O dia em que morri

1 O dia que eu morri era primavera.


O dia em que morri não era um dia clichê;

Não chovia, não estava cinza.

O dia estava ensolarado e colorido pela primavera em seus tons pasteis.

Por que eu morri?

Vamos reformular a pergunta...

Eu já estive vivo antes?

Não, não me lembro de sentir, não me lembro de prazeres em minha vida.

Eu apenas vivia, não é como estar vivo.

Passei 37 anos apenas vivendo, trabalhando, estudando e não sentindo nada.

Poucos dizem frescura, muitos acham que é depressão.

Eu digo que é desinteresse.

Sem motivação,

Sem sentido,

Sem sonhos,

Apenas seguindo um fluxo natural.

Sou um homem que chegou ao ápice de sua carreira,

Dinheiro nunca fora problema,

Mulheres ou sexo também não.

Entretanto eu não via sentido,

Não via graça.

Não existia proposito.

Mas eu morri no dia 20 de outubro.

Morri sentindo o sal em minha pele,

Sentindo a brisa suave por meus cabelos,

Sentindo o perfume das flores e da brisa do mar.

Morri quando larguei meu emprego, morri quando vendi tudo que eu tinha.

Eu morri do marasmo, morri da rotina.

Renasci na natureza, em novas línguas em novos ares.

Renasci sem nada, comecei do zero.

Não nasci em um lugar fixo, renasci no caribe, no Rio de Janeiro, no Canada e em qualquer lugar.

Renasci no mundo.

Renasci nas praias, cachoeiras, campos e montes.

Renasci na neve e nos lagos congelados.

Renasci nos braços de uma morena de longos cabelos crespos e olhos amendoados.

Morri para o resto, morri para o material, morri para viver.

Morri para aprender, conhecer, cheirar e sentir cada parte desse mundo enorme.

Morri e renasci como eu quis.