

—Explique melhor. – Solicitou Luna.

—Segundo esta historiadora, para garantir que as trevas permanecessem, mesmo com a sua morte, Voldemort confiou aos seus comensais, memórias importantes de sua vida e de como poderiam traze-lo de volta ao mundo bruxo.

—E você acreditou nesta história? – Perguntou Luna com a sobrancelha arqueada. – Você não é o tipo de bruxa que acredita em tudo o que lhe dizem, não é?

—Não acreditei de imediato, mas me lembrei de como uma história para crianças bruxas dormirem fez toda a diferença para derrotar Voldemort.

Harry respirou fundo. Se não fosse a explicação do pai de Luna sobre as Relíquias da Morte, talvez não conseguissem perceber os verdadeiros planos de Voldemort.

—Faz sentido... – Luna divagou pensativa. – Prossiga. – Ordenou.

—Foi assim que tudo começou. Foi assim que comecei a estudar Voldemort e os Comensais da Morte mais profundamente. – Hermione mordeu os lábios. – Foi assim que percebi que o único que poderia me confirmar a veracidade da história era Draco Malfoy, o único Comensal da Morte ainda vivo.

—Quando foi isso?

—Há um ano.

—E por que eu não li essa reportagem tão interessante no jornal?

—Porque decidi escrever um livro a respeito e, por isso, precisava pesquisar mais.

—Como você conseguiu estabelecer contato com Draco Malfoy?

—Na verdade, foi ele quem me contatou por meio de uma coruja. Ela me trouxe uma carta escrita por Malfoy dizendo que havia tomado conhecimento da minha pesquisa e que estava disposto a conversar comigo, caso eu aceitasse as suas condições.

—Quais condições?

Hermione olhou para Neville insegura, talvez fosse melhor parar, aquela lembrança lhe causava angústia. Ele fez sinal para ela prosseguir.

—Primeiro: ele me receberia em sua mansão, mas eu não deveria contar a ninguém sobre a minha ida até lá. Segundo: eu teria que passar 7 dias com ele para que pudesse compreender a história completa. Terceiro: nada de magia, minha varinha ficaria guardada em segurança no período que estivesse lá. Quarto: uma carruagem me levaria até ele.

Ela sentiu suas mãos suarem. As lembranças do primeiro momento junto a Malfoy invadiram os seus pensamentos.

A carruagem que a levaria ao seu destino era sombria, como tudo ligado à vida de Malfoy. Durante o percurso, ela pensou no que havia acontecido em sua vida após a guerra, em como a morte havia se aproximado dela em diversos momentos e, justamente por isso, conseguia enxergar os Trestálios que a guiavam a um encontro que a amedrontava, mas, ao mesmo tempo, ansiava desde que começou a estudar exaustivamente Voldemort e seus Comensais da Morte.

Ao descer da carruagem percebeu que ele a esperava. Vestia preto, como sempre, mas algo estava diferente, a palidez havia desaparecido e, como ela, Malfoy também havia envelhecido.

—Seja bem-vinda Senhorita Granger! – Ele a recebeu com um sorriso que ela não soube lidar muito bem naquele momento.

—Obrigada. – Respondeu um pouco tímida.

Ele aproximou-se dela e lhe estendeu a mão.

—Vai ser bom ter algum movimento por aqui, enfim.

Ela sorriu. Sentiu-se bem como a muito tempo não se sentia.

—Hermione... Hermione... – Luna estalou os dedos. – Ouviu a minha pergunta? Sete dias é bastante tempo. O que ele tinha tanto para lhe contar.

—Na verdade... – Ela suspirou. – Na verdade, não conversamos sobre isso o tempo todo. Na verdade, eu descobri que Draco Malfoy havia mudado muito após a guerra, era uma pessoa mais madura e estava se esforçando para não repetir os erros do passado.

Neville tocou as mãos da amiga em um sinal para conter informações como aquela. Harry Potter percebeu.

—Você está me dizendo que Draco Malfoy utilizou a sua pesquisa como desculpa para se aproximar de você, isso? – Luna estava realmente interessada.

—Não. – Hermione respondeu séria. – Estou dizendo que ele realmente mudou depois da guerra. Ele nunca foi uma boa pessoa comigo. Sempre me ofendeu. Sempre deixou claro que para ele eu não significava nada. Sangue Ruim. – Ela levantou o pulso ainda marcado pela tortura que havia sofrida da tia dele, Belatrix Lestrange.

—Sua marca de Comensal da Morte lhe provoca dor? – Hermione perguntou.

—Apenas quando olho para ela. – Malfoy olhou para o braço. – É uma dor que vai além do físico, a sinto na alma.

Hermione apertou o pulso esquerdo.

—Sua marca ainda lhe causa dor?

—O tempo todo. – Ela respondeu sincera.

—Não posso desfazer o que a cretina da minha tia lhe fez, mas posso te ajudar a aliviar esta dor.

—Como?

—Venha, eu lhe mostro.

—Como você realizou a entrevista com ele? – Perguntou Luna curiosa.

—Com equipamento trouxa. Caneta, bloco de papel e um gravador. Como disse, ele não permitiu o uso de magia em sua casa.

—E você ainda tem esse material?

—Sim. Está guardado em meu cofre em Gringotes.

—Terei que confisca-lo. – Afirmou Luna.

—Tem minha autorização.

—Me diga, ele lhe deu todas as informações que queria, ou tentou manipulá-la?

—No início, ele estava mais apreensivo. Muito frio ao dar as respostas, porém, com o passar dos dias ele estava mais confiante.

—Como você se tornou um Comensal da Morte?

—Fui obrigado. Caso não aceitasse, minha mãe morreria. Eu tinha uma missão: matar Dumblendore, caso falhasse, Snape assumiria o meu lugar.

—Como foi a cerimônia? – Hermione perguntou curiosa.

—Cerimônia? – Ele sorriu sarcástico. – Para mim aquilo não foi uma cerimônia e sim uma tortura. O lugar era muito frio e eu estava nu. Estávamos apenas eu e Voldemort. Além da marca, ele fez diversas outras por todo o meu corpo, segundo ele, de proteção. — Draco levantou-se e tirou a camisa que usava. – Ninguém consegue vê-las, porém elas estão aqui para fechar o meu corpo com relação a qualquer ameaça.

Ele aproximou-se de Hermione com cautela pois não queria assustá-la e retirou a varinha do bolso da calça.

—Incantaten. – Ele pronunciou. As marcas aparecerem. Eram palavras e símbolos em Runas Antigas. – Ele as fez com a própria unha que mais parecia um punhal pontiagudo.

—Todos os comensais receberam estas marcas?

—Não. Apenas eu. – Ele a encarou. — Você sabe o que isso representa?

—Sim. Você guarda algo aí dentro. Algo muito importante, algo que Voldemort confiou somente a você.

—Exatamente. Ele me chamava de Guardião e foi essa condição que assegurou a minha sobrevivência. Todos morreram, menos eu.

—Ele lhe contou qual era o segredo? – Perguntou Luna apreensiva.

—Sim. – Hermione olhou para Neville.

—Senhorita Lovegood, peço alguns minutos de pausa no interrogatório para que Hermione descanse um pouco.

—Concedido. Voltaremos em 30 minutos.

Ao sair, Luna fez um floreio com a varinha e apareceu sobre a mesa suco de abóbora e biscoitos de morango, os preferidos de Hermione.

Harry Potter passou por eles sério. Naquele momento detestava Neville tanto quanto Hermione.

—Não sabia que professores de Hogwarts se interessavam por assuntos do ministério? – Falou para Neville.

—Professores de Hogwarts se interessam pela verdade e pessoas que ajudaram a defender a escola.

Harry saiu irritado, mais que tudo, queria que Hermione fosse a julgamento.

—Diga a verdade. – Neville disse sério. – A verdade será a sua principal arma.

—Será que acreditarão em mim?

—Luna confia em você. Ela acreditará.

—Mas o que ela quer saber não está gravado nas fitas. – Hermione fechou os olhos por um momento. – O que ela quer saber, ele me contou quando nós, quando...

—Hermione, não precisa dizer nada. Com exceção de Potter, que não enxerga um palmo a sua frente, todos já perceberam e você não deve se envergonhar disso. – Ele a olhou com carinho. – Coma. Fará bem para você.

Hermione olhou para os biscoitos de morango e foi sugada pelas lembranças.

—Dormiu bem? – Ele perguntou assim que ela sentou-se à mesa.

—Sim. – Ela respondeu distraidamente enquanto escolhia algo para comer. A mesa estava repleta de opções.

—Eu não sabia do que você gostava...

—Biscoitos de morango. – Ela o interrompeu. – Adoro biscoitos de morango. E você? Do que gosta?

—Isso faz parte da entrevista? – Ele perguntou a provocando.

—Prometo guardar segredo. – Ela brincou.

—Gosto de torrada com geleia de morango! – Ele respondeu sorrindo. – Temos algo em comum. Morangos.

Hermione sentiu o rosto queimar. Seus pensamentos, sem controle, a fizeram imaginar como seria o gosto de morangos na boca de Draco.

Tudo havia acontecido tão depressa. O reencontro, a entrevista, os momentos juntos. Todos aqueles acontecimentos a fizeram refletir sobre luz e trevas. Dublendore sempre tivera razão, todos tinham um pouco de cada dentro de si, mas saber como equilibrar era o que indicava a verdadeira personalidade.

—Hoje é o seu último dia aqui, senhorita Granger. – Malfoy anunciou ao entrar na sala onde ela o aguardava para a última etapa da entrevista.

—Sim. – Ela respondeu incomodada. – Ele parecia feliz por se livrar dela.

Ele aproximou-se dela. Talvez não tivesse outra oportunidade.

—Eu sei que poderia ter dado a resposta que tanto queria há alguns dias. – Ele sentou-se ao lado dela. – Mas, confesso que a ideia de ter você aqui comigo me deixou excitado.

—Como assim? – Ela perguntou receosa.

—Sempre achei você atraente...

—Malfoy, é melhor você parar. Não estou aqui para viver um romance. Estou aqui para entrevista-lo.

—Não estou falando de romance. Me refiro a desejo.

Ela mordeu os lábios. Sim, desde o primeiro dia naquela casa, o desejou mais que tudo, mas estava machucada demais para se entregar novamente.

—Eu sei o que o senhor Potter e o ridículo do Wesley fizeram com você.

Ela levantou-se e caminhou até a janela. Havia perdido o controle da situação.

—Acho melhor eu ir embora...

—Não vá, fique. – Ele respondeu e se aproximou dela novamente. – Eu quero que você fique comigo.

—Eu quero ficar. – Ela confessou. – Eu quero ficar com você.

Ele a beijou delicadamente. Sentiu o gosto dela em sua boca. Sentiu que esperava por aquele beijo há muito tempo. Sentiu as mãos dela por debaixo da camisa que usava. Sentiu toda a ansiedade dela quando o beijo ficou mais forte, mais profundo...

—Senhorita Granger, podemos começar?

—Sim.

—Recapitulando, quando você aceitou as condições que Draco Malfoy impôs para lhe conceder a entrevista, um objetivo passava em sua mente: saber se ele guardava um segredo a respeito de Voldemort.

—Exatamente.

—Ele revelou este segredo para você? – A tensão tomou conta do corpo de Luna.

—Draco Malfoy foi o único comensal a sobreviver porque ele guardava um segredo muito perigoso dentro dele. O próprio Lord das Trevas selou o corpo dele para que nada destruísse o que ele carregava dentro de si.

—Isso quer dizer que Draco Malfoy era uma Horcrux? – Luna estava impaciente e temerosa.

—Não. Porém, o segredo que ele carregava poderia trazer à tona, a terceira Guerra Bruxa.

—E por que não contou isso para ninguém? Você e Harry sempre foram tão amigos...

Hermione olhou para Harry Potter que estava em silêncio do outro lado da sala. Seria tão fácil dizer tudo o que sabia sobre ele, mas não era o momento. Não se encontrava em uma posição confortável para fazer acusações.

—Eu fiz um juramento de sigilo de informações oferecidas informalmente por ele. Em momentos em que eu não estava realizando a entrevista. Agora que ele morreu, eu posso contar. – Hermione fechou os punhos, estava nervosa.

—Onde ele lhe contou o segredo?

—No quarto dele, mais precisamente, na cama. Estávamos juntos.

Luna esboçou um meio sorriso. Ela já sabia. Já tinha certeza de que algo havia acontecido entre os dois. Potter comprimiu os lábios. Sentia ódio.

—Senhorita Granger, pode nos contar o que ele lhe disse?

Hermione respirou fundo. Havia chegado o momento. Passou a mão por entre os cabelos. Estava nervosa.

—Acredite, Hermione. Tudo o que lhe falei é verdade. – Malfoy tentava acalmá-la sem sucesso

—Draco, o que você me revelou é muito sério. Não podemos permitir. Temos que avisar o Ministério da Magia.

—Você realmente acredita que não exista corrupção e interesses mesquinhos no Ministério? Realmente acredita que lá todos os bruxos são bons?

Ele colocou os dedos nos lábios dela.

—Eu sou o guardião. O segredo está em proteção comigo.

—Você corre risco. – Ela constatou. – Por isso, todo esse esquema de proteção, por isso você confiscou a minha varinha quando cheguei aqui.

—Me escute, não há o que temer. — Ele a envolveu em seus braços. – Não sou imortal, mas sei me proteger.

—Eu tenho medo.

—Não tenha. Você sabe que comigo pode contar. Sempre.

—Quando eu entrevistei Draco Malfoy, percebi que ele era um bruxo excepcional, porém, não fazia distinção entre o bem e o mal. Ele era incapaz de uma atitude honrada caso esta não trouxesse qualquer tipo de benefício a ele.

—Responda à minha pergunta, Hermione. – Luna solicitou. – Nosso tempo está acabando.

—Voldemort confiou a Draco o segredo da própria existência. O que poderia manter a essência do mal para a eternidade. Ele o nomeou como o seu guardião por um motivo: Malfoy era o seu filho.

—Isso é impossível! – Gritou Harry.

—Não é! – Hermione gritou também. – Voldemort consentiu um filho à Narcisa em troca da sua fidelidade. Por que você acha que ele foi escolhido para matar Dumblendore? Por que você acha que Snape o protegeu?

Neville segurou a mão de Hermione na tentativa de acalmá-la.

—Realmente é um grande segredo. – Ela constatou. – Muitos iriam querer ele morto.

—Inclusive eu. – Hermione respondeu friamente.

—Hermione Granger, isso é uma confissão?

—Sim, Luna. Eu confesso. Matei Draco Malfoy. – Pela primeira vez, lágrimas romperam os seus olhos. – Eu o matei porque se ele sobrevivesse, cumpriria sua missão. Ele já estava recrutando bruxas e bruxos insatisfeitos com o Ministério. Eu pude ver todo o movimento em sua casa.

—Por que desconfigurar o seu rosto?

—Para ganhar tempo, mas não contava que fosse Harry Potter a encontrar o corpo. Cometi um erro infantil. – Hermione olhou para Harry Potter. – Eu fiz a denúncia. Eu queria que o encontrassem e queimassem o seu cadáver o quanto antes. – Hermione olhou para Luna. – Se eu fiz isso, foi para a nossa própria proteção. Eu pretendia fugir, mas Harry me encontrou e confiscou a minha varinha.

—Senhorita Lovegood, eu sei que aqui é apenas um interrogatório. – Neville ponderou. – Mas acredito que Hermione não deva ser julgada, uma vez que ela protegeu o Ministério da Magia e o mundo bruxo. Peço que reflita e a liberte, afinal, tratava-se de um criminoso perigoso. Mesmo envolvida, ela foi coerente e ficou ao nosso lado.

Luna refletiu por alguns instantes. Em sua mente não existia dúvidas que a atitude de Hermione não fora de uma assassina e sim de uma salvadora que sacrificou o que existia entre ela e Draco Malfoy por algo maior.

—Não há dúvidas. – Ela disse. – Hermione Jane Granger matou Draco Black Malfoy como proteção à comunidade bruxa, ou seja em defesa própria. – Luna sorriu. – Eu declaro que ela deva ser liberada imediatamente sem passar pelo crivo do julgamento.

Hermione foi abraçada por Luna, seguida por Neville. Harry Potter passou por eles e sentiu o olhar de Hermione sobre ele. Não a encarou. Estava cansado de tudo aquilo. Colocou a varinha confiscada por ele em cima da mesa e seguiu rumo a sala dos Aurores.

—E então Potter? A Granger vai para o julgamento? – Perguntou Dino Thomas interessado.

—Não. A vadia conseguiu provar que agiu em prol da comunidade bruxa. Um discurso enjoativo que só a Luna engoliu. Acho que nem Neville engoliu aquela história ridícula.

—Neville? – Perguntou Dino com estranhamento.

—Sim. Acredita que ele se ofereceu a ser Guardião de Defesa de Hermione caso ela precisasse?

—Harry, tem algo errado.

—Por que diz isso?

—Neville não está em Londres. Ele foi para Nova Iorque conhecer Ilvermorny para...

Antes que Dino terminasse a frase, Harry saiu correndo pelo extenso corredor que levava à sala de interrogatório. Vazia. Na mesa, uma carta endereçada a ele:

Harry Potter,

Como você percebeu, algo saiu do controle.

Não sou mais aquela idiota que você conheceu um dia.

Daqui alguns minutos você será preso pela morte de Ronald Weasley.

Sim, enquanto você gastava o seu precioso tempo para me prender, o seu amiguinho morria e era levado para a sua casa, provavelmente repleta de aurores neste exato momento.

Você me mostrou, da pior maneira, a pessoa que eu não queria ser.

Draco me mostrou, da melhor maneira, quem eu realmente gostaria de ser.

Antes que Harry pudesse piscar, a carta se auto destruiu em chamas e diversos aurores entraram na sala para prendê-lo e condena-lo pela morte de Rony.

***

A passos vagarosos, Hermione caminhava ao lado do suposto Neville.

—Quando você percebeu? – Ele perguntou.

—No momento em que você estendeu a mão e me disse que poderia contar com você. – Ela sorriu. – Depois da guerra, você foi o único a falar assim comigo e eu também sabia que Neville estava fora.

—Nunca fui bom com disfarces. – Ele sorriu também.

—Draco, poderíamos ter prejudicado os nossos planos, caso eles o descobrissem.

—Sim. Mas depois que matei o inútil do Rony, precisava me distrair com algo.

O efeito da Poção Polissuco se dissipou e Hermione vislumbrou o rosto de Malfoy.

—Eu não acredito que eles caíram naquela história que você contou? Eu, filho de Voldemort?

—Precisava ser algo bem dramático para convencê-los a me absolver. Sem revelar, claro, o seu verdadeiro segredo.

—Potter foi bem idiota também ao acreditar naquele corpo transfigurado.

—Ele só enxerga o que é de interesse dele. Ele viu ali a oportunidade de me julgar porque me seguiu até a sua casa naquele dia horas antes.

—Juntos somos imbatíveis, Hermione. – Ele brincou.

—Tire esse sorriso do rosto! – Ela pediu. – Temos que desaparecer por uns tempos. Provavelmente irão nos procurar.

—Fique tranquila, não deixei rastros e, além do mais... – Ele a abraçou e lhe deu um beijo. — ... estou morto, lembra?

Hermione sorriu.

Enfim, sentia-se vingada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!