O diário de Richie Tozier

2 Henry Bowers luta por uma barra de chocolate.


Notas iniciais
Oi, oi! Procurei não demorar muito para trazer o segundo capítulo! Espero que gostem! Agradeço muito as reações positivas do primeiro capítulo e por todo o carinho.

Eddie saiu da casa de Richie e quase escorregou em uma lamaceira perto dos vasos da senhora Tozier. Ele pareceu sentir Richie o observando da janela do quarto, enquanto, provavelmente, vestia a primeira camiseta que teria visto pela frente. Mas ignorou, esperou os carros passarem apressados e atravessou a West Broadway.

Eddie pegou o bloquinho de notas e observou o tráfico da rua Kansas ir e vir, de um lado para o outro. Ele desceu a avenida e sentiu o sol fervilhando seus cabelos de um jeito ardido. Apertando o bloquinho na mão, como se fosse uma maneira de diminuir a dor do couro cabeludo, ele ficou pensando no que havia lido no quarto de Richie. De como, de certa forma, Richie parecia amoroso perante seus rabiscos. Por um minuto, Eddie pensou em ir para o Barrens encontrar os amigos e contar a novidade, mas isso foi só por um minuto. Ele não era traiçoeiro, por mais que quisesse ter um motivo para tirar sarro de Richie, como ele tinha motivos para tirar sarro de Eddie por causa dos cuidados de sua mãe, ele não faria isso.

(por causa dos cuidados de sua mãe)

Como se o tráfego de carros pudesse trazer memórias junto com o vento provocado pela alta velocidade da rodovia, Eddie lembrou de quando, na Center Street Drug, ele fora convidado

(obrigado. De quando fora obrigado)

pelo sr. Keene a tomar uma vaca-preta e ouvir um monte de baboseira de gente velha. Ouvir que o que havia em sua bombinha não era nada mais nada menos que água com cânfora misturada. Que sua doença era sua mãe. Que seu médico, dr. Russ, era um mentiroso. Que seus pulmões eram saudáveis e livres de asma, que tudo era parte de sua cabecinha fraca e inofensiva. Nervoso, ele fez uma pausa e aspirou a bombinha quando a imagem do sr. Keene, magro, arrumado e sorridente atravessou sua mente, e então balançou a cabeça, tentando afastar a lembrança.

Eddie entrou no mercado da avenida Costello e comprou duas barras de chocolate com amendoim para dividir com os amigos no Alladin. Cinco minutos depois, quando saiu do mercado, ele continuou a subir, esperou na intercessão da rua Jackson os carros correrem como loucos, e a atravessou quando a rua estava devidamente deserta, até chegar sã e salvo no parque McCarron. Soltando um suspiro satisfeito e cansado, Eddie sentou em um banco e abriu uma das barras de chocolate, dando uma mordida bem gostosa. Quando terminou de comer, ele limpou as mãos no shorts, pegou o bloquinho de Richie e abriu na segunda página.

Eu não tô com muito tempo porque estou indo encontrar os meus amigos no Barrens, mas eu preciso muito, muito, muito anotar o que aconteceu antes que eu esqueça. Eu tive um sonho com o Eddie hoje, bloquinho e, olha, foi o melhor sonho do mundo. Não. Tá bom. O segundo melhor sonho do mundo, o primeiro é um que eu tive há umas duas semanas, eu acho, quando eu sonhei que a minha comprou uma piscina só pra mim. Enfim, enfim. O mais importante agora é que eu sonhei com o Eddie e eu quero anotar porque não quero esquecer. Eu li uma vez que os sonhos têm uma duração de cinco minutos e deve ser por isso que a gente esquece tão rápido, né? Eu sonhei que o Eds e eu estávamos descendo a Jackson porque íamos encontrar o Big Bill pra ir pro centro da cidade pichar na base da estátua do Paul Bunyan, mas o Eddie disse que tinha uma surpresa pra mim! E aí me entregou chocolate! No sonho eu fiquei muito feliz, mas pra não demonstrar tirei sarro do dele e peguei a barrinha. Tanto no sonho como agora eu queria mesmo era poder abraçar ele, mas Richie Tozier não é dessas coisas não. Bom, tenho que ir antes que eles fiquem bravos e me afoguem na represa.

Eddie amassou a embalagem de chocolate e jogou no lixo. Ele ergueu o olhar, sorridente, e logo sentiu o coração entalar na garganta quando viu Henry Bowers, Victor Criss e Patrick Hockstetter um pouco adiante, dividindo algumas balinhas. O sorriso não tardou em sumir, e Eddie desajeitadamente guardou o bloquinho de Richie no bolso e levantou do banco, só que já era tarde demais. Patrick o viu e cutucou Henry que, depois, cutucou Victor. Com um sorriso estampado no rosto, Henry enfiou suas balas no bolso e se aproximou de Eddie, estalando o pescoço.

— Ora, ora, ora se não a bichinha do clube dos Otários – disse ele – Onde estão seus amigos, babaca? Está sozinho?

Patrick estava ao lado de Henry com um sorriso de orelha a orelha. Eddie engoliu em seco, como se sua garganta fosse mais sem vida que o próprio deserto.

— Sai daqui, B-B-Bowers! Sai daqui!

— “Sai daqui, Bowers” – Henry guinchou, com a voz afinada.

Victor Criss, lentamente, se locomoveu para trás de Eddie que, tremulo e com medo, não percebeu a aproximação. Ele segurou Eddie pelos ombros, obrigando-o a cravar bem os pés no chão. Com o movimento brusco, a barrinha de chocolate que ainda restava no bolso de Eddie caiu e quicou na grama, exibindo sua embalagem laranja e chamativa nos raios de sol. Henry Bowers olhou para a barrinha de chocolate e, curioso, agachou para pegá-la.

— Olha só, um chocolate em troca de uma surra. Eu acho uma troca bem justa, você não acha, babaca?

— Isso não é seu, Bowers! Isso é meu! Larga, isso é meu!

Num pulo, Eddie conseguiu se soltar dos braços suados de Victor Criss, avançando para cima de Henry e sua barrinha de chocolate. Henry Bowers parecia incrédulo e com raiva, puxando a embalagem alaranjada e a amassando toda. Patrick Hockstetter, na tentativa de ajudar o amigo, chutou a canela de Eddie, que soltou um ouvido de dor, mas sem desistência de soltar Henry.

— Solta isso, seu merda. Solta isso, seu merdinha! Eu vou te dar uma surra! – Bowers rosnava , tentando derruba Eddie com o peso de seu corpo.

Do outro lado da rua, uma senhora gritou para a discussão que acontecia no parque McCarron e, com o proveito da distração dos meninos mais velhos, Eddie chutou as bolas de Henry, que soltou a barrinha para abaixar de dor, e saiu correndo de volta para a rua Kansas. Eddie podia jurar que mesmo com o barulho dos carros conseguia ouvir Henry gritar que

— Você vai MORRER, sua bicha!

mas ele não olhou para trás nem se quer um minuto. Passou correndo pela biblioteca pública de Derry e chegou em frente ao cinema Alladin rapidinho.

Como se sua bombinha fosse a última salvação do mundo, Eddie a sugou até sua garganta ficar inteiramente molhada de água com canfora. Apoiado nas pernas, ele olhou para o relógio da bilheteria, que marcava a hora em seis e cinquenta e dois. Um pouco mais adiante, Bill Denbrough acenou e, tão rápido quanto pode podia pensar, Richie Tozier passou um dos braços pelo pescoço de Eddie.

— Ora, ora, ora, vejam só pessoal se não é o nosso mais adora Eddie Spaghetti! – anunciou Richie, fazendo a voz do narrador de Cinejornal – O que aconteceu com você, garoto? Foi atacado por lobos?

— Por três, se quer saber. Três lobisomens horrorosos e fedendo a chulé.

— Aquele lixo do Bowers te perseguiu, foi, Eds? Você está bem?

— Eu estou – disse Eddie, enfiando a mão no bolso e pegando a barrinha de chocolate toda amassada e melada – O seu chocolate que foi ferido em combate. Ele não está tão bem agora. Bowers quis roubar ele de mim, mas eu peguei de volta.

Richie torceu o nariz e ajeitou os óculos na base do nariz.

— Meu chocolate?

— É. Toma. Eu comprei pra você.

(na verdade eu comprei pra mim, Richie, mas pode ficar pra você. Mas vê se maneira na piada, tá bom?)

Bill assoviou e gritou que a sessão já ia começar. Eddie ergueu o braço e fez um jóia com o polegar, gritando que eles estavam logo atrás de Bill.

Richie pegou o chocolate e guardou no bolso. Eddie observou bem, mas sentia que seu rosto estava inexpressivo, até que Richie olhou para ele novamente e, com alegria, disse:

— Valeu, Eddie. Você é mesmo meu melhor amigo. Agora vamos, quero ver alguns pescoços serem mordidos. Quero ver muuuito sangue!