O encontro
1 Capítulo 1
Se perguntassem por que toda vez aceitava sair para os encontros em grupos não responderia ser por causa das possíveis pretendentes a namoradas. Ele era um homem acima de tudo de necessidades, e acima de tudo era ele próprio. Para manter as aparências gostava de ter por perto um outro inferior a ele, alguém que traria todos os olhares para si e toda glória final. Esse alguém era Matsuno.
Por isso quando este chegou lhe pedindo um favor não tinha como recusar, e lá estava mais uma vez cercado de mulheres erguendo uma taça de champanhe entre comentários triviais, mas que faziam todas abrirem sorrisinhos. Nunca as levou para a cama.
Sua conquista da noite era a expressão de desgosto no rosto do outro. Não fazia por maldade, era como estava dizendo, todo homem tem suas necessidades. Essa era a de Atsushi.
— O que você faz? — perguntou certa vez.
— Trabalho meio período de barista e curso a universidade Keio. — respondeu Matsuno num tom mecânico.
— Algum hobby?
— Gosto de sair para fazer compras, me divertir com meus irmãos.
— Você tem irmãos? — era uma pergunta retórica — interessante.
À essa altura Matsuno o fuzilava com o olhar, mesmo este estando abaixado e escondido sob a aba do chapéu. Quase estava para dizer que não era da sua conta, já tinha o que queria, satisfeito? Mas em vez disso abriu um sorriso singelo e respondeu:
— Sim, tenho cinco irmãos mais velhos.
Atsushi apoiou o cotovelo na mesa e segurou a face direita com a palma da mão. Matsuno começou a lhe contar sobre cada um de seus irmãos, ele só ia assentindo de leve com a cabeça.
— Kimura-san, o que acha disto? — interrompeu-o no meio e se dirigiu para uma das moças que voltava do banheiro.
— Não entendo porque conversa com esse joão-ninguém.
Atsushi voltou o olhar para “esse joão-ninguém” e o encontrou completamente apagado, sem vida alguma. Fez um som de contentamento dando espaço para a senhorita Kimura sentar-se.
— Ele tem cinco irmãos, sabia?
— Ah, é. Mas, então Atsushi, me diga o parfait da confeitaria do seu tio é mesmo de dar água na boca? Dizem que os melhores doces e bolos são os caseiros.
— Tem muito bom gosto, Kimura-san. — elogiou.
— Deixa disso. — Kimura deu um leve tapa em seu ombro.
Enquanto a cena ocorria Atsushi aproveitava para espiar seu alvo pelo canto do olho. A linha que definia sua existência naquele assento pacato de lanchonete se tornava tênue, quase transparente, o único que a enxergava agora fazia graça dela, manuseava-a ao seu bel prazer.
O ar de simpatia não o deixou e no fim da noite despediu-se com classe das três garotas.
— Quando precisar de mais uma companhia, sabe que pode sempre me ligar, Matsuno. — foi tudo o que disse ao outro antes de entrar no conversível.
* * * * * *
Dias mais tarde recebeu uma mensagem, nela só continham horário e local para encontro. Quando chegou na cafeteria não se espantou de encontrar apenas Matsuno.
— Queria falar comigo? — se tinha uma qualidade da qual podia se gabar era a de ser direto.
— É o seguinte: você é um sujeito legal, Atsushi-kun, mas nós dois sabemos o jogo um do outro. Não pense que pedi o favor para você de graça, as coisas não funcionam assim. — deu uma pausa.
— Prossiga.
— Não vou poder convidar você para o próximo mixer.
Manteve um sorriso simpático no rosto, já esperava por este momento e o aceitou de braços bem abertos.
— Tudo bem.
— Tudo bem? — estava perplexo.
— É o que acabei de dizer. Você também é um cara legal, vou sentir sua falta. — arqueou um dos cantos dos lábios. Sua voz era singela, quase poderia fazê-lo acreditar em tudo que dizia, com naturalidade. E era o que se sucedia. Matsuno hesitou por um momento e por fim deu-se por vencido, suspirou fundo e o entregou o mais angelical dos sorrisos.
— Eu até que podia gostar de você, Atsushi-kun.
A expressão foi certeira, e pela primeira vez se viu desestabilizado, pela primeira vez se tornou o alvo. Pigarreou e pediu a conta, tinham consumido um capuccino e um expresso. Na saída ofereceu-lhe carona para voltar para casa e que foi aceita de prontidão.
— Vejo você novamente? — surpreendeu-se com a própria incerteza no tom de sua voz.
— Claro, só não deixe o convidado pagar a conta.
Atsushi era um homem de necessidades, e a sua se encontrava acenando ao longe enquanto ele dava partida no carro.
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