O diário de uma filha de Hades
14 Sou uma excelente motoqueira
Notas iniciais
Tá, eu não devia parar para tomar um sorvete. Também não devia jogar sorvete numa menininha.
Deixem-me explicar primeiro.
Depois de um vôo de 6 horas, aonde tive de fugir de Shawn e Chris — e, inclusive, trocar de poltrona com uma senhorinha que sentava lá na frente -, finalmente pousamos no LAX¹. Quase fui roubada. Shawn me evitava. Chris estava meio chiclete (isso não é ruim).
– Uff, que cansaço! — Me joguei na cama gigante do hotel. — Já podem sair, lacaios. Sua rainha precisa descansar.
– É o que? — Chris riu, mas não durou muito tempo. Meu olhar mortífero ajuda.
– Tira o meu sapato? — Estendi meus pés para ele. — Por favor! Te pago um sorvete.
– Tá... — Ele revirou os olhos e, rindo, tirou meu tênis. — Credo Lia, que chulé.
Dei língua pra ele e o puxei com os pés mais próximo de mim. Ele riu. Sussurrou algo que eu não entendi. Fez beicinho. Apertei suas bochechas.
– Lia? — Virei pra Chris.
– O que? — Ele me atacou e começou a fazer cócegas na minha barriga. — Ai, para!
– Nunca! — E continuou. Seus dedos eram rápidos de tanto tocar violão. Eu estava quase a fazer xixi na calça, quando do nada a porta fechou com tudo — hã?.
Nos olhamos. Por que isso?
***
Tá, enrolei aqui. Tudo bem. Fomos procurar algo para fazer, já que tínhamos tempo de sobra. Normalmente missões têm o tempo de, sei lá, 5 dias. Uma semana. Mas no meu caso, são três semanas de férias daquele Acampamento. Tudo bem, eu sei que eu vou me afogar ou sei lá o que. E que alguém vai morrer. Espero que seja a pessoa que se una a nós. Mentira. Por que alguém tem que morrer? Parece novela mexicana isso!
– Lia? — Estalaram o dedo na minha frente. — Que sabor você quer?
A sorveteria estava quase fechando, éramos os únicos lá tirando os atendentes. Uma menina me olhava, esperando impaciente que eu terminasse. Ela sugeriu o sabor novo de caipirinha, um drink brasileiro. Os meninos seguravam seus sorvetes, que era caro para caramba e provavelmente não teríamos como pagar mais nada. Tínhamos um dólar e trinta centavos. Não dava nem para pegar um ônibus.
Sentados numa mesa ao fundo da sorveteria, ouvíamos silenciosamente um homem de dois metros brigando com a atendente que fez cara feia para mim. Notei as tatuagens, e a menina puxava demais os 's'.
– Ei, meninos. — Fiz um sinal para disfarçar. Coisa de série de TV mesmo. — Não acham aqui muito suspeito?
– Como assim?
– No meio do verão, e não tem sequer um cliente aqui. Por que será?
Os dois se encararam. Olharam pra mim, depois ao redor, e notaram os atendentes. Estalei os dedos.
Droga, eram monstros.
Muitos.
Eles sorriram pra mim, ambos com os dentes afiados. A menina passou a língua bifurcada nos lábios.
– Corre, caramba!
Shawn quebrou o vidro da janela com um porta-guardanapos. Sério, aquilo é uma arma! Saímos correndo pela Farmer's Market Malibu, com cerca de dez monstros sibilando e urrando atrás de nós. O que será que os mortais vêem?
– Gente, acho que os despistamos. — Disse Chris entre bufadas. — Por que ainda seguramos os sorvetes?
– Verdade. — Jogamo-os para trás. Um deles caiu numa menininha que, infelizmente, começou a berrar. Os pais dela, que eram dois motoqueiros, nos fuzilaram com os olhos. Graças aos deuses que eles "só" tinham dois tacos de baseball. Tivemos de correr de novo. E mais rápido.
Um deles começou a gritar que nem um macaco, e DO NADA uma frota de motoqueiros começou a nos perseguir.
Pulei na garupa de um velhote. O empurrei da moto.
– Pula aí caramba! — Gritei para os meninos, que se espremeram atrás de mim. Acelerei nas ruas.
Alguns ainda nos perseguiam.
– Segurem-se. É sério. — Os dois perguntaram porquê, mas não respondi. Guinei a moto para a esquerda numa rua aleatória. Usei o pé direito pra dar uma freada, e joguei a traseira da moto junto. Acelerei com tudo, me abaixando para o vento não incomodar tanto.
Não tinha mais ninguém, finalmente!
– Ei Lia — Chris me cutucou — Você aprendeu a dirigir aonde?
– Minha mãe era motoqueira. — Disse, indiferente. — Ei, estamos perto de Vanice Beach. Vamos lá?
Acelerei sem dizer nada. Paramos na estrada para eles colocarem os capacetes. Depois, quando pude sentir o cheiro da maresia — estava escuro, era quase meia noite — desacelerei. Paramos perto da areia e nos sentamos ali.
– Ei Lia, eu tô indo ali guardar os capacetes, tá? — Assenti com a cabeça. Chris se afastou.
Joguei uma pedrinha na cabeça do falso moreno. Ele nem virou.
Quem sabe um galho. Droga, também não.
E que tal uma pedra maior?
Não deu tempo, ele pegou no meu pulso.
– Pare. — Seus olhos azuis faiscavam. Desde quando Shawn é mandão? Ele notou a distância mínima e se afastou. — Vamos para o hotel. É tarde.
Sério, desde quando ele é assim?
***
Essa moto é incrivelmente silenciosa. Não vou devolver para os donos, quem mandou me perseguirem?
Entramos no quarto, que tinha três camas de solteiro. Mas algo parecia errado, muito errado. Primeiro que a porta já estava destrancada.
Segundo que tinha gente sentada na cama.
– Olá queridos. — A mulher, se é que pode ser chamada assim, era horrível. A pele era cinza e enrugada, tinha grandes asas recolhidas parecidas com as de um morcego, unhas retorcidas e afiadas, olhos de cobra e caninos bem afiados. Parecia minha professora de matemática.
Sacamos nossas armas. Ela soltou uma risada.
– Oh, queridos. Não adianta. Estão cercados.
Como assim estamos cercados?
Tentei olhar para trás, mas não pude. Recebi uma pancada na cabeça que me fez cair. Meus olhos começaram a pesar... Chris... Shawn...
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