O diário de Noriaki
2 O Noriaki não procura se relacionar
Notas iniciais
20 de agosto de 1980
Hierophant:
Desculpa não ter escrito. Hoje é meu aniversário, e como todo ano ninguém veio. Eu não convido ninguém, mas às vezes eu olho pra casa vazia e eu me sinto sozinho. É meio chato, mas o que eu posso fazer?
Mamãe me deu uma caixa de cerejas, minha fruta favorita, e uns lápis de cor, porque eu gosto de desenhar. Papai me deu uma camiseta dos Giants, que é o time de beisebol aqui do Japão que eu gosto mais. A gente assiste junto os jogos, é legal.
Só que daí os dois me obrigaram a ir dar uma volta no parque, falaram que eu "passava muito tempo em casa" e que eu "devia sair pra socializar, principalmente hoje". Do fundo da minha cabeça, eu pensei que talvez pudesse aparecer alguém que tivesse um "estende" (ainda não sei como escreve isso), talvez um milagre de aniversário? Não sei!
Daí eu fui. Eles me deixam sair sozinho, mesmo que eu mesmo não ache tão boa ideia (se bem que o Hierophant Green tá mesmo me protegendo de gente que quer me machucar, desde aquela vez que me jogaram a pedra). Eu fui com os lápis de cor novos, um pouco das cerejas e um bloquinho de desenho.
Sentei no banco do parque que tem perto de casa, abri a caixinha de lápis de cor e comecei a desenhar. Enquanto isso, eu fiquei lambendo uma cereja, porque pra mim é assim que tem de se comer cereja. Eu gosto delas porque dá pra fazer isso.
Eu resolvi que ia me desenhar. Tirei o lápis vermelho, o roxo e o cor da pele da caixa de lápis de cor e comecei. Enquanto eu desenhava, chegou um outro menino que sentou do meu lado. Eu na hora fiquei com medo, porque, sabe, toda vez que um menino chega perto de mim, ele quer me bater. Acho que ele percebeu.
"Ô, garoto, por que você tá com essa cara de quem vai chorar?", ele me perguntou. "Você tá com medo do quê?"
"Você... você não vai me bater não, né?". E, naquela hora, o Hierophant Green apareceu. Eu nem chamei ele. Ele andava assim, aparecendo do nada sempre que achava que eu precisava da ajuda dele.
E daí uma coisa que nunca aconteceu antes me aconteceu naquela hora. O outro menino olhou pro Hierophant. E ele parecia muito surpreso.
"Ué? Que negócio verde é esse? De onde ele veio?" Diário do céu, eu acho que eu nunca sorri tanto quanto naquele momento.
"VOCÊ VÊ ELE TAMBÉM?!?!", eu gritei. "Ah, desculpa! Desculpa gritar! É que ninguém nunca tinha visto ele antes, eu já tava começando a pensar que eu tava ficando maluco..." OK que nessa parte eu menti, porque a bruxa da cabana viu, mas eu nem lembrei dela na hora.
"E como que ninguém viu um bicho brilhante desse? Ele é tão verde, parece uma melancia"
"Não sei, não sei, só sei que ninguém nunca tinha visto meu amigo antes! Eu tô muito feliz, é verdade! É, hã, qual seu nome?"
O outro menino falou que se chamava JoJo, e eu me apresentei como Noriaki. Eu sempre gostei muito mais desse nome, e jurei pra mim mesmo que era assim que eu ia pedir pra ser chamado se eu achasse um amigo. Pelo menos alguém tinha de me chamar como eu quero, né?
O JoJo tava com a bisavó dele, que parecia meio nova pra ser bisavó, mas quando você tem um melão verde como amigo, uma moça como aquela sendo bisavó de um menino da minha idade não é tão estranho, comparando. Enfim. Era uma mulher muito bonita, usava óculos escuros e um cachecol vermelho, e tinha um cabelo preto, bem liso e comprido. Ela disse que se chamava Lisa Lisa. E tinha um sotaque bem estranho, acho que era de fora.
Eu e o JoJo ficamos um tempo na pracinha conversando, desenhando, e ele falou que podia ver o meu amigo, mas que não tinha um "estende" que nem eu. Eu achei estranho. Então eu pedi pra ele desenhar o Hierophant, só pra eu ver se ele não tava brincando comigo, e ele desenhou bem parecido mesmo, então eu acho que ele não queria me zoar.
Eu vou colar numa página sua o desenho que a gente fez, eu me desenhei e ele desenhou o Hierophant.*
Foi bom ter um amigo por um dia, mas o JoJo me falou que ele não mora na mesma cidade que eu, e a cidade onde ele mora fica meio longe daqui. Essa parte me deixou triste. Bem, pelo menos acho que eu agora posso falar que eu tenho um amigo, que todo mundo pode ver.
Noriaki
****
24 de agosto de 1980
Hierophant:
Às vezes, os meus pais me deixam triste. Hoje no jantar, por exemplo. Me desculpa se não der pra ler minha letra direito, ou se eu te molhar de lágrima enquanto escrevo. Eu continuo bem chateado com o que aconteceu. Vou começar do começo.
Eu confesso pra você, tudo isso que eu fiz era só porque eu queria repetir meu prato, mas como mamãe insiste que é falta de educação (não entendo muito isso, porque se eu quero comer de novo, é porque eu gostei... enfim), eu tentei dar um jeito.
No meio do jantar, eu virei e falei que o meu amigo queria comer também. Isso aí era mentira. Ele usa uma máscara estranha, não ia conseguir comer nem se ele quisesse de verdade. Na minha cabeça essa desculpa era muito boa: afinal, se ninguém vê ele, ninguém teria como saber que era mentira. Mas eu acho que eu esqueci por um minuto o que mamãe fala dele.
Ela pirou, diário. Ela pirou. Começou a gritar comigo, falando que já não sabia mais o que fazer, e eu acho que ela ia falar uns palavrões mas decidiu que talvez não fosse o caso. Agora, você imagina minha cara...
Como eu falei antes, se eu chorar ela me bate. Eu tava me segurando muito pra não começar. Aí eu decidi que não dava mais. Saí correndo pro meu quarto, pedindo desculpa atrás de desculpa, e acabei trancando a porta e chorando lá.
Daí que vem a parte que me deixou mais triste mesmo. Eu já tava bem chateado com o que ela falou pra mim, mas essa parte de agora foi a cereja... não, acho que eu não devia falar de cereja, é uma fruta muito boa pra uma história ruim igual essa. Vou falar diferente: essa parte de agora foi só o que faltava.
Eu ouvi ela falando com o papai.
Será que eu devia te contar dele agora? Eu nunca falei nada dele. Ele é bem legal, o nome dele é Eijirou e ele desenha e pinta, igual eu, mas o desenho dele é o trabalho que ele faz. Ele não liga que eu fale do Hierophant Green. Tanto que uma vez, ele pediu pra eu contar como ele é, pra ele fazer um desenho bem bonito dele. Eu fiquei muito feliz, mas até hoje tô esperando esse desenho... talvez um dia, né.
Eu gosto do meu pai, mas o problema é que ele também nunca vai me entender. Ele só me ouve falar do meu amigo, mas nunca deu nenhum sinal de que ele mesmo tem um amigo só dele. Enfim, depois eu termino de reclamar sobre isso, vou continuar contando minha história.
Eles estavam conversando na cozinha... conversando ainda é uma palavra legal demais, eles só conseguiam falar berrando um com o outro. Eu acabei escutando, mesmo sem querer. Vou escrever o que eu ouvi aqui.
“Midori,” (esse é o nome da minha mãe), “você é grossa demais com ele!”
“O que é que eu vou fazer se a (nessa hora ela falou um palavrão, não vou querer escrever aqui) desse moleque não aprende que esse amiguinho imaginário de (outro palavrão) dele não existe?!”
“Você tá traumatizando ele, Midori! Você sabe bem o que eu acho desse seu jeito de lidar com essa história! Deixa ele acreditar que o amigo dele existe mesmo!”
“Se traumatizar o Tenmei vai fazer ele parar de pagar de retardado pros outros e voltar pra casa com o braço quebrado, é isso que eu vou fazer, Eijirou. Ponto.”
É, diário. É. Eu vou parar de contar o que eles disseram por aqui, mesmo que tenha mais coisa, porque lembrar isso que a minha mãe falou tá me deixando triste.
Ela acha o próprio filho dela um retardado.
Eu lembro que eu comecei a chorar mais alto, tanto pra bloquear o que eles falavam quanto pra mostrar que eu conseguia ouvir, e no meio disso tudo eu ouvi um “OLHA O QUE VOCÊ FEZ!”.
Naquela hora, eu só queria ficar surdo. Eu não aguentava mais os dois brigando por minha culpa, ou ouvir a minha própria mãe me chamando de retardado. Eu tava entrando em desespero. O Hierophant saiu sem eu chamar ele, e ficou abraçado em mim por um bom tempo.
Eu não vou negar que tava com raiva dele, por ter me feito passar por aquilo tudo, mas o abraço dele me deixava confortável. Decidi abraçar ele de volta, no fim. Assim, agarrado nele como se ele fosse um bicho de pelúcia, eu acabei caindo no sono.
Depois de algum tempo, eu acordei, com alguém batendo na porta do meu quarto. Abri, e era mamãe.
“Mei-chan...”, ela falou, “eu só queria... te pedir desculpa pelo que você ouviu.”
Eu fingi que ainda tava dormindo.
“Tenmei Kakyoin, eu sei que você tá me ouvindo.” Ela tentou fingir raiva na voz dela, pra ver se eu respondia. Eu continuei quieto.
"Ah, Deus... Tá, tá, eu entendo que você ainda deve estar bravo comigo. Só queria dizer que eu não tava pensando no que eu falava. Eu não acho nada daquelas coisas de você. Eu quero o seu bem, eu quero que você seja feliz!”
Ainda não falei nada. Um pedacinho mais malvado de mim pensava “ah, sai daqui!”.
“...OK. Não vou insistir. Não dessa vez. Amanhã a gente se fala direito.”
O resto dessa coisa toda, não vale muito a pena contar. Mas eu achei engraçado que o papai virou pra mim depois e disse “ô Nori... aquele seu amigo não usa máscara? Como ele ia comer?”, e daí ele riu.
Noriaki
***
Um pulo no tempo: 26 de novembro de 1988
— JoJo, se me permite dizer... eu sinceramente não entendo seu relacionamento com a Sra. Holly. Acho muito nobre que você esteja disposto a atravessar o Oriente Médio por ela, literalmente. Mas por que você parece odiar sua mãe?
— Ela me irrita. É isso.
— Te irrita? Ora, ela se esforça! Ela quer ser uma boa mãe, e é assim que você a trata?
— Até pode ser, mas eu odeio é o jeito que ela mostra isso. Mulheres que não calam a porra da boca me irritam especialmente.
— ...Como?!
— Eu preciso repetir? Ela é irritante. O jeito dela de ser é irritante. Ela pode ser minha mãe, mas isso é o que ela é.
— Pelo menos ela te ama, te entende e se preocupa com você. Você é privilegiado, Jotaro. Agradeça pelo que você tem.
— ...Tanto faz.
— [suspiro]
— Kakyoin, qual é a sua? Onde você quer chegar com isso?
— Existem pessoas que não cresceram no mesmo tipo de ambiente que você. Existem pessoas que, se morressem amanhã, a mãe delas diria "finalmente". Você tratar sua mãe como um estorvo me incomoda, porque você não pensa nisso.
— Tanto faz. Se ela não me amasse, pelo menos não seria tão irritante.
— Midori Kakyoin.
— Hã?
— Esse é o nome da mãe que você precisa procurar, se você quiser uma mãe que nunca vai te irritar por te amar tanto. Midori Kakyoin.
— Espera, mas o sobrenome dela é...
— É isso aí. Pode procurar por essa mulher. Eu juro por Deus que estou falando a verdade: ela nunca vai te amar, Jotaro. Ela é perfeita para você.
— Yare, yare. Tudo isso pra dizer que sua mãe te odeia.
— ...
***
O diálogo acima não estava registrado no diário quando ele foi encontrado. Trata-se de uma contribuição do dr. Jotaro Kujo, o JoJo, que foi amigo próximo de Noriaki. Foi decidido incorporar este trecho aqui pela relação com o registro anteriormente apresentado. (N.E.)
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