Notas iniciais
Oi pessoal! Como disse nas notas, tive essa ideia com base num tweet que eu vi, e achei que seria uma boa fic de Halloween. Essa é minha primeira fanfic em anos, espero não ter perdido o jeito KKKKK

Daemon encarava o teto, como havia feito por incontáveis noites. Não é que ele tinha passado tanto tempo em Harrenhal que nem sequer conseguia mais contar os dias; é que ele simplesmente não sabia quanto tempo havia se passado.

A chuva martelava seus ouvidos, cada rajada ameaçando invadir o precário e mofado quarto que haviam lhe dado, com a vidraças das janelas chacoalhando tal qual uma donzela na noite de seu casamento. Ele não temia a tempestade, é claro; tinha enfrentado inimigos piores muitas vezes ao longo da vida.

Mas o que o preocupava era não saber se os uivos que o impediam de dormir vinham do vento, ou do próprio castelo.

Estava cansado de se revirar na cama, tentando tapar os ouvidos com o travesseiro para evitar a cacofonia gelada e bruta da água castigando as pedras queimadas lá fora.

O Príncipe Rebelde estava pronto para se levantar e ir procurar Alys. A bruxa teria algo para o nocautear; não importava como, tudo o que Daemon queria era uma noite de sono. Estar acordado fazia coisas estranhas com o cérebro de um homem – e ele precisava de sua consciência preservada para lidar com os teimosos senhores dos rios.

Mal havia alcançado a porta quando sentiu uma pontada de dor na testa. Levou a mão ao local, tentando fazer com que a sensação passasse com uma massagem, mas sem sucesso. Seus sentidos, porém, pareceram se aguçar; apesar da escuridão, via agora os detalhes de cada risco na madeira da velha porta, e cada gota de chuva que escorria pela janela; sentia o mofo e o ar abafado penetrando pelas suas narinas e descendo-lhe pela garganta enquanto arfava; e mais importante, por sobre as pancadas de chuva sobre a janela, podia ouvir Caraxes guinchar.

Aquilo sim o despertou da letargia e sonolência, e Daemon avançou pelos corredores tortuosos do castelo, sem encontrar nenhuma outra alma viva, até alcançar a encosta rochosa onde havia deixado o dragão.

Para sua surpresa, não foi Caraxes que encontrou, mas sim, um cavalo branco. O animal chacoalhou a cabeça, mas ao invés de relinchar, abriu a boca e cuspiu fogo, o pescoço se acendendo como um dragão faria. Mesmo com a chuva pesada, que agora encharcava o príncipe, uma porção de grama se queimou.

“Eu estou delirando. Isso é coisa daquela bruxa maldita” Daemon disse para si mesmo, dando as costas para o animal – seja lá o que fosse, decidido a voltar para o castelo e ter sua noite de sono. Antes que chegasse muito longe, o cavalo galopou até ele, e dessa vez, trazia um cavaleiro.

Ou melhor, uma cavaleira.

Daemon não via aquele rosto pouco interessante havia quase duas décadas. Os cabelos e olhos castanhos, o nariz pequeno, nada de especial, como qualquer mulher do Vale de Arryn.

“Está paralisado de saudades, marido?” disse Lady Rhea “Ou será que já se esqueceu de sua primeira esposa?”

Daemon deu dois passos para trás, inconscientemente, como se tentasse olhar melhor para ela e ter certeza do que estava vendo.

“O que você está fazendo aqui?” perguntou ele “Saia já da minha mente. Você não tem lugar aqui”

“E por que não? Eu estou morta, posso cavalgar para onde quiser. Obrigada por isso, querido”

Não sou seu querido. O que fez com Caraxes?”

“Veja como perde toda sua pompa sem o bichinho por perto” ela fez carinho no focinho de seu cavalo “Não sei de dragão nenhum; achava que vocês é que domavam e falavam com eles. Enquanto não o encontra, poderíamos colocar a conversa em dia, como um bom casal. Para manter as aparências, sabe?”

“Os outros fant... as outras ilusões eu conseguia entender. Mas você? Eu não me importo com você”

“Ah sim, nunca se importou. Não quando eu era viva, muito menos agora que me matou. Mas esse é o segredo, senhor marido” ela riu, descrevendo um círculo ao redor dele com o cavalo “Eu também nunca me importei com você. Quer dizer que eu não preciso ser gentil agora! Não tenho nenhuma lição para lhe ensinar, Daemon Targaryen; eu só não irei de deixar dormir em paz”

Aquilo foi uma ofensa maior do que deveria ser. A vaca de bronze tinha sido insignificante, tanto em vida quanto em morte; não teria poder algum sobre ele, especialmente não nas ilusões dentro de sua própria mente.

Voltou a lhe dar as costas, sem dizer mais nada, decidido a ignorar suas tentativas de assombrá-lo. O cavalo soprou fogo de novo, tentando queimar os pés do príncipe, mas ele apertou o passo e logo deixou de ouvir os seus relinchos.

Conseguiu entrar no castelo sem nada mais estranho acontecer; tirando, é claro, o fato de que não havia sinal de nenhuma alma viva por lá além dele, e mesmo disso ele já começava a duvidar. Voltou a encontrar seu quarto, úmido e desagradável como antes, e adentrou o cômodo, mesmo ainda molhado pela chuva.

Manteve um candelabro aceso, garantindo que nada se escondia nos cantos mais escuros do quarto. Olhou ao redor, procurando algum criado dos Strong que pudesse estar escondido, até mesmo Alys ou um de seus animais, mas o cansaço o venceu e ele deixou-se cair sobre a cama, e se tapou com os cobertores, tentando afastar o frio que agora o atingia nos ossos.

Suspirou profundamente.

Tome isto, maldita vaca. Tome, Alys Rivers, Simon Strong, Rhaenyra todos vocês. Não perturbarão minha mente esta noite, Daemon pensou, satisfeito consigo mesmo. Seria fácil resistir às próximas provações que o castelo lhe mandasse.

“Ah, finalmente dividiremos a cama, então?” sussurrou a voz de Rhea em seu ouvido.

Daemon sentou-se num pulo, e voltou-se para a cabeceira, procurando a mulher. Antes que a encontrasse, um par de braços – sem corpo acoplado – surgiu pelas suas costas e o agarraram, puxando-o para dentro da cama.

Quando deu por si, o príncipe estava estatelado no chão, sem conseguir se mover, e o cômodo havia perdido todos os seus móveis. Dezenas de ovelhas agora ocupavam o espaço, caminhando sem rumo de um lado para o outro. Rhea estava à frente dele, em seu vestido de casamento, bronze, branco e preto, com os cabelos presos em tranças delicadas, mas ainda vestia as botas de montar.

“Veja só, eu ouvi dizer que os homens no vale preferiam as ovelhas do que as mulheres, porque ela eram mais agradáveis, e que depois de se casar comigo, você os compreendia. Bom, como oferta de paz, trouxe estas ovelhas todas. Pode fazer a festa!” ela riu de sua própria piada “Sabe, por muitos anos fiquei ofendida que você nem sequer se deu ao trabalho de consumir nossa união. Acredito que já fodeu coisas piores na Baixada das Pulgas. Seria um sacrifício tão grande dar um herdeiro à minha linhagem?”

“Eu sou um descendente da linhagem de Valíria. Você já teve sorte de eu sequer olhar na sua cara imunda de lama” Daemon rosnou “Nunca gastaria minha semente pura com uma filha dos homens como você”

“Mas agora vejo como você trata as suas filhas, deixando-as de lado, sendo criadas pelos outros… de repente, vejo-me bastante feliz por não termos tido filhos. Odiaria ter que dividir sangue com você” ela continuou, como se nem sequer o tivesse ouvido.

Daemon cuspiu, tentando atingi-la, mas apenas sujou a sua própria roupa.

Não ouse falar delas” ele bravejou novamente.

“Quer saber, acho que os deuses sabiam o que estavam fazendo. Estar praticamente solteira no Vale, sem um homem me dizendo o que fazer, foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido” Rhea riu sozinha “Só é uma pena que uma mulher jovem e forte como eu teve de ficar sozinha… mas como é que se diz? Melhor só do que mal acompanhada? No fundo, eu era boa demais para você, Daemon. Um homenzinho pândego, vagabundo, desleal e mimado só teria trazido vergonha para a casa Royce”

Ele tentou se erguer novamente, mas alguma força o prendia no solo, como se estivesse paralizado.

“A história irá te esquecer, Rhea da casa Royce. Eu me encarregarei pessoalmente disso. Assim que expulsarmos os Verdes, eu serei rei, e exterminarei todo maldito Royce…”

Consorte”

“O que?”

“Rei consorte” Rhea repetiu “Ou está planejando mais alguns assassinatos também? Começando pela senhora sua sobrinha….digo, a senhora sua esposa. Sete infernos, vocês são estranhos”

Sua esposa caminhou até ele e se ajoelhou ao seu lado. Seu rosto, tão pouco chamativo, agora se franzira em uma careta de desdém.

“Se os seus homens soubessem que homenzinho patético você é, não te seguiriam nem para o bordel, muito menos para a batalha” ela disse, e pisou no braço de Daemon.

O príncipe gritou de dor, uma dor mais profunda do que poderia ser causada por uma mulher tão pequena, mas não cessava. Ele fechou os olhos, com dificuldade para respirar, e cedeu.

Quando voltou a abrir os olhos, estava novamente no pátio. A grama picava seu pescoço, mas ele logo sentiu seus braços se soltarem, e conseguiu ficar de pé. De alguma forma, havia se vestido, e o Sol agora brilhava por sobre o castelo. Rhea permanecia à sua frente, de braços cruzados.

“Pronto, está livre agora, já pode parar de gritar feito um bebêzinho” ela revirou os olhos “Feliz?”

Daemon tateou a cintura e encontrou Irmã Sombria, embainhada. Num único movimento rápido, sacou da espada e correu em direção à esposa, tentando perfurar seu peito. Antes que conseguisse atravessá-la, porém, Rhea começou a crescer.

Ela ficou cada vez mais alta, e mais alta, e mais alta, até ter a altura do próprio castelo.

“Você é um homenzinho minúsculo, Daemon Targaryen. Me matou para se casar com uma criança que era da sua família, e acabou se casando… com outra criança da sua família. Deixou-a morrer numa terra estrangeira, longe da família, e ao invés de amparar suas filhas, correu para se casar novamente. Traiu a confiança de seu irmão múltiplas vezes, e na única vez em que honrou os seus desejos, ajudando a por a princesa no trono… olhe só o que está fazendo” disse Rhea, a voz ecoando como um trovão “Já está planejando traí-la também. E por que? Porque você não consegue tolerar a ideia de estar abaixo de alguém. Mas agora você está sozinho; e se continuar me chatendo, irá morrer sozinho, aqui em Harrenhal”

Ainda ocupado demais tentando entender o súbito crescimento da mulher, Daemon não conseguiu formular uma resposta à altura.

“Vá à merda” ele gritou de volta.

Rhea deu de ombros. Em sua mão surgiu uma enorme pedra.

Num movimento que Daemon reconhecia bem, ela a ergueu, e ao baixar

o braço, mirou diretamente na cabeça do príncipe.

Daemon acordou ensopado de suor e sujo de grama, deitado à frente de Caraxes no gramado. Sentia todos os ossos do corpo doerem mas, especialmente, sentia a cabeça latejar, como se tivesse sido partida no meio. Levou a mão aos cabelos, para garantir que não estava sangrando, e não sentiu nada. Mas, à sua frente, viu o círculo de grama queimado.

“Dormiu bem, meu príncipe?” a voz de Alys Rivers perguntou, soando abafada. Daemon demorou para perceber que ela estava não muito longe dali, ordenhando uma vaca.

O animal era grande, de uma pelagem brilhante e castanha, quase metália. Olhou para Daemon e mugiu.

Ele podia jurar que o animal estava rindo

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!