Notas iniciais
Boa leitura:

A rua estava escura.

O silêncio era quase mortal.

Pairava uma inquietante sensação de desconforto ali.

Os poucos habitantes que ousavam colocar os pés fora da segurança de suas residências se mantinham em um pequeno círculo no final da vila, todos sentados em suas cadeiras e bancos velhos, a conversa ali era baixa e contida, tudo para não chamar atenção. As crianças estavam em suas casas, assustadas demais para tentarem, sair de suas camas, algumas compartilhavam o mútuo sentimento de pavor. Os animais não se ouviam. Gatos e cachorros, se abraçavam em união.

O clima não era bom para ninguém.

No céu, as nuvens cobriam a lua cheia, mas eles sabiam que ela estava ali.

Aos poucos, os locais começaram a voltar para suas casas, não era seguro brincar com a sorte daquele jeito.

E ninguém ali estava para brincadeira.

Especialmente naquela noite.

Aquilo não ocorria com muita frequência, mas quando acontecia, todos sabiam o que deviam fazer:

Permaneçam em suas casas.

Não abram os portões.

Acendam suas velas.

E fiquem quietos.

Mas, infelizmente naquela noite, os locais não eram os únicos ali.

Ao longe, subindo o pequeno morro de pedra, vinha um forasteiro, ele carregava o que parecia ser uma mochila, que dava a impressão de ser muito pesada.

Coitado — Sussurraram os mais velhos.

As crianças corriam aos portões e trocavam olhares amedrontados com seus pais.

Alguém o tire de lá. — Elas pediam enquanto apontavam para o forasteiro na escuridão.

Os pais dos pequenos ouviam os pedidos um tanto zangados.

— Quietos, não há nada que possamos fazer. — Era o que eles diziam.

O forasteiro andava com passos lentos, quase temerosos. Pelo canto do olho ele percebeu uma porta entreaberta, quatro pares de olhos o seguiam, o homem parou e pareceu ponderar se eles eram amigos ou não.

De dentro da casa, Dona Sônia observou o forasteiro com cuidado, avaliando se ele oferecia perigo.

— Fecha a porta mãe. — Implorava Raquel, a filha mais velha.

Temos que ajudá–lo. – Interveio Marcos, o filho do meio.

Enquanto os moradores da casa argumentavam entre si, o forasteiro chegou ao pé do portão. Ele os olhou cauteloso, talvez avaliando se eles lhe ofereciam perigo.

Alguns segundos depois e muitos olhares trocados, o forasteiro inflou o pulmão e fez a pergunta que estava entalada em sua garganta desde que subia aquele morro de pedra.

— O que há de errado? ­— Perguntou o homem com a voz meio rouca, enquanto arrumava melhor a mochila nos ombros.

Dona Sônia, que até então estava quieta apenas o observando, suspirou fundo e levou próximo ao rosto uma xícara que continha uma vela acesa. Ela o olhou tão profundamente que o forasteiro podia jurar que a velha estava vendo sua alma, segundos se passaram, mas pareceu que foi uma eternidade, até que finalmente alguém dentro da casa respondeu:

— Tá faltando energia, seu moço. — Respondeu Marcinha, a filha caçula.

Notas finais
-Vick
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!