O guarda chuva vermelho
2 Loucura
Notas iniciais

Fanfic O guarda chuva vermelho
Por: Chocolati
Capítulo 2
Loucura
Levantou-se ainda de costas para a menina e deixou a mostra contra a fraca luz da lua uma afiada navalha que fora utilizada no crime, pois tinha sangue na lâmina finíssima. Fechou os olhos fortemente esperando que sua própria mão forçasse o objeto a cortar sua veia jugular, a ponta gelada do objeto fez seu corpo arrepiar.
–Seu idiota, o que vai fazer?
–Acabar com seu sofrimento. _deu um sorriso mínimo, soou meio que sarcástico para a garota, mas era um sorriso triste.
O brilho da lâmina brilho aos seus olhos e percebeu a seriedade em suas palavras. Não! Ela não quer aquele ver assassino cometendo suicídio na sua frente, tinha que vingar-se da morte da querida irmã, não poderia deixa-lo impune de tal ato. Justiça não seria o suficiente, sabia o quão lento seria um processo, e o quanto custaria caro ao seu bolso, além do mais, a deveras demora à condenação. Queria mata-lo da forma mais cruel possível, para suprir a dor que sentia por dentro dela mesma. Já não poderia fazer mais nada que pudesse para recuperar a vida da jovem, pelo menos queria recuperar sua dignidade.
A imagem de Luana a sua mente lhe ofuscava a vista. Sempre quis ver ela tão feliz ao seu lado, apenas conseguiu seu ódio mortal… sabia que tinha tirado a mais importante pilastra que sustentava a vida da garota, aniquilou a fonte de sua alegria… só então percebeu que não tinha feito aquilo por ela. Gil era uma garota difícil, muito ciumenta e não podia ver Hugo conversando com outra garota que já se sentia enciumada. Mas o que ela não conseguia enxergar era que o sentimento dele pela irmã mais nova crescia mais e mais, também nunca desconfiou isso de seu namorado que sempre conversava com Luana sobre coisas banais.
Seus pensamentos voltaram a organizar-se e voltou sua atenção à lâmina ainda no pescoço. Mordeu fortemente o lábio inferior e forçou a navalha a deslizar pela sua epiderme, logo um fio rubro e quente descia do pequeno corte em direção ao ombro. De repente sentiu ser puxado violentamente para trás e ter a navalha tomada brutalmente de sua mão.
SLAP!!!
O rosto apático do jovem tinha virado para o lado ao sentir a violência da mão da menina. Sentia sua bochecha esquerda mais quente que o normal, sentiu um leve gosto de sangue na boca, com certeza deve ter cortado a língua com a tapa que levou.
–Isso… não é nem uma parcela do que você merece sofrer. Não merece nem ao menos respirar do mesmo ar que eu, seu animal podre.
Seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, mas sua expressão demonstrava a fúria dela.
–Acha que eu não sei disso?
–Seu monstro.
–Seria muito pedir que me entregue a navalha? Tenho um suicídio para finalizar.
–Não! _e jogou o objeto para trás, deslizou e caiu por entre as grades de um bueiro.
Sim, Hugo, ela estava louca. Louca para vê-lo agonizando da forma mais cruel que se pode imaginar naquele momento. Sua mão coçava para pendurar no seu pescoço os dedos finos e delicados e enforca-lo até que dê seu último suspiro.
–Some.
–Hm? O que disse?
–Some… da minha frente, suma da minha vista, da minha vida. Antes que eu mesma retire a sua vida inútil aqui mesmo.
Hugo sabia que ela não tinha coragem suficiente para fazer o que dizia, mas excitava em suas palavras, achou melhor nem duvidar e aproveitar a oportunidade de sumir da vida de sua amada. Suas pernas pesavam toneladas, mas conseguiu coordenação motora suficiente para ao menos desviar dela e seguir seu caminho. Mal sabia dos esforços que a garota fazia para não pular em cima dele e arrancar cada parte de seu corpo lentamente. Ela tinha fechado os olhos apenas esperando os passos dele sumirem pelo beco, assim que não sentia mais a presença virou e caiu ao chão.
...x...
Levantou-se de súbito com a trovoada ensurdecedora. Tentou focar sua visão na porta do quarto, mas sua vista ainda estava meio turva. Tateou a mão pelo criado-mudo em procura do interruptor daquele bendito abajur, achou e o ligou. A fraca luz iluminou o quarto, pode ver quase que nitidamente, pela janela, as árvores balançando como em uma dança, suas copas só faltavam se desprender dos galhos da tamanha força que o vento exercia sobre eles. De repente, uma síncope lhe tirou da realidade para afundar-se em seus pensamentos. Estava relembrando o sonho, não, o pesadelo, da noite passada, depois de relembrar da cena no beco.
“Era essa a sua sina!”
Pensou Luana ao se deparar com o corpo pendurado na árvore.
Hugo não sabia mais a quem recorrer, suas próprias ações o tinham levado ao fundo do poço.
A simplicidade estampada no rosto da garota era bastante visível. Procurará aquele homem para enfim tirar-lhe a vida, mas ao ver ali morto, roxo e de língua para fora sentiu que seu dever tinha sido simplificado. Talvez ela soubesse que para Hugo, depois da morte de Gil, sua existência seria intermitente. As olheiras denunciavam as noites mal dormidas de Luana, realmente sofreu, e ainda sofre, com a perda de sua querida irmã. A escuridão começava a deixar o céu, anunciando um novo começo do dia, logo pessoas começariam a circular pelo local. Hugo seu burro, por que foi enforcar-se logo em uma árvore no meio da praça?
Suspirou.
O mínimo que poderia fazer era laxar o nó da corda e deixar aquele corpo gélido por ali na grama feito um saco de batatas mesmo, e o resto que se virasse com aquele defunto. Apesar da letargia visível em sua expressão, um pequeno sorriso abriu-se no canto dos lábios ressecados. Quem dera se aquele sonho fosse real… Mas agora tinha que pensar em uma maneira de acabar com a vida do desgraçado, não poderia ser imprudente.
...x...
Algo rutilante chamou-lhe a atenção, virou parcialmente o corpo para um canto meio escuro do quarto. Um simples guarda-chuva vermelho vivo estava encostado à parede. Rapidamente retirou a camisola cor de ciano e correu ao banheiro para um rápido banho.
Hoje.
O dia que o grande amor da vida de sua irmã teria seu trágico fim. As gotas deslizavam por sua face, o sorriso diabólico formou-se ao sentir o toque congelante da água em seu corpo, aparentemente alvo e frágil, os olhos vidrados na lajota azulada. Sua mão passou por seus fios de cabelo molhados e as retirou de sua face, apertou a outra mão fazendo com que seus antebraços comprimissem levemente os seios rijos e médios, inclinou a cabeça e encostou-se à parede. Uma gargalhada maléfica ecoou pelo banheiro, parecia uma louca sedenta de sangue.
...x...
Saiu do banheiro lentamente, parece que só agora tinha sentido os efeitos do frio. Seus lábios arroxeados tremiam freneticamente, andou até sua cama e pegou o vestido branco. Puxou uma capa preta do guarda-roupa aberto e logo empunhou o guarda-chuva, correu até a saída do quarto. Mesmo estando faminta passou reto pela cozinha e foi direto para a sala. Fixou os olhos em seu objeto em mãos.
–Vamos dar logo um fim nisso.
Falou para seu guarda-chuva como se ele a entendesse. Girou a maçaneta e brutalmente fechou a porta.
Continua...
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