Estava diante de um infanticídio, sim, algo que para mim era tão dolorido de acompanhar, mas eu precisava, era o meu trabalho. Junto com Túlio entramos no local e eu vi uma mulher em prantos sendo amparada por um policial e duas mulheres, provavelmente aquela era a mãe de Ana Rosa, a vítima. Junto com Túlio eu fui onde estava o corpo e quando chegamos o legista nos cumprimentou e apresentou-nos o corpo que estava com escoriações nos braços, pernas e uma mancha roxa em volta do pescoço.

— Ela morreu enforcada com um cadarço de tênis, mas apanhou muito antes de morrer. – disse o legista.

— Lutou bravamente também – disse Túlio olhando os braços da garota.

— Foi estuprada? – perguntei.

— Nenhum sinal de violência sexual.

Continuei olhando para o corpo e imaginando quem poderia ter feito tal atrocidade e o motivo.

Eu estava obstinada em saber quem a matou, sei que não deveria, mas se eu o encontrasse na minha frente eu não sei o que faria tamanha a revolta que estava dentro de mim. Procurei um lugar para sentar e fui até uma praça que tinha frente ao IML. Lá fiquei e não percebi que Túlio estava próximo a mim com dois lanches naturais.

— Você deve estar com fome. – ele me disse oferecendo o outro lanche.

— Bondade sua – falei pegando o lanche.

— Assim que terminarmos de comer vamos ao delegado, acho que ele tem algumas palavrinhas para lhe dizer.

— Acho que o que eu vi foi o suficiente.

(...)

Entramos na delegacia e lá estava o delegado Estevão a nossa espera. Ele aparentava ter por volta de cinquenta anos, cabelos grisalhos e usava óculos que caia bem em seu rosto. Era uma pessoa tranquila, e era isso que eu mais precisava naquele momento.

Ao nos ver cumprimentou-nos e disse a mim:

— Sei que estes casos mexem muito com você, mas não vi pessoa melhor....

— Sem problemas, Estevão. — eu falei tentando esquecer o que vi a algumas horas. — Mas você bem sabe que casos com crianças mexem comigo.

— Não só com você, Melissa – disse o delegado – com todos nós. Foi por isso que chamei você aqui, pois sei de sua competência em resolver casos rapidamente e não podemos esperara para resolver esse.

Em seguida Estevão fez uma ligação rápida como se estivesse chamando alguém para vir até onde estávamos. Quando ele terminou a ligação Túlio perguntou:

— Você ligou para a mãe daquele menino?

Estevão fez apenas um sinal positivo com a cabeça e disse para mim:

— Assim que ela chegar eu te explico quem é esse menino.

Não demorou para que uma mulher ruiva de aproximadamente vinte e poucos anos chegasse com um menino de mais ou menos dez anos. Ele tinha um olhar amedrontado e era como se quisesse chorar. Sinceramente e não sabia como abordá-la com relação ao menino. Tentei o melhor que pude.

— Como a senhora está? — perguntei a mãe já prevendo a resposta.

— Estou um pouco confusa com tudo o que está acontecendo.

Estevão interviu e pediu para que ela fosse para uma salinha e a levou pedindo que eu os acompanhasse. Assim ele conduziu-nos para uma salinha simples onde havia três cadeiras bem dispostas ali. Quando entramos o delegado olhou para nós e disse:

— Qualquer coisa me chamem.

Sentei frente a mãe e o menino. Mesmo naquela situação a moça parecia segura de si, o que me deixou mais aliviada. A mulher perguntou:

— O delegado adiantou a história para você?

— Ele ia me falar quando você chegou – respondi com uma feição desapontada.

A mulher respirou fundo como se estivesse cansada, mas mesmo assim contou a história para mim.

— Desde o desaparecimento de Ana Rosa, meu filho não fala nenhuma palavra e parece que está vendo uma assombração ou sendo perseguido por algo. Não quer sair de casa e às vezes chora sem motivo. Penso que pode ter a ver com o caso desse assassinato.

Aquele relato mostrava algo muito sério e poderia ser uma pista importante. Mas como arrancar a verdade desse menino? Pensei que não precisaria de ajuda, mas dessa vez eu precisava.

Deixei a mãe com o seu filho na salinha e fui a procura de Túlio. Logo o encontrei segurando um daqueles copos descartáveis cheio de café. Fui em direção a ele e o chamei.

— E aí? Conseguiu arrancar alguma coisa do garoto? – ele perguntou.

Respirei fundo e fiz um sinal negativo.

— Mas o que você vai falar para o Estevão?

— Não sei. É a primeira vez que me vejo nessa sinuca de bico.

Fiquei alguns momentos olhando para fora da delegacia e eu sentia a necessidade de respirar um ar puro, nem que fosse por um momento. Em seguida olhei em direção a salinha e disse:

— Preciso voltar para lá.

— Boa sorte – Túlio me disse dando dois tapinhas nos meus ombros.

Voltei para a saleta com uma angústia em meu coração. Quando entrei a mãe se levantou e disse para mim deixando o filho sentado na cadeira:

— Felipe, meu filho, se comprometeu a lhe falar o que precisa.

Fiquei surpresa com aquela fala e acabei sem reação. Já falei logo:

— Você pode ficar aqui se preferir.

Ela concordou em ficar.

Abaixei na altura do menino, sorri para ele mostrando que ele estava seguro e disse:

— Pode falar para mim o que aconteceu. Vai ficar tudo bem.

Felipe mordeu o lábio inferior com um olhar preocupado. Respirou fundo e disse com uma voz baixa:

— Eu estava brincando com Ana Rosa na pracinha quando veio um homem falando que a mãe dela estava chamando ela e...

Pude perceber que ele sofria por ter que relatar isso e a pausa que ele fez foi necessária. Pousei minha mão em seu ombro e disse:

— Pode continuar se quiser.

Ele fez um sinal positivo com a cabeça e continuou:

— Ana não queria ir, mas o homem puxou o braço de e disse bem bravo: Vamos logo! Depois ele me disse que não era para contar a ninguém que estava fazendo aquilo se não ia me matar. Ela foi embora com o homem e sai correndo para casa.

Em seguida o menino colocou as mãos no rosto e se escondeu indo de encontro a mãe. Sabia que estava submetendo o garoto a algo muito doloroso, mas eu não tinha escolha a não ser pedir ao menino para dizer a nós quem era esse homem. Com um aperto no coração lhe perguntei logo isso. Para minha surpresa Felipe me olhou com os olhos tristes e respondeu:

— Foi o Oliveira.

— Quem é Oliveira? – perguntei atônita.

A mãe do garoto colocou a mão na boca e respondeu:

— É o rapaz que ajuda o mecânico do bairro.

Abri a porta imediatamente e antes de eles se dirigirem ao escrivão eu agradeci e complementei:

— Vocês não tem noção a ajuda que nos deram.

— Creio que a mãe dessa menina ficará um pouco mais aliviada em saber quem matou sua filha. – falou a mãe de Felipe que foi conduzida junto com o menino por um policial ao escrivão.

Fui logo em direção a Estevão me sentindo aliviada de ouvir a verdade.

— Conseguiu? – perguntou o delegado.

— É um tal de Oliveira que ajuda um mecânico. – respondi.

Estevão olhou para mim e perguntou:

— A criança deu as características do acusado?

— Não, mas posso falar com a mãe…

— Melhor procurarmos esse Oliveira lá no bairro — falou Túlio enquanto pegava a chave no bolso de sua jaqueta — daí o prendemos.

Fui com Túlio e Estevão no bairro onde a pobre Ana Rosa morava. Procuramos em duas oficinas mecânicas e nenhum rapaz de sobrenome Oliveira trabalhava nelas. Na terceira, o dono da oficina ficou surpreso ao ouvir o motivo de estarmos procurando o rapaz.

— Infelizmente ele não veio hoje — respondeu o homem enquanto segurava uma chave de fenda — mas é provável que ele esteja em casa.

Em seguida nos passou as coordenadas de como chegar à casa do acusado. O rapaz morava a 2 quadras dali e então realizamos o trajeto a pé. Quando chegamos vimos o suspeito com a mala nas mãos fechando o portão da casa. Ao nos ver tentou correr, mas tropeçou numa falha da calçada e caiu. Logo Túlio veio sobre ele, colocou os braços do acusado para trás e deu voz de prisão. Ao ser erguido disse:

— Mas eu não fiz aquilo sozinho!

— O que quer dizer? – perguntei atônita.

— Me mandaram…

— Termine de falar na delegacia — ordenou Estevão com firmeza.

Oliveira ficou calado durante todo o caminho de sua casa até a delegacia. Minha mente vagava por várias perguntas que surgiam para fazer a ele ali mesmo, mas não era o momento. Por mais que antes eu quisesse lhe dar uma bela surra eu teria que deixar o meu profissional se sobressair no meu pessoal, o que estava sendo um pouco difícil para mim.

Por incrível que pareça quando chegamos à delegacia, haviam poucos curiosos e era um alívio para mim. Apenas um jornalista do jornal local estava atrás de um furo de reportagem.

— Não temos certeza de nada ainda! – falou Estevão com um olhar de desprezo para o jornalista. Este ainda insistiu falando que o povo precisava de respostas. Estevão simplesmente ignorou e assim que entramos ele fechou a porta da delegacia.

— É para a nossa segurança e a dele, Melissa – falou Túlio com um tom de preocupação.

Apenas assenti e entrei junto com eles na delegacia.

Levamos Oliveira para a sala de interrogatório. Como eu estava à frente do caso acabei por ficar sozinha com o acusado.

— Boa sorte! – disse Estevão antes de fechar a porta.

Ficamos frente a frente e uma mesa nos separava. Meus olhos estavam fixos nele enquanto olhava para o chão. Depois de alguns instantes de silêncio ele deu uma risada e disse:

— Não entendo o motivo de estarmos aqui. Já disse que fui eu.

— Mas não falou quem é o seu cúmplice.

— Só isso que querem saber? O que terei em troca?

— Isso não é comigo. – falei não querendo me arriscar mais.

— Está bem! – ele respondeu olhando direto para mim – foi o pai da menina. Ele pagou mil reais pelo serviço.

Fiquei estupefata pela forma fria que Oliveira havia me respondido e de ímpeto perguntei o motivo.

— Ele só me pediu para eu dar um fim na menina e me pagou.

Respirei fundo, me levantei e saí da sala sem palavras diante daquela situação. Como um pai manda matar a própria filha? Nem mesmo passei pelos rapazes, apenas sai pela porta dos fundos da delegacia e sentei num banquinho que estava ali. Não demorou muito para que Túlio sentasse ao meu lado.

— Ainda não acostumei com essas histórias. – ele disse olhando para mim.

— O pior é que temos que ser imparciais.

Após a prisão de Oliveira começamos a procura pelo pai de Ana Rosa, cujo nome é Lúcio. Ficamos aproximadamente três dias a procura dele e a cobrança dos familiares foi crescendo deixando a nossa equipe um pouco tensa. Eu mal conseguia dormir pensando na menina, as lembranças do corpo dela no IML estavam muito vivas em minha mente e eu não sossegaria até encontrar o culpado.

Era uma tarde nublada e eu estava sozinha na minha sala ligando para cada pessoa ligada ao acusado, mas não tinha sucesso em encontrar o seu paradeiro. Até que um policial bateu na porta e abriu já se desculpando, em seguida disse:

— Encontramos Lúcio! O prenderam enquanto estava indo para Avaré levar uns amigos para lá.

Levantei de ímpeto e fiquei próxima a porta para esperar sua chegada, Túlio veio logo atrás de mim.

Quando Lúcio chegou estava de cabeça baixa acompanhado de dois policiais. Estes o levaram direto para a sala de interrogatório. Agora eu estava frente ao mandante do crime. Sinceramente eu estava curiosa para saber os motivos de Lúcio ter feito isso. Engoli seco, respirei fundo e fiz a pergunta crucial:

— Então você assume que matou Ana Rosa?

Ele não falou nada, inclinei-me um pouco e disse:

— As evidencias apontam para você. Não há como fugir.

Lúcio permaneceu calado e eu continuei:

— Pelos boletins de ocorrências você tentou várias vezes machucar a menina e a mãe. Ameaçava e... – respirei fundo para conter a raiva que havia em mim. Em seguida olhei para Lúcio, bati forte na mesa e perguntei:

— Até quando vamos ficar aqui?

Pude ouvir a respiração dele tamanho o silêncio que se fez ali. Ele olhou para mim, colocou as duas mãos sobre a mesa e disse a frase que eu tanto esperava:

— Fui eu!

Respirei aliviada e não contente eu perguntei o motivo. Friamente me respondeu:

— Não dava para eu pagar a pensão dela e num ato de desespero acabei...

Lúcio colocou a mão no rosto não completando a frase. Sem deixar de olhar para ele perguntei de quanto era a pensão:

— Cem reais.

Levantei revoltada, segurei os punhos e falei com aspereza:

— E tinha mil reais para pagar o assassino?

Eu estava prestes a avançar no assassino, mas Túlio e um policial veio a tempo. Túlio me segurava enquanto o policial erguia Lúcio e o algemava levando para fora. Fiquei na sala junto com Túlio e eu não conseguia controlar o meu choro de raiva. Como ele não conseguia me acalmar falando algo, simplesmente me abraçou. Fiquei impressionada por sua atitude. O abraço dele fez com que eu me acalmasse e Túlio olhou bem nos meus olhos dizendo:

— Acabou!

O abracei novamente e minha revolta passou e o grito por justiça de Ana Rosa também cessou.

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