Notas iniciais
Espero que se divirtam, se é que dá para se divertir com historias de drama, né? ^^

“—Lá vai o esquisito! — Gritou uma das crianças do meu ônibus seguida de muitas vozes ecoando a fala, uma última vez.”

Quando eu estudava no ensino fundamental, a aproximadamente na sétima série, tinha que pegar um ônibus escolar e infelizmente, ou não, todo mundo da minha sala fazia o mesmo trajeto. Cerca de trinta alunos, juntos. Desde antes da uma hora da tarde até depois das seis. Trinta crianças que passavam todas as tardes, cinco dias por semana, todas as semanas do mês, quase todos os meses, juntas.

Eu morava na última parada, junto com outros sete alunos. E uma parada antes um garoto descia. Todo mundo ria dele, inclusive eu. Ele se chamava William John, mas todo mundo da escola o chamava de esquisito. O motorista o chamava de Liam.

Havia um motivo (não uma justificativa, todavia um motivo) para rirmos dele e chamarmos de “esquisito”. Ele era quieto, não falava nada, nem com os psicólogos da escola. Costumava tirar “5” ou “6” e lia muito mal. Até ai, era melhor que muitos daqueles meninos e meninas, porém, tinha uma coisa a mais nele. Todos os dias, corria e tropeçava nos próprios cadarços, às vezes beirando a cair. Corria como se estivesse indo para o melhor lugar do mundo pela primeira vez, corria com desespero e medo, ao mesmo que entusiasmo e ânsia. Todos os dias, riamos dele, apontávamos a mão e, assim que descia do ônibus sendo cumprimentado uma última vez pelo motorista com um “Boa sorte Liam” (só depois descobrimos que o tal motorista conhecia a família do garoto), gritávamos alto o suficiente para todos na rua ouvirem “Lá vai o esquisito”.

Depois o ônibus continuava, ninguém nos repreendia. Íamos rindo dele, conversando e repetindo inúmeras coisas que já não deveriam ter graça. Alias, nunca tiveram.

Naquele inverno, ele faltou uma semana inteira. Achamos que ele estava com preguiça, ou algo do tipo e, na sexta feira, quando o ônibus passou na frente de sua casa, gritamos em coro “Cadê o esquisito?”.

Passaram-se mais e mais dias, e nada dele. Permanecemos gritando até que a casa foi posta a venda, e logo chegou o aluno novo. Muito mais bonito. Muito mais sociável. Muito mais inteligente. Muito menos esquisito.

No último dia de aula, apenas eu e as sete crianças que moravam no meu quarteirão fomos. Foi uma algazarra total, pois a salas juntaram. O problema? Eu ouvi a única coisa que mudou minha vida, Que me fez mudar. Que me tornou uma boa pessoa. Que me causou um arrependimento enorme, e que carregarei até e depois do túmulo.

Havia dois professores nas salas, pois haviam juntado as mesmas, e era claramente aula livre. Noel, um menino da outra sala, tinha me convidado a participar do “verdade ou desafio” e eu fui. Paul girou a garrafa e caiu em mim, pedi desafio para apimentar as coisas. Meu desafio era falar alguma besteira para o professor. Assenti e caminhei até o mesmo, revendo o que diria depois para evitar ir parar na direção.

No entanto, quando cheguei perto, perto o suficiente para ouvir a conversa dos dois mestres, simplesmente gele, parei e escutei:

—Então William se mudou por isso? —O outro professor indagava.

—Trágico, não é? —Suspirou — Ele era um garoto tão bom, não merecia passar por isso.

—Por que a irmã dele... Suicidou-se?

—Parece que ela já estava em depressão há alguns anos, e piorava cada vez mais. Nesses últimos meses, só se mantinha viva por causa dele. Todas as aulas ele pensava se ela não estaria se matando naquele momento, e, em uma das vezes, aconteceu. —Os dois se entreolharam por mais alguns segundos — A família se mudou ao que eu ouvi, para uma casa do campo, lá no exterior. Não vão voltar para a cidade, não para essa.

Eu fechei a cara. Voltei até a roda do jogo, peguei minhas coisas e fiquei sentada até o sinal, pensando no que havia acontecido. Naquele dia, quis ir a pé e perdi o ônibus intencionalmente, ficando de castigo depois. Naquele dia, decidi nunca mais julgar alguém, especialmente se não conhecesse sua dor. Naquele dia, senti que o mundo não seria mais o mesmo, não era ele que tinha mudado, era eu que havia mudado.

Notas finais
O que acharam? Comentem se quiserem deixar uma escritora feliz, afinal, hoje é dia do escritor :D

/o/ Parabéns para nós, flores!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!