Notas iniciais
A história foi escrita depois de meses sem ter o que fazer, praticamente no limite do prazo. Ela tem como prioridade ser a participante do Delipa29, com o tema "Feitiço de natal", conforme fora proposto, embora não se use do filme original, mas apenas uma referência a história tratada. Qualquer semelhança com qualquer outro fato narrado, é mera coincidência.

Fazia alguns dias que Sabrina não via mais Harvey, pois ela escolheu permanecer afastada o máximo que pudesse dele. Afastada por escolha (mesmo contrariada), não podia deixar de pensar que tinha errado ao revelar que ela era, na verdade, uma feiticeira de uma linhagem tradicional de feiticeiros e que, por Satã!, havia feito o pacto com o cabrudo para obter poder e salvar a pequena cidade de Greendale. Os cabelos cinzentos denunciavam essa sua nova fase, porém, seus sentimentos humanos permaneciam a incomodá-la ainda o peito, talvez, sangrando aquele coração adolescente aflorado pelo amor juvenil que nutria pelo garoto.

— Já é dezembro, Ambrose. — olhou ao redor, pensativa. — É de todo mal se eu presentear o Harvey com algo? — indagou.

— Sabrina, minha querida e pequena Sabrina; foi escolha sua manter-se distante dele pelo fato de sê-lo humano. — encarou-a. — Mas ainda bem que sempre podemos arrepender-nos, não é? — brincou o bruxo.

Ambrose levantou-se da cama encostada na parede do seu quarto, puxando de debaixo dela um pequeno baú velho com alguns lacres. Palavras baixas e enfeitiçadas foram citadas rápidas o suficiente para uma pequena corrente de ouro brilhar próxima a fechadura do objeto de madeira e o barulho de uma chave destrancando as engrenagens de ferro ser ouvida. Sabrina observou-o, curiosa, enquanto ele vasculhava em um baú que, embora pequeno, parecia guardar mais coisas do que aquele tamanho o cabia guardar.

— Pronto! — o feiticeiro disse.

— Miaau. Miauu. — ouviu-se o miado quando o gato preto entrou pela porta entreaberta.

— Fascinante, Salém. — ela riu.

— Familiar fofoqueiro. — Ambrose pareceu entediado. — Pois bem, já que não será surpresa, explico-lhe como funciona. Esse é um calendário mágico. — pausou e foi até a porta fechá-la, dizendo baixo em seguida: — Não deixe que tia Hilda e tia Zelda descubram que eu lhe dei isso... Elas me queimariam nas chamas infernais. — riu.

— Eu prometo! — disse rapidamente a bruxa.

— Sabrina. — chamou-a em tom de advertência, balançando a cabeça em desaprovação logo em seguida. — Como eu dizia: este é um calendário mágico. — levantou o objeto. — Até próximo o final do solstício de Inverno, quando as chamas de Yule ainda queimarem nas noites frias protegendo-nos dos maus, quem receber esse calendário será capaz de revelar o que tiver de mais oculto em seu coração. — riu. — Será você quem está escondida naquele coração, minha cara Sabrina?

— É o que eu mais queria; por Satã.

— x _ x _ x _

A campainha tocou na casa de Harvey. Por baixo da entrada da porta foi deixada uma carta endereçada a ele. O perfume que emanava do papel rosado e limpo, com letras minimamente pensadas, não deixava dúvidas de quem havia sido o remente daquele envelope. Pegou despretensiosamente, porém, ainda receoso em abrir. Será que Sabrina tinha uma nova bomba para contá-lo? Já não a bastava ter ressuscitado o irmão dele do jeito que foi? Eram dúvidas normais de quem de alguma maneira se sentiu traído pela garota que ele achava conhecer e, sem dúvidas, nutria um carinho diferente por ela.

Abriu o envelope devagar, com cuidado, e puxou para fora o papel de carta preto com letras cinzas, além do calendário que estava anexado ao papel escrito. Franziu o cenho, curioso, sentou no sofá da sala e começou a ler o que estava escrito: “Querido Harvey...”, começou a leitura da encomenda que havia recebido. A carta trazia versos que deixam claros os sentimentos que a bruxinha tinha por ele, além do imenso carinho que ela ainda sentia pelo humano. Nas frases finais talvez restasse nela a mágoa pela reação que ele teve, contudo, sem poder culpá-lo por nada; o segredo que ela tinha foi mantido até onde ela manteve, porque não teve coragem para contá-lo antes. “Sei que é simples. Mas quero que fique com este calendário. Ele lhe trará coisas incríveis. Lembranças incríveis. E, no final, espero que seja uma surpresa.”.

— Desculpe-me, Brina, mas você não me envolverá mais nessa loucura. — jogou o calendário para o lado e pôs a carta no envelope, guardando-a no bolso.

Os dias se passaram. Se antes era início de dezembro, o natal estava cada dia mais próximo tanto quanto a festa do solstício de inverno começaria em poucos dias. Harvey não tinha percebido, também não tinha achado mais estranho do que o normal, mas nos dias seguintes ao recebimento do calendário, pequenos enfeites de natal começaram a surgir pela casa; na cabeça dele provavelmente era o pai, mesmo que estivesse perdido entre uma garrafa de bebida alcoólica e outra. Não obstante – não só isso, como também os pesadelos que anteriormente tinha com o tiro de espingarda no irmão mais velho que ecoavam em sua cabeça também haviam cessado.

Todo dia era uma surpresinha diferente. De alguma maneira a angustia dele estava tornando-se menor. De alguma maneira, ele entendia melhor mais do que estava passando-se em seu coração. Harvey estava sentindo-se bem; estranhamente bem. Os dias conturbados pareciam ter ficado para trás. Ou melhor, sequer tinha existido com aquela sensação de leveza que estava a sentir. “Isso é obra da Sabrina”, pensou como um feche de luz enquanto bebia um gole quente de chocolate. As noites estavam começando a esfriar como já era esperado.

“Ela não pode ter feito isso novamente”, vislumbrou as chamas na lareira jogado no sofá. “O calendário!”, pensou rápido, olhando para o lado e não o encontrando. Levantou-se com um pulo, derrubou a xícara de chocolate quente e caçou entre as almofadas após um sonoro “porra, que merda”. Não encontrava de maneira alguma na sala, por isso correu até a cozinha e caçou no lixo, não achando, porém, qualquer vestígio que fosse. Parou escorado na pia, tentou limpar a cabeça para lembrar-se aonde poderia ter enfiado aquele calendário chegando à conclusão que só poderia estar no lixo: seu pai, provavelmente, entre um copo e outro de uísque havia feito alguma limpeza por ali.

— Só pode estar lá fora. — concluiu.

Correu pela porta da cozinha até os sacos de lixo empilhados na parte inferior da residência. Arrancou o primeiro saco preto e caçou entre os descartáveis o que poderia ser o calendário, mas não achou nada. Rasgou o segundo, o terceiro, até que em uma pequena sacola plástica no canto dos outros conseguiu achá-lo, ainda intacto, como se fosse uma peça rara. Olhou para o calendário e cada dia desde o dia que ele havia recebido estava marcado. Palavras pequenas transcritas acima dos dias denunciavam cada coisa que havia acontecido com ele. Todavia, não somente isso.

— Mas que merda é essa... — estava perplexo. — que está aqui?

Era dia vinte e um de dezembro, quase meia-noite. As chamas de Yule queimavam em proteção dos bruxos em qualquer cidade que eles habitassem. As chamas brancas como as nuvens subiam a chaminé e o cheiro da madeira queimada impregnava o céu. As chamas se balançavam enquanto queimavam a madeira; elas protegeriam os bruxos dos males que espreitavam a noite a procura de uma casa desprotegida para fazer algazarra; na casa de Sabrina e suas tias não era diferente, as chamas queimavam.

Talvez, você se pergunte o que estaria escrito no dia vinte e um de dezembro. Porém, não era nada demais: “Você presenteará quem desanda vosso coração”, dizia as letras pequeninas escritas ali. Talvez, você também acredite que foi Sabrina quem havia escrito aquilo, mas não foi; o calendário era mágico: ele dizia e haver-se-ia de fazer, na verdade, o futuro. O que apareceu na sala, apareceu porque o pai da Harvey realmente colocou e colocou conforme os dias estavam marcados nas datas. Ele saberia se tivesse ficado com o calendário. Não somente isso: a sensação de conforto que ele sentia nos dias anteriores? Esses sim foram complementos do feitiço encontrado naquele pedaço de papel e esses sim feitos pela bruxa Spellman.

— É verdade! — olhou a fumaça da chaminé de casa. — Um presente.

Harvey voltou para dentro de casa e correu até o quarto. Dentro da gaveta da escrivaninha tinha uma pasta com várias folhas. Abriu-a e todas as folhas eram desenhos feitos por ele mesmo. Nas representações ele estava lá, porém, acompanhado. Abriu um sorriso fraco, mas animado com o que quer que ele tivesse desenhado naquelas folhas. Caçou uma folha de presente maior e encontrou-a jogada entre algumas roupas que amontoara alguns dias atrás. Passava da meia-noite, era verdade... Desceu as escadas e o pai estava em frente a lareira, caído, com mais uma garrafa de bebida diferente entornando. Respirava, embora desacordado, o que foi suficiente para confirmar que ainda estava vivo, então, deixá-lo-ia ficar ali mesmo.

— Ele vai ter que limpar essa merda... — o pai sussurrava do chão.

Fechou a porta após recolher-se dentro do agasalho que estava pendurado bem próximo do portal da porta de saída. Olhou para um lado e outro e segurava debaixo do braço o pequeno embrulho que havia feito. Saiu pelas ruas o mais rápido que pôde. O movimento era pouco, embora um ou outro ainda estivesse pelos bares a beber. Harvey andou o mais rápido que pôde andar e lembrou-se que uma vez havia visto Sabrina realizar o que ele estava prestes a fazer.

— Espero que eu consiga. — suspirou.

A caminhada não foi longe e nem perdeu muito tempo fazendo-a. Chegou na floresta negra e misteriosa, olhou os galhos secos das árvores, mas não temeu nada que pudesse acontecer. Uma trilha seguia floresta a dentro e ele seguiu por ela mesma, deixando para trás sua silhueta enquanto era abraçado pelo escuro da noite nublada, agora, vinte e dois de dezembro. Cinco. Talvez, dez. Logo ele chegou na parte central da floresta e lá claramente as folhas estavam movidas por vários pés. Fosse possível, então, que algum tipo de cerimonia havia sido realizada naquele mesmo local anteriormente?

— Bruxas. — sussurrou. — Muitas delas... — chegou a constatação óbvia. — Yule. — ele já havia lido sobre a cerimonia pagã.

Harvey sentou sobre uma rocha manchada pelo sangue de algum sacrifício... Ou, talvez, fosse apenas vinho de alguma orgia maluca que haviam feito ali. Ele achava que sabia o que fazer, mas não sabia sobre nada. Mesmo as palavras que ele recitou, vagarosamente, com a melhor pronuncia, não haviam surtido efeito algum. Já havia desanimado, estava cabisbaixo, triste, largando o presente que pretendia dar até cair no chão em cima das folhas.

— Não adianta, porque você não é um bruxo. — a voz era familiar.

— Eu imaginei isso. — respondeu. — Como me encontrou?

— Um gato. Digamos que ele estava passeando por ai... — riu-se.

Sabrina Spellman estava linda naquele vestido preto e seu batom roxo que contrastava com sua pele branca marcada no vermelho do frio. Sua expressão estava serena, sóbria, mesmo que forçasse um sorriso de canto nos lábios (e não fosse isso que ela quisesse fazer). Aproximou-se de Harvey o máximo que pôde e pegou-o pelas mãos, escondendo-as entre as palmas das mãos dela. Olhou-o nos olhos com certa doçura.

— É esse o seu presente? — olhou-o caído nas folhas.

— É sim. — engoliu a seco o restante de ar. — Brina, eu...

— Shiiuu... — colocou a ponta do dedo da mão direita nos lábios esbranquiçados do garoto. — Você não precisa.

— Mas eu... — insistiu. — O calendário...

— Sim. Era mágico! Foi meu presente de natal para você... — abraçou-o brevemente, afastando-se pouco tempo depois. — Eu sei que não deveria, mas você... Você estava sofrendo.

— Tudo bem. — ele disse, de coração. — Tudo bem, Brina. Eu agradeço!

— Harvey, eu farei isso por você... Não tenho problemas. Eu só quero que você seja feliz, mesmo que, para ser feliz, implique em não ser comigo.

— Você tem certeza disso? — estava confuso. — É estranho.

— Quer coisa mais estranha do que sua ex-namorada ser uma bruxa? — riu, mas estava prestes a chorar. — Esse é meu feitiço de natal para você.

A bruxa Spellman preparou o pequeno ritual de invocação e começou a recitar o necessário. Embora as lágrimas estivessem congeladas por baixo do rímel borrando-se aos poucos, não deixava que elas se liquefizessem e demonstrassem que ela estava a chorar. Tinha que ser forte, porque ela o amava de verdade. Segundos após os passos nas folhas molhadas pela neblina podiam ser ouvidos. A invocação estava bem ali em frente, linda como era esperado que estivesse.

— Vocês não conhecem uma coisa chamada celular não? — soou irônico. — Hey, Sabrina.

Havia percebido que ela estava prestes a chorar. Porém, só depois percebeu que ela não era a única que estava no local. Os olhos passearam de um lado ao outro e deu de cara com a expressão curiosa que o fitava por longos e preocupantes segundos.

— O que foi? — indagou descendo para mais próximo de Sabrina e Harvey.

— Cala a boca. — Sabrina falou baixo, mas irritada.

— Hey, Harvey Kinkle, o que você fez com ela...?

— Deixarei vocês a sós. — Spellman segurava o braço esquerdo com a mão do braço direito. Olhava para as folhas, até que se virou e ficou distante, sendo ela a receber o abraço da noite, sumindo da vista de Harvey.

— Eu só tenho uma coisa para dizer a você... — Kinkle falou.

— O que é? — fitou os olhos do ex-namorado da Sabrina, curioso.

— Feliz Natal, Nicholas Scratch.

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