O ethos da alma humana
1 O peso de paraísos
Notas iniciais
Com as mãos dum gigante e com fúria dum demônio ele estraçalhou e esmagou as pontes que o levavam ao outro lado. Exilou-se permanentemente do lado de cá. Chega de pontes. Abominaria as horizontalidades dos caminhos e aspiraria às verticalidades dos sonhos. Quem quer que estivesse do outro lado da ponte, não tinha pés para escrever passos de encontro a ele, portanto, não se fazia necessária presença. Distanciavam-se felizes por fazê-lo.
Respirou fundo e longo. Vivia. Vivia imóvel deste lado da ponte. Vivia perfeito, vivia completado em si. Era um quebra-cabeça de única peça, planeta sozinho em seu sistema planetário. Abriu os olhos ao sol frio duma manhã indiferente e deu-lhe boas-vindas. Levou, num gesto seguro e tão próprio que quase autoritário, as mãos ao peito no intento do sentir seu coração veredeiro debatendo-se no peito. Polêmico e insurgente, altivo e melancólico, ainda a bater. Batia com fúria infernal — nada mais do que natural ao coração dum demônio; e exacerbava-se tão grandiloquente quanto o coração dum gigante. Sobreviveria com o peso dos céus nos ombros. Prometeu na segretude do seu silêncio proteger ao seu e aos paraísos daqueles à sua volta em obediente conformidade.
Porém, notou, numa mistura homogênea de angústia e ira que o contaminava e espalhava-se pelo seu corpo como câncer, que sustentar pesos e trilhar percursos longos e infindados era uma tolice até mesmo para um coração nômade como o seu. Havia de aquietá-lo; só de silêncios sobrevivem os paraísos. Nossos e alheios. Portanto, decidiu, dos escombros das pontes que destruiu, construir novas. De suas mãos calejadas nasceriam caminhos de destino acertado ao único lugar que seus pés desconheceram por opção e odiaram por instinto — dentro de si. Traçará rotas e abominará atalhos. Com as mãos dum gigante e com a fúria dum demônio, persistirá aos maus tempos e contratempos, aos trancos e barrancos. E com o amor dum homem e com sabedoria dum ancião, reconhecerá a parte mais íntima e quebrada da criatura que esmigalhou pontes com medo das jornadas — e a perdoará como um deus. Pela primeira vez, perdoará a si mesmo.
Autor: Mantoni Rúbia
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