O grito de Ana
1 Capitulo único
Ana se viu sufocada. Não era a primeira e com certeza não seria a última vez que se sentiria assim. As pessoas continuavam a falar ao seu redor e ela queria fugir. Não se sentia confortável e tinha que admitir que se sentia pequena e insignificante perante aquelas pessoas carismáticas e engraçadas a sua frente. Nunca conseguiria pensar em piadas e tiradas tão boas iguais a eles, sabia que gaguejaria quando tentasse e tinha plena consciência da sua tosquera.
Fora assim sua vida inteira. Sempre nas sombras, sempre escondida, nunca na luz. O tempo todo sendo forçada a seguir padrões e regras impostas por seus pais, nunca tendo a coragem de dizer não. Amava sua família, mas no fundo sabia que escondia uma verdadeira Ana, uma pessoa de espírito livre que seguia suas próprias escolhas e não era presa por padrões tão rígidos. Sentia-se presa em uma gaiola, obrigada a ser alguém que não era e a fingir estar feliz sendo assim.
Se tivesse coragem, entraria na conversa e brincaria como se fosse que nem eles. Se fosse menos patética, lutaria pela sua felicidade.
Mas não, eles continuam a falar e nem notavam o quanto ela se afastava da roda. Enquanto um passo dela para eles era nada, para Ana significava tudo. Significava se afastar dos seus amigos, da chance de ser próxima deles e ser tão legal e normal como eles, para se aproximar de sua solidão, sua insegurança e do vazio da sua vida.
As vozes deles ficaram mais altas e mais alegres, suas risadas ferindo o âmago de Ana e a destruindo por dentro. Sabia que ao continuar se afastando, iria se esconder no banheiro e chorar, ficando face a face com o vazio e tristeza na sua alma.
Olhou para o lado e se viu refletida no espelho do outro lado da sala, então rapidamente virou o rosto. Nunca gostava do que via.
Então as pessoas começaram a falar dela, perguntando se ela era muda e o que achava do que quer que eles estavam falando. Ana não tinha ideia do que era e isso a fez entrar em total desespero, sua resposta foi um gaguejo, fazendo as pessoas perderem o súbito interesse nela e a voltarem a conversar.
Ana sentiu o familiar aperto no peito e o sufocamento na garganta. Odiava com todas as forças a si mesma e aos seus problemas. Tinha consciência que estava entrando em uma crise, porem a dor era tanta que não conseguia sair dela.
As vozes ficavam cada vez mais alegres e ela teve que fechar os olhos para sufocar sua dor. Não aguentava mais ser nada, não ter voz em sua vida, viver presa a escolhas que não eram dela, ser incapaz de ter uma simples conversa. Não aguentava mais sentir sua garganta fechada, a dor aguda em seu peito e contemplar o vazio de sua alma.
"Você é maravilhosa" — uma voz dentro dela disse.
Não. Ela não era.
"Você é maravilhosa" — a voz repetiu.
Ana então sentiu seu corpo todo formigar, seu sangue ferver e lembrou de todas as vezes em que chorara até acabarem as lágrimas, todas as vezes em que desejara morrer e ser livre de tudo. As vozes alegres ao seu redor ficaram mais estridentes, causando tontura nela e fazendo-a cada vez mais contemplar seu vazio. Era uma nada, sem significância, vazia, destruída por dentro.
Tudo girava sem controle e o sufocamento em sua garganta ficava cada vez maior. Estava se afogando, se afundando cada vez mais no seu vazio. Tudo estava acontecendo de novo.
Mas naquele segundo ela acreditou na voz.
Então sem pensar duas vezes ela gritou o mais alto que conseguia, o mais alto que sua garganta fechada permitia. Deixou sua voz correr livre da sua boca e não se importou com o quanto estava esganiçada e chorosa. Gritou para que o mundo soubesse que ela era alguém, que tinha significância.
Gritou para poder ser livre da jaula.
Quando sua voz acabou e ela abriu os olhos, não sentiu medo. Seu corpo fervia de emoção, estava mais acordada do que nunca. Mesmo que todos a olhassem com espanto, ela sentiu pela primeira vez paz consigo mesma. O mundo ao seu redor não mudou, mas dentro de si tudo mudou. Um fogo flamejante queimava em sua alma agora e a fazia se sentir corajosa.
Então se olhou novamente no espelho e, pela primeira vez, amou o que viu.
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