O destino dos Deuses - A história de kishan
6 O primeiro sacrifício
Quando Anamika voltou, trouxe uma senhora com ela.
— Kishan, quero que conheça uma pessoa.– A mulher deu um passo à frente – Essa é Isha.
Com uma mesura, dirigi-me à senhora.
— Muito prazer em conhecê-la. Mas eu tenho a impressão de que já a vi. Nós já nos encontramos antes?
— Sim filho, nós nos vimos no templo de Durga. Eu sou a divina tecelã.
Anamika sorriu.
— Isha e eu nos conhecemos há muito tempo. Eu a e a salvei de Lokesh e a escondi em um lugar onde o demônio não a encontraria, deixando-a sob a proteção de Phet.
— Sim. Phet me ensinou muitas coisas. Eu aprendi a usar o tear e fiz muitos tecidos. A deusa sempre me visitava e eu descobri com ela a minha espiritualidade.
Anamika olhava para a velha senhora com carinho.
— Isha é uma mulher especial. Quando eu a encontrei, ela era jovem e não conhecia seu potencial. Nós aprendemos juntas a desenvolver seu poder ao longo dos anos.
Eu entendi que Anamika usava o talismã para atravessar o tempo. Então o tempo passou para Isha, mas não para Ana, que deslocava-se através dele para visitá-la. Confuso, perguntei:
— E por que Isha está aqui?
— Isha me deu um presente muito precioso. Um lenço que ela mesma teceu.
— Sim. Eu já vivi muito e aprendi muitas coisas. Mas eu sinto que está chegando a hora de eu partir desta vida. Eu recebi um presente muito especial de uma jovem que eu criei como filha, e não queria que esta dádiva fosse embora comigo. Então eu transferi todo o meu poder para o presente de Durga.
— A senhora está falando do...
— Ela está falando do lenço divino.– Anamika segurou o lenço em suas mãos – Isha recebeu o poder de tornar-se invisível, o que a protegeu de Lokesh. Então, ela aprimorou este poder durante os anos, e passou a conseguir se disfarçar de qualquer pessoa. Quando ela transferiu esse poder para o lenço, ele se expandiu, tornado o lenço o que ele é. O lenço recebeu o talento de tecelã de Isha.
Balancei a cabeça em compreensão.
— Eu vim aqui porque queria te conhecer antes de morrer. Eu queria conhecer o homem que devolveu a esperança à minha filha e por quem ela sacrificou a própria vida.
— Quem é a sua filha? – Perguntei intrigado.
— Yesubai.
Fiquei paralisado, sem saber o que dizer. Isha me olhava serena, com um sorriso suave nos lábios. Anamika segurava os ombros da senhora, e a olhava com carinho.
— Durga me falou que esteve com a minha menina antes de ela morrer, que confortou sua alma e prometeu a ela que cuidaria de mim e te protegeria – a senhora olhou para Anamika e sorriu – e ela cumpriu sua promessa.
Ainda chocado e sem entender, perguntei à velha senhora:
— A senhora disse que recebeu o poder de sua filha. Yesubai era uma menina comum. O que você quis dizer com isso?
Isha olhou para Anamika de forma interrogativa. Foi Ana quem me respondeu:
— Yesubai não era uma menina comum. Ela era uma deusa. Foi a primeira de nós. O sacrifício dela deu origem a tudo. Foi o primeiro sacrifício .
Eu estava tão surpreso com aquelas revelações, que não pude dizer nada. Isha falou:
— Yesubai nunca soube o que ela era. O demônio que era seu pai, matou a mãe dela logo depois do parto. Ele usava a beleza da filha quando lhe era conveniente. Na maior parte do tempo, ele abusava dela. Nós duas vivíamos com medo daquele homem. Yesubai aprendeu a esconder seus sentimentos para não desagradar ao pai. Ela nunca chorava ou sorria, mesmo quando era um bebê.
Senti angústia e tristeza, lembrando-me do lindo rosto de Yesubai e pensando em todo o seu sofrimento.
— Lokesh sempre nos machucava. Às vezes, ele batia tanto na filha, que eu pensava que ela não sobreviveria. Mas ela podia se curar.
— Como Ren e eu. – Sussurrei para mim mesmo.
— Um dia, Lokesh me bateu. Ele quebrou a minha perna e me machucou muito. Yesubai ficou muito preocupada e veio cuidar de mim. Ela usou seu poder para me curar. Mais tarde ela descobriu por acaso, que podia se esconder ficando invisível. Mas nós escondíamos estes poderes de Lokesh. Tínhamos medo do que ele poderia fazer, caso os descobrisse. Ele sempre achou que a filha era uma fraca e inútil, se lamentava de não ter tido um filho homem, com quem dividir seu poder. Ele nunca soube o quão especial a filha era.
Eu fiquei triste por causa daquela história. Eu amei Yesubai, mas não a conhecia de verdade. Eu a julguei por tantos anos por ela ter sido usada pelo pai para nos amaldiçoar, mas nunca pensei no sofrimento que ela suportou a vida toda. Minha mãe percebera. Ela queria que Yesubai ficasse conosco, que ela se casasse com Ren para salvá-la de seu pai. Na época nós não sabíamos que não haveria salvação possível para Yesubai. Ou para qualquer um de nós. Eu me virei para a Isha e segurei suas mãos.
— Obrigada senhora. Você não sabe como foi importante ouvir esta história. Eu não fazia ideia de quem Yesubai era de verdade e de tudo o que ela enfrentou. Eu gostaria que as coisas pudessem ter sido diferentes para ela. Eu queria muito poder ter dado um pouco de felicidade a ela.
Isha me olhou nos olhos e perguntou séria:
— Você a amou?
Pensei um pouco antes de responder. Lembrei-me dos olhos cor de lavanda de Yesubai e de como olhar para eles fazia eu me sentir. Respondi com sinceridade.
— Sim, eu a amei profundamente. Teria aberto mão de tudo por ela.
A mulher sorriu.
— Então ela foi feliz.
Nós ficamos nos olhando por um minuto. Eu sabia que nós dois compartilhávamos o amor por Yesubai. Nós dois fomos os únicos capazes de amá-la. Ainda sim, não pudemos salvá-la. Anamika tocou os ombros de Isha.
— Vamos minha querida Isha, é hora de voltarmos.
Isha olhou para Anamika e sorriu.
— Sim minha senhora, eu estou pronta. – Ela virou-se para mim – Obrigada – e soltou minhas mãos.
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