O diário de uma filha de Hades
11 O show - parte 3
Notas iniciais
19 de Outubro
O show é hoje e eu não poderia estar mais feliz. Tirando pelo fato dos meninos ainda estarem um pouco irritados comigo, mas quem liga?
– Vamos Lia, sua lerda! Até parece filha de Poseidon. — Nico esmurrou a porta. Como eu tenho os cromossomos XX, não seria muito inteligente me colocar em um quarto com eles, certo? — Preciso pegar minha carteira logo.
Pena que nós não temos uma árvore de dinheiro e, infelizmente ou não, tenho que dividir uma cama com James. Então toda vez que preciso me trocar, expulso-os do quarto. Abro a porta depois de terminar de passar lápis preto nos olhos e jogo a carteira de caveirinhas na cara de Nico. Ele me olha debochado e começa a andar depois de fechar a porta e me entregar o cartão.
Hoje decidimos ir em Hogsmeade e no Beco Diagonal.
– Vamos, vamos, vamos! — Começo a pular de alegria depois que Shawn sugere tomarmos um copo de cerveja amanteigada. — Mas espera, não tem álcool, certo?
Ele ri quando eu fecho a cara.
– Não, né! Que tipo de pessoa embebeda jovens bruxos e pintoras de meio-fio? — Chris dá uma risadinha que não dura muito, pois já lanço meus olhares mortíferos. Os três começam a andar também assim que entro no Três Vassouras lotadíssimo. Ficamos meia hora na fila esperando por uma caneca, mas cara... É divino!
Depois disso, passeamos por mais um tempinho no Beco e voltamos ao hotel pra nos trocar, pois o sol estava escaldante — mesmo no fim de ano — e decidimos, então, ir nas piscinas. Mais meia hora porque James perdeu seu protetor e eu o enchi até comprar outro.
– James, meu amigo lindo, compra picolé pra mim? — Pisquei os olhinhos pra ele. — Por favorzinho, eu te pago depois.
Ele assentiu e foi comprar, resmungando. Os outros dois foram junto, e aproveitei que saíram pra poder tirar meu short e a blusa e tomar sol. Sim, eu tomo sol mesmo sendo filha de Hades. Falando em sol, do nada algo começou a ofuscar meus olhos tanto que eu precisei cobri-los com as mãos.
– Curtindo a fuga, senhorita? — Um cara sentou na espreguiçadeira ao meu lado. Deuses, ele era lindo, loiro e sensual. — Prazer, Apolo.
Ele estendeu a mão. Não hesitei em apertá-la.
– Você não é um deus? — Ele assentiu. — O que faz aqui?
Apolo do nada tirou um óculos de sol e se deitou.
– Orlando sempre foi uma cidade muito inspiradora. Acho que posso fazer um haicai sobre isso... — Ele colocou a mão no queixo e sentou, virando-se pra mim e pegando no meu queixo. — Desejo de inverno. A filha da escuridão / fugira: seu sonho.
Pior que não era tão ruim. Sorri a ele. Deuses, como ele era quente.
– Apolo, ainda acho que não foi por isso. — Sentei e comecei a passar mais protetor solar. — Deuses não abandonam seus postos por nada.
– Muito bem pensado, Lia. Venha, preciso lhe contar uma coisa. — Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido: — Sabia que está em um triângulo?
– Triângulo? — Mas ele não me respondeu e saiu andando rumo a um lugar mais afastado.
– Olhe, Lia, tome muito cuidado com o que faz. Previ algo e não é nada bom. — Apolo sussurrou, sorriu e saiu andando até embarcar em sua Maserati dourada e voltar a guiar o sol. Antes de sair, ele colocou o indicador nos lábios, pedindo silêncio.
Voltei até minha espreguiçadeira, aonde três garotos discutiam fervorosamente.
–... Eu não me importo, ela vai sair magoada de novo! — James gritou. Era raro isso.
– Ahm... Meninos? — cocei a parte de trás da cabeça, envergonhada pois muita gente olhava. Eles se viraram, vermelhos de raiva. A expressão facial deles era interessante. — O que está acontecendo?
– Nada está acontecendo. — Shawn embirrou e sentou, fingindo desinteresse.
– Claro, claro. Consegui ouvir vocês lá de longe. — Revirei os olhos.
– É, né. — Chris cruzou os braços e olhou pra baixo, resmungando baixinho. — Tava lá com aquele cara...
Deuses, que situação ridícula! Tudo isso porque eu estava com Apolo? Comecei a rir baixinho.
– Tudo bem, tudo bem, desculpa então. — Ele segurou um sorriso quando me sentei a seu lado e apertei suas bochechas.
Shawn ainda me olhava feio.
– Olha, eu sei que vocês me amam demais, mas essa estupidez não fez sentido nenhum. — Continuei. — Então licença, que eu tenho mais coisa a fazer do que lidar com vocês na TPM.
Terminei de juntar as coisas, coloquei o short de novo e saí andando.
***
Algumas horas depois, muitas compras e outro piti de Shawn, lá estávamos nós sentados na grama, aguardando o show começar. James arrumava meu cabelo e cantarolava alguma coisa, Chris conversava com um grupo de pessoas ao nosso lado e Shawn estava, ainda, com a cara fechada pra qualquer coisa.
De repente, a luz diminuiu dos holofotes. Estávamos em um local aberto, mas como era demarcado pra evitar penetras, estávamos socados uns aos outros. Começamos a gritar, pois sabíamos que o show começara.
Os primeiros acordes de Burn it to the Ground saíram da guitarra de Ryan e começamos a gritar e mexer nossas cabeças como nunca. Segurei nas mãos de Chris e James — Shawn desapareceu, pra variar — e juntos, gritávamos junto com todos os headbangers.
Outra música tocou, If Today was your last day, depois Savin' me e os músicos fizeram uma pausa. Era uma noite abafada.
– Aqui, Lia, sua água. — Chris sentou-se ao meu lado. — Calor, não?
– É. — Sorri para ele, que estranhamente corou. — T-tá curtindo o show? — Droga, como é ruim falar com ele.
– Aham, muito legal. — Volte para a Terra, Chris! E pare de me olhar assim, que eu fico muito sem graça e não sei o que fazer. Só me resta virar uma minhoca e rastejar pelo meio da terra, soltando cocô saudável para as plantinhas.
– Lia? — Droga! Ele segurava meu rosto com ambas as mãos. O que está acontecendo mesmo?
O tempo está passando
Muito mais rápido do que eu
E estou começando a me arrepender
De não passá-lo com você
– O que? — Chris sorriu e soltou as mãos, não parando de me olhar com aqueles olhos azuis que eu gostaria muito que fossem piscinas, pra eu poder nadar neles até parecer uma uva-passa.
– Posso te contar uma coisa?
– Depende, se falar que eu sou meio pálida não é novidade... — Resmunguei.
– Eu não gosto de Nickelback. — Então por que veio, seu idiota? Poderia ter vendido o seu ingresso e ter ganho muita grana pra gastar nos parques, que porcaria! Aliás, que tipo de pessoa não gosta de Nickelback?
Agora estou imaginando por que
Deixei isso preso dentro de mim
Então, estou começando a me arrepender
De não ter dito tudo para você
– Por que tá aqui, então? — Esquadrinhei sua expressão indecifrável. — Poderia estar com aquelas meninas lá...
Chris riu e mexeu no meu cabelo. Quem disse que você pode? Tá, você pode porque é o Chris, deixa.
– Deuses, como você é lerda. — E, no refrão de Never Gonna be Alone, senti seus lábios nos meus. Tinham um gosto de suor, menta e eu não queria realmente sair dali nunca.
Você nunca vai estar sozinha
De agora em diante
Mesmo que você pense em desistir
Eu não vou deixá-la cair
Você nunca vai estar sozinha
Vou te abraçar até a dor passar
– Eu gosto de você, Lia. — Ouvi seu sussurro, mas me recusei a abrir os olhos. Eu estava sonhando? — E eu sei que você gosta de mim.
– E-eu... O que? De onde?
– Mary me contou. E, bem, estava óbvio.
– Ah. — Resmunguei. Ainda bem que não tinha luz ali.
Avisaram que o intervalo terminou. Chris levantou e me estendeu a mão para levantar, mas não a soltou mesmo quando já estávamos no campo em frente ao palco. As músicas passaram, mas eu realmente não ouvia nada. Viajei para o Mundo da Lia, aonde o céu era sempre lindo, as nuvens eram de algodão e a lua de queijo.
Depois do show, andamos até o hotel. Chris foi legal e me comprou um chapéu do Mickey — Ainda não entendo como ele comprou, são duas da manhã! — e começou a rir da minha cara, porque eu passei uma infância e adolescência inteira assistindo A casa do Mickey Mouse e sabia de cor as musiquinhas.
Pulei na cama. James disse que foi passar a noite com uma garota, e Shawn roncava há muito tempo.
– Tô cansada. — Fiz biquinho pra Chris e estendi meu pé. — Faz massagem?
Ele riu e, em vez da massagem que eu precisava, começou a me fazer cócegas. Comecei a chorar de tanto rir. Quando ele me soltou, deslizei pra debaixo das cobertas e escondi meu rosto.
– Ei Lia, sai daí. — Ele me cutucou.
– Não tem ninguém aqui! Desista! — É difícil convencer alguém de que eu não estou debaixo da coberta?
Senti um ar gelado. Chris pegou minha cintura do nada. Soltei um gritinho, mas ele me fez girar até só podermos nos ver bem de pertinho.
– Não adianta se esconder de mim. Eu sempre vou te encontrar. — E me beijou de novo! Sério, esse dia poderia ser perfeito. Abracei-o e olhei adiante. Ouvi um resmungo.
Vou te segurar com ambas as mãos
Pois sempre acreditei
Que não há nada que precise a não ser você.
E, em meio a cabelos loiros e olhos azuis, pude enfim descansar.
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