Notas iniciais
Sentiste, por quantas vezes, o peso do mundo nos ombros? Sentiste, por tantas vezes, que o frágil equilíbrio da tua e da felicidade dos outros dependia do teu silêncio, não é?

Com as mãos dum gigante e com fúria dum demônio ele estraçalhou e esmagou as pontes que o levavam ao outro lado. Exilou-se permanentemente do lado de cá. Chega de pontes. Abominaria as horizontalidades dos caminhos e aspiraria às verticalidades dos sonhos. Quem quer que estivesse do outro lado da ponte, não tinha pés para escrever passos de encontro a ele, portanto, não se fazia necessária presença. Distanciavam-se felizes por fazê-lo.

Respirou fundo e longo. Vivia. Vivia imóvel deste lado da ponte. Vivia perfeito, vivia completado em si. Era um quebra-cabeça de única peça, planeta sozinho em seu sistema planetário. Abriu os olhos ao sol frio duma manhã indiferente e deu-lhe boas-vindas. Levou, num gesto seguro e tão próprio que quase autoritário, as mãos ao peito no intento do sentir seu coração veredeiro debatendo-se no peito. Polêmico e insurgente, altivo e melancólico, ainda a bater. Batia com fúria infernal — nada mais do que natural ao coração dum demônio; e exacerbava-se tão grandiloquente quanto o coração dum gigante. Sobreviveria com o peso dos céus nos ombros. Prometeu na segretude do seu silêncio proteger ao seu e aos paraísos daqueles à sua volta em obediente conformidade.

Porém, notou, numa mistura homogênea de angústia e ira que o contaminava e espalhava-se pelo seu corpo como câncer, que sustentar pesos e trilhar percursos longos e infindados era uma tolice até mesmo para um coração nômade como o seu. Havia de aquietá-lo; só de silêncios sobrevivem os paraísos. Nossos e alheios. Portanto, decidiu, dos escombros das pontes que destruiu, construir novas. De suas mãos calejadas nasceriam caminhos de destino acertado ao único lugar que seus pés desconheceram por opção e odiaram por instinto — dentro de si. Traçará rotas e abominará atalhos. Com as mãos dum gigante e com a fúria dum demônio, persistirá aos maus tempos e contratempos, aos trancos e barrancos. E com o amor dum homem e com sabedoria dum ancião, reconhecerá a parte mais íntima e quebrada da criatura que esmigalhou pontes com medo das jornadas — e a perdoará como um deus. Pela primeira vez, perdoará a si mesmo.

Autor: Mantoni Rúbia

Notas finais
Pois, saibas que, quando o mundo pesar em teus ombros, podes sempre abandoná-lo. E não precisa penalizar-se. Lembre-se de perdoar-te como um deus. Gostaram do que leram? O que sentiram durante a leitura? Comentem suas impressões abaixo! Vamos prosear além da prosa em si!