O ethos da alma humana

6 E o pardal amarelo diz: bom dia!


Notas iniciais
Tenha um bom dia, caro leitor.

O sol que toca o mundo nesta manhã é diferente de todos os outros que vieram antes dele. A luz doura as superfícies mais altitudinadas com firmeza, mas gentileza, para então, lançar-se as menos, tocando-as com iguais educações. Dá-lhes doçura. O sol confeita na manhã o mundo com um fino pó que dá às coisas profundez e gravidade. Existencializa o invisível, salgando-o com açúcar de confeiteiro. É uma dulcíssima manhã, de fato. E Severino sabe disso bem.

Deseja, ao pé do primeiro degrau do ônibus, com inocência e brutalidade: — Bom dia! O motorista sorri complacentemente; Severino não o vê sorrir, põe-se já a encarar os demais passageiros que acordaram na mesma manhã que ele — na mesma manhã, mas não para. É sua. E este será um bom dia. Encarou-os como se tivesse amanhecido junto ao mundo e o seu primeiro sol em rara época. E: — Bom dia! Houve alguns murmúrios respondendo-o, mas não os ouve. Dirige-se ao seu assento e nele se demora durante o percurso até a estação de transbordo. Aguarda-o, levanta-se e marcha. Desce, marcha e para. Estoico, decidido. Respira — fundo e eficiente. Infla, esvazia os pulmões. Olha o relógio. O ônibus chegará daqui a exatos cinco minutos e vinte e três segundos.

Números quebrados! Ímpares! O sol banha sua face, a luz inunda seus olhos. Bom dia, Severino, bom dia. O ar está limpo. Esqueci de algo? Banho, carteira e o cartão de vale-transporte, desodorante, perfume, pastilha de hortelã. Não, ótimo. Este será um bom dia. Sem exclamação porque algo está prestes a estilhaçar. Sente seus presságios apocalípticos no corpo inteiro como se ele próprio fosse um nervo exposto. Uma taça de cristal, à beira da mesa, perigosamente perto da tia que gesticula demais e cospe enquanto fala. Ela ri e abre os beiços roliços e engordurados da refeição recém-terminada para contar um de seus causos. Foi-se a taça. Estilhaçará, se romperá. Um segundo suspenso, uma lágrima sob aviso: o terremoto não vem. Severino respira fundo e mais do que eficiente. Segura por mais alguns segundos o alívio nos pulmões antes de expirar. Mas, ao abri-los, seus olhos o existe no flagrante de um espio. Um pássaro amarelo.

Mais precisamente um pardal. Um pardal de cor amarela. Deitado de costas sob o asfalto fresco da manhã, as asinhas abertas, crucifixado pela própria insignificância. O peito sobe e desce em ritmo frenético, as perninhas tremem. Talvez, se próximo o bastante, poderia escutar-se sua respiração sem compasso e seu coração protestante a lutar; minúsculo e fadado ao fracasso. Severino olha em volta e constata ser o único a garanti-lo à existência, à história. Seu estômago sobe à garganta. A responsabilidade de ser o único a presenciar aquela morte dá-lhe um gosto amargo à boca — gosto de sangue. A absolutez e definitividade da coisa causa repugnância. Amedronta e o desafia. Em sua mente, assiste um velho moribundo e acamado deixado à mercê da morte, a cama e a alma cheirando à merda. Este é o retrato da fragilidade e é nojento, abominável. Espirro. Tosse. Respiração impaciente. Tiquetaquear. O mundo é profundo e grave — mas apenas o suficiente e necessário.

O ônibus chega e abre as portas num som de peido. Generaliza-se nas pessoas aquela ansiosa pressa burra antes de entrar no bendito ônibus. Acotovelam-se na entrada. Severino aguarda-as com paciência,imóvel e seguro, senhor de si e do dia à frente. Seus olhos desviam ao relógio. Seis minutos e quarenta segundos. Este, sem dúvida, há de ser, definitivamente, um bom dia. Porque, Severino, o sol que tocou o mundo nesta manhã é diferente de todos os outros.

Autor: Mantoni Rúbia

Notas finais
Oi, você! Confesso que, dentre todas as prosas que leu, esta é a minha favorita. Espero que tenha o apreciado. Afinal, todos nós temos um pouco de Severino e um pouco do pardal. Gostaram do que leram? O que sentiram durante a leitura? Comentem suas impressões abaixo! Vamos prosear além da prosa em si!