O dilema de um escritor

1 O dilema de um escritor


Ou se é vaso,

Ou se é mármore.

Se for vaso é porque bebe no sentimentos dos outros.

Se for mármore é porque perpetuou em si um sentimento

e, então, essa é a própria dor de si mesmo.

Se é vaso,

chora as lágrimas dos outros,

a dor lhe é confusa,

mas familiar.

Seus olhos são sua porta e convite.

Se é mármore,

rasga a mesma cicatriz

que faz jorrar letras em seu papel.

A dor é amiga antiga desde a mais tenra infância.

É duro e de olhar fixo,

O jarro bebe nestes olhos,

Porém mais feliz o jarro,

que bebe nestes olhos profundos

e bebe também em outros:

felizes, apaixonados e enciumados.

O mármore é fixo em sua dor,

é linear e constante.

Se escreve é, sempre, a sua dor quem lhe fala.

O jarro escreve sobre o que vê nos outros

e, se bem esperto, se coloca nessa visão.

Engole algo e regurgita

com pedaços de seu próprio coração.

Enquanto que o mármore quebra partes de si

e as macera sobre suas obras.

Ali, naquele papel,

está um pedaço de sentimento cultivado

no coração partido de um escritor.

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