O diário de Richie Tozier

3 Eddie Kaspbrak descobre um segredo.


Quando o filme acabou, Bill decidiu fazer companhia a Eddie e Richie no caminho de volta para casa. A sra. Cole estava fechando a bilheteria quando eles saíram pelo portão da frente. As luzes estavam quase todas apagadas e as crianças que estavam na mesma sessão de filme se espalhavam para cada canto da rua. Algumas subiam direto pela rua Center, outras iam pela Main. Bill jurou ver Greta Bowie virando na rua Kansas, mas não lembrava de tê-la visto dentro do Alladin. Enquanto fazia comentários das partes que mais gostou, ele empurrava Silver na subida da rua Center. Quando viraram a Kansas, Richie comentou que

— Só por precaução eu vou pegar uma cabeça de alho na cozinha. Minha mãe não vai fazer falta.

A noite estava pouco movimentada. Os faróis piscavam intensamente, pulando do vermelho para o verde e do vermelho para o amarelo. Antes de virarem na rua Witcham, a casa de Eddie foi a primeira parada. No resto do percurso, Bill levou Richie na garupa.

Eddie procurou fechar a porta da frente com cuidado. Depois, tirou os sapatos e os deixou no pé da escada. Ele atravessou o corredor e ouviu a televisão nas alturas. Sonia Kaspbrak, mãe de Eddie, dormia sentada na poltrona enquanto passava Gunsmoke, uma série de velho oeste que ela o proibia de ver. O controle remoto pendia em sua mão, como se o chão o atraísse calorosamente. Curioso, Eddie se apoiou na soleira e olhou para a televisão. Um homem com chapéu de cowboy conversava com uma linda mulher de vestido amarelo no balcão de um bar. Depois, a cena cortou para os dois em um quarto, com ela se servindo de alguma bebida enquanto o homem a rodeava e tagarelava apoiando as mãos no seu cinto de coldre, como um grande cowboy dos anos 50. Inesperadamente, a sra. Kaspbrak roncou e Eddie deu um pulo. Temendo que a mãe pudesse acordar, ele achou melhor subir para o quarto e ficou sem saber como a cena terminava, descobrindo apenas alguns anos mais tarde.

Eddie fechou a porta e colocou pijama. Quando se aproximou de sua escrivaninha, ele viu seu copo d’água de canudo divertido e alguns comprimidos enfileirados em cima de um pano de prato. Pensou que provavelmente sua mãe teria deixado arrumado para Eddie tomar antes de dormir e engoliu o primeiro sem protestar, sugando o canudo sem muito animo. Ele olhou para o restante dos comprimidos e lembrou novamente de sr. Keene o

(torturando)

ajudando a procurar entender o que se passava com sua saúde. Eddie balançou a cabeça e tomou o restante dos comprimidos antes que a respiração pudesse começar a apitar na garganta. Dois dos comprimidos foram insuportáveis de engolir na primeira vez, mas na segunda tentativa Eddie conseguiu senti eles desceram raspando, igual aos outros. Ele sugou o canudo mais uma vez para ter certeza que todos os comprimidos estariam boiando em sua barriga, foi escovar os dentes, pegou o bloquinho de Richie e deitou na cama, apagando a luz do quarto e acendendo a do seu abajur em formato de gato.

Hoje eu apanhei da gangue do Henry Bowers, bloquinho. Meu peito todinho tá doendo e a minha barriga também. Eu acho que vai ficar muito roxo e muito feio. Eu tava indo pra casa do Stan pra ele me ajudar com o dever de matemática e o bosta do Henry me cercou na Weast Broadway com o Arroto Huggins e aquele idiota do Patrick. Eles me chamaram de quatro olhos e ficaram me empurrando de um lado paro o outro. Eu falei pra ele me deixar em paz e tentei não demonstrar medo, mas por dentro eu tava todo cagado. Ele pegou meu óculos e jogou no chão. Depois ficou me jogando de um lado para o outro, pro Arroto e pro Patrick. Depois ele me socou feio, eu achei que não ia mais respirar, juro por Deus. Na hora eu fiquei pensando se era assim que o Eddie se sente quando tem os ataques dele. Bowers levou meu dinheiro e eu fiquei segurando o choro. Eu odeio não poder fazer nada.

Eddie virou a página.

HOJE FOI SU-PIM-PA! A Bev e eu estávamos no parque Bassey e teve um desfile de um circo que veio aqui pra Derry. Eu vi cavalos ficando nas patas traseiras, um avestruz e um elefante! Eu só não gostei dos palhaços. A Bevely também não. Mas eu tava pensando em chamar o Eddie pra ir comigo. Pensei em eu mesmo comprar os convites. Só espero que ele não chame mais ninguém. Inclusive, eu aprendi o cachorrinho passeando no io-iô. A Bev é demais!!!!

Eddie coçou o olho e olhou para o sr. Tango, um macaquinho de pelúcia que ele havia ganhado naquele dia, há duas semanas, no circo que visitara Derry, quando jogava um jogo que ele tinha que acertar as garrafas e derrubá-las no chão. Eddie tinha três chances e desperdiçou duas. Na terceira, Richie pediu pra tentar e derrubou três latinhas de cinco que estavam empilhadas. O homem bigodudo e de regata marrom, dono da barraquinha, deu o sr. Tango para Richie, e ele acertou a postura, pôs um dos braços apoiado nas costas e estendeu o sr. Tango na direção de Eddie como se o macaquinho estivesse em uma bandeja.

— Aqui está, meu senhor. Aqui está – ele fez a voz de Toodles.

Eddie pegou o sr. Tango, nome que Richie havia sugerido pela pelúcia parecer muito um orangotango, e ando com ele embaixo dos braços o resto do passeio. Ficar todo aquele dia com Richie fora especial pare Eddie e ele adorava o fato de que havia tomado sorvete, bebido refrigerante, comido corndoge se impressionado com o tamanho do elefante que o circo carregava. No dia seguinte, quando foram para o Barrens contar sobre o espetáculo, Bill jogou uma pedra pro alto e disse que circo era para bebes. Richie deu um peteleco na orelha de Bill e todos riram.

Meus pais saíram. Disseram que iam numa reunião de adultos. Eu fiquei em casa, mas não consigo dormir. Eu tava pensando nos meus amigos. Eu não digo isso em voz alta, não muito, nem que a vaca tussa, mas eu amo muito eles e quanto tá assim, noite, e eu fico sozinho em casa, é ruim. Se sentir é sozinho é ruim. Será que é assim que o Bill se sente desde que o irmão dele morreu? Como se algo estivesse faltando? Acho que amanhã vou chamar o Bill pra dormir em casa, pelo menos se nos sentirmos sozinhos, vamos nos sentir sozinhos juntos.

A descarga do banheiro do andar debaixo soou. Eddie virou a página do bloquinho mais uma vez.

Eu tenho um segredo. Tudo bem em ter um segredo? Todo mundo tem, certo? Por que eu não poderia? Eu acho que gosto de meninos. Quero dizer, eu gosto de meninas. Mas acho que também gosto de meninos. Não meninos no geral. Eu gosto de um, e toda vez que eu vejo ele, meu coração dá uma turbinada e parece que vai sair voando da minha boca. Eu começo a suar e nunca sei como agir direito. Mas eu não vou falar nada pra ninguém, e se eles me julgarem? Eu sei, são meus melhores amigos, mas... Talvez o Monte de Feno vá me entender. Ele gosta da Beverly. Vou pensar se eu falo com ele. Ben Hanscom não iria me julgar, iria, bloquinho?

Notas finais
Gunsmoke realmente existe, dá uma procurada no Google se você gosta de velho Oeste e programas antigos :)