Os Cinco no Portão – Rock Junino


(O portão de ferro forjado da antiga escola estava fechado, mas o som vibrante da festa junina já vazava por cima dos muros. Lá estavam os cinco, em uma formação incomum de astros do rock prontos para uma quermesse. As roupas, uma mistura hilária e carinhosa de tradição e rebeldia, contrastavam com a seriedade dos seus estojos de instrumentos. O ar estava frio, mas o cheiro de doces e fumaça de fogueira prometia calor.)

Laíto estava irreconhecível. Ele vestia uma camisa xadrez preta e vermelha, impecavelmente engomada, mas que parecia ter saído de um vídeo clipe punk-rock. A camisa estava abotoada até o pescoço, mas ele havia customizado as mangas, que eram levemente rasgadas, dando um toque desleixado. Sua calça jeans escura estava um pouco mais apertada que o usual, e nos pés, coturnos. O ponto alto era o chapéu fedora preto, que ele usava sempre, mas agora enfeitado com uma pequena flor de papel de seda vermelha, um detalhe sutilmente irreverente. Ele batia o pé, ansioso.

Ellen, ao seu lado, era a personificação da Noiva Junina no estilo rock. O vestido branco, simples e curto, com babados de chita colorida, contrastava com suas meias arrastão e as botas de cano alto. O véu estava preso por uma tiara de flores, e as sardas pintadas em seu rosto a deixavam com um ar de inocência travessa.

Castiel havia levado a sério o papel de caipira. Ele vestia uma camisa de flanela remendada (costurada por ele mesmo, com um orgulho velado), uma calça jeans rasgada nos joelhos e um chapéu de palha ridiculamente pequeno em sua cabeça. A barba estava propositalmente desalinhada, grossa, dando a ele um ar de lenhador-roqueiro-caipira. Ele assobiava uma melodia de quadrilha, parecendo se divertir com a própria fantasia.

Kentin estava hilário e formal como um Padre da Roça. Sua batina preta era na verdade um longo sobretudo que ele adaptou, com uma faixa vermelha na cintura. Em suas mãos, ele segurava o cajado da bateria, e seu cabelo, geralmente impecável, estava levemente despenteado para combinar com o papel. Ele parecia ter saído de uma peça de teatro de escola, mas sua postura era de quem estava prestes a explodir no palco.

Lysandre, sempre o mais reservado, era o único que parecia estar sofrendo um pouco. Seu traje era um colete de couro preto, jeans justos e suas botas de combate habituais, que ele usava por cima da calça. A única concessão junina era uma camisa social xadrez, escura e discreta, que ele usava sob o colete, e um lenço vermelho no pescoço. Ele mantinha a expressão de quem foi forçado a usar algo que "não combina com a vibe dele" – a alma punk dele estava em conflito com o xadrez.

Kentin: (Bate o pé no ritmo do bumbo.) Não aguento mais esperar, gente! Eu sou o padre, eu devia estar lá dentro preparando os corações dos fiéis! E essa batina está pinicando!

Castiel: (Ajusta o chapéu de palha com um dedo.) Calma, Padre. A gente tem que fazer a entrada triunfal. E eu adorei essa barba, vou manter para o próximo show. Me dá um ar de... de... sei lá, de homem das cavernas que toca rock.

Lysandre: (Sussurra para si mesmo, endireitando o lenço.) Eu me recuso a colocar um dente pintado de preto. Já me basta esse xadrez. (Ele olha para Laíto.) A diretora disse que ia abrir às sete e vinte, Laíto. Estamos atrasados pra bagunçar.

Laíto: (Olha o relógio, impaciente, mas com um brilho divertido nos olhos por causa das roupas.) Calma, Lysandre! É a entrada de estrelas, temos que ser desejados! E, cara, o meu fedora com a florzinha está fazendo sucesso, confessa! Além disso, a gente tem que deixar o cheiro do quentão impregnar na gente antes de subir no palco.

Ellen: (Cruza os braços, sorrindo e balançando o véu.) E eu sou a noiva. Ninguém entra na festa junina sem a noiva! O Padre e o Noivo têm que esperar. (Ela pisca para Laíto, que ri.) É o nosso show, Laíto. O palco da escola. É agora que a gente incendeia a festa!

(Nesse momento, o portão de ferro ranger e a Diretora Neusa, uma senhora de aparência séria, mas com um sorriso acolhedor e um crachá de identificação pendurado no pescoço, aparece, vestida com uma saia rodada e uma blusa de renda branca.)

Diretora Neusa: (Balançando a cabeça, um riso contido em sua voz ao ver os trajes.) Meus roqueiros favoritos! Eu sabia que vocês viriam arrasando, mas não esperava a noiva e o padre! Entrem, entrem, o povo do milho cozido está ansioso! É uma honra ter vocês de volta!

(Os cinco passam pelo portão. Laíto e Ellen trocam um olhar cúmplice, a antecipação correndo nas veias. Eles finalmente estavam de volta ao palco sagrado, prontos para realizar um sonho e tocar o terror na festa junina, vestidos p

ara a ocasião.)

--- O Pedido Inesperado (Revisada)

CORTE PARA: DURANTE O SHOW. PALCO DA FESTA JUNINA.

(A banda estava no auge da sua energia. Os riffs pesados de Castiel e Laíto misturavam-se com a batida poderosa de Kentin. Lysandre marcava o ritmo com seu baixo, fazendo o chão de madeira do palco tremer de verdade. Ellen, a noiva rocker, alternava entre os acordes intensos do teclado e os backing vocals. O público da festa junina – uma mistura de pais, alunos, e moradores da cidade – estava se divertindo, mas a maioria estava mais concentrada nas barracas de pastel e nas brincadeiras, aplaudindo educadamente entre as músicas.)

(Eles acabavam de tocar uma versão intensa de uma música autoral, "Sombra". Laíto estava ofegante, mas o sorriso de satisfação não abandonava seu rosto.)

Laíto: (No microfone, a voz rouca.) Matinhos! Vocês estão prontos para mais anos 90? Agora vamos com uma pedrada que vai sacudir essa barraca do beijo!

(Enquanto Castiel começava o riff introdutório de "Smells Like Teen Spirit", Ellen viu uma pequena agitação perto da beirada do palco. Uma criança, talvez com uns seis ou sete anos, vestindo uma camisa xadrez muito grande e um chapéu de palha torto, era segurada pela mão de uma mãe sorridente.)

(A menina fez um sinal desesperado com as mãos para Ellen, tentando ser ouvida acima do barulho dos amplificadores. Ellen inclinou-se para o lado, retirando o fone de ouvido para tentar entender.)

Menina: (Gritando com toda a força de seus pulmões, apontando para o teclado de Ellen.) Moça! Toca "O Sol e a Lua"! Por favor!

(Ellen arregalou os olhos. "O Sol e a Lua", do Pequeno Cidadão. Ela olhou para a setlist, depois para Laíto, que estava prestes a detonar o vocal de Nirvana.)

Ellen: (Balança a cabeça e ri, pegando o microfone auxiliar e batendo nele de leve.) Espera aí, rapazes! Hold the horses! (O som de "Smells Like Teen Spirit" para abruptamente, deixando um silêncio momentâneo seguido pelo murmúrio da multidão.)

Laíto: (Com a palheta suspensa no ar, a testa franzida em confusão, seu chapéu fedora com a flor vermelha balançando.) O que foi, Ellen? Problema técnico? A gente ia quebrar tudo agora!

Ellen: (Aponta para a criança, o sorriso carinhoso em seu rosto de noiva junina.) Laíto, temos um pedido de uma fã muito especial. E eu acho que a gente tem que atender. Qual o seu nome, princesa?

Menina: (Mais confiante, gritando.) É Alice! E eu quero "O Sol e a Lua"! Minha mãe disse que vocês são muito bons e podem tocar qualquer coisa!

(Laíto e Castiel se entreolham. Lysandre coça a cabeça. Kentin quase cai da bateria, rindo.)

Castiel: (Gritando para Ellen, com uma expressão de choque cômico.) "O Sol e a Lua"?! A gente vai tocar música de criança na festa junina?! Eu me recuso!

Ellen: (Com um olhar autoritário, mas divertido.) Castiel, é um pedido especial! E é uma música linda. E ela não vai sair daqui até a gente tocar! (Ela se volta para a banda.) É fácil, gente! Laíto, um ritmo mais reggae ou um swing leve. Lysandre, a linha de baixo é simples! Kentin, groove suave! A gente faz uma versão rock de berçário!

Laíto: (Olha para Ellen, e o sorriso cúmplice surge. A adrenalina do rock se mistura com a doçura da situação. Ele faz um sinal de rendição para Castiel.) Tá bom, tá bom! Pelo sorriso da pequena Alice! "O Sol e a Lua" na versão Rock n' Roll Junino!

(Laíto muda o set de sua guitarra rapidamente, ajustando o pedal para um som mais limpo e melódico, buscando uma batida levemente funkeada. Ellen começa a dedilhar a melodia simples no teclado, e Lysandre pega a batida do baixo quase imediatamente. Kentin, com um sorriso de orelha a orelha, troca a batida punk por um swing suave e alegre.)

Laíto: (No microfone, com a voz limpa e surpreendentemente melodiosa, olhando para Alice.) Essa é pra você, Alice!

O Sol pediu a lua em casamento

Disse que já a amava há muito tempo

Desde a época dos dinossauros, pterodátilos, tiranossauros

Quando nem existia a bicicleta nem o velotrol nem a motocicleta

(A banda entra com o ritmo, e Laíto canta o primeiro verso com um ar dramático, gesticulando para Castiel, que solta um solo de guitarra inesperadamente emotivo e levemente melancólico, mas com a assinatura rock 'n' roll. Ellen e Kentin fazem o backing vocal na parte do "não sei, não sei, não sei".)

Mas a lua achou aquilo tão estranho

Uma bola quente que nem toma banho

Imagine só, tenha dó

Pois meu coração não pertence a ninguém

Sou a inspiração de todos os casais

Dos grandes poetas aos mais normais

Sai pra lá rapaz!

(O público, que estava distraído, se vira e começa a bater palmas no ritmo, achando graça na seriedade com que a banda executa a canção infantil. Alice dança animadamente em frente ao palco. Laíto continua a canção, transformando a tristeza do Sol em uma balada rock leve.)

O Sol pediu a lua em casamento

E a Lua, disse

Não sei, não sei, não sei

Me dá um tempo

(A banda toca o refrão com uma energia contagiante. O rock havia se curvado à inocência, e o momento, embalado pela história de amor e desamor do Sol e da Lua, era puro e genuíno.)

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.