O diário de uma filha de Hades
13 Fuçador de calcinhas, a profecia e o nascer do sol.
Notas iniciais
Acordei vendo um certo loiro fuçando em locais aonde ele não deveria fuçar, tipo a minha gaveta de calcinhas — aonde eu escondo meus chocolates do Nico.
– Que fofa, ela tem uma calcinha de bichinhos... Ouch! — Chris passou a mão nas suas costas, no lugar em que o belisquei com os dedos do pé. Preguiça de levantar. — O que foi?
Sentei na cama e o encarei. Meu santo unicórnio alado, como esse menino é bonito. Esses cabelos maravilhosos, o rostinho divino de gente que usa produtos Ivone, ai Rosana!
Ele se jogou em cima de mim.
– Bom dia, branquela. — Chris ficou com os cotovelos flexionados, a uns cinco centímetros de distância de mim. Muito perto! Meus sinais vitais estão falhando! Piiii...
– C-Chris... — Ele sorriu, me encorajando a continuar a falar. — Sai de cima de mim.
– O que? Fala mais alto, menina!
Quem ele pensa que é? Peguei um travesseiro e joguei na cara dele.
– Sai de cima de mim, menino! Aliás, sai do meu chalé, tem luz demais aqui. — Bufei ao ver ele mostrando a língua e saindo pela porta.
Quase que eu tenho um piripaque. Mas é a vida, não posso reclamar por ter o Chris comigo. Tá tudo perfeito! Hmm...
Talvez eu devesse dormir mais um pouco. Mas espera, melhor eu trancar a porta. E deitar com vinte travesseiros, Nico não sentirá falta...
***
– Abre essa porcaria! Lia! O que está acontecendo? — Um... Dois... Três.¹ Parece Shawn. Mas... No sonho...
Flashback on
Uma menina gritava de agonia ao fundo. Eu urrava, enquanto a água extremamente venenosa subia e aos poucos meus pés afundavam no lamaçal.
Puxavam a minha mão.
– Vamos, Lia, corra! Eles estão quase nos alcançando! – Tropecei em uma pedrinha que apareceu do nada e caí no chão. Me ajudaram a levantar. O chão tremia e o mundo girava, como se eu tivesse bebido meia garrafa de vodka de uma vez. Finalmente consegui levantar, o céu me pressionava para baixo e a gravidade impedia que nós pudéssemos nos mover do jeito que fomos treinados.
Tudo escureceu. Melhor, tudo ficou vermelho.
Flashback off
A porta caiu, melhor, ficou toda quebrada. Um Shawn preocupado entrou no quarto e arrumou meu cabelo — vulgo ninho de ratos. Me encolhi ao toque delicado dele. Onde está o Shawn chato e irritante?
– Eles... Eu... Uma menina... — Droga, como é difícil fazer qualquer coisa. Por que eu tenho que sonhar com essas coisas terríveis?
– Shhh, calma. Tá tudo bem. — Ele continuava sendo ríspido e seco, mas, pela primeira vez, senti que aquilo não era tudo, sabe? Que ele parece ser o tipo de pessoa que varre a sujeira pra debaixo do tapete pra fingir que tá tudo limpinho e bonito. — Quíron quer falar com você.
– Sobre o quê? — Funguei e limpei o nariz na camisa dele, que me olhou irritado.
– Coisas importantes. Vem. — Shawn me obrigou a levantar e colocar um chinelo aleatório pra poder ir à Casa Grande. Mas, ao sair do chalé, a primeira coisa que notei foram os filhos de Ares correndo, armados até os dentes. Clarisse berrava ordens. Um filho de Atena discutia alguma coisa ao redor de um mapa do acampamento, com vários X em vermelho.
James acenou pra mim sorrindo, obrigando criancinhas a andarem mais rápido até a Casa Grande, abarrotada de gente nervosa que recebia ordens aleatórias. Uma dríade estava com o vestido cheio de nozes, e esquilos tentavam pegá-las. Não entendi o porquê ela jogou uma na minha cabeça.
– Lia, aleluia! — O centauro suspirou. — De pijamas?
Droga. Droga ao quadrado. Droga à oitava potência, era o pijama dos Ursinhos Carinhosos.
– Shawn, seu projeto de cocô de pombo! — Bati no braço dele. Não que adiantasse muito. — Tá, o que aconteceu?
– Ataques ao acampamento. Muitos. Venha, vou mostrar o mapa. — Ele movimentou a cadeira de rodas rumo à sala de jogos, onde os representantes de cada chalé estavam debruçados ao redor da mesa de ping-pong.
– Aqui temos ataques de dracaenas. Perto dos campos de morangos, temos lestrigões, uns vinte pelo menos. E só aumentando. Aqui temos um ciclope montado em outro, aqui e aqui temos duplas de ciclopes também e nesse ponto aqui — Ele apontou para um pedaço próximo à praia — temos aranhas gigantes.
Todo mundo me encarou, porque a formação dos monstros era em forma de coração. Sabe aquele olhar de ódio, tipo "você roubou o meu lugar no ônibus"? Esse mesmo.
– O que esse... Indefinido faz aqui? — Uma filha de Atena metidinha esquadrinhou Shawn. Ah, que vontade que eu tenho de cortar esses cabelos loiros e jogar geléia de uva podre no resto pra ela ter que raspar...
– Eu vim dizer, senhorita sabe-tudo, que a Lia acabou de ter um sonho. — Todos se entreolharam e começaram a me encarar como se eu tivesse câncer terminal. — E não foi bom.
– Isso é verdade? — Quíron soou preocupado, porém com a voz calma. Assenti com a cabeça e comecei a contar.
Depois que terminei, aí que me olhavam como se eu fosse a Hazel Grace².
– Taylor, vá buscar Rachel. — A filha de Atena saiu correndo, toda lesada. Vontade de colocar o pé pra ela cair. Me joguei num pufe amarelo-mostarda estragada e abri uma revista de fofoca. Por que essa revista existe, aliás?
Uns três minutos de encarada monstra e cinco revistas de menina depois, Taylor volta com as bochechas vermelhas de tanto correr, parecendo um buldogue.
– Tá, por que me chamaram? Eu estava... — Rachel me encarou e seus olhos reviraram. Uma névoa que saía da boca dela encheu a sala pequenininha e ela brilhava em verde.
Em meio ao caos, sua cria irá se reerguer
O triângulo semideus o deve tolher
Sofrimento e castigo serão esperados
Mais um se juntará para os socorrer
A filha da escuridão no esquecimento irá submergir
E um em sacrifício irá sucumbir.
Silêncio profundo.
– Devemos começar a analisar a profecia... — A vaca, digo, Taylor, sugeriu. Não era má ideia.
– Em meio ao caos, sua cria irá se reerguer. Pode ser um deus primordial, talvez.
– O triângulo semideus o deve tolher. Chamem Chris.
– O que é tolher? — perguntei, aérea. Desde quando eu estou em um triângulo? Hein?
– Opor-se, pôr obstáculo. — Quíron respondeu.
Chris chegou esbaforido e sorriu ao me ver. Deuses, que fofura! Sugeri que ele sentasse no pufe verde vômito ao meu lado.
– Sofrimento e castigo serão esperados.
– Droga, bem comigo isso? — Murmurei baixinho e alguns riram.
– Mais um se juntará para os socorrer. — Quíron continuou. — Quatro não é um número bom.
– A filha da escuridão no esquecimento irá submergir. — Chris me cutucou e sussurrou o que estávamos fazendo. Expliquei resumidamente que iríamos numa missão, pelo visto. — Essa não entendi. Lia, você sabe nadar?
– Não. — Vou começar a usar bóias de braço. Ou aquela minha de patinho.
– Tanto faz. Não entre na água então. — Quíron deu algumas ordens e depois saiu rapidamente, pois ia receber uma M.I³. Alguns minutos depois, nos disse que tínhamos três semanas para descobrir o que fazer. Além disso, disse que amanhã cedo nos encontraríamos e iríamos pegar um avião até Los Angeles e começar a busca pelo que não sabíamos.
***
Eram cinco da manhã e eu ainda não tinha dormido. Resolvi vestir um suéter que batia nas minhas coxas e cobria minhas mãos — era de um amigo mortal meu — e ir caminhar. Nesse horário, as harpias já tinham sumido. Ninguém tinha acordado ainda.
Caminhei até a borda da praia e fui até a beirinha, sentindo a água nos meus dedos. Estava descalça. Ouvi uma voz.
– O que faz acordada? — Era Shawn, e não parecia nada bem. Sentei no seu lado. De quem será que ele era filho?
– Não consegui dormir. E você? — Ele não respondeu. Ficou olhando para o mar. Decidi fazer trancinhas no seu cabelo bem preto, que eram desfeitas rapidamente.
– Dá pra parar? — Ri com o nariz por sua reação. Droga, eu sou muito anti-feminilidade.
– Seu cabelo é tão preto e você é tão branco, que estranho.
Ele estremeceu. Comecei a fuçar seu cabelo. Ele tinha a raiz... Loira?
– Você é loiro! — Gritei e comecei a rir. Ele me mostrou o dedo do meio.
– E você é chata.
– Pelo menos não sou uma loira fedida. — Dei de ombros. Shawn virou a cara para o mar de novo. — Ei, desculpa.
Cutuquei seu braço. Nada de resposta. É assim, é?
– Não dói mas incomoda, não dói mas incomoda, não dói mas incomoda... — Shawn tapou minha boca.
– Você me irrita. Cale a boca. — Ele massageou as têmporas.
Fiz biquinho e cruzei os braços.
O sol começava a nascer. Apoiei minha cabeça no ombro dele, que não disse nada. Ficamos assim, observando as cores mudarem de roxo para rosa, depois um laranja. Tudo ficou misturado. Era lindo.
– Sabe, eu agradeço por te conhecer. — Ahn? Como assim? — Também não sei, Lia. Você é irritante.
Ele se virou e por alguns segundos me encarou. Por algum motivo desconhecido meu rosto começou a queimar de vergonha. Ele também estava vermelho. O céu estava multicolorido e os lábios de Shawn tinham gosto de Halls preto. Aqueles poucos segundos, eu... Eu senti como se estivesse acabando de acordar. Minha mente limpou.
Mas quando ele se afastou, mais vermelho do que nunca, eu lembrei de Chris. Droga, eu gosto dele e fico por aí beijando outros caras? Eu... Eu sou uma promíscua!
E por que Shawn fez aquilo? Não sei. Só sei que não é muito inteligente sair correndo pela floresta com os pés descalços. Como as dríades conseguem?
***
Algumas horas depois, lá estava eu, abraçada a um ursão gigante que um dia apareceu no meu quarto. O que eu fiz? Por que eu estou tão frágil, que nem aquele unicórnio quase morto do Harry Potter?
Chris entrou no chalé sem porta e beijou minha testa. Sorri tímida. Eu não vou contar pra ele nada.
Depois de algumas horas, não tive tempo de morrer de medo de estar em um avião. Já estava mais assustada do que tudo.
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