O guarda-costas
2 Prólogo
PRÓLOGO
Caminho por entre as várias lápides com nomes a que não presto atenção, com passos arrastados e descoordenados como os de uma velha boneca de trapos: sem vida. Vazia. Oca. Irreal. Essa sou eu agora.
Observo a lápide, cuja escritura não faz jus à sua pessoa, em silêncio, e sinto pena; culpa ao notar que nem mesmo uma coroa de flores lhe foi deixada. Esquecida e sem valor. É assim que sua morte soa para o resto do mundo.
Me sento à grama sem vida, pernas cruzadas e mãos descansadas a frente do corpo. Solto a respiração que vinha prendendo sem dar-me conta. Repasso as cenas em minha mente, de novo e de novo. Não há nada que me faça aceitar, ou mesmo entender o que aconteceu àquele maldito dia. Nenhum detalhe ou circunstância. Nada à exceção dos pontos em meu supercílio se quer provam que minhas lembranças são mesmo reais.
Corro os dedos pelo entalhe de seu nome e lágrimas me sobem aos olhos sem nunca serem derramadas. Quero gritar. Quero que ela me escute de onde quer que esteja e saiba o quanto sou grata por termos sido amigas.
O bipe estridente do despertador de meu telefone ocupa o espaço ao redor, alertando-me de que já são nove em ponto. Respiro fundo e sinto meu coração encolher até assumir o exato tamanho de uma pequenina ervilha. Curvo o corpo até encostar minha testa sobre pedra fria.
No bolso de meu casaco, o aparelho continua a berrar em um lembrete cruel. Com uma prece silenciosa, peço a Deus que me dê forças, ou paciência. O que Ele julgar mais pertinente. Cogito atirar o telefone ao mármore na esperança de que vê-lo se estilhaçar, mesmo que só um pouco, me ajude a ser esquecida por tempo o suficiente para que ninguém me obrigue a viver o que está por vir.
Arranco um punhado de grama a meus pés com mãos inquietas e observo o novo espaço de terra pelada a minha frente. Enquanto seguro as folhas entre os dedos me pego pensando no ciclo que envolve o chão que me cerca. A destruição da flora que se acarreta pelo atrito com o homem e o renascimento que provém da própria natureza. Aprecio isso: o indício de um possível recomeço que burla com esperança parte da única verdade imutável: o homem é destruição.
Engulo em seco, despejo o conteúdo de minhas mãos sobre a lápide com ar resignado e, de repente, sei que ficarei bem. Não importa quanto tempo leve para isso. Afinal, coisas precisam renascer para que a humanidade as destrua outra vez.
Desligo meu telefone, corro os dedos por seu nome uma última vez num agradecimento silencioso, conto até dez e, enfim, me levanto.
Está na hora!
(…)
Escorada à Cléo, que me parece mais frágil do qualquer ser a quem já tenha visto ou imaginado, vejo os primeiros grãos de terra se chocarem contra o caixão e observo atentamente o grupo de pessoas chorosas ao redor. O ar cheira a suor, sujeira e lágrimas.
Nada disso me parece real. A tristeza. O frio. O medo. A dor. Me lembro de ter sentido tudo isso enquanto tentava processar o que estava acontecendo. E agora, de repente, nada me ocorre. Nem uma única emoção se quer. A realidade parece ter se imposto como uma pedra. Grande demais para ser transposta, pesada demais para ser tirada do caminho, ou mesmo suspensa de meus ombros. Desde então não sinto nada. Minha mãe está morta e não há nada a ser feito. Existe um buraco em meu peito onde a consciência da existência dela costumava ficar e nada mais.
Tudo. Em único gesto me tiraram tudo. E por mais que busque por elas não encontro lágrimas para chorar minha perda. Receio que será assim por um tempo.
Me afasto de minha gentil governanta e procuro papai pela pequena multidão triste de parentes e amigos, mas sei que é perda de tempo. Ele desapareceu pouco depois do discurso que usara para homenagear pela última vez sua companheira de toda a vida, sem forças para assistir seu corpo frágil ser engolido pela terra.
Sozinha, agradeço a todas as condolências e promessas vazias de que tudo ficará bem, com gestos automáticos e quase indiferentes. Me sinto uma estranha em meu próprio corpo.
De volta ao ponto de partida, enlaço meus braços aos da velha senhora que a muito cuida de mim e minha família, para ajudá-la no caminho de volta, mas receio que seja ela a me segurar. Meus joelhos ameaçam ceder a qualquer instante e minha cabeça dói. Me sinto esgotada. Mais do que nunca quero e preciso ir embora.
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