O encontro de Shizuku
1 Capítulo único
— Eu vou ter um encontro — anunciou a garota, erguendo os olhos de seu livro.
Machi distraiu-se por tempo suficiente para estranhar a quebra do silêncio. Voltou-se para a companheira de cabelos negros e franziu o cenho.
— O que disse, Shizuku?
— Eu vou ter um encontro — repetiu a outra, ajeitando os óculos. — Acabei de me lembrar...
A kunoichi virou o rosto de lado. Encontrou o olhar de Pakunoda, que polia sua arma. Nenhuma das duas ousava fazer comentários.
— Eu não sei o que vestir... — disse Shizuku, fechando o livro.
Machi esfregou as pálpebras. Aquilo era demais para ela! Afastou-se da parede em que estivera recostada e buscou qualquer coisa interessante na pequena cristaleira. Pakunoda guardou seu revólver e sentou-se ao lado de Shizuku no sofá.
— Um encontro com quem?
— O quê?
— O seu encontro.
— Eu vou ter um encontro?
A loura quase suspirou. Não muito longe dela, Machi encostou a testa no vidro.
— Ah, eu vou ter um encontro. Com o Phinks.
Pakunoda ergueu as sobrancelhas.
— Phinks?
— Não sabia que ele gostava de mulher — murmurou a kunoichi.
— Ou talvez com o Franklin... Um dos dois, eu acho... — Shizuku ajeitou seus óculos de novo e retomou o livro. Abriu-o na primeira página. — Esta história é boa.
— E quando é o encontro? — perguntou Pakunoda.
— Ah... Hoje, eu acho.
Machi virou-se para elas.
— Que horas?
— Hum... — Shizuku fitou um relógio imaginário na parede. — Às sete horas, eu acho.
— Como disse? — A kunoichi cruzou os braços.
— Mas já são seis e pouca, Shizuku — emendou Pakunoda.
A jovem de cabelos negros ergueu o queixo. Seu olhar perdido no espaço.
— Então, eu estou atrasada.
Machi fechou os olhos. Pakunoda prensou os lábios.
— Então, temos pouco tempo para arrumá-la e levá-la ao local do encontro. Venha. Vamos buscar uma roupa — chamou a loura, conduzindo Shuzuku ao quarto.
O apartamento não pertencia a elas — fora invadido enquanto os donos estavam fora. Pakunoda abriu o armário e analisou as opções. Escolheu um vestido rosado com alguns detalhes em renda escura.
— Tente este.
Shizuku despiu-se ali mesmo. Não tinha vergonha de suas amigas. O vestido serviu-lhe bem no busto, mas era largo na cintura e nas costas. Fez um muxoxo.
— O vestido está caindo. Acho melhor ir com as minhas roupas mesmo.
— Deixe isso comigo — assegurou Machi, aproximando-se.
Pakunoda fitou com interesse. A kunoichi usava linhas de nen para costurar o vestido, ajustando-o ao tamanho certo. Era habilidosa. E a concentração em seus olhos não se abalava pelos sons da noite ou pelas tentativas de Shizuku de virar a cabeça para trás. Concluiu o serviço em poucos minutos. Inclinou o rosto de lado, avaliando sua obra.
— Ficou bom? — perguntou Shizuku.
A loura puxou seu braço com delicadeza e desceu o olhar por suas costas.
— Perfeito. Uma profissional não faria melhor.
Machi não agradeceu o elogio, mas o apreciou em silêncio.
— Escolha sapatos para ela, Paku.
— Estes aqui — disse a outra, indicando duas sapatilhas lustrosas. — É bom usar com meia-calça.
Shizuku terminou de se vestir e estudou sua imagem no espelho ao lado da porta. O colar caía sobre o busto, quase desaparecendo no tom rosado. Os óculos deslizavam pelo nariz. Ela ajeitou-os pela terceira vez. Voltou-se para as companheiras.
— Estou bonita?
— Você é linda, Shizuku — respondeu Machi, séria.
— Phinks vai gostar. Ou Franklin. Qualquer um dos dois... — completou Pakunoda.
— Neste caso, eu vou indo. Obrigada!
— De nada.
Shizuku deixou o prédio. Machi debruçou-se no peitoril da janela da sala e sentiu a brisa noturna bater em seu rosto. Pakunoda sentou-se no sofá e pegou o livro que a jovem de cabelos negros estivera lendo. De fato, a história era muito boa.
Mais cedo do que elas esperavam, a campainha tocou. Era Shizuku.
— Oi, meninas — cumprimentou, adentrando o prédio com várias sacolas. — Eu estava passeando pela rua e vi uma lojinha de chocolates. Pareciam gostosos, então roubei alguns para a gente. — Ela pôs as sacolas no chão e esfregou o tornozelo. — Esta meia-calça coça...
Machi e Pakunoda trocaram olhares.
— Shizuku — chamou a loura —, e quanto a seu encontro?
A outra se voltou para ela, a expressão inalterada.
— Que encontro?
— O encontro... — Pakunoda hesitou. — Com o Phinks... Ou o Franklin...
— O quê? Não tem encontro nenhum, Paku. Você quer chocolate?
Ela ainda pensou em argumentar. Mas o semblante de Shizuku era tão tranquilo. E a barra de chocolate em sua mão tinha um cheiro inebriante.
— Sim. Obrigada, Shizuku.
Machi afastou-se da janela.
— Você trouxe algum de cereja?
— Sim. É o seu favorito, não é? — disse Shizuku, entregando-lhe uma caixa de bombons.
— Boa lembrança — murmurou Pakunoda.
Apesar de tudo, a kunoichi sorriu.
**
Ele fitou o visor do relógio que roubara algumas horas antes. Olhou para o final da rua, esperando. Olhou para o beco atrás de si, para o ponto de ônibus. Nada. Com um suspiro, inclinou a cabeça para trás e pousou as mãos na cintura.
— Merda — resmungou baixinho.
Sem mais opções, despiu o paletó, jogou-o por cima dos ombros e procurou um bar em que pudesse passar a noite.
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