O diário de Richie Tozier
1 Eddie Kaspbrak visita a casa de Richie Tozier.

Eddie Kaspbrak mais uma vez bateu na porta da casa de seu amigo e esperou impaciente pela recepção gentil da senhora Tozier, que, imaginava ele, estaria com uma fornada de bolinhos de ameixa em uma mão e uma jarra de suco de limão na outra. Já estava com o cumprimento na ponta da língua, aonde elogiaria seu colar de pérolas e o novo par de sapatos. Mas a senhora Tozier não apareceu e Eddie bateu o pé impaciente, limpando a garganta e cruzando os braços, então pensando que talvez pudesse ser recepcionado pelo senhor Tozier, que estaria carregando uma maleta de pele de crocodilo enquanto ajeitaria a gravata cor de caqui. Ele diria para que Eddie entrasse logo, dizendo que ele não tinha o dia todo e então Eddie correria para dentro com pressa e o senhor Tozier sairia soltando alguma palavra feia. Eddie olhou para o relógio imaginário no pulso e bufou. Na ponta dos pés, ele se apoiou na maçaneta para tentar olhar pelo olho mágico da porta, mas a força fora tão grande que a maçaneta se movimentou e a porta abriu, liberando lhe passagem. Eddie entrou e fechou cuidadosamente a porta.
A casa cheirava a lavanda e Jasmin e estava devidamente arrumada. Sem querer tocar ou desarrumar nada, Eddie atravessou a sala e subiu as escadas, seguindo para o quarto de seu melhor amigo, Richie Tozier.
— Toc, toc? Richie? – brincou ele, abrindo a porta. Mas Richie não estava lá.
Eddie entrou cuidadosamente e sentiu um cheiro insuportável de repelente, depois, de shampoo de amora. Curioso, ele olhou em volta e observou o quarto vazio e desarrumado. Desenhos estavam espalhados e colados na parede. O edredom de dinossauro que a mãe de Richie havia lhe dado de aniversário estava embolado no pé da cama e a caixa de lápis de cor que Stan Uris lhe havia emprestado estava escancarada em cima da escrivaninha. Eddie sentiu que o cheiro de shampoo de amora estava ficando cada vez mais predominante no quarto e então notou a fresta da porta do banheiro do quarto de Richie acesa. O mistério da demora havia solucionado. O amigo estava tomando banho. Ele riu quando imaginou Richie com um topete de espuma roxa na cabeça enquanto imitava Elvis Presley debaixo do chuveiro. Balançando as pernas, Eddie apoiou os braços na cama para ganhar sustento para o corpo e tocou em algo desconhecido. Quando pegou a coisa, notou que era nada mais, nada menos que um bloquinho de anotações. Mais uma vez, Eddie olhou para a fresta da porta do banheiro de Richie e o ouviu cantarolar. Curioso, ele abriu o bloquinho de notas e cruzou as pernas.
Bloquinho, você não vai acreditar na putaria que aconteceu hoje! Eu e a rapaziada fomos para o Barrens. A gente criou um tipo de clube lá, sabe? Um clube debaixo da terra. O monte de feno ajudou a gente. Ele é tão bom com essas coisas. Eu acho que o Ben vai construir um monte de prédio quando for mais velho. Quem sabe ele não construa a minha casa? E quem sabe eu e o Eddie não possamos morar juntos nela? Será que ele iria gostar? A gente ia poder ficar o dia todo assistindo televisão e comendo porcarias, ia ser um máximo! Mas ó, deixa eu falar o que eu tava falando. Deixa eu ver aqui. O clube. Então. Nós construímos ele e foi super divertido. No fim o Henry Bowers e a gangue dele correu atrás da gente e nós nos escondemos lá. Puta merda, foi por pouco! Eles ainda ficaram lá um tempo, mas depois deram no pé. Mas sabe o melhor? O Eddie sentou do meu lado! E acho que ele tava com muito medo, porque ele tava tremendo todo. Eu fiquei tão preocupado que peguei e apertei a mão dele. Ninguém viu e eu acho que ele não se importou também. Eu queria ajudar. É muito ruim ver ele indefeso e com o problema respiratório dele. Eu acho que eu fiz certo, espero que ele tenha se sentido protegido. Bom, eu vou dar no pé, tá bom? A Bev vai me ensinar a fazer o cachorrinho passeando no iô iô.
Eddie ficou observando a página aberta do bloquinho por um tempo, ingerindo toda a história que lhe envolvia. Lembrou de como naquele dia no Barrens estava apavorado. De como conseguia ouvir a gangue de Bowers andando por cima de onde eles estavam escondidos enquanto Henry gritava com Patrick Hockstetter para que olhasse no Kenduskeag. Eddie apertava a bombinha sorte na mão e sentia lágrimas quererem invadir seus olhos. Pensava que não estava pronto para levar uma surra. Que não queria ter que ir ao hospital novamente com a mãe, ouvindo-a gritar com o médico enquanto o fazia lhe entuxar de remédios para dor. Eddie lembrava de quando sentiu alguém apertar sua mão, mas no meio da escuridão e pavor não havia notado que fora Richie Tozier.
Curioso, Eddie folheou todo o bloquinho e viu que em cada página havia uma história, como um diário.
(Um diário. Que menininha, Richie. Um diário!)
Lembrando de uma das vezes que Richie pegou suas coisas sem permissão e devolveu dias depois, ele escondeu o bloquinho de Richie dentro de sua pochete para ler o resto mais tarde.
— Depois eu devolvo. Ele nem vai perceber – sussurrou enquanto fechava o zíper de seu suspensório.
Não tardou e Richie saiu do banheiro enrolado na sua toalha preferida, a de tubarão martelo, enquanto penteada o cabelo molhado.
— Heeei, Eds! Você me assustou. Tá esperando há muito tempo? Desculpa, eu não ouvi a porta, você bateu?
— Bati, mas não tem problema. Big Bill disse que vai passar um filme de vampiro no cinema. Falou que era pra repassar pra todo mundo. Você quer ir? Vai ser as sete.
Richie fez um topete com o cabelo molhado e fingiu que o pente era um microfone. Virando para Eddie, fez uma pose com o quadril para frente e deu uma piscadinha.
— Oh, yeah! Se quero, baby.
Eddie levantou e balançou a cabeça, ainda sim rindo. Aproximando-se da porta, disse que
— Você é o pior Elvis Presley do mundo, Richie Tozier.
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