O diário de uma filha de Hades
16 A grande depressão de dona Lia
Notas iniciais
Eu acordei me sentindo bem.
Por dois segundos.
Mas, como diário não é psiquiatra e eu sei que uma hora alguém vai lê-lo, prefiro apenas relatar os fatos.
Primeiro, passaram-se duas semanas desde que Chris morreu. O funeral (tá, sabemos que não é um funeral, mas dá pra entender) foi triste pra caramba. O céu se fechou por todo esse tempo, está frio e o resto dos Estados Unidos sofre com isso. O chalé 7 perdeu o brilho. Mas, como ninguém pode ficar num luto eterno, Quíron mandou outros semideuses para dar uma limpa na missão que não pudemos terminar. Tudo deu "certo".
Alguém anda me alimentando, porque me recuso a sair do meu chalé — que, aliás, parece um lixão -. Faz duas semanas que não olho no espelho e é o primeiro dia em que saio. Claro, porque me obrigaram.
– Vamos, criatura! — James puxava minha orelha enquanto Nicki dava uma ajeitada na minha cara. A loira gritava que minhas olheiras, junto com o meu cabelo bagunçado e emaranhado me lembrava o pássaro malvado do Rio.
Pedi para que pudesse ir ao banheiro. Ela me soltou, depois de terminar algo que eu não tinha visto. Depois de fazer minhas necessidades, vi um vislumbre de uma menina muito bonita. Ela era morena, a maquiagem realçava os olhos bem verdes dela e a boca — que, normalmente está toda mordida — estava rubra.
Aquilo era eu? Com toda aquela maquiagem e o penteado complicado, os olhos pesados de tanto rímel...
Não. Surtei e entrei no chuveiro de roupa mesmo. Afrodite deve estar chorando pétalas de rosas agora — porque ela é muito fancy pra chorar que nem deuses normais choram -. Gritei que já saía, e os dois saíram do chalé.
Depois de dez minutos, vesti a camisa do acampamento, uma calça de moletom branca e tênis branco também. Com o cabelo já seco, fiz um coque — deuses, como ele estava gigante! — e saí.
Preciso retratar a cara de espanto de quem passava por ali. Parte porque eu tinha saído, e parte porque eu estava literalmente acabada. Mas natural. Emily torceu o nariz, mas disfarçou um pouco.
Minha barriga se retorceu e, por sorte, era hora do jantar. Sentei-me sozinha na mesa e, depois de dedicar metade da minha comida à meu pai, mastiguei lentamente. Os all-star brancos me deixavam ainda mais branca.
– Eu passo meia hora da minha vida cuidando de você, pra tirar tudo sem nem aparecer pro mundo? — Nicki choramingou, se jogando na minha frente e roubando um morango. — Sua ingrata! E, aliás, estou super chateada.
Encarei-a. Sério isso? Ela resmungou e começou a comer na minha frente, pouco se importando com o fato de que ela não devia estar ali.
– Sabe — ela continuou — eu sei que você tá mal. Não adianta fingir. Eu tô aqui para te consolar. — Nicki sorriu.
O seu tom foi tão macio, parecia que eu poderia deitar na voz dela e me encolher. Subitamente me lembrou de Chris, com toda aquela leveza e não pude segurar. A loira fazia carinho na minha cabeça, sussurrando que eu podia chorar o quanto quisesse.
Não lhes contei que, nessas duas semanas, eu não chorei. Minha vida foi resumida à acordar, comer o que tinha e dormir de novo. Se não tinha comida, eu só dormia. Isso fez com que eu encolhesse ainda mais. Por dentro, Chris estava vivo e nada tinha acontecido.
Mas, naquele momento, notei a falta que ele me fazia. Deuses, eu ia secar e morrer de tanto choro, mas não conseguia parar. Os campistas pararam de falar e começaram a apontar para mim. Agora, você se pergunta, como eu sabia?
É fácil. Você sente quando estão zoando com você. É natural. Algumas meninas, que nunca foram com a minha cara, fingiram amizade e foram me consolar. James já estava ao meu lado, as encarando com nojo. E eu só chorava. Começaram a me tocar como se eu fosse uma celebridade e a sussurrar palavras vazias de conforto.
Sou filha de Hades, odeio gente demais perto de mim. Então, com aquela aglomeração ao redor de mim, eu me sentia pior. É horrível se sentir fraca.
– CHEGA! — Minha irritação se tornou tanta que o chão tremeu e não parou. — Me deixem em paz!
Começaram a gritar e eu não sabia o porquê. Finalmente, sozinha.
***
Acordei na minha cama, curiosamente limpa.
– Hã, o que... — Tá, pra piorar a situação, Shawn estava sentado numa cadeira, tocando no meu baixo. — O que você...
– Te salvei daquela gente, ué. — Ele riu, sabendo que eu não havia entendido. — Depois de você dar chilique, você abriu uma cratera de dois metros no refeitório e derrubou todo mundo. Sr. D está furioso com você. — Seu tom de voz combinou com sua postura, indiferente.
– E desde quando eu pedi sua ajuda?
Ele parou e me encarou, os olhos azuis faiscando.
– E quando não precisa? Se não fosse eu, você estaria ferrada. No mínimo. — Shawn riu, amargo.
– Olha, você não tem o direito de falar que se não fosse você sei lá o que, porque você poderia muito bem ter salvado o Chris e eu não precisaria abrir uma cratera por nada!
– Eu não podia fazer nada, sua idiota! Pare pra pensar, quem é que pode evitar uma explosão? Nem Zeus pode! Pare de ser uma vadia amarga e pare de jogar tudo em mim! — Percebi que estávamos gritando e eu pressionava as unhas na palma da mão o suficiente para começarem a sangrar.
– Sai daqui. — Sussurrei tão baixo que eu mesma não consegui ouvir.
– Com prazer. — A porta bateu com tudo, mas antes pude ver a raiva nos olhos do moreno. Sozinha novamente, deixei que a dor invadisse meu corpo e caí em um baque surdo na madeira velha do chalé.
***
O que aconteceu depois, não pude entender muito bem. Mas sei que muita gente bateu na minha porta, reclamando que eu consegui a proeza de matar toda a natureza existente em um raio de 50 metros — o que não é pouco. James volta e meia trazia comida para mim, e Nicki periodicamente me arrastava para um banho "relaxante".
Se alguém chegava a comentar sobre Chris, eu sabia. E só de lembrar dele, o chão vibrava e a grama queimava num fogo negro — por isso, foi muito fácil para todos pararem de dizer seu nome -.
Chris era uma dor que nenhum remédio poderia curar. Nem o próprio Apolo seria capaz disto — até porque o mesmo gostaria de que lembrassem de seu filho. Eu sentia sua falta.
Deuses, o que eu faria?
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