O dia que morri!

1 Se não existo, daqui não sou!


Notas iniciais
Boa noite pessoal!

Trago pra vocês mais um conto, dessa vez mais reflexivo.
Um conto sobre a vida e a esperança.

Espero que gostem =)

Dor! Era como se meu corpo todo protestasse. Breu. Parecia que haviam anilhas em meus olhos, tentei abri-los, mas foi inútil. Queria gritar, pedir ajuda, mas minha boca permanecia imóvel. Droga! Eu sei que minha vida não era grande coisa, mas isto? O que eu havia feito para merecer isso? Então algo aconteceu. Um barulho fraco e suave de passos percorreu meus ouvidos delicadamente; senti uma pontinha de felicidade me tocar por saber que pelo menos um membro meu ainda funcionava.

— Diga doutor! Ele vai sobreviver? – A voz triste de uma mulher soou ao meu lado. Fiquei surpreso por saber que não estava sozinho.

— É um garoto forte dona Maria! No entanto, ele sofreu múltiplas fraturas, vai precisar passar por uma cirurgia de risco, as chances dele resistir são bem baixas. – O homem disse em um tom sério.

— Oh Deus...! – A voz de Soraia era uma mistura de choro e palavras emboladas.

Então era isso! A moto. Flashs de memórias começaram a invadir minha mente. Era final da tarde, estava indo pra faculdade quando aquela criança soltou da mão da mãe e correu pro meio da pista. Eu tive o que? Três segundos? Não, acho que foi menos. Sem pensar nas consequências joguei a moto pra outra faixa, foi quando aquele caminhão... Merda! Senti algo penetrar minha pele e queimar em minhas veias. Provavelmente urraria de dor, mas parece que meu cérebro não manda mais em nada aqui. É isso? Esse é o fim? Estou indo pra uma cirurgia da qual tenho certeza que não vou voltar, é o fim da linha. Sentia que aos poucos minha consciência ia me deixando, sei que não me foi perguntado isso mas... se eu pudesse dizer minhas.... ultimas palavras... diria que minha vida foi uma.... grande.... merda.

Um som estrondoso estourou em meus ouvidos. Saltei imediatamente sentando naquele chão fofo. Era areia! Logo a maresia inundou minhas narinas. As ondas vinham e castigavam a areia se transformando em sons altos e poderosos. Lá no fundo, naquele alaranjado horrível uma bola de fogo se escondia timidamente atrás do mar. Azul e Laranja são cores que realmente não deviam constar no círculo cromático. Era bizarro a forma como alguns golfinhos saltitavam e davam piruetas no mar, por que um tubarão não come eles logo? Olhei ao meu redor, atrás de mim havia um penhasco que com certeza arranhava o céu. Fiquei alguns segundos tentando entender o que havia acontecido, logo cheguei a duas conclusões: a primeira é que não havia sobrevivido a cirurgia; maldita criança. A segunda é que eu....

— Estou no paraíso! – Concluí.

— Não, você não está no paraíso! – Uma menina de uns seis anos de idade estava sentada ao meu lado.

Olhei atentamente aquela menininha. Vestidinho florido, as mãos abraçavam uma boneca de pano. Os cabelos encaracolados pediam até a altura do ombro. Eu sabia quem era ela, afinal se eu estava aqui, era por culpa dela.

— Você me deve desculpas! – Falei em tom de advertência.

— E você me deve um obrigado! – A menina retrucou.

— O que? – Respondi surpreso.

— Você sabe... – A menina tinha um ar pensativo.

— Olha... eu tinha 15 anos, tá? – Senti minha voz travar.

— E depois 17... 20... 25... – A menina desenhava os números na areia.

— Pra uma pirralha você sabe demais... – Respirei fundo. – Ok espertinha, se aqui não é o paraíso, então eu sobrevivi, pode me dizer como vim parar aqui? – Repousei meus olhos sobre ela.

— Eu não disse que sobreviveu! – A menina riu.

— Eu... não sobrevivi? – De certa forma eu já sabia, mas ouvir isso da boca de outra pessoa ainda era doloroso.

— Hora Cesar, você nunca lutou pela sua vida, não seria agora que lutaria, né? – Aquelas palavras entraram como facas em mim.

— Você tem razão! Então onde estamos? – Perguntei.

— Na sua cabeça! – Sua voz era doce.

Uma dor aguda tomou conta da minha cabeça, em seguida comecei a ver feixes de luz. Rostos desfigurados pairavam sob minha face, a visão turva não me permitia identifica-los. Aos poucos os borrões foram ganhando nitidez, estava em uma maca e havia uma mulher e um homem ao meu lado, mais a frente, no pé da maca tinha dois médicos, um homem alto de cabelos grisalhos e uma mulher baixinha de óculos.

— Que bom que acordou querido! – Disse a mulher ao meu lado. Suas linhas de expressão revelavam seus trinta e poucos anos, o cabelo negro amarrado num rabo de cavalo. Ela tinha um olhar bondoso.

— Quem são vocês? – A confusão era nítida em minha voz. Eu morri e acordei com pessoas estranhas me encarando.

— Estranho... – O médico começou a folhear seu relatório. – Os exames descartaram a possibilidade perda de memória. – Ele tinha um tom confuso.

— Como assim querido? Sou sua mãe, Maria! – Aquela mulher pegou delicadamente em minha mão e abriu um sorriso meigo na esperança de que eu a reconhecesse. Um estalo ocorreu em minha mente, é lógico que eu sabia quem era ela.

— Claro! Você é a santíssima! A mãe de todos. Perdão, eu não a reconheci. – Eu tentava vergonhosamente me redimir.

— Filho se acalme! Você bateu forte a cabeça, as coisas devem estar confusas agora. – O homem ao seu lado passou a mão em minha cabeça. Era uma sensação estranhamente boa, como se aquela mão fosse me proteger de tudo. Ele era alto tinha barba e cabelos grisalhos, olhos tão pequenos quanto botões e uma voz tão grossa que parecia um trovão.

— Você é Deus! Oh todo poderoso, veio me julgar? – Tentei me curvar, mas o médico me impediu de fazer qualquer movimento.

— Capgras? – A médica baixinha perguntou silenciosamente.

— Eu sou seu pai! E não vou te julgar. – O homem estava confuso.

— Claro que é! O senhor é o pai de todas as coisas, rei da terra e do céu! – O nervosismo tomava conta de minha voz.

— No momento sou rei apenas em meu lar! – Disse o homem ainda mais confuso.

— De fato! O mundo é seu lar. – Tentava controlar minha voz.

— Por que acha está falando com Deus? – A médica se aproximou de mim.

— Por que morri! Veja! – Estendi o braço direito. – Sente esse cheiro horrível? É meu corpo! Está se decompondo! – Expliquei.

O paraíso é um lugar estranho! Aqui é extremamente parecido com o mundo humano, desde as construções, o clima e até mesmo os animais; fique feliz em saber que eles vinham para o mesmo lugar que os humanos depois da morte. Cheguei a conclusão que talvez estivesse em Nosso Lar; minha mãe era espírita, então sabia alguma coisa. Pois existem profissões aqui, como médicos, se existe profissão então há trabalho, no final acho que não consegui escapar desse tal Bonus Horas. Os médicos fizeram mais alguns exames antes de me liberarem. Na saída do hospital Deus me deu uma grande lição de humildade, afinal, fiquei surpreso ao ver que o todo poderoso do universo andava em um Uninho velho.

Minha carne estava cada vez mais fétida, o cheiro de morte me acompanhava por todo o lugar. Por fim chegamos há um apartamento, onde Deus disse que ali era minha casa. Perguntei se deveria esperar no local até o dia de meu julgamento e Deus respondeu com um “Não sei!” bem ríspido. Acho que até Deus tem o direito se estressar. Maria me levou até meu quarto, era um lugar comum. Tinha uma cama de solteiro, uma escrivaninha, um notbook e uma prateleira com alguns livros. Sério? Quem lê livros no além? Talvez seja uma forma de passar o tempo até o meu julgamento, se é que o tempo existe aqui.

— Querido, tome um banho! – Pediu Maria.

— Sem querer insultá-la Santíssima, mas estou morto! Não preciso tomar banho. – Minha voz não tinha emoção alguma.

Ela levou a mão boca, pude ver uma lagrima descer delicadamente de seus olhos, então ela saiu do quarto e bateu a porta. Merda! Havia feito Maria chorar, aquilo era motivo o suficiente para me mandarem pro inferno. Fui até a janela do quarto e me perdi em meio àquela paisagem bizarra. Havia um bosque na frente, com arvores terrivelmente floridas num tom azulado. Odeio cores! Pássaros voavam de hora em hora com seus cantos irritantes, logo abaixo havia uma praça com uma quadra, onde algumas crianças corriam e brincavam, o sorriso largo era nítido em seus rostos. Devia ser essa a vantagem de morrer cedo, você mantinha o sorriso, já que a vida não teve tempo o suficiente para apaga-lo. Então escutei um ranger lento e fraco vindo da porta. Quando me virei para ver o que era meu coração se encheu de uma felicidade estranhamente boa. De tudo que pudesse encontrar aqui do outro lado, jamais passou pela minha cabeça a possibilidade de encontrá-lo.

— BALEIAAA! – Num movimento rápido peguei o gato obeso e cinza que vinha ao meu encontro. Em resposta ele me deu algumas lambidas.

— Então vocês gatos realmente andam entre os dois mundos, não é mesmo? – Eu passava a mão freneticamente em seu pelo sedoso.

Sem que eu percebesse, o que havia dito tinha me dado uma brilhante ideia. Escreveria uma carta! Baleia poderia entregá-la tranquilamente para minha família. Com uma velocidade maior que eu normal, corri até a escrivaninha, abri a gaveta e encontrei caneta e papel. Não levei dois minutos para escrever a mensagem:

“Prezada Família,

O mundo aqui do outro lado não é tão diferente do qual vocês vivem. Estou com Deus e Maria e em breve terei meu julgamento, só queria que soubessem que estou bem.”

Amarrei o pedaço de papel na coleira vermelha de Baleia e o coloquei pra fora do quarto para que ele pudesse ir ao outro mundo e entregar a mensagem. No entanto, quando abri a porta me deparei com um espelho enorme no corredor. A cópia mais perfeita de mim mesmo estava na minha frente, ela era cadavérica. Tinha uma pele pálida de quem não pegava sol há algum tempo, as olheiras roxas tornavam seus olhos fundos e vazios. Em seus braços haviam várias cicatrizes, a lâmina gostava de encontrar sua pele.

Fiquei mais um tempo naquele quarto, o tédio estava me consumindo. Será que Deus iria demorar muito para me julgar? Pensando bem, é Deus e aqui é o além, esse julgamento poderia levar uma eternidade para acontecer. Talvez estivesse aqui pagando por algum pecado, tenho certeza que cometi muitos! Então na falta de nada melhor pra fazer resolvi sair para explorar. Logo que saí do apartamento encontrei o faxineiro limpando o corredor. Ele tinha lá seus quarenta anos, era calvo e seus cabelos estavam começando a ficar grisalhos, parecia ser um bom homem.

— Isso é pelo Bonus Horas? – Perguntei ao homem.

— Como é meu jovem? – O faxineiro me olhou confuso.

— Olha... – Repousei a mão amigavelmente em seu ombro. – Você já morreu! Não precisa limpar o chão até mesmo depois da morte. – Minha voz era calma.

O homem ficou me encarando incrédulo enquanto eu continuava minha caminhada, tive a leve impressão dele fazer um crucifixo com a mão direita quando lhe dei as costas. Andei por mais alguns minutos até encontrar uma porta com uma placa escrita “Terraço”, entrei e subi alguns lances de escada. Depois de alguns minutos cheguei ao topo do edifício. Era bem alto, dava pra ver Nosso Lar inteirinha daqui. O vento soprava forte, como se me abraçasse por completo. Um laranja horrível tomava conta do céu enquanto o sol se escondia atrás das nuvens. Pude perceber um casal de Araras sobrevoar próximo a mim, que maravilha! Mais um bicho chato e barulhento. Um pequeno muro cercava os limites do edificio. Quando dei por mim, estava ali, na beirinha. Uma vontade enorme de saltar crescia dentro de mim. O que mais poderia acontecer? Estava morto! Eu queria voar e tinha certeza que nesse mundo era possível. Estava decido! Eu iria voar! Então inflei minhas narinas e enchi de ar meus pulmões, no três eu daria meu salto. Um... dois... Três!

— Não vai doer moço? – A voz de uma menina cortou o silêncio.

Imediatamente desci do muro. Eu conhecia aquela voz! Me virei para ver quem era a criança atrás de mim e dei de cara com a surpresa! Ela tinha um vestidinho florido, em uma mão ela segurava uma boneca de pano, na outra havia um pirulito. Seu cabelo era uma mistura de vários cachinhos que pendiam até a altura dos ombros. Minha mente estava uma confusão, um mix de informações, que sinceramente, eu não entendia.

— Você está viva! – A euforia tomava conta de minha voz.

— E você também moço! – Ela escondeu timidamente o rosto atrás da boneca.

— É? Eu estou? Eu estou? – Meu coração se enchia de um sentimento estranho, uma sensação a muito tempo esquecida por mim. Seria isso felicidade?

— ESPERANÇA! – Uma mulher rompeu pela porta de acesso ao terraço. – Quantas vezes eu já falei pra não vir aqui sozinha? – Ela tomou a criança num abraço apertado. Então quando seus olhos esmeraldas encontrar os meus a boca da mulher se abriu num “O”.

— Você! – Ela levou a mão a boca. – É o motoqueiro! – Afirmou.

— É, acho que sou e... – Antes que eu pudesse terminar a frase a mulher me tomou em um abraço quente e apertado.

— Obrigada... – Sua voz era uma mistura de choro e alívio.

As coisas ainda estavam bem confusas em minha mente, mas uma coisa era certa, eu estava vivo. Não sei exatamente quando aquele cheiro de carne podre sumiu, mas agora, apenas lavanda inundava minhas narinas. Parando para observar, tudo o que havia acontecido até aqui tinha sido surreal. Uma sensação estranha nascia dentro de mim. Então me deitei e observei o céu, em seguida explosões em gargalhadas saiam de minha boca de forma histérica. A mãe e a filha me encaravam curiosas, mas eu não ligava. Naquele momento eu só queria me agarrar aquela pontinha de felicidade.

Notas finais
Chocados???

Diz aí o que acharam!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!