Notas iniciais
Ângelo me levou para uma lanchonete da praça de alimentação do internato. Eu pedi o meu sanduíche, que era um misto quente e ele o dele, que era um hambúrguer com batata frita, e começamos a comer.
Sentamos numa mesa qualquer, e ficamos em silêncio, sem trocar nenhuma palavra. Quando o ruivo decidiu falar. E falou uma coisa que me surpreendeu.
–Sabe Marina, eu estou aqui, treinando pirralhos há anos, e nenhum deles eram tão corajosos, fortes, inteligentes e destemidos como você.
Confesso que naquele momento eu corei. Corei mesmo. Mais que um camarão. Se é que camarão cora. E respondi então:
–Obrigada Ângelo, e você foi meu melhor professor...
Conversamos então sobre coisas pouco importantes que você não gostaria saber, quem sabe no futuro revelarei essas conversas? Bem, continuando, aí a gente começou a ficar um pouco mais pertinho, e nos juntamos, até que... um grito desesperado pelo meu nome da Alfreda corta o clima. Quase matei ela.
–MARINAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
–QUE É FIA DE DEUS? — Gritei de volta.
–Você tem que me ajudar!!! — Então ela puxou meu braço e me levou para um quarto.
–Certo, agora fala. — Resmunguei.
–Tem um garoto aqui do internato. Se chama Alfredo Manuel. E estou apaixonada por ele. Que coincidência é o amor! — Exclamou ela dando uns pulinhos.
–E um codinome beija-flooooooor! — Respondi ironicamente, continuando sua última frase.
–Você é fã de Cazuza, não é? — Perguntou Alfre com as sobrancelhas franzidas.
–Demais! — Respondi rindo. — Bem, e esse Alfredo, gosta de você?
–Não sei, por isso que eu quero que você me ajude!
Comecei a olhar pra ela.
–Não sou casamenteira. — Respondi — Fala com ele, agora tchau.
–Está indo embora só pra ver o Ângelo de novo né?
Parei de andar. No fundo, eu queria, mas neguei, dizendo que teria que arrumar minhas coisas para a missão.
–Sei... Vá logo, não preciso de você! — Gritou ela, com a aparência meio triste.
Saí correndo e fui pro meu quarto, pra fingir que realmente estava fazendo aquilo. Cheguei lá, e notei que Ângelo estava lá.
–Oh, pare de me seguir! — Reclamei.
Ele deu uma risada.
–Na verdade, tenho que te falar algo sobre a missão. Terá que escolher duas pessoas para te ajudar. E é pra amanhã.
Nem pensei duas vezes.
–Você e...
–Vá com calma. — Ele falou triste. — Não pode escolher treinadores para acompanhar. Regras do Sr. P. e do Bob Marley.
Fiquei pensativa.
–Deixe-me pensar. Vai embora.
–Tem que decidir logo e...
Chutei-o para fora do quarto. Até que alguém liga para mim. Quando olhei no celular, era Natália, sim, a minha melhor amiga.
–Alô? É você Natália? — Perguntei.
–Não, é minha avó! — Ela respondeu. — Onde você está? Fui pra sua casa e sua mãe disse que você não morava mais lá!
Notei que tinha um olho na minha lágrima... Não, espera. Tinha uma lágrima no meu olho. E comecei a chorar.
–O que foi? Seus pais se separaram? — Ela perguntou.
–Não. Eu... Eu matei meu pai e fui expulsa de casa. — Respondi chorando. — Eu não queria matar ele...
–Como assim? Você é uma assassina?? — Ela perguntou enlouquecendo — VOCÊ ESTÁ PRESA?? ESPERA AÍ QUE EU VOU TE BUSCAR MENINA!!
–Não é isso... Eu estou em um internato. — Respondi. — E matei ele descobrindo que eu tinha poderes...
–COMO ASSIM VOCÊ TEM PODERES?? — Ela perguntou dando um grito que poderia ter rachado várias janelas.
–É uma longa história.
–EXPLICA AGORA MARINA! EU ESTOU DISPOSTA!! — Ela gritou tão alto que achei que meus ouvidos tinham explodido.
–Tá, mas só para de gritar.
Expliquei pra ela tudo.
–Nossa... E você agora está acreditando em extraterrestres? E você vai salvar o mundo? — Perguntou ela.
–Exatamente.
–Demais!
–Bem, não é tão legal assim, mas tá.
–Onde é esse internato? Quero te ver! — Exclamou ela animada.
A verdade era que eu não sabia onde era. Era somente um portal que aparecia em um beco.
–Sinceramente, eu não sei. Foi um portal que me levou.
Ela ficou em silêncio. Em menos de 10 segundos, ela se pronunciou.
–Se você sair viva dessa missão... Você me promete uma coisa?
Eu não era boa em promessas, mas eu apenas respondi um sim.
–Você me visita e me dá um simples abraço? — Perguntou.
–Mas a Gabi e a Bia não podem fazer isso por mim?
Gabi e Bia eram outras amigas dela.
–Bem, eu briguei com ela, estou sem amigos. Nenhum mesmo. — Ela respondeu chorando.
Eu fiquei sem nada a dizer. Ela só tinha a mim, a Bia e a Gabi como amigas.
Engoli em seco, e respondi:
–Eu prometo.
Natália deu um grito, mas eu a interrompi.
–Bem, tenho que desligar. Tenho que arrumar minhas coisas.
E desliguei o celular.
Depois, pensei quem iria comigo na missão. Pensaria na Alfreda, e fui até o quarto dela.
Vi ela na sua cama, olhando uma foto.
–Alfre? — Perguntei.
Ela me viu e escondeu a foto.
–Pode falar.
–Quer ir comigo na missão?
–Só com uma condição.
Eu franzi as sobrancelhas.
–E qual é a condição?
–Chame o Alfredo também. Eu conversei com ele, e falei que você era legal.
Dei um suspiro. Não, não aquele suspiro de comer.
–Tá bom.
Daí começou a chover confete do além e ela começou a dançar gritando.
Então uma música e uns cachorros de óculos escuros surgiram. Os cachorros começaram a dançar também.
–Mas o que é isso? — Perguntei.
Então tudo parou e os cachorros evaporaram.
–Ah, isso eu projetei desde que estou aqui. Quando fazem uma coisa que eu quero, isso acontece, mesmo quando eu não quero. — Murmurou ela corada.
–Nossa.
Eu saí do quarto, e me lembrei de perguntar uma coisa. Dei meia-volta e entrei novamente lá.
–Alfreda?
–Sim?
–A propósito, que foto era aquela? — Perguntei com um sorriso malicioso.
E ela corou, ficou mais vermelha que um pimentão. Se brincar, mais vermelha do que aquilo. E fiz um tutorial de como envergonhar uma amiga.
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