O ethos da alma humana
2 Quando ninguém chora
Notas iniciais
Sou ninguém.É o que restou de mim. Nada nem sou. O único sinal de que ainda pulsa vida dentro de mim vem de ti. É ao lembrar de tu, ao sentir o sabor agridoce de teu beijo de despedida queimando em minha testa, o fogo da nossa paixão nascida para morrer lambendo meu couro arranhado pelas tuas garras, que sou capaz de encher a boca de certezas tolas e dizer que viva criatura sou.
Não tenho casa. Fiz de teu corpo minha morada. Estabeleci residência em teu cheiro, transformei-me em barco ao ancorar no porto seguro do teu abraço, enraizei-me em teu beijo. Não tenho a onde ir. E tampouco quero ser reconhecido pelo destino. Fora da lei, fujo de tempo, regra e vento. Escombros, barco ancorado, árvore morta. É o que resto. Mas sou cinzas porque é o que queres que seja, então, de bom grado, aceito a sina que teu olhar com funduras de mar e beleza de céu à ponta de tarde me impõe.
Quando te conheci, sem permissão minha, devoraste o meu céu, roubando o brilho de toda estrela aos teus olhos. Quando te conheci, ainda sem que te desse o perdão, com tua boca em soberba fome, engoliste a terra e o mar, abrigando dentro do teu ventre de leoa ferina toda a efervescência da vida em processo de autocriação e destruição; a fúria das águas de sal e a dureza dos cristais da terra. Com teu corpo, envolveste todo o cosmo, dos planetas às partículas subatômicas. Trouxe à fertilidade dos teus seios tudo o que já foi e é e será.
Tomou de mim tudo o que um dia sonhei ser meu. Roubou meu nome para invocá-lo em tua língua pagã. Usurpou minha alma com o intento de deixar-me oco, à espera de completude para me inteirar com semânticas tuas. Vela, sopro. Vida, morte. Luz, trevas. És meu fim. Porém, agradeço-te, pois, me deste começo. Sou, afinal, teu. Destrua-me. Só sou ninguém porque anseio para ser teu alguém.
Autor: Mantoni Rúbia
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