O espírito da escada
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ouvia o eco de seus passos na escadaria velha e vazia, sem qualquer outro som que denunciasse outro morador, vivo ou morto, no condomínio.
A maioria dos estudantes, depois de fina a educação primária de magia, ficava em repúblicas ou dividia um lugar com alguém. Ou voltava para casa com o rabo entre as pernas, depois de anos de sacrifício, sem poder ficar para o Ensino Superior.
Mas Virgílio OuroPreto não precisava de ninguém. O pensamento amargou sua boca e turvou seu semblante. Virgílio OuroPreto não tinha ninguém também.
Os Pixies haviam partido por caminhos diferentes. Capí casou com Gislene, Caimana não voltou ao caminho da magia bruxa, e Viny... Às vezes, ele via Viny. E Lucas. E Beni. E as outras pessoas que ficavam com eles. Porém, nada lhe tirava a sensação de que a infância estava encerrada de verdade, sem volta, e que os tempos ganhavam os tons cinzentos de uma juventude turbulenta, de tempos interessantes, inegavelmente difíceis.
Chegou ao final de seu trajeto, avançando pelo quarto andar com passos leves e silenciosos. Logo viu, esperando à sua porta, uma jovem, de jeans bordado largo sob um vestidinho florido, amassado pela jaqueta amarrada na cintura, aquela combinação estranha que muitas moças usavam ultimamente. A princípio, aquilo não lhe indicou nada, mas o cabelo ondulado bagunçado e o balançar ansioso de uma das pernas lhe deram uma pista de quem poderia ser.
Todos eles ficavam tão diferentes sem o uniforme da Korkovado.
—Stephanie?
Ela virou-se de supetão, a postura subitamente rígida. Ela ainda tinha todos os traços e trejeitos da menina que lhe deu um choque uma vez – algumas vezes, na verdade – para obrigá-lo a sentar com... Com...
Cortou os próprios pensamentos. Ela estava falando, mas Índio sequer havia notado.
—O quê – ele perguntou, confuso o bastante para demonstrar que estava perdido.
—Você ouviu o que eu falei?
—Eu... Eu – ele ponderou se deveria reassumir sua postura altiva de sabe-tudo ou ser sincero. Optou pela segunda – Não, eu não ouvi. É só que... É muito estranho te ver aqui. Como você sabia que...?
—Lucas – ela disse, um sorriso fugaz e desconcertado em seu rosto.
—Viny – Índio grunhiu. Maldito loiro bocudo!
—Desculpe aparecer sem avisar, mas eu precisava falar com você.
—Precisava, é? Não precisa mais?
Virgílio reassumiu a postura orgulhosa de sempre. Ouviu Stephanie bufar, impaciente, enquanto ele destrancava a porta do apartamento. Ela nunca teve paciência para o orgulho dele, talvez porque os dois fossem muito parecidos, muito diferentes também.
—Você quer entrar?
Ela assentiu devagar, sem muita energia. Pediu licença bem baixinho ao entrar no apartamento, cuja a sala era muito organizada e funcional ao extremo. Stephanie avaliou o ambiente por um momento, enquanto Índio fechava a porta e pendurava sua mala mensageiro no cabideiro ao lado da porta.
Quando se virou para encarar a visita inesperada e dizer que ela poderia colocar a mochila onde quisesse, ela estava com um braço cruzado e o outro estava erguido até a boca, encobrindo a risada.
—Ocê tá rindo di quê?
Ele tossiu imediatamente após dizer isso. O danado do sotaque mineiro não o deixava e ele continuava buscando a fala perfeita, que o aproximaria daquele homem que admirava tanto.
—Não fica pilhado, não, Cacique— Stephanie continuo rindo – Só que seu apê é o exato oposto do que as pessoas dizem de apartamentos de caras solteiros. Mas é exatamente aquilo que um apê seu seria.
—E qual a graça?
—Nenhuma... É só reconfortante, eu acho. Faz sentir como se as coisas não tivessem realmente mudado tanto, como se ainda tivesse ainda alguma certeza, alguma coisa pra se agarrar, sabe?
Sua expressão suavizou, seus ombros relaxaram. Era verdade. Era bom saber que algumas coisas não haviam mudado em essência. Ele achou a mesma graça-não-graça ao ver que Stephanie conservava os mesmos gestos ansiosos, a mesma formalidade ao falar, mesmo quando ela se parecia com as outras meninas mequetrefes, mesmo quando ela não estava de uniforme.
Isso e outras coisas o fizeram sentir-se próximo dela ainda. De novo. E, por ela, Índio não queria dizer Stephanie, mas... Bom, ela. Eles haviam se visto bastante nos últimos tempos, por causa da Fada de Todos os Dias, mas continuavam tão distantes.
Fazia já três anos.
—Índio, eu preciso falar com você – a voz de Stephanie veio do nada, como um estalo, mas ela já vinha tentado entrar no assunto antes.
Ele só não estava prestando atenção novamente.
—Você tá me ouvindo?
—Eu... Eu me distrai – ele disse, sem emoção – Quer se sentar?
Stephanie analisava-o, brincando com uma mecha de cabelo distraída e ansiosamente. Rejeitou o convite.
—Estou bem, obrigada. Eu te trago muitas lembranças conturbadas, muitas coisas que você não esqueceu e gostaria?
—Não me provoque, Stephanie.
—Não estou. Você também me faz lembrar de várias coisas – nesse momento, sua respiração tremeu e a voz falhou – Várias coisas que eu queria esquecer.
Houve um momento de silêncio solidário. Eles sentiam muito por tudo que havia acontecido no passado, mesmo que não tivessem culpa de várias coisas. O passado só era... Doloroso demais, injusto demais, bonito e precioso além da conta pelas lentes da nostalgia – o que só tornava tudo muito, muito pior.
—Mas ocê num veio falá do passado – ele tossiu novamente, embaraçado – Não veio, não é?
Stephanie hesitou, mexendo no tecido impermeável da alça da mochila. Trocou o peso de uma perna para a outra antes finalmente tomar coragem e falar:
—Mais ou menos. Eu preciso te pedir um favor – Índio bufou ao ouvir aquilo e a garota aumentou o tom para encobri-lo – um favor muito importante, Virgílio! E eu gostaria que você não me interrompesse, okay?
O rapaz deu a volta para sentar-se no sofá. Abriu os braços como que para dizer que ela deveria ir em frente, então.
A jovem trocou o peso de perna mais uma vez e tomou fôlego.
—Você sabe que a Nádia está precisando de um lugar pra ficar, não sabe?
—QUÊ? DI TUDO O QUI OCÊ PUD...
—E que ela não está mais recebendo a bolsa de pesquisa que ela precisa para estudar Alquimia porque, como você sabe, as bolsas de extensão e pesquisa estão suspensas a menos que você seja aluno de Magi-Engenharia ou Economia mística. Você sabe disso, Virgílio.
Ela fez uma pausa para ver se ele a interromperia novamente. Índio só assentiu e fez um sinal para que ela continuasse.
—Ah bom – resmungou irritada – Ela não tem mais como ficar, eu estou morando em um quartinho onde eu mesma mal caibo, não teria espaço para nós duas vivermos e estudarmos ali; o Lucas está com os Ipanema e eu não posso pedir ajuda para ele, agora que ele passa mais tempo com os elfos do que com os bruxos, e a case nem é dele...
—Tá, e daí? Ela te pediu pra vir aqui?
O tom de Índio fez com o último pingo de paciência da garota evaporasse. Ela largou a mochila no chão com um estrondo e, como um furacão, avançou por entre as duas poltronas e a mesinha de centro para poder dar uma prensa em Virgílio com propriedade. O rapaz afundou-se no sofá, acuado.
—Eu não tenho a quem recorrer, excelentíssimo senhor – exclamou, as mãos na cintura por um momento – A Nah não te pediria isso porque ela é orgulhosa o bastante para pedir abrigo pro cara que mandou ela pro inferno quando ela precisava dele! Ela não pediria pra eu pedir algo pra você, E VOCÊ SABE!
—E-e-eu... E-escuta!
—VOCÊ ESCUTA – disparou, as bochechas vermelhas de raiva. Gesticulava com energicamente – Eu não tenho a quem recorrer, só você! Você mora em um apartamento com dois quartos e um deles está completamente vazio porque o seu último colega de apê foi chutado!
Claro que Índio teve que chutar o embuste. O sujeito só emporcalhava o espaço, trazia gente para o apartamento sem pedir ou avisar e, pior que tudo, mexia em suas coisas quando ele tinha dito para não mexer. Obviamente que ele enxotou o cara!
Mas estava além de sua compreensão como Stephanie descobrira aquilo.
—Quem te contou isso?
—O LUCAS! PORQUE O VINY É INCAPAZ DE CALAR A BOCA! PARE DE ME INTERROMP-
—E como ele soube disso?
—Eu... Eu não sei – ela respondeu, confusa.
—Maldito fofoqueiro desgraçado, não sei como ele consegue meter aquele narigão dele nas coisas dos outros mesmo quando fica meses sem nem dar um oi!
—E você queria que ele desse oi?
Índio parou, ainda afundado no sofá. Ele tinha esquecido como Stephanie costumava chamar sua atenção e defender Nádia com todas as forças. Algumas coisas realmente não mudavam.
—Talvez?
Ele não queria admitir, mas sentia falta dos velhos tempos. Dos Pixies, da escola... Dela. E, por ela, claro que Virgílio queria dizer...
—Nádia. Voltando ao assunto – Stephanie estava falando, sua postura mais leve – Eu não posso ajuda-la e, se ela não puder ficar aqui, vai ter que largar o Ensino Superior de Magia e Bruxaria.
—Ela vai o quê?
—Largar os estudos, Virgílio. É muito difícil.
—É difícil para todos, Stephanie – rebateu, com arrogância.
—Não, não é! É difícil estar em uma cidade estranha, fora da Korkovado, com o seu único apoio financeiro arrancado de você porque não é importante para o governo. É difícil estar longe de casa, desestabilizando as finanças da sua família, enfrentando um prédio vigiado todos os dias, voltando para um quarto sozinha, com medo que alguém esteja te esperando lá por causa de alguma coisa que você disse de errado. É difícil quando seu melhor amigo é metade-elfo e está estudando longe, sua melhor amiga não pode fazer nada e o pouco que você tinha para se sustentar é tirado de você. Não é difícil ser o filho de uma política genial, vivendo confortavelmente num apê de dois quartos com todas as proteções políticas, mágicas e sociais que seus pais puderam te passar.
Stephanie respirou fundo e afastou-se. Pediu licença bem baixinho e sentou-se em uma das poltronas, curvada sobre si mesma, os cachos caindo sobre o rosto. O choro veio tão subitamente que assustou Índio, fazendo-o levantar de um pulo.
Uma voz em sua consciência tratou de ironizá-lo. Genial, você fez a garota chorar!
Quieta. Pelo amor de Deus, quieta! Por mais que ele dissesse isso, ela não parava de provocá-lo – e, o pior, ela estava com a razão.
—Stephanie – ele chamou, a voz um pouco baixa demais – Você precisa de alguma coisa? Água? Lenços? Só não me peça um ombro para chorar, eu não vou te dar isso.
Ela riu, um som abafado e embargado. Fungou um pouco e, enxugando os olhos rapidamente, endireitou-se e o encarou.
—Me desculpe, eu...
—Tudo bem. Tudo bem – o tom de Índio era suave, quase compreensivo.
—Índio, por favor... Por favor. Só... Ela é sua amiga, não é?
—Antes fosse.
A garota encarou-o, os olhos brilhando de compreensão. Claro, ele ainda pensava nela. Eles ainda se gostavam.
—Que foi? Que cara é essa?
—Você vai ajudar a Nah ou não?
Ele inspirou com força, cruzando os braços e entortando a boca. Estava contrariado, mas quase convencido.
—Índio – o tom de voz de Stephanie era estranho e um pouco assustador – Lembra daquela vez, 17 de Dezembro de 1999?
—Eu... Não. Não, não e não!
—Você me deve aquela. Você ainda não me pagou.
—Eu... Como você ousa me chantagear?
Ela recostou-se na poltrona e cruzou os braços.
—Eu não tô te chantageando. Eu tô só jogando a última carta que eu tenho na manga, porque você é muito orgulhoso pra ceder. Você lembra, né?
—Hm... Lembro – respondeu, de má vontade.
—Então?
—Eu já paguei minha dívida, eu te trouxe a fadinha diária, não trouxe?
—Aaaah – ela exclamou, com ironia – Yentl, Yentl! Arrumando pares pra todo mundo como uma casamenteira judia de musical, não?
—Eu não entendi nada do que você disse e, a essa altura, eu tenho medo de perguntar!
—Você é muito oportunista, não? A gente só se conheceu por causa da Nádia, você é um efeito colateral, um detalhe.
Ele bufou, rodeando a mesa de centro com impaciência.
—Vamos lá, Índio! Me dê uma resposta: eu posso contar com você pra proteger e apoiar uma das pessoas que nós dois mais amamos neste mundo ou não?
O rapaz lançou-lhe um olhar fulminante antes de assentir.
—Se você conseguir convencê-la a vir, minha casa está aberta para ela. Mas não esperem que eu a receba com biscoitinhos e amor.
Uma batida forte na porta. Stephanie estava rindo um pouquinho agora, mas Índio não viu porque tinha ido ver quem era.
Ao abrir a porta, deparou-se com ela, em toda sua glória punk-rock, com sua saia xadrez, corpete preto e meia dúzia de caixas cheias. Tinha um sorrisinho contrariado, mas divertido.
—Não precisa, Indiovíduo. Eu não quero seu amor ou seus biscoitos, mas muito obrigada pela sua hospitalidade. Pronto pra começarmos nossa vida juntos?
É, aquilo seria, sem dúvida, interessante.
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