O grande homem
1 O grande homem
O GRANDE HOMEM
Era aparentemente um dia de chuva. O sol estava escondido atrás daquelas nuvens que insistiam em permanecer na atmosfera da cidade. João sendo praticamente obrigado a sair de casa tinha em mente pensamentos perturbadores sobre a possível chuva que poderia vir a acontecer na cidade, afinal, chuvas no Rio de Janeiro vinham sendo muito perigosas. Um compromisso desimportante o perturbava, teria que realmente sair do conforto de sua residência para ir a aquele maldito orfanato que sustentava. Viera adiando aquela visita há meses, sempre com uma resposta na língua para declinar o convite, “Sou um homem ocupado, infelizmente tenho um almoço de negócio para ir”. A cada convite recusado pensava consigo “Será que somente meu dinheiro não basta? Será que já não estou fazendo um bom trabalho para as crianças e sendo um bom católico, doando 10% do rendimento da minha empresa? Acredito que sim.” No entanto veio a sua mente uma indagação “Descarteana”,“ Então porque será que Deus está me fazendo correr risco de morte ?”
Durante a avalanche mental arrependeu-se profundamente por ter adiado por tanto tempo aquele encontro, poderia ter ido a aquele lugar no mês anterior. Poderia ter ido no dia que o sol estava escaldante, o dia no qual ele preferiu dormir até mais tarde.” Idiota”, pensou ele, “Sou um verdadeiro idiota”. Abandonou seus pensamentos pessimistas, estava na hora de sair. Trouxe a sua mente a mentalidade que lhe rendeu sucesso na vida, “Devo tirar tudo de bom possível do evento que virá acontecer, tudo tem seu lado bom, isso não irá me matar, tenho que sair de casa”. Pegou a chave, chamou o elevador, aguardou pacientemente, as crianças que o esperassem, pegou o elevador, deu bom dia ao vizinho, teclou o andar da garagem, bom dia novamente, saiu do elevador, caminhou, abriu seu carro de longe e se extasiou com aquele beep, entrou no carro, engatou a ré e manobrou o carro até sair da vaga, engatou a primeira, saiu da garagem, acelerou, acidente a frente, parecia que um imbecil havia acabado de bater com o carro, havia sangue pelo asfalto todo, abriu a janela, sentiu o sopro do vento na sua face e se renovou, talvez não viesse a ser o pior dos dias.
Chegou no sobrado rapidamente. Assim que vislumbrou a fachada daquele prédio teve que admitir que seu dinheiro havia sido muito bom para a instituição, transformou aquele antigo prédio velho em uma maravilha moderna, mesmo que não fosse uma alíquota tão grande, humildemente veio a sua mente um pensamento “Sou realmente um filantropo”. Adentrou a casa com um ar altivo e com um sorriso treinado ao longo dos anos, um sorriso que lhe garantia um ar forte e gracioso, era um verdadeiro lobista. Foi devidamente apresentado a diretora da casa, uma mulher bonita, devia estar na casa de seus 35 anos, sem anel no dedo, provavelmente não era casada, e de qualquer jeito, se o fosse, com certeza não estava morta, “Não posso me esquecer de lhe pedir o telefone”. Após a sua apresentação à aquela distinta senhora ele foi ver as crianças, tão pequenas, tão fofas e tão barulhentas. Aquele ambiente estava lotado, criaturas das mais variadas idades, abandonadas pelos pais, que maldade.... seu fluxo subjetivo de consciência foi bruscamente interrompido por um menino que acabará de vomitar na sua frente, “Está ai o motivo de terem sido abandonados, crianças são realmente criaturas do inferno”. Apesar de tal acontecimento, apenas deu um sorriso e se afastou rapidamente da área vomitada. Após algumas polidas, bonitas e, acima de tudo, gravadas palavras, pôde finalmente se retirar.
Quando pegou seu carro começou imediatamente o balanço do dia. Havia saído de casa, visto a rua, contemplado a burrice de um ser humano que ousara correr numa rua molhada, não havia morrido afogado, tinha conhecido uma bela senhora que não havia resistido ao seu charme, “Sou realmente um homem bonito”, tinha um sorriso cativante e como se falava nas ruas, “estava montado na grana”. As crianças haviam sido com certeza um estorvo necessário, afinal, um dia nunca pode ser perfeito.
Chegando em casa absorto em pensamentos, no lugar em que havia ocorrido o acidente, viu um arco íris; aquele arco formado pela poça de óleo que contrastava com a poça escarlate ao seu lado causava um impressão doentia de beleza, o sagrado e o profano, uma oposição obscuramente barroca. A beleza daquelas duas coisas que davam vida ao homem. Parou, estava muito pensativo naquele dia. Repetiu o rito que fez para sair do prédio. Chegou em casa, tirou seu sapato, as meias e aquele terno italiano que quase havia se sujado. Após se despir e colocar roupas mais confortáveis caminhou até a varanda. Parou frente ao espelho que o protegia das nojeiras do mundo exterior. Através daquele objeto perfeito que não permitia que o mundo visse sua magnificência, mas permitia que ele visse toda a mediocridade terrena, ele viu a chuva aumentar, os pingos se chocarem contra o asfalto e formar um pequeno curso d’agua intermitente que escorria pelo piche e esse perdia nas galerias de água na cidade. Estranhamente junto com a chuva ia o sangue e somente se mantinha o arco íris. A vida daquele infeliz estava sendo esquecida, ela ia pelo ralo assim como tudo ruim que acontecia, só ficavam as coisas boas. “É, tudo no dia tem sua parte boa”.
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