O frenesi por Avil Flam
2 Capitúlo Um
Notas iniciais
Era primeiro de janeiro de 2014, finalmente o "Capodanno" (Ano novo) tinha chegado e com ele a minha existência pós colegial também. Uma tragédia sem fim. Não sei de onde surgiu essa ideia infame de resumir nossa existência em uma caixinha predatória e todo esse sistema de ser "obrigado" a se formar, trabalhar, casar e procriar. A vida é bem mais que isso, não? Eu odeio ter que pensar sobre isso e sobre o que eu devo fazer durante toda a minha vida. Isso deveria ser considerado tortura em 3º grau. "Mist!!!" (Merda). Eu odeio o capitalismo com toda a minha força vital. " Verpiss dich Capitalismo" (Vá a merda capitalismo).
De repente, fui tirada dos meus devaneios por uma voz altamente irritante e incisiva.
— Rue? Rue Maria? Terra chamando Rueee. Ouvi Bella dizer, enquanto adentrava o meu quarto e jogava um travesseiro em mim. Ao abrir os olhos, senti o travesseiro atingir em cheio o meu peito. Reagi imediatamente, murmurando palavrões em alemão... "Komm Bella" (Porra Bella). Qual é o seu problema? — perguntei. Ela respondeu, gargalhando: Meu problema é ser sua irmã mais velha e consequentemente responsável por você.
Levantei a cabeça e fiz uma careta. Ela adora se fazer de responsável. — Até parece, Bella Lazzani Riviera, você não é responsável por você, quanto mais por mim. — Gargalhei, levantando da cama. Afinal, o que você está fazendo aqui? Você não tinha que cobrir o vovô no antiquário hoje? — Franzi a sobrancelha, enquanto a observava, e no rosto bochechudo se formava um sorriso cínico, o qual eu já conhecia muito bem.
Hmmm, então irmãzinha... "Dea della mia vita" (Deusa da minha vida), você precisa quebrar um galho pra mim hoje, per favore. (Por favor). Por favor, vai! Ela se ajoelhou e ficou implorando com aqueles olhos redondos castanhos claros, como se fossem duas berlindes gigantescas.
— Deixa eu pensar? Hum... NÃO. Já faz duas semanas que você vem com desculpinha pra não ficar na loja. Dessa vez, não. Ah, dessa vez, não mesmo. No. Nein. Non. — Ri mentalmente, adorando vê-la ficar com a face em estado de choque e passando paulatinamente para o desespero.
PELO AMOR DE DEUS RUE MARIA, dessa vez é sério, eu preciso que você me cubra hoje, a Giada finalmente me convidou pra sair e eu não posso deixar essa chance passar. Você tem noção do quanto eu sonhei com esse dia? — Ela afinou os olhos, quase forçando um choro decadente. — Tudo bem, respondi. Mas você vai ficar me devendo uma. E eu vou cobrar com juros e correções. Disse por fim. Ela levantou e me abraçou sorrindo. — Você é a melhor irmã desse "il mondo intero" (mundo interinho). — É, eu sei disso — respondi novamente, enquanto retribuía o abraço.
Em resumo, Bella Lazzani Riviera mais conhecida como minha irmã mais velha com a diferença mínima de 02 anos consegue tudo o que quer de mim desde sempre. O que é muito injusto, afinal, a caçula sou eu e quem deveria ser boa em fazer chantagens emocionais e todo espetáculo com direito a aplausos no final, deveria ser io (eu). Porém, como a boa capricorniana que sou, falho miseravelmente todos os dias da minha vida. Já a aquariana nasceu com o dom de me pôr no bolso e no fim das contas, eu sempre faço o que ela quer. E mais uma vez, estou eu, a caminho da Via Crociferi, conhecida como uma das vias mais históricas e fascinantes do mundo inteiro, pelo menos pra quem gosta de história e é apaixonada por antiguidades, como eu. Passar por aqui é sempre uma das experiências mais assombrosas da vida. Mas não se deixe enganar, apesar da beleza descomunal dessa cidade e de suas vias, o trânsito é puramente caótico e infernal. "Oh dios mio. Come amo e odio Catânia." (Oh meu deus, como eu amo e odeio a Catânia).
Cheguei ao famoso antiquário Lazzani composto pelo famoso barroco catanês às 16:00 PM. Parei em frente, a fachada antiga e rochosa, ao lado da inconfundível Igreja de San Francesco Borgia com suas duas grandes escadarias de pedra, e adentrei na loja, encontrando meu avô no balcão com a boina suspensa falando ao telefone. O Sr. Diedro Lazzani proprietário do Antiquário Lazzani há aproximadamente 30 anos. Uma loja de família que foi passada de geração por geração. Observando meu avô falar ao telefone, me deparei como os fios grisalhos que escapavam pela boina, combinando com sua face enrugada e suas bochechas avermalhadas por culpa do calor. Sem cumprimentar meu avô, passei direto pela porta e joguei minha mochila da Erli Fantini pelo balcão. Meu avô me viu passar e fez um gesto com a mão esquerda, levantando dois dedos na minha direção. — Ciao nonno (Oi vô), disse enquanto me aproximava. Ele desligou o telefone e sorriu. — Olá, Rumie, respondeu me puxando pra si e depositando um beijo na topo da minha cabeça. — Cadê sua irmã?
— Não já sabe vô... Diz ela hoje que tinha um compromisso e só faltou chorar, implorando pra ficar no lugar dela hoje. Então, cá estou. — disse gesticulando e ponderando as mãos de forma cômica. Ele riu e balançou a cabeça. As vezes eu me pergunto quando é que a Bella vai tomar jeito. Pelo visto, nunca né?
— Um dia quem sabe. Até lá, você sempre pode contar comigo, você sabe que eu amo isso aqui. Pra Bella isso não passa de velharia. — Ele me aperta e faz um som de murmurro. Retribuo o aperto. — Eai vô, ainda vai buscar a Lia ou vai encontrá-la no centro hoje?
— Vou busca — lá. Ele me solta, pega as chaves do carro e sorri. Ah, antes que eu me esqueça, hoje uma aluna da Arte Della Casa vem hoje procurar algum artefato ligado a Dante e Beatriz. Por favor, ajude a garota. Ela é "brava gente" & molto inteligente". (Gente boa e muito inteligente).
— Me diz nonno, quem você não acha gente boníssima e muito inteligente? — Enfatizei, sendo irônica. Ele concordou comigo e gargalhou em seguida, e assim saiu do antiquário, me deixando sozinha rodeada de peças únicas de valores inestimáveis.
Enquanto organizava a prateleira dos vasos da dinastia de Alexandre, O grande, ex rei da Macedônia, 356 a.C. Coloquei para tocar no Spotify, Felling Good — Nina Simone. Durante a limpeza, balançava o esqueleto, cantando loucamente sem parar. E ao virar o pescoço para trás para pegar o pincel, me deparo com uma garota de cabelos longos e olhos pretos como jabuticaba me fitando com um sorriso debochado no canto da boca. Ao me atentar com a cena que eu estava executando, pulo rapidamente do banco e paro a música. Inconsequentemente sai da minha boca, diversos palavrões em alemão... "Was zum teufel" (que caralho). Digo sem pestanejar.
Ela olha pra mim com os braços cruzados como se estivesse adorando toda aquela situação, e pergunta: Was zum teufel? Isso é alemão? — ela pondera, arqueando a sobrancelha, me observando com curiosidade, eu arriscaria dizer. — Você sempre recebe seus clientes, assim? Que recepção belissíma. Ela diz debochada, fazendo um gesto as mãos levando-as na boca e fazendo um barulho de beijo no ar. — Por que se a resposta for sim. Com toda certeza, eu vou aparecer mais vezes. A garota de cabelos e olhos pretos, verbalizou de forma pausada e zombeteira.
Sim. Claro que sim. Inclusive você perdeu o melhor do show. — disse de forma irônica e impaciente. Qual é? Quem essa garota pensa que é? — Pensei, mordendo o meu lábio inferior de nervoso. É muita audácia! . E ah, respondendo a sua pergunta, sim é alemão! Meus parabéns, você consegue reconhecer outra língua fora do italiano casual. Realmente, eu estou impressionada. — expus, com um sorriso nos lábios, cruzando os braços.
Para quem estava sensualizando a meia hora, você é bem nervosinha, né? Relaxa! Não se preocupe, as vias históricas da Catânia não irão saber da sua dancinha desajeitada. — Ela disse de forma sarcástica, enquanto gargalhava olhando profundamente pra mim. Foi um showzinho e tanto, mas eu estou aqui para analisar algumas peças sobre Dante e Beatriz. Nada pessoal, tá? — Ela completou.
De repente me dei conta que essa era a garota "brava gente" que o vovô tinha comentado. Se essa é a boa, não quero imaginar a versão ruim. Sinceramente, o Sr. Diedro Lazzani já teve uma avaliação melhor de caráter. Pensei, enquanto vislumbrava a garota de olhos pretos na minha frente. — Então, você é a garota da Arte Della Casa ? Não sabia que a Arte Della Casa tinha baixado tanto o nível. — Disse com um sorriso cínico nos lábios.
Hm, olha só, é impressão minha ou você tem em alta conta a Arte Della Casa ou me tem em baixo nível, apenas porque eu não falo alemão, só o italiano casual? Foi assim, que você disse, né? — Ela disse, enquanto se aproximava do balcão, enquanto me analisava atentamente. Claramente se divertindo com a situação.
Merda garota! Qual é o seu problema? — disse de forma direta e sem paciência, apesar da minha fala ríspida, ela inevitavelmente parecia estar se divertindo com a situação.
Ei, calma ai! Quem veio com quatro pedras na mão foi você, ragazza (garota)! — Eu só vim pesquisar uns artefatos sobre Dante e Beatriz. Você que me recebeu assim, a culpa não é minha. — Ela disse, enquanto tamborilava os dedos no balcão espesso e um pouco empoeirado.
Respirei fundo, tentando me controlar. Como eu odeio gente cínica, pensei, ao mesmo tempo que rangi os dentes em forma de frustração. — Ok. Isso não faz diferença. Respirei fundo. O que exatamente você quer ver de Dante e Beatriz? — perguntei em oposição a minha vontade.
Na mesma proporção que meus lábios se moviam, ela me observava de um jeito intrigante. Ela respondeu: Hm... Nao sei, exatamente. Eu vim aqui outro dia e um senhor me disse que novas peças chegariam. Não estou procurando nada específico, mas quero encontrar algo que possivelmente Dante tenha presenteado Beatriz. Algo marcante. — Ela disse de forma ponderada, olhando o antiquário ao seu redor.
Bom, esse senhor é o meu avô, o dono desse antiquário. Não sei se novas peças chegaram, mas ele avisou que você viria. Dei a volta, saindo do balcão e indo em direção ao corredor. Talvez você encontre o que esteja procurando aqui, disse parando em frente a um baú de aparência amadeirada com detalhes prateados e com símbolos de anjos incrustados no topo. Ela me acompanhou, parando atrás de mim e só por um segundo eu senti uma vibração estranha e junto com ela, o cheiro do seu perfume doce invadiu minhas narinas... me causando uma sensação incomum.
Ela se agachou do meu lado, e olhou pra mim compenetrada, e perguntou: Posso abrir? — apontando diretamente para o baú. Respondi imediatamente. — Sim. Ela sorriu e abriu o báu lentamente, apoiando a parte de cima na parede que estava na sua frente. Dentro do báu, tinha inúmeros artefatos, entre eles, um diário desgastado pelo tempo, pinturas em formas de pergaminhos, uma caneta tinteiro e um colar obsoleto prateado com uma pedra cristalizada no meio que parecia resplandescer diante da luz que adentrava no antiquário. Me agachei ao seu lado completamente fascinada por todos os objetos que estavam dentro do báu. Acompanhei o olhar da garota de olhos pretos como jabuticaba e ela parecia estar em encantada conforme apanhava os itens com as mãos. — É extraordinário" — Ela verbalizou, enquanto sorria pra mim com o colar nas mãos. — Muito mais do que eu imaginava, ela completou radiante.
Sorri de volta. Era fascinante ver alguém tão feliz por tão pouco. — Sim, é incrível. Respondi pra ela, balançando a cabeça, observando — a. Ela sentou no chão, encostando seu joelho junto ao meu, pegando o diário desgastado com as mãos e abrindo-o com tamanha delicadeza. — É irreal imaginar que Dante foi apaixonado por Beatrice durante toda a sua vida? — Ela perguntou, enquanto folheava o dirário e olhava pra mim de forma intensa.
Não sei.. respondi pausadamente... — Acho que o amor é algo irreal. Inconsequente. — ri nervosa. é algo indecifrável, né? — perguntei, franzindo os olhos, meio perdida.
O amor é uma odisséia. Talvez a odisséia mais delirante de nossa vida. De toda vida. — Ela respondeu arrojada, jogando a cabeça pra trás, rindo em seguida. Cutuquei o joelho dela com o meu, rindo ao mesmo tempo. — É, talvez seja. — Respondi, enquanto sentia um arrepio eletrizante ao cutucar o joelho dela com o meu.
Olha só, tenho que admitir que você não é tão detestável quanto parece. — Deixei escapar, enquanto consertava a minha postura diante do chão gelado. Ela parou de rir e me olhou intrigada. — Bom, eu tenho que concordar que você também não é tão rabujenta quanto parece ser. — Ela diz, analisando a minha expressão. — Inclusive, eu não sei o seu nome, ragazza intempestuosa! — Ela diz, cutucando meu braço com o seu cutuvelo.
Gargalho sem querer, sentindo o seu toque. — Meu nome é, Rue! Rue Maria. — Digo comedida, passando as mãos no meu cabelo. Ela sorri sem mostrar os dentes, e respondi de forma enigmática, enquanto estende as mãos para me cumprimentar. — Prazer, Rue! Eu sou, a Avil. Avil Flam. — Ela diz, finalmente. E esse nome ecoa paulatinamente na minha cabeça como se fosse um sino tocando em uma igreja. E sem perceber, eu repito. — Prazer, Avil Flam.
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