O diário de Richie Tozier
8 Richie Tozier toma uma decisão errada

Assim que Richie ligou o rádio que estava pendurado no galho de uma das centenas de árvores do Barrens, Beverly retirou um maço amassado de cigarros Winston de dentro do bolso da calça e, como se ele fosse um balde de pipoca que estivessem dividindo no cinema, o maço passou de mão em mão, um por um. Bill pegou um dos cigarros e passou para Ben, que começou a cutucar a caixinha e desistiu no meio do caminho, entregando para Richie. No momento que o maço chegou em suas mãos, Richie pegou a caixa de fósforos ROI-TAN que sempre lhe fazia companhia e acendeu o cigarro de Beverly, que aproximou-se e tragou a fumaça com todo o prazer do mundo. Escondeu o palito usado na areia depois que também pode se aproveitar da nuvem de nicotina e jogou a pequena caixa para Bill, que acendeu seu cigarro com um outro fósforo.
Eddie estava perto da represa enquanto apreciava toda a cena. Estava acostumado a ver Richie fumar, até ver Beverly fumar, mas toda vez que via Bill com um daqueles na boca era como se fosse a primeira vez. Sempre achava estranho, até um pouco intimidador. Bill sempre ficava sério e com olhar cinza e Eddie sempre parava pra supor o que ele pudesse estar pensando. Talvez no dever de matemática, talvez em Georgie (na verdade, talvez Bill sempre estivesse pensando em Georgie), ou quem sabe até em mulheres nuas. Eddie riu com a besteira e olhou para Ben, que segurava uma barrinha de chocolate. Lembrava também da primeira vez que havia visto Ben fumar e de como ele não conseguiu terminar. Sabia que nenhum dos meninos tinha visto, mas ele viu quando naquele dia Ben não aguentou e escondeu metade do seu cigarro debaixo da terra. Mas não o culpava nem um pouco. Se o cheiro já era insuportável, quem diria o gosto.
(mas será que deveria ser tão insuportável assim? deveria, Eddie? deveria?)
Mike jogou uma pedra no Kenduskeaq, na esperança de fazê-la quicar e Eddie levantou. Como se formigas estivessem escalando suas pernas, Eddie limpou toda a areia que havia grudado em seu shorts. Caminhou com passos firmes até aonde Beverly e Richie estavam e a música ficou cada vez mais alta. Richie estava de pernas cruzadas na areia e Beverly estava sentada em cima de uma das milhares de pedras do Barrens, enquanto fazia biquinho com a boca e soltava fumaça em formas circulares. Quando seus olhos encontraram os de Eddie, Richie sorriu e Eddie se aproximou. Bem ao lado dele, Eddie deitou no chão e cruzou seus braços debaixo da cabeça. De forma interesseira, Richie o copiou, com o cigarro entre os dentes. Seu rosto estava desenhado em uma careta horrorosa por causa do sol forte. Uma careta que Beverly não se conteu e começou a rir. Richie, no entanto ignorou, tragou o cigarro mais uma vez e soltou a fumaça, apontando a bituca acesa e flamejante para Eddie.
— Você quer provar, Eds?
A pergunta tamborilou no ar e o sorriso de Beverly desapareceu como fumaça. Estava desacreditada, e na descrença ela ficou com milhares de batuques na cabeça. Perguntou a si mesma se havia ouvido aquilo sozinha e depois perguntou para Deus, bem baixinho, se era verdade. Foi então que olhou para Bill, num pedido de ajuda
(não podia ter ouvido aquilo sozinha)
(podia, beverly?)
mas Bill estava longe, olhando para o outro lado do kenduskeag, mergulhado em tudo, menos na própria água. Então Beverly, insistente, olhou para Ben, que segurava uma embalagem amassada de chocolate enquanto mexia na mochila. Suspirou e voltou os olhos para Richie. A ponta de seu cigarro queimava arduamente e Eddie olhava para o papel queimar lentamente.
(deveria mesmo ser tão insuportável assim, Eddie?)
— Só unzinho, Eds! Um tragozinho, sim? — Richie continuou, aproximando cada vez mais a bituca no rosto de Eddie.
Impaciente, Beverly levantou.
— Beep beep, Richie — soltou, esticando a mão para tirar a pequena bituca flamejante das mãos de Richie.
Richie não fora tão rápido para afastar sua mão, mas Eddie fora rápido o suficiente para pegar o pequeno cigarro do meio dos dois. Sem nem pensar duas vezes, ele tragou a maldosa fumaça daquele pequeno filtro embolado e foi presenteado com uma horrorosa onda de tosse. Sentiu a cabeça explodir e a pressão cair. Via a fumaça sair de suas narinas enquanto elas desesperadamente alarmavam por ar puro e sentia as longas mãos de Richie tapear suas costas tentando ajudar a melhorar a crise. Mesmo perante a tosse alta, conseguia ouvir Beverly dizer que
— Era óbvio que isso ia acontecer! Olha o que você fez, Richie! Olha o que você fez! Cadê cadê cadê cadê a-
Não demorou nada para o clube dos otários aglomerar em volta de Eddie. A situação fora formada em questão de segundos, e logo Bill estava agachado na sua frente, segurando a bombinha em uma das mãos. Enquanto Beverly rugia de indignação e a bituca apagava na areia, Richie, por mais nervoso, procurava soltar uma imitação aqui e uma piada acolá, segurando firmemente os ombros de Eddie.
A tosse já estava escassa quando Bill esticou a bombinha no rosto dele.
(você sabe o que é um placebo, Eddie?)
e ele a pegou, sentindo a grandiosa água com cânfora limpar a sua garganta do estrago da nicotina. Três, talvez quatro segundos de silêncio pairou naquela região do Barrens e então Bill deu dois tapinhas nas costas de Eddie, sorrindo, logo rindo. Então Eddie também riu, e Richie o acompanhou junto de Ben.
— Vocês são loucos! — disse Beverly e as risadas aumentaram.
— Vamos, Bev! Pare com isso e dê umas boas hahas com a gente, afinal, se ele nunca fumasse, como ele ia saber se ia gostar? — retrucou Richie, levantando;
— É óbvio que ele não ia gostar!
— Ele só tragou errado! Foi só um sustinho. Diz pra ela Big Bill, diz pra ela que ele só tragou errado — Richie caiu de joelhos na frente de Bill com salamaleques loucos — Diz pra ela, sinhô! Diz, diz!
Como uma criança teimosa, Beverly cruzou os braços e olhou para Bill. Bill, por outro lado deu um riso sem ânimo, cafungou o nariz e apontou para o nada com a mão.
— E-ele foi e-em-bora.
Todos os doze olhos pairaram para onde Eddie deveria estar. Pequenas pegadas de tênis iam até o meio das árvores e depois sumiam. Richie pegou a bombinha de Eddie do chão e levantou num pulo. Deu um beijo molhado na bochecha de Beverly e saiu correndo na direção das pegadas gritando que
— juro juradinho estar na porta do Aladdin as oito e meia com o Eddie no colo!
Quando Richie abandonou o Barrens e colocou o primeiro pé na rua Kansas, viu Eddie perto do bebedouro de pássaros do parque memorial que Stan tanto gostava. Calmamente e ajeitando os óculos na base do nariz, Richie aproximou-se de Eddie. Os pássaros voaram em todas as direções possíveis, deixando o bebedouro para trás, como se Richie fosse um monstro horrendo que pudesse maltratá-los da pior maneira possível. Mas ele não era, e num ato brincalhão, ajoelhou-se na frente de Eddie. Desconfortável com a cena, Eddie olhou para todos os lados na rua puxou Richie pela camisa, como se fosse o suficiente para fazê-lo levantar.
— O que você pensa que está fazendo, Richie!? Levanta logo daí!
Richie puxou os cabelos para trás e retirou a pequena bombinha do bolso, esticando-a para Eddie.
— Você esqueceu a sua bombinha, Cinderella — ele retrucou e assim que Eddie pegou a bombinha de sua mão, Richie levantou — Por que você fugiu?
— Eu não fugi — Eddie retrucou com urgência — Só cansei de ficar no Barrens.
Como se fosse uma marionete do próprio bom humor, Richie passou o braço por volta do ombro de Eddie e o puxou para perto.
— Que tal eu te pagar um sorvete? O que você acha, menino Kaspbrak? Você escolhe seu sabor preferido e a gente finge que você nunca encostou a boca em uma bituca de cigarro na vida. Juro pra você. Boquinha de siri. E se os outros mencionarem isso, vou fazer eles acharem que nunca aconteceu. E então, Eds? O que me diz?
— Digo que é uma ótima ideia.
Richie sorriu e Eddie também. Atravessaram a rua Kansas conversando sobre quadrinhos, e quando pisaram na Avenida Costello, infelizmente, os sorrisos desapareceram. Henry Bowers estava lá, encostado na parede enquanto mordiscava um palito de dentes. Quando seus olhos encontraram os de Eddie, um sorriso sanguinário de orelha a orelha surgiu. Num peteleco, Henry jogou o palito de dentes fora e cuspiu um catarro grotesco na calçada, bem perto dos tênis de Eddie, fazendo-o ficar enjoado. Richie, num ato de valentia (pelo menos era o que ele achava) entrou na frente de Eddie e o afastou com o braço para trás, fazendo com que Henry o encarasse com desdém, o qual ele mesmo retrucou com muito prazer. A rua estava silenciosa e não demorou muito para que Patrick Hockstetter saísse de dentro do mercado da Avenida Costello carregando em seus braços uma garrafa envolta de um saco de papel, e nem um segundo a mais para Arroto Huggins bater a porta do carro que estava estacionado do outro lado da esquina e se juntar a sua gangue.
— Que tal dessa vez eu te dar um soco e quebrar os seus dentes, seu anão de merda? — disse Henry para Eddie.
— Que tal você cair fora daqui e ir lamber as bolas dos seus amigos, Bowers? — Richie retrucou.
Os olhos de Henry ficaram possessos. Ele esticou a mão com rapidez e Richie viu estrelas, desequilibrando-se para trás. Patrick então chutou Richie e o derrubou no chão. Ele se encolheu e Henry não se cansou. Chutava suas costas e sua cabeça como um lunático, e por mais medo que estivesse, Eddie pensou que só faltava a boca de Henry espumar para ele parecer um verdadeiro louco.
Foi exatamente naquele momento que sentiu a mão pesada de Arroto Huggins ser apoiada no seu ombro, como se ele soubesse as coisas grotescas que Eddie estava pensando sobre Henry.
— Deixa ele em paz! — Eddie ouviu Richie gritar, e quando seus olhos se encontraram, Henry chutou o rosto de Richie mais uma fez, fazendo sangue voar de seu nariz.
Henry gritou para que Richie calasse a boca, ofegante e alimentado de raiva. De supetão, num momento de calmaria, pegou o maço de cigarros Winston de dentro do bolso de Richie e sacou o último cigarro da caixinha, acendendo a bituca e jogando o palito de fósforo no rosto dele. Henry deu uma longa e apreciadora tragado no cigarro, tombando a cabeça pra trás e soltando a fumaça lentamente. Logo depois da degustação, ele olhou para Eddie e disse que
— é a sua vez agora, seu merdinha. É a sua vez de aprender a não cruzar a minha frente, sua bicha imunda! Você gosta de socar a cara dos outros, não é? Vamos ver se você vai gostar agora.
Eddie foi empurrado por Arroto na direção de Henry, e Henry o segurou pela camisa. Alarmado e como se estivesse rodeado de insetos, Eddie se estapeou de um lado para o outro com a esperança de se livrar das mãos sujas de Henry, mas assim como Richie, ele o socou no meio do nariz. Eddie sentiu sangue escorrer pelo rosto enquanto Henry puxava seus cabelos para trás, na intenção de segurar sua cabeça. Naquele momento, ouviu a risada possessa de Henry de novo e sentiu uma chuva de saliva cair sobre o seu rosto. A bituca acesa brilhava entre os dedos dele, e depois de ele tragar mais uma vez e soltar a fumaça no rosto de Eddie, Henry pressionou a ponta acesa e flamejante sobre o pescoço de Eddie, automaticamente derramando lágrimas de seus olhos. Eddie gritou como nunca tinha gritado antes, e empurrou Henry com uma força que não imaginou que poderia ter. Ele caiu de bunda no chão e Henry fora lançado contra a parede. Em questão de segundos, Patrick Hockstetter e Arroto Huggins foram tentar ajudar Henry Bowers enquanto Eddie tentava ajudar Richie.
Na situação desesperadora que sentia, Richie pediu para que Eddie corresse e pedisse ajuda, e aquela fora a pior decisão que ele poderia ter tomado naquele verão.
Diante de seus olhos tudo não demorou menos que um minuto. Viu Eddie correr para o meio da rua e depois o viu planar no ar quando o carro vermelho o atingiu como um pino de boliche. Henry, Patrick e Arroto já estavam longe quando Eddie rolou no asfalto e ficou esticado como uma panqueca na rua quente de Derry, e mesmo que fosse um ato insuficiente, Richie gritou. Gritou e berrou na esperança de ver Eddie reagir. Sentia sua garganta arder e seu pulmão implorar por ar até de repente entrar em colapso e desmaiar, antes mesmo de conseguir ouvir a primeira sirene tocar.
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