O fundo do poço, a boca da garrafa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Berry Punch trotava vacilante pela rua principal de Ponyville. Era a terceira vez naquela semana que a pônei deixava de ir trabalhar em sua quitanda. Levava consigo os alforjes com uma quantia generosa de moedas. Aqueles que olhavam para a pônei roxo claro se impressionavam com a crina, de tom mais escuro que sua pelagem, malcuidada, a expressão melancólica em seu rosto, os olhos opacos e perdidos na paisagem. A pônei terrestre quase esbarrou em um pégaso que trotava distraído. Ninguém falava com Berry. Aqueles que chegavam próximos a ela logo se afastavam, a pônei fedia a bebida. Tomara um porre no dia anterior e não tomara banho.
Recebia todo tipo de olhar censurador, mas pouco se importava. Berry continuava seu caminho até o único lugar naquela terra em que se sentia bem ultimamente: o Bar do High. Era uma construção simples, de dois andares que ficava numa esquina do centro da cidade. Poucos pôneis iam até lá durante o dia, o que a deixava aliviada, pois podia ficar sozinha consigo mesma e seus pensamentos. Ao avistar o estabelecimento, sorriu. Foi até o lugar. Várias pequenas mesas de madeira eram dispostas dentro do bar e algumas poucas do lado de fora, bem em frente. Num canto ficava o balcão, onde prostrava-se um garçom entediado, em outro canto, um jukebox tocava músicas tão velhas quanto vovó Smith, e tão sofridas quanto a própria “sofrência”. Berry sentou-se a uma das mesas na frente do bar e esperou que o garçom viesse servi-la. Aquele momento maravilhoso em que um pônei que ela não conhecia a perguntaria, “O que deseja?”, e ela poderia sentir que algum pônei se importava de verdade com ela. Que algum pônei queria lhe fazer feliz.
O garçom olhou de trás do balcão para a cliente e fechou o rosto numa expressão desgostosa. Reconheceu a pônei que se sentara na mesa. Berry Punch havia vindo outras duas vezes para passar o dia inteiro bebendo ali. Bebia até passar mal, ou bebia até chorar, o que viesse primeiro. Ele trotou até a beberrona e fez a pergunta que dava prazer à jovem pônei terrestre.
“Me dê um vinho. Eu quero a garrafa do mais barato que tiver por aí”, ela disse com um sorriso quase genuíno e satisfeito no rosto, apesar do olhar profundamente entristecido. O atendente assentiu e foi buscar a bebida, não sabia se sentia nojo ou pena da cliente.
A pônei colocou as patas dianteiras sobre a mesa, em seguida, apoiou o rosto com os cascos e ficou a observar os habitantes de Ponyville indo e vindo. Berry se perguntava por que os outros pareciam tão mais felizes quando ela estava triste. Parecia injusto, os potrinhos galopavam, as mães sorriam, os pégasos faziam piruetas no ar, unicórnios trotavam levando consigo todo tipo de coisa que levitavam com magia, amigos contavam piadas uns para os outros, amigas faziam fofoca, até o maldito sol parecia estar brilhando mais que o normal. Por que a vida de todo mundo, ela pensou, continua seguindo enquanto a minha parou totalmente? Berry deu um riso esganiçado e breve que mais pareceu um soluço e a voz em sua cabeça entoou, filho da puta.
O garçom voltou, trazia consigo o néctar da felicidade. Deixou a garrafa em cima da mesa, junto com uma taça. Serviu o vinho. Sem olhar para Berry, perguntou se ela gostaria de pedir algo mais. Após a resposta negativa da pônei, ele se virou e foi de novo para dentro do bar.
Berry suspirou e ficou olhando para a taça de vinho a sua frente. O olhar concentrado no líquido. Por que eu faço isso, perguntou para si mesma mentalmente. Segurou a taça entre os cascos de forma habilidosa. Mais habilidosa do que gostaria. Era a terceira vez naquela semana que estava ali, sentia-se envergonhada. Tomou um gole generoso de vinho. A felicidade liquida desceu pela goela da pônei terrestre aquecendo seu corpo. Um calor agradável caminhou por seu pescoço, por seu peito, e finalmente instalou-se em seu ventre. Berry sorriu, acabara de lembrar porque fazia isso, há algum tempo nada lhe deixava mais feliz que beber. No instante seguinte a taça estava vazia e a pônei sentia-se quase confortável. Berry era muito mais habilidosa que qualquer outro pônei quando o assunto era segurar bebida entre os cascos, sequer teve dificuldades em encher a taça mais duas vezes. Quando não estava no bar, sentia-se velha, feia, gorda. Ao beber, sentia-se menos velha, menos feia, menos gorda. Quase podia se sentir bem consigo mesma. Berry Punch sorria, estava quase em paz, era como se aquela garrafa de vidro escuro fosse sua melhor amiga, ou seu amante. E nada podia ficar entre eles e o júbilo que compartilhavam.
Um susto! Sua melhor amiga havia secado, já não servia para nada. “Garçom!”, Berry gritou com a voz rouca. Pediu outra garrafa. No início era sempre assim: a felicidade, a garrafa amiga, a sensação de estar bem no âmago de si, o sentimento de que poderia superar qualquer um dos seus problemas. Qualquer um. Então, vinha a queda no moral da pônei, como um predador que se aproxima da presa durante a noite, sempre paciente, esperando para dar o bote certeiro. Quando a segunda garrafa já estava quase vazia, a mente de Berry começou a ficar embaralhada. Tudo o que a jovem sofria passava em flashes por sua cabeça, uma sensação de mal-estar alojava-se no peito, e só havia uma coisa que podia tornar as coisas mais claras, os pensamentos mais amenos, as sensações mais reconfortantes: outra garrafa.
“Como é que vocês conseguem? Por que vocês são felizes sem isso aqui?”, Berry perguntou em voz baixa, segurava a taça perto do rosto enquanto observava os pôneis indo e vindo pelo centro de Ponyville. A pônei suspirou profundamente, deixou a taça escapar dos cascos, cair no chão e se partir. A frustração não poderia ser maior, apesar da taça que teria de pagar, apesar da vergonha de estar visivelmente bêbada, apesar da voz confusa e balbuciada que tinha naquele momento e que dificultava chamar o garçom, a maior decepção de Berry era ver seu precioso vinho se espalhar pelo chão. A pônei deu um grito sofrido a plenos pulmões, algumas cabeças se viraram para olhá-la. A atenção que ela chamou não durou mais que uns instantes, logo que todos perceberam que era apenas a beberrona local fazendo suas costumeiras besteiras. Aqueles olhares reprovadores foram como ser apunhalada no peito repetidas vezes. Não deviam ficar olhando assim pra mim, ela pensou, deviam olhar assim pra ele.
O garçom trouxe uma nova taça, juntou os cacos do chão e se foi de volta para dentro do estabelecimento. Berry torceu para que aquele pônei tivesse dito alguma coisa, qualquer coisa. Queria ver um sorriso de alguém que a compreendesse ou apoiasse, ao invés de ficar invejando os sorrisos dos pôneis que não davam a mínima para ela. Seus melhores amigos agora eram garrafas e um garçom que, na verdade, não gostava dela. Encheu a taça até a boca e entornou tudo de uma vez. A bebida fresca descendo por dentro do corpo da pônei a fez ronronar bobamente, como um gatinho. Berry voltou a olhar para a passagem dos pôneis pela rua, deu-se conta de que uma dupla de pôneis trotava calmamente em sua direção. Um pônei branco, outro acinzentado. A beberrona não conseguiu distinguir quem eram, o predador finalmente dera o bote, a pônei estava meio zonza. Semicerrou os olhos e forçou a vista para identificar quem eram. Vinyl e Octavia, ela pensou preocupada. Baixou a cabeça e se concentrou em olhar a taça vazia na mesa. Por favor, que elas não venham pra cá, pensou. Quanto mais as pôneis se aproximavam, vindo na direção do bar, mais a bêbada queria que virassem para o outro lado, ou que um piano caísse do céu em cima das duas.
“Berry?”, Octavia perguntou gentilmente. A pônei roxa suspirou e respondeu um cumprimento com a voz enrolada. “O que está fazendo por aqui?”
“Isso tá meio óbvio”, Vinyl cochichou apontando para as cinco garrafas de vinho que jaziam vazias aos pés da mesa. Octavia deu um escorão na pônei unicórnio e perguntou, “Será que podemos nos sentar com você?”
A jovem bêbada estava tentada a dizer não. A última coisa que queria era que as amigas a vissem bebendo. Berry abriu a boca para responder, mas não soube o que dizer. Olhou frustrada para uma das cadeiras vazias ao redor da mesa. Octavia entendeu, equivocadamente, aquilo como um sim e sentou-se ao lado de Berry. Vinyl deu um longo suspiro e sentou-se na cadeira do lado oposto das outras duas, recebeu um olhar censurador da pônei cinzenta. A bêbada sentia um misto de vergonha e aborrecimento.
“Então, o que está fazendo por aqui?”, Octavia perguntou de novo, gentilmente. Berry abriu a boca mais uma vez. Quando nenhuma resposta veio, Vinyl censurou, “Tomando um porre, né?” Aquelas palavras fizeram a DJ ser fuzilada pelo olhar da musicista. Vinyl bufou, cruzou as patas dianteiras e desviou o olhar para a rua. Berry sentiu uma pontada de raiva e decepção juntas.
“Por que está fazendo isso consigo mesma?”, a musicista questionou. Sua voz era tão cheia de pena, e ao mesmo tempo tão cheia de um carinho preocupado que Berry ficou propensa a dizer tudo o que lhe afligia. Ou talvez a propensão a falar viesse do álcool que corria por suas veias. Não havia ao certo como saber. A pônei roxa levantou um casco e acenou vacilante para o garçom, ele traria uma nova garrafa em poucos instantes. Berry baixou a cabeça e procurou palavras em sua cabeça, não havia uma forma fácil de dizer, uma melancolia crescia dentro dela.
“Eu tô... triste”, ela respondeu finalmente. Fungou, olhou para cima, fungou mais uma vez tentando conter lágrimas. “Eu tô triste.”
Vinyl colocou os óculos na testa, seus olhos magentas tinham uma expressão inesperadamente solidária. Octavia colocou um casco nas costas de Berry. “Anda, me diz o que é que você tem”, a musicista instou em voz baixa. Berry respirou fundo duas vezes, antes de responder.
“A minha vida tá parada. Faz seis meses. E eu não tô conseguindo administrar as coisas, não consigo”, desabafou. Seis meses, Octavia pensou. Já sabia qual era o problema, mas não pôde conter a surpresa da amiga ainda estar sofrendo por causa daquilo.
“Evening?”, Vinyl proferiu em voz baixa. E só de ouvir o nome do ex-namorado de novo, Berry sentiu uma dor profunda no coração.
“Ele deve estar sorrindo com a outra por aí, enquanto eu fico aqui, tentando esquecer toda a minha mágoa”, Berry disse, ferida. O garçom trouxera mais uma garrafa, a bêbada encheu mais uma taça.
“Por que você não esquece esse idiota?”, a DJ questionou com uma expressão séria no rosto. Berry levou a taça à boca e começou a esvaziá-la, quando Vinyl fez menção de usar sua magia para tirar a bebida da pônei, Octavia impediu a DJ silenciosamente, com um aceno negativo de cabeça e um casco erguido.
Após tomar seu vinho, Berry respondeu chorosa, “Não tenho como. Ele ainda tá morando na pensão. Vejo aquele filho da puta quase todo dia, o quarto dele fica no final do corredor”.
“Eu achei que vocês tinham terminado bem...”, Octavia falou.
“Terminar bem? O que é terminar bem? Ele me trocou por outra. E eu tenho quase certeza de que ele me traía! Terminar bem? Só termina bem quem é o terminador, não o terminado. A corda arrebenta sempre pro lado mais fraco. Ele terminou comigo e já tava com outra pônei. Eu fiquei sozinha, largada, mal-amada. Ele não terminou comigo, ele me jogou fora. Sabe o que é isso? Ser jogada fora? Se sentir um brinquedo quebrado e que não serve mais? Cacete, vocês não sabem o que é isso!”, Berry bradou sofregamente. Fungou fortemente, seus olhos estavam marejados. Com um casco, ela enxugou as lágrimas que se precipitavam por suas pálpebras.
“Isso foi há meses!”, Vinyl afirmou, havia certa indignação em sua voz.
“E faz seis meses que eu acordo e me sinto triste! Tem dias que eu queria não acordar. Outros em que eu queria não sair da cama, mas não sair da cama é pior, porque eu não teria mais nada pra fazer que não fosse pensar nele. Sabe o que é pior? Tem dias que eu acordo e penso que tá tudo bem, que eu não me importo mais, que eu vou superar tudo o que ele me fez e que eu vou ficar feliz de novo e perdoar tudo. Então eu acordo no dia seguinte e percebo de novo o quanto eu odeio ele, e o quanto ele me fez e ainda me faz mal. Ele terminou comigo, eu fiquei chorando, sozinha, no meu quarto, enquanto ele foi pedir aquela vagabunda em namoro. Vocês sabem o que é isso? A minha vida tava ali, parada. A dele continuava, e continuava feliz. Eu tava chorando enquanto ele tava sorrindo”, Berry disse, já não conseguia mais conter as lágrimas, que escorriam por seu rosto. “Disse que a gente ainda podia ser amigos, que o carinho por mim ainda era o mesmo! O carinho era o mesmo?! Que tipo de filho da puta diz isso? É muito fácil. É fácil demais terminar com alguém e dizer que ainda dá pra ser amigo, não é? Afinal, não é você que vai precisar lidar com o sofrimento! Eu odeio ele. Eu odeio tanto. Tem dias ainda em que eu me arrependo de ter falado com ele pela primeira vez. Se pudesse voltar no tempo, jamais teria falado com ele. Foi um dos maiores erros que cometi.”
Octavia ouvia tudo num silêncio resignado, olhava para os próprios cascos, sequer sabia o que dizer. Vinyl tinha vontade de gritar com Berry, dizer o quanto a pônei terrestre estava sendo idiota, ainda remoendo uma decepção de seis meses, passando seu tempo a beber para esquecer algo tão imbecil; apenas não o fazia porque tinha o receio de que pudesse piorar o estado da amiga bêbada.
“Já pensou nos erros que está cometendo agora? Tipo deixar o trabalho para ficar se embebedando?”, Octavia indagou.
“Eu preciso disso. Deixa a vida suportável... Se vocês não tivessem aparecido, eu ainda não estaria chorando”, Berry retrucou.
“Tem certeza de que isso é uma coisa boa?”, Vinyl perguntou.
“Não. Mas me ajuda... Me ajuda depois de ter visto ele trotando pela pensão, ou ter parado pra conversar com ele porque ele acha que tá tudo bem entre a gente e eu não tenho coragem de explodir conversando com ele, pra dizer que odeio tudo o que ele me fez. Ele é um idiota. Hoje, mais do que nunca, eu vejo isso. Sabe o que é ser íntimo de algum pônei? Ele saber o que você gosta ou não, ele saber de coisas suas que mais ninguém costuma saber? E então você passa a não mais ser íntimo desse pônei, mas, às vezes, ele vem conversar com você e usa essas coisas que ele sabe pra implicar com você, fazer piadinhas maliciosas às suas custas, como se fosse realmente engraçado. Eu não sei se é ignorância ou maldade. Na verdade, eu acho que é maldade mesmo. Um cinismo maldoso. Ele se faz de idiota, mas gosta de saber que eu sofro”, Berry explicou. O olhar da pônei roxa permanecia sobre a taça, avaliando uma gota de vinho.
“Você não pode ter certeza de que ele gosta de te ver sofrer”, Octavia defendeu.
“Eu tenho sim, ele é um sádico; fica feliz por machucar os outros. Burro ele não é, não pode ser. Burra sou eu. Eu que fui burra. Me fazia de cega pra relação dele com aquela... aquela outra. Mais uma coisa que me mata aos poucos, às vezes eu fico me comparando com ela. Eu fui muito, muito burra, ficava me fazendo de santa, de potra de família, comportada. Enquanto ela... toda vez que encontrava com ele... só faltava esfregar o rabo na cara dele. Ela ficava instigando, estimulando, excitando. Eu não conseguia fazer isso. Ela é cheia de fricotes, diz que tem postura de uma dama na rua, é uma puta na cama. E eu? O que eu sou? Eu não sou a mais bonita, não tenho fricotes de dama, eu bebo, eu não sou puta na cama, eu tô gorda. Como é que eu ia competir com isso? Tava muito óbvio que ele ia transar com ela. Mas enquanto ele ficasse voltando pra mim, eu nem ia me importar de ter uma galhada maior que a de todos os veados em Equestria, eu tava apaixonada... Mas ele me trocou por ela. A gente ainda conversa de vez em quando, na pensão. No início da semana, ele veio falar comigo. Disse que tinha visto uma cadela no pet shop e lembrou de mim. Acredita nisso? Eu fiquei tão mal...”
“Mas todo mundo sabe que você adora cães”, Vinyl interrompeu.
“Mas ele diz que a outra é uma princesa. Eu já vi ele dizer isso. ‘Ela é uma verdadeira princesa’, ele diz. Ele fica comparando ela com princesas, quando fala em princesas, lembra dela. Quando lembra de mim, é por causa de uma cadela. Eu lembro uma cadela. Quando eu penso nisso, dói tanto. Ele não me respeita. Acho que nunca me respeitou”, Berry falava entre soluços, suas palavras eram entrecortadas pelo choro, pela decepção, pelo estresse, pela vergonha, pelo sofrimento, pela bebida. Seus olhos não poderiam ser mais tristes. “Às vezes, quando eu falo com ele, eu xingo ele de toda a forma que posso, tento alfinetar aquele desgraçado com palavras... ele nem liga, eu nunca consegui fazer ele se sentir mal, de forma alguma. Ele ri, acha engraçado. Até fofo.”
Quando Octavia havia visto, mais cedo, a amiga triste e sozinha na mesa do bar, não estava preparada para tudo aquilo. Achou que poderia resolver qual fosse o problema, mas não sabia o que dizer. A história de Berry parecia quase surreal, afinal, já havia meses desde que o relacionamento dela acabara, mas o discurso choroso e as palavras duras pareciam tão brutalmente honestos que a musicista não sabia como reagir. Nenhum pônei fica seis meses sofrendo assim, a pônei acinzentada pensou. Em seguida, duvidava do próprio pensamento. Ao longe, a princesa Twilight Sparkle voava em alta velocidade, seguida por suas amigas, iam para sabe-se-lá-onde.
“Aposto que vocês acham que eu sou louca, não é? Que eu ‘sofro de problemas mentais’. Aposto que ele diria isso, se se desse conta de todas essas coisas que sinto. Ou talvez ele diga isso para os outros pelas minhas costas”, a beberrona falou amargurada.
Berry continuou, “Eu fico me sentindo um nada. Lixo. Coisa que se joga fora. Coisa. Pra ele eu fui, eu sou, uma coisa”.
“Para com isso, você não é uma coisa. Se você fosse uma coisa, não teria amigas que te amam, não teria uma família que te ama”, Octavia bradou. “Supera isso! Você tem quem te ame de verdade.”
“Família e amigas que me amam... Olha como eu tô ultimamente, olha bem pra mim! É tão difícil assim perceber que esse amor de vocês é o amor que eu tenho e não o amor que eu quero?”, a bêbada chorona disse. Feriu um pouco as amigas no processo, sem querer.
Octavia, então, retrucou, “Você quer voltar pra ele? É isso? Depois de tudo o que ele fez?” A pônei roxa balançou a cabeça negativamente com força, chorava envergonhada. Voltar pra ele jamais, pensou, seria me desvalorizar dez vezes mais.
“Larga a pensão, vem morar com a gente”, Vinyl propôs finalmente, não estava aguentando ver a amiga daquela forma.
Berry assentiu silenciosamente, sem pensar. Na verdade, sequer ouvira o que Vinyl havia dito. Berry falou de novo, “Sabe o que é se sentir diminuída? Diminuída ao ponto de não se sentir um pônei? Isso também me mata aos poucos, me sentir desvalorizada, sentir que posso ser usada e trocada e jogada fora, ao ponto de achar que sempre vou ser uma coadjuvante na história de alguém, mas nunca a personagem principal da minha própria história”. A pônei, cheia de azedume no coração, encheu a taça de novo. Precisava disso.
FIM.
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