O entremeio
5 capítulo 4 - o entremeio
Capítulo 4
O caminho
“As coisas revestidas de morte são também as coisas revestidas de vida.” (Noemi Jaffe)
Se antes o trio se antagonizava, agora eles tendem a se organizar como um só organismo, posicionando-se em relação ao ser.
— Não se aproxime – comanda Parkinson.
A figura tremeluz e os três tencionam o corpo.
— Pansy Parkinson – ela ouve no pé do seu ouvido e não consegue segurar o grito, virando-se rapidamente e dando de cara com a figura coberta pelo capuz.
A mão, antes oculta pelo manto azul escuro que cintila sob a luz dos lampiões, aperta o pulso da garota, que se vê presa ao chão, sem conseguir se desvencilhar. A pele da criatura é fria, mas ela sente uma série de arrepios com o contato. Olhando para Weasley e Selwyn, ela os encontra na mesma situação. O que quer que aquilo seja, ele se projeta como três sombras, segurando os três. Virando o pescoço, Pansy percebe que o ser mágico parece ainda estar no mesmo lugar.
— Nos solte, por favor – pede Selwyn, os olhos arregalados, mas a voz firme. O ser dá alguns passos, parando em frente a Astra, que respira aceleradamente –, quem quer que você seja, nós estamos aqui por acidente e iremos embora o quanto antes.
— Quem, e não o quê, certamente, Astra, é essa a pergunta a ser feita – o ser diz, os olhos desviando-se com certa crítica para Pansy. A morena engole em seco, temendo que seus pensamentos estejam sendo lidos. – Se assim você desejar, vocês não estarão mais imobilizados, mas eu peço para não correrem para a Floresta. Não posso garantir que nenhum de vocês sobreviva lá agora, especialmente dado o estado de suas magias.
Com um estalo dos dedos, o trio se vê livre das mãos. Reavaliando o cenário, a floresta parece ter crescido enquanto eles falavam, circulando-os. George faz um barulho com a garganta e empertiga a coluna. Os feiticeiros estão todos em posição de fuga, mas ninguém se mexe. Ainda, pelo menos.
— Quem? Onde? Por que? Comece por aí, se puder.
A figura abaixa o capuz, revelando feições aparentemente jovens e sorri sem mostrar os dentes. Não fossem as orelhas claramente pontudas, distinguíveis entre intrincadas tranças cheias de adereços prateados entre os cabelos cor de ébano, George diria que está diante de alguém do mundo bruxo. Os olhos arredondados brilham com uma luz azul antinatural, e Astra nota diversas marcas pelo seu pescoço e rosto que lembram tatuagens trouxas, mas que poderiam ser runas corporais.
— Me chamem de Erev. Um dia, vivi entre bruxos, mas não mais. Hoje, eu sou outra coisa. Algo antigo.
Selwyn analisa a figura com interesse, uma sombra no olhar e se aproxima.
— Viva ou morta?
O olhar em resposta é críptico, na opinião conjunta de Pansy e George.
— De vocês três, achei que você saberia melhor do que perguntar. Eu sou parte do Entremeio, das coisas que se negam a morrer, mas que só são assunto de viventes como vocês quando atravessam de volta para o lado dos elementos vivos.
Sua voz reverbera pela clareira e Astra balança com a cabeça.
— É assunto de sobreviventes. Todos nós somos. Faça uma exceção, pois não chegamos aqui por decisão nossa.
Erev estala a língua.
— Isso é verdade. George, Pansy e Astra, as três faces da mesma moeda. Por isso estão aqui.
— Moedas só têm duas, até onde eu saiba – murmura o ruivo, com cuidado, ganhando uma risada sonora.
— Então você entende! – exclama.
Os três trocam olhares e um pensamento conjunto: “Não”. Erev continua a falar, ignorando a evidente confusão nos olhos dos jovens.
— Mas isso não importa hoje, Astra. Não para a resposta que você busca.
Quando Selwyn vai responder, Pansy a interrompe.
— Você ainda não respondeu onde nós estamos.
Erev levanta a mão, indicando a floresta ao redor com um brilho nos olhos.
— Não sei como os bruxos ingleses chamam isso, Pansy, mas considere essa floresta como o Entremeio. Quando nem a vida, nem a morte toleram algo, ou algo luta contra ambas, nós paramos aqui. Eu sou a mensageira dessa parte do entre, a parte conectada ao lado dos vivos. Eu, talvez, chamei vocês. Ou vocês me chamaram. As estrelas são confusas nesse sentido – elabora, com um murmúrio de concordância de Astra –, mas o fato é que estamos juntos aqui.
— Emocionante – o tom seco de Parkinson corta o ar úmido do ambiente. – Eu tenho um jantar em menos de duas horas, se as minhas contas estiverem certas. Qual a saída mais breve para a minha vida, por gentileza?
A criatura abre um sorriso condescendente e abana a mão, fazendo pouco caso.
— Aquela não é a sua vida há tempos, e você sabe disso. O seu corpo sabe disso. Os seus feitiços estão fracos há semanas, de todos vocês – Erev aponta um dedo para cada um, lentamente –, mas parece que os bruxos não sabem nem escutar mais as suas magias.
George se pronuncia:
— Sim. Aquela não tem sido a minha vida, o que não significa que eu não queira retornar.
— E eu tenho um irmão para procurar – solta Astra, as sobrancelhas arqueadas –, mas eu vou chutar que você já sabe disso… nos envie de volta para o nosso lado.
As árvores parecem se fechar ainda mais ao redor deles. O entardecer traz cores estranhas para o céu daquele lugar, repara Weasley, ao notar os fios dourados que estão entranhados ao céu.
— Os bruxos ficaram mais mal-educados com os tempos, isso eu reconheço – diz com reprovação – e de toda forma, vocês ainda não ouviram a minha proposta, nem sabem do nosso problema.
— Nosso? – questiona Pansy arisca.
Com um gesto da mão, há uma fogueira entre Erev e os feiticeiros, tal como várias almofadas. George agradece por não haver nenhuma bebida ou comida sendo oferecidas, pois o protocolo seria recusar qualquer coisa de um estranho ser, mas ele sente que esse tipo de recusa seria muito mal visto, mais do que a acidez característica de Parkinson.
— Se acomodem, bruxas e bruxo, pois isso vai demorar mais do que um minuto. E, se depois de ouvirem tudo, ainda quiserem ir embora, somente se todos concordarem, voltarão para as terras de St. Mungus.
— Parece justo – comenta George, jogando-se na almofada mais próxima.
As moças encaram-se incrédulas com a rapidez da atitude, mas se movimentam também. O fogo crepita na floresta em tons rosados, e Astra juraria que ele tem vida, mas também tem outra coisa. Ela lera muito nos últimos meses, sobre espaços do limiar em que, diziam, era possível falar com mortos, evocar fantasmas e traçar vivos. Ela tentara de tudo, é claro, mas nada a preparara para aquela criatura, evidentemente antiga e sábia, mas que ao mesmo tempo transmitia uma sensação estranha. Talvez, porque se reconhecer em um ser de outro mundo fosse assustador ou porque a fizesse perder a pouca segurança que ainda tem diante do seu caminho no seu próprio mundo.
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Ao final da fala de Erev, os bruxos agradecem mentalmente por estarem sentados.
— Então quer dizer que o mundo mágico está em desequilíbrio profundo após as últimas guerras, o que somado ao acordo coletivo de não se falar de verdade e processar o que aconteceu, piora tudo – resumiu Selwyn.
Erev assentiu.
— A magia sente.
— E ela pode simplesmente decidir sumir de bruxos? Bruxaria não funciona assim – falou Pansy, aborrecida e um tanto confusa.
— Magia está em tudo, garota – os anos que a criatura carrega parecem sobrecarregar suas palavras –, algumas pessoas apenas conseguem senti-la e conduzi-la. No caso de vocês, na Grã-Bretanha, há ainda a questão das varinhas que potencializam a condução mágica, ao mesmo tempo que limitam a relação do ser com a magia se não se sabe conversar com varinha. E vocês nem aprendem mais a ouvir as madeiras e os núcleos mágicos! Um absurdo, Morgana diria. Na mesma medida em que a magia te atravessa, ela pode encontrar barreiras. Como um vaso entupido, uma barragem num rio...
— E as nossas magias estariam… entupidas? – George verbaliza, não parecendo muito crente.
— A de vocês e de boa parte de seus conhecidos, sim. Lamentável, realmente, e ninguém percebe. Alguns poucos, sim, como os Lovegood, é o que escuto, mas ninguém os escuta há séculos.
— Você não mencionou o que nós, especificamente, temos a ver com isso – pontua Parkinson.
— Astuta como Salazar – o ser diz, com um sorriso saudoso. Virando o corpo para Pansy, elu continua a falar – Nada. Tudo. Eu tenho algo que um de vocês quer muito, na verdade. Para além do interesse coletivo dos bruxos.
— Linha aberta de comunicação com os mortos? – questiona George, sem muito humor.
A figura considera-o, os dedos enrolando as tranças.
— Isso é negociável, sim. Mas não é o caso – Erev se levanta, e suas roupas cintilam sob as chamas. Elu apoia as mãos cheias de anéis e desenhos nos ombros de Astra, que não tira os olhos das flamas desde que começou a escutar as palavras saírem da boca do antigo ser ao seu lado. – Se eu for falar com honestidade, eu e Astra temos algo em comum, mas eu não sei ainda o porquê de vocês dois estarem aqui, o que não é um problema, quanto mais cabeças, melhor.
O transe que a garota está parece se quebrar ao ser mencionada.
— Eu sinto algo, mas não consigo explicar.
George e Pansy encaram a menina encolhida que, minutos antes, parecia tão imponente. Parkinson sente certa angústia pelo olhar de Astra, enquanto George luta com uma desconfiança. Ele tenta se lembrar do que já ouviu falar da bruxa, pois há poucas dúvidas sobre as dores que ela também carrega. Uma olhada detalhada em Parkinson revela também traços que ele tenta esconder quando encontra os irmãos.
— É natural não conseguir articular palavras de outro mundo imediatamente. Eu temo que nós temos um problema em comum e a Magia gosta de equilíbrio. Eu sou conhecide como Erev Abracadabra, guardiã do entardecer do Entre e tenho uma irmã, Boker Avracadabra, guardiã do amanhecer do Entre. Como disse, estou nas proximidades dos vivos, enquanto Boker costuma ficar na dos mortos. Por isso nossos nomes, Abracadabra, eu crio enquanto falo, e Avracadabra, eu destruo enquanto falo. O tempo aqui passa diferente, vejam bem. Ponto é, ela sumiu e o Entre não fica sem guardiões.
Selwyn prende a respiração.
— Merle também sumiu, há tempos. Eu lamento por você.
A sinceridade de Astra parece ressoar no coração de Erev. George tenta ligar os pontos, e fala levemente.
— Lamento pelo seu irmão, Astra.
Parkinson cruza os ombros e se levanta.
— Compartilho dos sentimentos, mas você não acha que ele simplesmente morreu ou sumiu, acha, Selwyn? O que aconteceu?
A garota não responde e alguns segundos passam, o barulho da fogueira e os sons da floresta inundando o ambiente. Pansy dá alguns passos em sua direção.
— Onde, Selwyn?
Astra parece segurar a respiração.
— Mansão Malfoy. Eles me empurraram para dentro. Merle ficou para trás. Eu tentei, mas me estuporaram – ela sussurra, e a face de Erev fica pesarosa –, e depois, silêncio. Eu fiquei inconsciente por um dia, acho. Ele é o meu irmão, eu saberia se algo tivesse acontecido, mas o DMLE não liga. Ele nem mesmo aparece como morto nos livros da Família, mas…
— Nenhum feitiço funciona – a voz da guardiã daquele mundo se sobrepõe –, trágicos tempos, de fato.
George sente um nó formando-se no pescoço.
— Você sabe o que aconteceu com ele, Erev Abracadabra? Para além de Comensais da Morte?
Nesse momento, todos os olhos se voltam para a criatura, que estremece.
— Eu só sei detalhes do que se passa aqui, infelizmente, mas algo aconteceu e por isso vocês estão aqui. Merle Selwyn entrou nesse reino, mas não assumam o pior, pois quem precisa de cura muitas vezes aprende a habitar o Entre para se remendar. Merlin mesmo costumava frequentar essa floresta, mas ele sempre se deu melhor com Boker e com o precipício da morte do que com as sutilezas da vida e comigo. Morgana, por outro lado, era uma companhia muito mais agradável! A questão, em essência, é que eu não consigo sentir mais Boker aqui desde o tempo em que seu irmão pisou os pés no Entremeio e, note, eu também já não o sinto mais. Eu sei quem faz a passagem para junto dos mortos, então eu suponho que ele esteja em algum lugar aqui, invisível, ou no mundo dos vivos. A questão é que Boker sumiu também e o lado próximo da Morte não pode ficar desguardado. As estrelas sussurram que eles estão juntos.
Levantando-se, Astra encara Erev, calculando mais hipóteses do que o seu próprio cérebro consegue acompanhar.
— E você está me falando isso por que quer o quê? Ajuda com a sua irmã? Você disse agora há pouco que nós morreríamos nessa floresta. Nossas magias estão uma porcaria, também. Digamos que meu irmão e Boker tenham algo entre si, o que eu duvido, ele é só mais um adolescente.
Pansy sorri felina.
— E não se esqueça de mim e do Weasley aqui – ela pontua, batendo o pé levemente no chão.
Erev parece não conseguir articular o seu próprio pedido mas a luz da fogueira muda gradualmente, ficando mais azulada.
— Eu não consigo enxergar. Vocês não entendem, eu e Boker somos os caminhos do que vocês chamam de Visão. A Magia nasce do espaço entre a vida e a morte, ela floresce no Entremeio. Nós canalizamos todas as profecias, por exemplo, mas os céus estão muito fechados para mim e o Acaso trouxe vocês três para cá. A Magia está em desequilíbrio. Eu diria que não existe causalidade nesse mundo, mas com Boker desaparecida, o lado dos Mortos fica instável e a magia do lado de vocês está esvaindo, eu sinto só de olhar para cada um. É por isso que vocês não conseguem fazer feitiços desde que entraram no Entremeio, toda magia é canalizada para o Entre mais próximo da morte. No mundo dos vivos, a Magia está pendendo para cá, acredito, para impedir que as fronteiras se rompam. Eu diria que não sinto tudo na beira de ruir há tempos.
— Um pouco dramático? – George diz baixinho para Astra.
— Temo que não – Astra comenta em voz alta –, minhas leituras do céu há meses apontam para caos, mesmo depois da queda de Voldemort. Eu achei que tinha a ver com a minha jornada pelo meu irmão, mas não é só sobre isso, é, Erev?
— É provável que não, Astra – responde Erev. – Suponho que vocês tenham uma missão, então. Ou um mistério. Eu sei que tudo está entrelaçado, mas é como se as estrelas tivessem me vendado para o futuro. Nada está nítidos, mas eu pressinto que Merle e Boker estão juntos, de alguma forma. Vocês precisam encontrar os dois, Boker precisa voltar.
— Enquanto você fica fazendo o quê, exatamente? Posso falar por mim quando digo que não tenho nenhuma razão ou prova para acreditar em uma palavra do que você diz e eu ainda não me vejo envolvida nisso tudo de fato, com todo o respeito. Meus feitiços têm funcionado, muito bem, obrigada, até entrar nesse lugar detestável – aponta Parkinson com irritação.
Um vinco surge na testa de Erev, mas antes que elu possa responder, George se pronuncia.
— Pelas barbas de Merlin, pare de tirar o seu da reta pela primeira vez na vida, Parkinson! – reclama.
A garota claramente fumega.
— Você não sabe o que eu fiz ou deixei de fazer, Weasley. A sensação de superioridade moral realmente é de família.
— Ah, a cobra deve ter feito mui-
Em um instante, as mãos de Erev estão sobre os dois bruxos, que parecem sufocar num grito. Tudo é muito rápido, e segundos depois eles estão bufando como se houvessem corrido uma maratona. Selwyn, porém, não espera que abram a boca.
— Chega – a voz estridente de Astra é cortante. – Meu irmão está desaparecido há oito meses, mas se isso não é motivação suficiente para um pouco de solidariedade ou empatia, se vocês não ouviram direito, nossas magias estão por um fio. Acreditando ou não, eu não quero arriscar. Eu sou mestiça, uma bastarda Selwyn com muito orgulho, e me adaptaria ao mundo não-mágico rapidamente, mas vocês dois? Briguem o quanto quiserem, isso é do interesse de vocês. Nós precisamos fazer algo. Essa é a chance de fazermos algo. Erev disse que apenas saímos daqui se todos quiserem. Eu digo que não. Podemos achar Boker e Merle, descobrir o que acontecer com ela e fortalecermos nossa magia juntos ou ficarmos aqui discutindo.
Os outros bruxos encaram a criatura mágica entre eles com assombro, quase ignorando a outra feiticeira, que cruza os braços.
— O que vocês viram? – Astra questiona.
George balança a cabeça em negativa, enquanto Pansy engole em seco, tendo ficado muito pálida.
— Desculpe, Parkinson – o ruivo fala, a voz quebrada.
— Eu também lamento, Weasley.
Eles cruzam os olhos e Selwyn observa Erev, um gosto amargo na sua boca.
— Coisas que não devem dizer em voz alta aqui, acredito – o ser suspira, como se aquilo fosse explicação suficiente.
— Nós vamos com você, Astra – a voz de George parece se quebrar.
— Comigo? Onde? – ela fica confusa.
Erev coça a cabeça, sorrindo com o que parece ser embaraço.
— Me desculpe, faz anos desde que partilho memórias com humanos. Aproveitei e me comuniquei junto. É muita informação. Se Merle entrou no Entre, provavelmente ficou em estasis, na cura com a própria floresta, mas como eu não consigo senti-lo, ele deve ter se nutrido da magia do lado de Boker. A questão é que não sinto Boker também. Para mim, é como se eles houvessem aparecido e desaparecido no mesmo instante, mas os tempos se sobrepõem. Eu não vivo o tempo como vocês mais, oito meses são o tempo de uma lágrima para mim.
— Estamos no escuro, então? – questiona Astra.
— Não exatamente. Eu não sei onde Boker está, mas ninguém poderia fazer com ela saísse daqui. Se ela tivesse ido fazer uma visita ao Mundo dos Mortos, não haveria esse tipo de fragmentação. Então, se ela não está mais aqui, ela foi para o mundo de vocês.
— Morgana nos ajude – Pansy sussurrou.
— Com o irmão de Astra? – pergunta George.
Erev faz um gesto para a fogueira e a imagem de Merle Selwyn aparece. Parkinson reconhece vagamente o rosto do menino que tinha, junto de outros dos mais novos, tomado gosto por acompanhá-la pelos corredores de Hogwarts no último ano. O mais quieto de todos, ele era quase uma versão em miniatura de Astra com os olhos sempre alertas.
— Vocês chegaram aqui por volta de que horas no mundo de vocês, feiticeiras?
— Entardecer – responde Pansy de prontidão.
— As portas do Entre só ficam abertas até o amanhecer. Essa é a janela de vocês.
Selwyn solta um som de frustração.
— Eu estou procurando Mer há meses, sem sinais e agora temos umas cinco horas para salvar o Mundo Bruxo?
— Não exatamente – é Pansy quem responde –, a gente estaria retardando o caos, não acabando com ele.
— Alguma ideia de onde sua irmã foi, Abracadabra? – George reza para que Boker e Erev sejam próximos como ele e Fred.
A floresta parece encontrar um instante de silêncio absoluto que só torna evidente a quantidade de barulhos que antes os envolviam. Erev conjura o seu cajado e bate-o no chão, e ele brilha. Pansy percebe que luzes cintilam, à distância, entre as frondosas árvores ao redor deles. Ela previra uma entediante noite de Natal e fora amaldiçoada, pelo visto, com a situação mais bizarra que já vira. Talvez fosse assim que Potter, Granger e o outro Weasley tivessem vivido os anos em Hogwarts, o que explicaria bastante seus comportamentos.
— O melhor amanhecer é avistado no mar. Nós crescemos em uma fortaleza no meio das ondas, há tempo demais, eu diria, tanto tempo que apenas os escombros talvez se lembrem de nós – a voz de Erev torna a parecer um canto –, e é lá que eu retornaria para viver um entardecer entre os vivos. É o único lugar que me ocorre que ela iria, depois de tanto tempo, para ver o amanhecer. Não sei se nós nos lembramos muito bem de outros lugares.
— Escombros no meio do mar? – confirma George, com a voz descrente.
Erev Abracadabra sorri, mas uma careta subsitui logo sua face.
— Algum descendente vendeu as nossas terras. A fortaleza mais segura do Reino Unido, não é o que eles dizem? Um lugar verdadeiramente maldito, mas que um dia foi o portal entre aqui e lá. Talvez por isso consigam reter tantos lá.
Pansy não processa bem as palavras, nunca havendo escutado Selwyn rir de nervoso até aquele momento.
— De onde ela está falando, Astra?
A bruxa de cabelos escorridos abre o sorriso mais assustador que ela já viu.
— Ele era absurdamente obcecado com lá quando criança, com a história, as runas, os detalhes. Até mesmo os prisioneiros.
George Weasley começa a criativamente xingar. Pansy arregala os olhos, juntando os pontos. A bruxa continua.
— Azkaban – nem nos seus piores pesadelos, ela pensa.
Pansy olha descrente para os outros, Erev balança a cabeça e, antes que eles possam considerar algo, o ser bate o cajado no chão.
— Não exatamente, mas você verá. Hora de retornarem para o seu mundo, as outras criaturas estão ficando agitadas em seus sonos e nada aqui deve despertar – fala rápido –, preciso de um voto sobre a missão.
Parkinson cruza os braços.
— Você definitivamente foi da Sonserina se estudou em Hogwarts antes de vir para cá e se tornar isso.
Abracadabra sorri para ela.
— Encostem na minha mão se concordam na busca por Boker Avracadabra e Merle Selwyn. Se os encontrarem, basta um de vocês engolir essa pedra – o ser conjura um pequeno cristal azul na mão –, para trazê-los de volta.
— O que acontece se não cumprirmos a missão? – questiona Pansy.
— Não se trata de um Voto Perpétuo, se é o que te preocupa – Erev sorri –, a magia é sobre intenção.
Astra pega a pedra e guarda-a no bolso de seu casaco e, seguida de George e Parkinson, os três seguram a mão de Erev. Tudo fica azul.
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