O fungo

1 Prólogo


O Sol batia diretamente em seu rosto, era um Sol de fim de tarde, pondo-se ao Oeste. Há alguns anos ele pararia para admirar aquela bela vista, mas isso era passado.

O medo da morte corria em suas veias em uma corrente descontrolada, cheia de altos e baixos até chegar em sua barriga gelada e tremulante. Mesmo depois de tanto tempo aquilo ainda o assustava. Sabia que cada um naquele grupo tinha uma responsabilidade a cumprir, mas isso não o impedia de questionar-se quanto ao cumprimento ou não da atividade destinada a si.

Identificou, mesmo de longe, a gigantesca logomarca daquele que fora um supermercado, um dos maiores supermercados do Mundo Antigo. Aquela logomarca encheu-o de lembranças. Lembrou-se de quando ia com seu Pai todo final de semana para comprar suprimentos de pesca. Aquelas lembranças o deixava nauseado, e então, sempre as interrompia.

Estavam em três. Chert era o mais novo e o mais audacioso, deveria ter lá pelos seus 16 anos, perdera a mãe e o pai em uma expedição de um outro grupo, grupo do qual fora expulso, pouco se sabe o porquê, mas dizem que ele surtara quando recebera a notícia e teria matado o mensageiro com uma pedra, golpes fortes na cabeça o teriam transformado aquilo que chamavam de crânio em uma pasta homogenia. Mesmo com tanto requinte de crueldade, Chert era o mais vulnerável, naquele Mundo Moderno, todo cuidado era pouco e ele não tinha nenhum. O outro era um velho, atendia por Meia-mão e poucos se importavam com seu verdadeiro nome.

Chegaram ao portão principal antes mesmo do Sol se pôr por completo, uma névoa cobria o que outrora fora um estacionamento a céu aberto, havia ali um caminhão com uma carreta enorme que se chocalhava a cada segundo, não era difícil de imaginar o porquê.

— Vou verificar a integridade da bateria daquele caminhão, pode nos servir para reviver alguns carros no acampamento e…

— Não vamos nos dispersar, foi o que combinamos antes de partir – Cortou Malev antes que Chert pudesse concluir.

— Então me sigam – Disse Chert com um ar superior.

Sentiram-se obrigados a obedecer quando Chert deu uns cinco passos em direção ao caminhão. Não parecia ter sido deixado ali há muito tempo quando visto de longe, mas logo que se aproximaram, conseguiram ver o fungo descendo pelas aberturas da carreta, já estava infectado.

— A bateria está nova. Isso é muito estranho, não acha? — Observou Chert logo após averiguar o estado do motor e da bateria do caminhão.

— Alguém pode ter reanimado, não é provável que tenha mantida sua energia ai por tanto tempo.

Os fungos cresceram, isso significa que passaram-se pelo menos cinco anos desde que o caminhão fora abandonado. Observou Malev.

Chert colocou a bateria no carrinho de mão que trouxera e seguiu atrás do Meia-mão em direção ao supermercado.

— Me esperem aqui – Disse Meia-mão aos seus companheiros.

— Eu vou com você. Chert, fique aqui e aguarde o nosso sinal.

— Combinamos de não dissiparmos – Chert concluiu.

O assunto foi encerrado com uma troca de olhares de Malev e Meia-mão, então, todos seguiram para o supermercado. A porta estava aberta, mas não totalmente, parecia que não fora aberta por um humano, poderia ser um animal ou ate mesmo uma aberração. Chert saiu na frente e começou abrir a porta fazendo um estrondo enorme do ferro batendo no azulejo. Malev deu um tapa na cabeça do garoto que deve ter feito um som tao grande dentro do garoto quanto o som que ele mesmo causara.

— Você ficou louco? Parece até que não sabe que podem haver Estaladores ai dentro, e com uma má sorte, até mesmo um daqueles Vermes Defumados. — Alertou Malev com o consentimento do velho Meia-mão.

Chert não pareceu muito feliz com o tapa recebido, mas, mesmo assim, reconheceu a burrada que fez quando resolveu ir para trás do velho e dar espaço para Malev abrir a porta. Ao entrarem se depararam com o mais impuro ar que já viram em toda a vida. O cheiro vistoso de carne apodrecida misturado com o “Fungo” em estágio avançado. Imediatamente, ao sentirem o cheiro do fungo, os três puxaram de suas blusas um pano e o ensoparam de álcool. Sabiam que não poderiam ficar ali por muito tempo. Conseguiram ouvir o barulho de um estalador, isso fez com que Malev molhasse as calças, mesmo que bem pouco. Tomaram posições de defesa imediatamente após o barulho, Chert escondeu-se detrás de um caixa, enquanto Meia-mão acompanhou Malev, e se escondeu junto a ele mais à frente, encostados em uma prateleira carregada de refrigerantes, vinhos e sucos.

Se não fosse esse estalador, eu levaria boa parte desse vinho para o acampamento.

Logo depois deste pensamento lhe fugir à mente, ouvira mais um barulho, simultâneo ao outro. Outro estalador.

Malev sabia o que aquilo significava. Falhamos, como eu pude ser tão burro? Entrei em um ambiente fechado e sem nenhuma proteção, nem sequer um revólver. Uma arma não os ajudaria, apenas chamaria a atenção de mais e mais infectados.

Parou para pensar por um momento, precisava tomar coragem. Malev já fizera esse tipo de trabalho centenas de vezes, senão milhares, e em todas elas o velho se questionava se sairia vivo ou não daquela investida. Mas também, em todas, o velho tomava coragem e liderava a equipe.

Pôs-se a engatinhar no piso gelado, puxou uma lanterna que estava no em seu busto, por baixo do couro de sua jaqueta. Colocou-a na boca e saiu tateando o chão para dentro do supermercado. Tendo em posse um punhal e uma faca um pouco maior. Logo percebeu que estava sem o pano com álcool, imediatamente tirou a lanterna da boca e parou para amarrar o pano. Dando uma olhadela por trás do ombro, viu Meia-mão e Chert, todos prevenidos com os panos em suas bocas. Morrerei, mas não nas mãos de um infectado, e sim, pelas minhas próprias mãos. Pensou, referindo-se ao fato de não ter se atentado ao pano no rosto.

Nunca era uma tarefa fácil. Encontraram o estoque de suprimentos cotidianos no corredor à frente daquele em que estavam. Puxaram as sacolas de dentro de outra sacola enorme que Meia-mão trouxera e puseram-se a enchê-las. Será questão de tempo até eles ouvirem. Levantou a mão para que eles parassem.

— Devemos acabar com os estaladores primeiro – Disse com o sussurro mais baixo que conseguira.

— Tem razão, Malev – Disse Chert, como quem estava concordando fielmente na ideia – Pois que vá você matá-los enquanto esperamos aqui – Concluiu.

Ele está me levando para a morte. Pensou.

Não tinha escolha, ou ele fazia, ou todos morreriam. Pôs-se a engatinhar novamente, desta vez, seguindo o barulho dos estaladores. Os Estaladores, por sorte, não enxergavam e não poderiam ver a luz de sua lanterna, mas, por outro lado, tinham o som mais aguçado que qualquer outra criatura terrestre, se é que poderiam chamar aquilo de uma criatura terrestre.

Sentia apenas a sua respiração e tentava distinguir o som de sua própria respiração do som dos Estaladores. O frio do piso chegava em seu peito, como se o mesmo estivesse encostado nele. Sentia também calor, calor e frio por dentro da sua jaqueta de couro. O cheiro da urina era insuportável.

Andou, andou e andou mais um pouco e parecia não andar nada. Tinha medo de olhar para trás e ver que estava sozinho. Em um momento, conseguia distinguir os dois barulhos, o “Tec-tec-tac-clac-clac-tec-tac-clac” que os Estaladores faziam. Decidiu seguir um dos barulhos, a fim de pegar um por vez.

Conseguiu vê-lo, a primeira visão foi assustadora. O fungo tinha consumido boa parte do seu rosto. Onde deveriam haver olhos, boca, nariz e orelhas, haviam apenas uma massa espeça e grudenta que balançava ao caminhar do estalador. Tinha me esquecido de como eles são nojentos. O estalador encurvava-se para baixo, como que estivesse procurando algo, outrora levantava a cabeça para cima, ou o que restou dela. Fazia um barulho ensurdecedor. O barulho o ajuda a enxergar. Com o barulho que os estaladores ressoavam era possível receber respostas dos objetos. A frequência sonora bate nos objetos e deve ressoar como uma música para esses filhos da puta.

A tática era simples, porém perigosa demais. Malev não conhecia muitos no acampamento que se vangloriavam de terem matado estaladores. Como o som do estalador é ressoado para frente, onde se encontra algo que um dia fora uma boca, é preciso ficar sempre atrás do estalador, na furtividade, e no fim, cortar sua garganta. Pensou Malev, como se estivesse ensinando a si mesmo.

O primeiro estalador não deu menos trabalho que o último que Malev se lembra de ter matado. Por poucos segundos quase fora pego, o Estalador se virou no momento em que o aço gelava aquilo que parecia uma garganta, e quase mordera seu braço. O segundo estalador quase fez Malev desistir e voltar para o bando, este estava preso dentro da sala da gerência, o fez subir as escadas para por um fim nele. Teve de fazer uma manobra arriscada, passar pela frente do Estalador, porém, com cautela e há uma distância considerável. Depois contornou por trás e pois fim a vida do infectado. Vida.

Malev desceu as escadas já despreocupado e seguiu em direção do Bando.

—Corredores – Gritou Chert, já com um em cima de si.

Malev só teve tempo de reparar que as sacolas já estavam cheias de mantimentos. Eles me esperaram. E morrerão por isso. Também teve tempo de pensar: Esqueci que poderiam haver corredores e principalmente, esqueci o saco com os tacos perto da porta de entrada do mercado. Percebeu que fora quando dera um tapa em Chert, o mesmo que jazia ensopado de sangue em sua frente. A essa altura, esse frio que sinto em minhas costas deve ser sangue.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.