Notas iniciais
Originalmente postada no Spirit, para um desafio. Essa história não teria saído do papel se não fosse a música "Do I Wanna Know", Arctic Monkeys. Boa leitura.

Dois pares de olhos raivosos me encaravam.

Era como se uma nuvem escura de repente houvesse tomado posse do céu. Aquele beco, que por si só já era escuro, de noite então... Chegava a me dar arrepios.

O vento passava por ali ruidosamente, assim como os punhos dos dois caras que insistiam em perturbar qualquer um que por ali passasse. Não temia por mim, mas sim pela garota que se escondia em minha sombra.

Não tive tempo para preocupação. O mais alto deles saca do casaco algo que presumi ser um canivete. O outro se afasta enquanto ele parte para cima de mim.

Droga. Empurro a garota para longe, sem poder me importar se a havia machucado. Ela resmunga algo para mim, mas se cala no momento em que vê o cara com a lâmina.

Ei! - a peste grita — O que vocês pensam que estão fazendo? Seus manés! – aponta para o canivete entrando em pânico — Vai lá, acaba com esses covardes, Ivan!

Após seu grande apoio moral, corre e se esconde atrás de um latão de lixo.

Você só quer me ferrar ainda mais, não é, garota?– digo incrédulo, enquanto tento desviar do sujeito.

Ao ver que suas tentativas não deram muito certo, chama seu colega com um gesto rápido de mãos.

E lá estava eu, com minha pouca altura, lutando contra dois batedores de carteira altos feito postes. Grande dia para agir como super-herói e tentar ajudar aquela garota.

O que você tá esperando? Mete logo um soco na cara desses aí!

Menina do diabo!

O mais baixo deles torce a cara e vai em direção à ela.

Ah, nem vem! - ignorei o cara do canivete e corri em direção à ele. Por mais tempo que levasse a vida nas ruas, certamente não era de me meter em brigas. O máximo que eu pude foi dar um belo de um chute na canela do cara fazendo ele ir ao chão. — Briga com alguém do seu tamanho, covarde!

Segurei-o pelo pescoço e tratei de imobilizá-lo.

– Sai daqui, peste. - gritei para a garota que agora estava pálida feito papel

Estranhei sua reação. O bandidinho não tinha chegado lá muito perto dela.

Já ia perguntar o que houve quando me dei conta da burrada que fiz. Cadê o cara do canivete?

Não consegui prestar atenção na menina que apontava, nem no cara que estava imobilizado de baixo de mim. Logo sabia onde o cara estava. Onde o canivete estava.

De primeira fiquei sem reação. A lâmina perfurara facilmente minha blusa e pele. Meu ombro agora queimava pra caramba.

Cambaleei para o lado caindo de bruços no chão. Tratei logo de me levantar e instintivamente coloquei a mão sobre o corte.

Xinguei assim que vi que sangrava feito carne de gado cru.

Recebi um chute no estômago do sujeito que há pouco estava no chão. O cretino parecia uma hiena rindo. O outro, vendo que aquilo não era o suficiente para se safar de mim, forçou novamente o maldito canivete sobre mim.

Soltei um grunhido tão forte que eles xingaram. Não queriam chamar a atenção. Juntei toda força que tinha, que não era muita, e a adrenalina que possuía-me e agarrei o cara do canivete pela perna direita. Grandalhão do jeito que era, caiu pesadamente sobre meu braço.

Mal tive tempo de respirar e o baixinho, ou nem tanto, me puxou pela perna a torcendo.

Lá se foi um ombro, um braço e uma perna. O que mais eles querem?

Puxou-me para mais perto e meteu um soco na lateral da minha cabeça.

Não sei o que aconteceu, mas provavelmente fiz uma careta tão feia que eles se convenceram de que estava quase morto. Trombando um no outro, eles correram ao ver a poça de sangue que se formava ao redor de meu ombro e cabeça.

Ah, tudo estava girando. Tão embaralhado, tão envolvente, tão... Frio. Soltei um espirro.

– Ah! Quer me matar de susto? – a menina deu as caras com a mão no peito.

D-desculpa, princesa. — debochei e ela riu, só que de nervoso. Correu na minha direção e já ia tirar seu casaco para jogar sobre mim quando viu o estado em que me encontrava.

Tropeçou sobre os próprios pés e girou seus calcanhares em direção à entrada do beco. Deve ter gritado por ajuda, mas não tenho certeza.

Minha cabeça latejava, porém mal sentia o resto de meu corpo. Os ferimentos no ombro formigavam de uma maneira muito menos incômoda do que antes. Presumi ser um mal sinal. Eu estava apagando.

Senti quando começou a nevar. Senti frio também, mas isso não me afetava tanto. Um cansaço possuiu meu corpo por completo, e eu não conseguiria manter meus olhos abertos por tanto tempo.

Podia ver os flocos brancos se acumulando sobre mim, mas o que me chamou atenção foi o som de passos de aproximando.

– Por Deus! Fique calmo, vou te ajudar. – e caí num sono profundo.

– Ah! Mas eu não aguento mais esperar. Aposto que ele está fingindo dormir pra não ter que tomar os remédios. – uma vozinha irritante soou.

– Não diga isso, Lana. Ele precisa descansar

Eu estava grogue, inteirinho dormente e as vozes perfuravam como agulhas meus ouvidos me causando uma dor de cabeça monstruosa.

Soltei um gemido baixo de dor e me remexi na cama sem forças para abrir os olhos.

– Ivan! – senti um peso quicando sobre a lateral do colchão. — Sabia que estava acordado. Vamos, abre os olhos.

E foi isso que fiz, mas levei um susto ao me deparar com sua face entusiasmada a centímetros da minha.

– Você devia ter visto, cara! Botou aqueles bandidinhos pra correr! Foi irado. – exclamava sem parar me deixando sem reação.

– Tá louca, garota? Quase fui dessa pra uma melhor. – já ia levantar meu braço para dar um bom cascudo nela quando notei a situação em que me encontrava.

Meu braço esquerdo estava engessado e eu quase nem o sentia, o mesmo com minha perna. Estavam ambos imóveis.

– O que é isso, cosplay de múmia?– irritei-me.

Uma figura que até então eu não notara se aproximou tirando Lana de cima de mim. Encarei a mulher e cheguei a conclusão de que era ela que havia me ajudado.

– Ei.– ela me encarou, havia tomado um susto — É você minha heroína?

– Sou. Quero dizer, não. — ela soltou um risinho nervoso — Não foi nada de mais.– gesticulava com as mãos.

– Que nada! – a garota de intrometeu — Ela é enfermeira. Devia ver, cuidou de você direitinho.

Ri ignorando a dor que vinha das minhas costelas.

– Lou.– ela estendeu a mão — Na verdade meu nome é Louane, mas...– e lá ia ela se enrolando com as palavras de novo, percebendo isso corrigiu-se - Lou.– repetiu.

Ivan.– levei minha única mão boa à dela. A mulher abriu um sorriso e soltou um suspiro.

Arqueei uma sobrancelha em dúvida. Ela logo se pôs a explicar.

– Pensamos que você ia morrer. E isso inclui a equipe médica.

Notei Lana no canto da sala enrolando os cabelos por entre os dedos.

Você tava todo machucado. Parecia um cachorro atropelado. Tipo umas treze vezes.– ela disse com uma expressão cansada.

Puxei ela para perto com meu braço bom e acariciei seus cabelos de leve.

– Por mais que você não queira, vou te assombrar pro resto da vida, peste.

Não deixei de notar as lágrimas que ela logo afastou, dando lugar a um sorriso.

É, eu...– somos interrompidos por vozes vindo do corredor.

– Somos sim um hospital público, mas não temos tempo para ficar cuidando de vagabundos, Louane.

Eu e Lana nos encaramos e logo ela foi me ajudando a levantar. Lou entrou logo em seguida pronta para começar a falar.

– Já sabemos.– Lana disse.

– E-eu...

– Tá tudo beleza, Lou. Nada com que não estejamos acostumados.– encerrei a conversa dando um sorriso e um aceno com a cabeça.

– Até mais, Lou!– a garota quicou do meu lado dando tchau enquanto mal conseguia me guiar para fora do quarto.

– Não consigo ver nada! E ainda tô virando um novo sabor de casquinha do McDonalds.

Ri dela enquanto tentava pensar num lugar quente e seguro para podermos passar a noite.

Prendi meus braços em torno dela numa tentativa de manter-nos aquecidos enquanto caminhávamos sem rumo.

– Sabe, Ivan.– chamou minha atenção - Mesmo tão horrível quanto um cachorro atropelado...

– Treze vezes. – completei.

– ... Não menti quando disse que você foi incrível.

E do nada me pareceu que não fazia tanto frio e nem estava tão escuro como era para estar naquela noite de inverno.

Virei-a e depositei um simples beijo em seus lábios.

E eles eram tão quentes como o dia mais ensolarado do verão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!