O diário de Richie Tozier

6 Sonia Kaspbrak vira uma fera


Muito tempo depois Eddie acordou na enfermaria do colégio. Estava sem sua camisa de dinossauro e com um curativo atrás da cabeça. Levantou da maca desajeitadamente. Não havia ninguém com ele. Não havia enfermeira, nem sr. Keene, nem Bill, e muito menos Henry Bowers, mas conseguia ouvir um burburinho no corredor, e cada vez que se aproximava mais da porta, o barulho era maior. Eddie

(não está bem! O que aconteceu? Eu exijo saber o que)

ouviu a mãe fazendo uma grande balbúrdia do lado de fora. Sabia que era mãe. Não tinha dúvidas que era a mãe. Conseguia imaginar Sonia Kaspbrak do lado de fora, enorme, com sua bolsa pendurada no braço e seu vestido florido, seu rosto vermelho e quente de raiva. Conhecia aquela voz estridente a quantos metros de distância fosse necessário. Claro que era Sonia Kaspbrak. Era a sua mãe e Eddie havia esquecido totalmente dessa consequência.

Ele mordeu os lábios, conseguia sentir a ansiedade subir no peito só de imaginar a mãe invadido a enfermaria. Subitamente, para evitar o desastre, Eddie se aproximou da porta e a trancou. Ouviu a chave anunciar seu isolamento e os gritos pararam logo em seguida. Em meio ao nervosismo, Eddie podia jurar conseguir ouvir, ou até mesmo sentir, os passos da mãe se aproximarem da porta, e isso fez com que ele cautelosamente se afastasse dela, até encostar com as costas na maca. Nos dez segundos seguintes, viu a maçaneta girar lentamente, fazendo suor brotar no suvaco sem pelo. A maçaneta girou mais uma vez, e mais uma vez e mais outra vez, cada vez mais rápido e violentamente. Sonia então começou a bater — talvez até socar — a porta, fazendo Eddie dar um pulo assustado. Ela gritava e dizia para que

— abra essa porta, Eddie! Eu sei que você está aí! Eddie, é a sua mãe e eu exijo que você abra essa bendita porta!

A garganta trancou. Eddie pegou sua bombinha de cima da mesinha, derrubando o bloquinho de notas de Richie no chão, deu uma grande tragada e a guardou no bolso. A algazarra e batidas da mãe já estavam ficando insuportáveis e Eddie sabia que, com o tamanho dela, era capaz da porta ser arrombada a qualquer momento. Então ele pegou o bloquinho, correu até a janela e a abriu. Não era um salto curto, mas também nada muito alto. Tragou mais uma vez de sua bombinha, molhando a garganta com a famosa água com cânfora do sr. Keene, e sentou na borda da janela, colocando suas pernas para fora. Contou até três e deu impulso com os braços. Vitoriosamente, conseguiu pousar em pé e saiu correndo do terreno do colégio. Atravessou a ponte do beijo e espantou os pombos do parque Bassey com a sua correria. Eddie parou na biblioteca de Derry para recuperar o fôlego e continuou seu trajeto logo mais, atravessando cuidadosamente a rua Kansas, passando pela avenida Costello e pulando a cerca do quintal de Richie Tozier.

O coração de Eddie batia arduamente. Ele bateu na porta dos fundos da casa dos Tozier três vezes até entrar por conta própria. Atravessou a sala que cheirava a pão caseiro e subiu até o quarto de Richie e, antes mesmo de segurar a maçaneta do quarto, Eddie ouviu Richie dizer para ele ir embora. Ele conseguiu sentir tristeza tomar seu peito de imediato, de forma pior de como a pancada que Henry Bowers havia lhe dado.

— Eu sei que é você, Eddie, e eu realmente não quero conversar — disse Richie do outro lado da porta — Você não tem um pingo de noção do que você fez.

Eddie enrugou o cenho e tocou na porta, como se ajudasse a poder ouvir e ao menos soar melhor.

— É claro que eu tenho — começou a dizer -, e eu realmente sinto muito mesmo, Richie. Eu já pedi desculpa. Eu sei que não é suficiente, eu sei mesmo, de verdade, mas você é meu melhor amigo, precisa me perdoar. Eu estou tentando me redimir, juro pra você. Se você pelo menos puder abrir a porta pra eu poder te mostrar. Por favor, Richie. Por favorzinho, deixa eu te mostrar. Seu bloquinho está aqui comigo. Eu peguei ele de volta, viu? Olha, abre a porta pra eu poder provar pra você que eu realmente estou com ele, sim?

Silêncio.

— Richie. Richie!

Um pouco mais de silêncio pairou e depois a porta foi destrancada. Richie Tozier a abriu com cautela e colocou seu rosto inchado e arroxeado para fora da soleira. Eddie, num impulso, empurrou a porta e o abraçou fortemente.

— Eu sinto muito, muito mesmo, Richie. Eu

Richie sacudiu Eddie, fazendo-o lhe soltar. Se afastou, com os olhos espremidos em dúvida.

— O que aconteceu com você? Cadê a sua camiseta? Que merda é essa aí na sua cabeça? Você tá tentando tirar sarro da minha cara?

Eddie sacudiu a cabeça e os braços urgentemente.

— Não, não, não! Juro que não. É que eu acabei me metendo em uma briga com Bowers. Eu, eu sabia que desculpa não era suficiente. Eu te disse isso. Eu tinha que fazer alguma coisa a mais, Richie. Eu fiquei com tanta raiva. Juro que não sei como fiz aquilo, mas eu dei um baita de um soco no queixo dele no meio do refeitório. No meio de todo mundo, Richie!

— Mas você pelo visto não saiu ileso, não é verdade, Eds?

— De jeito nenhum — continuou Eddie, sentando na cama de Richie e tirando o bloquinho do bolso de seu shorts — Henry me apagou. Eu não lembro direito, mas ele jogou seu bloquinho em cima de mim antes de eu desmaiar. Depois eu acordei na enfermaria. Minha mãe tentou ir me ver, mas eu fugi pra cá.

Richie sentou ao lado de Eddie e pegou o bloquinho de sua mão.

— Você bateu a cabeça, Eddie. Tem um curativo nela. E eu não sei se você viu, mas suas costas estão roxas. Além do mais, fugir desse jeito da sua mãe, você só pode estar maluco. Você realmente passou por tudo isso só por minha causa?

Eddie riu.

— Você está com um olho roxo por minha causa, então eu acho que nós estamos quites. O que você acha?

Richie olhou para baixo. Para o bloquinho em suas mãos. Deu um riso sem ânimo e depois concluiu que

— sim, estamos quites, Eds. Mas isso não diminui o fato de agora Henry Bowers poder contar para toda a escola sobre o meu segredo sujo.

Urgentemente Eddie tocou a mão e Richie e a puxou, rapidamente dizendo que

— não é um segredo sujo e ele não vai contar pra ninguém.

Então ele pegou o bloquinho da mãos de Richie e o folheou, mostrando-lhe os escritos borrados e legíveis por causa da tempestade da noite passada.

— É óbvio o porque Henry me devolveu o seu bloquinho. Não tem nada que interesse a ele. A chuva apagou os seus registros, Richie. Henry não leu nada. Eu vi isso no caminho pra cá. Eu parei um minuto no lado de fora da biblioteca para tomar o fôlego e fui checar o seu bloquinho. Logo vi isso. O seu segredo nada sujo está guardado somente comigo. Você ouviu bem? — Eddie puxou o rosto de Richie para encarar o seu — Não é sujo, Richie. Não é problema nenhum.

— Você não me odeia, Eds?

— É claro que não! — Eddie riu, indignado — Eu te amo, Richie! Eu te amo pra caramba! Você é meu melhor amigo. Você sempre me protegeu e sempre me aceitou do jeito que eu sou acima de todos nós, porque comigo não seria o mesmo?

— Ser bicha nesses tempos é ser uma aberração e você sabe disso.

— Não é não. As pessoas que pensam isso são uma aberração. Henry Bowers é uma aberração. Patrick Hockstetter e Arroto Huggins são umas aberrações. O pai da Beverly é uma aberração e até a minha mãe é uma aberração gigante. Você só tem espaço para mais amor, Richie Tozier, e se isso for ser uma aberração, eu vou ser uma aberração com você, porque, você sabe. Você sabe, eu sei que sabe que eu fui o único cagão que não gostou daquilo que fizemos nos esgotos. Eu posso ser uma aberração maior do que você, porque a gente sabe que você ainda gosta de garotas e eu não.

Richie olhou nos olhos de Eddie, e pela primeira vez Eddie notou o quanto os olhos de Richie podiam ser lindos. Logo ele sorriu, e Eddie sorriu também. Os dois se abraçaram fortemente e Richie disse que

— você é a melhor aberração de todas, Eddie Kaspbrak.