Eu nunca tinha beijado Yesubai. Eu desejei beijá-la tantas vezes, mas esta era a primeira vez que isto acontecia.

O toque calmante da minha Deusa, despertou em mim a necessidade de tê-la. Eu a queria em meus braços, então, não me importei com o salão cheio de pessoas, soldados e monges que lutavam contra mim instantes antes, mas que agora se ajoelhavam diante de nós. Nenhum deles me importava. Apenas ela.

A pele de Yesubai era macia e perfumada como uma pétala de rosa. Sua boca perfeita tinha um gosto doce de fruta fresca, e seu corpo em meus braços era quente e macio. Quando nossos lábios encaixaram-se perfeitamente um no outro, eu senti meu coração se ligar ao dela. Eu conseguia sentir sua pulsação, no mesmo ritmo da minha. Nossos corações batiam juntos. Minha pele se arrepiou e eu senti pequenas ondas de choque circularem pelo meu corpo. Ergui a mão livre e deslizei-a pelo braço de Yesubai, sentindo que sua pele também estava arrepiada. O beijo terminou logo, interrompido pelos cânticos dos monges Sadhus.

Eu nunca tinha me sentido como me sentia naquele momento. Nenhum beijo tinha sido daquela maneira. Era como se Yesubai fizesse parte de mim, como se meu corpo fosse também o dela, como se nossas almas estivessem ligadas, ou fossem uma só. Eu encostei minha testa na dela e toquei seu queixo, fazendo-a olhar em meus olhos. Eu suspirei e então falei com uma certeza que nunca tivera antes:

— Dayita, eu quero que você seja a minha esposa. Case-se comigo e eu serei para sempre seu, meu amor.

Yesubai sorriu, com os olhos cheios de lágrimas e sussurrou baixinho.

— Isso é tudo o que eu quero desde que te vi pela primeira vez, Kishan. Eu desejo ser sua esposa, meu amado.

Fui tomado de uma imensa alegria. Agarrei a cintura de Yesubai e girei com ela em meus braços, rindo alto de satisfação. Ela também sorria. Era a primeira vez que eu a via sorrindo daquela forma, um sorriso aberto, legítimo. Nós dois estávamos felizes. Eu a coloquei no chão e nós nos olhamos por alguns instantes, antes de voltarmos nossos olhares às pessoas diante de nós. Todos estavam prostrados, com as cabeças abaixadas. os Sadhus cantavam louvores ao Mahadeva. Nandi ergueu-se e falou comigo.

— Perdoe-me meu senhor, pela forma como o tratei antes. Eu não acreditava nas profecias, estava descrente nos Deuses. Eu não imaginava que o senhor fosse o Deus prometido, o Mahadeva. Perdoe-me.

Nandi prostrou-se novamente aos meus pés, enquanto eu o olhava desconfortável.

— Pare com isso Nandi. Eu não tenho que te perdoar porque você não me ofendeu de maneira nenhuma. Você nos tratou respeitosamente e nos pediu ajuda. Se você acreditava que poderíamos ajudar a libertar seu povo, é porque você tinha fé. — Coloquei minha mão no ombro de Nandi, ajudando-o a ficar de pé — Vamos, levante-se.

Dirigi-me a todos os que estavam na sala.

— Levantem-se todos vocês. Temos muito trabalho a fazer. Precisamos cuidar dos que tem fome e estão doentes e devolver aquilo que foi tirado do povo.

Yesubai deu um passo à frente.

— Permita-me ajudar. Prhalada, leve-me até a cidade, eu vou cuidar dos necessitados.

— É claro minha senhora.

Yesubai, Prhalada e um grupo de soldados saíram do palácio em direção à cidade. Eu estava curioso pela tal profecia que Nandi e os outros tinham mencionado e pedi para que me explicassem. Um dos monges começou a falar. Ele parecia envergonhado.

— A profecia diz que, quando o mal governasse o mundo, um herói viria nos libertar. Ele seria o Mahadeva. O seu sinal seria visto por todos e seu poder destruiria o mal. — Ele se prostrou novamente — Perdoe-nos Mahadeva, pelo que fizemos. Nós acreditamos que Muyalakan fosse um Deus. Ele nos convenceu de que tudo o que estava fazendo era para libertar o povo do mal. Nós acreditamos que ele era o Mahadeva, mas quando vimos a sua garganta azul, nós soubemos que ele era o mal.

"Garganta azul?", pensei.

Olhei para o meu reflexo em um espelho e vi que havia uma pequena mancha azul em meu pescoço. O homem continuou falando.

— Diga-nos o que fazer para nos redimir Mahadeva.

Eu olhei para aqueles monges e me apiedei deles. Eu disse a eles que saíssem do palácio e que praticassem a meditação e vivessem uma vida piedosa. Por escolha própria, os sadhus passaram a viver em isolamento, abrindo mão de todos os bens materiais que possuíam. Eles passaram a morar em cavernas ou em templos, se vestirem com trapos simples e a comerem apenas o que lhes fosse dado pelos outros.

Yesubai usou seu poder para curar os doentes e forneceu alimento para os famintos. Os soldados foram retirados das ruas e todas as riquezas do palácio foram usadas para o bem do povo. O monte Kailash voltou a ser aberto a todos aqueles que desejassem visitá-lo. Nandi e Prhalada nos acompanharam até a montanha.

No alto do Monte Kailash, eu me senti purificado, feliz. Resolvi que moraria naquele lugar. Construí minha casa no alto no monte, onde eu e minha esposa criaríamos nossos filhos.

E finalmente, o dia mais feliz da minha vida chegou. Eu me casaria com a mulher dos meus sonhos, a mais linda que já viveu, a minha Deusa, minha Dayita. Uma grande festa foi preparada na cidade e a cerimônia de nosso casamento seria grandiosa.

Tudo o que eu queria, era ficar a sós com Yesubai e beijá-la novamente. Mas ela era muito amada pelo povo. Ela cuidava das pessoas e todos lhe eram gratos. E todos queria participar daquele momento, então, nós permitimos que assim fosse.

A festa começou dias antes da cerimônia. As pessoas iam para as ruas, onde músicos tocavam canções alegres, e dançavam, celebrando a "sagrada união dos Deuses". Muitos subiam ao Monte Kailash para trazer presentes aos noivos. Nós recebemos frutas, flores, joias e tecidos. Embora não precisássemos daquelas coisas, eu as aceitei de bom grado, pois sabia que as pessoas estavam felizes em nos agradar, e aquilo era parte de suas tradições.

Também de acordo com as tradições de Ngari, os noivos não deveriam se ver até o dia do casamento. Eu estava aflito de saudades, desejava estar com Yesubai. Muitas vezes desejei ir até ela, mas fui impedido por Nandi, que passou a ser meu seguidor e fiel amigo.

No início, Nandi era cerimonioso e formal, mas eu consegui conquistar sua amizade. Ele era como um irmão para mim. E era ele quem me acompanhava nas meditações, a única coisa que acalmava meu espírito e me impedia de buscar Yesubai e levá-la para a minha casa.

Então, no dia do casamento, eu estava ansioso. Nandi trouxe as roupas que as mulheres haviam enviado: um dhoti dourado e uma kurta também dourada, finamente bordada com fios de ouro. Depois que eu me vesti, Mena, a esposa de Nandi trouxe o Pagri vermelho e arrumou em minha cabeça. Em seguida, começou a me enfeitar com colares, pulseiras e braceletes, até que finalmente me olhou satisfeita e disse que eu estava pronto.

Desci a montanha, montado em meu cavalo, acompanhado por Nandi de um lado e Prhalada do outro. Atravessei a cidade, que estava repleta de gente. Todas nos saudavam alegres e eu retribuía acenando para elas.

Então, eu a vi.

Yesubai estava vestida como uma princesa. Seu vestido era lilás, como seus olhos, ricamente bordado em dourado. Ela usava muitas joias e adornos: pulseiras escravas, colares, anéis, brincos. uma argola enfeitada pendurada em seu nariz e pinturas delicadas em suas mãos e pés. Ela era a mais bela Deusa que já existiu. Eu estava a seus pés, completamente fascinado.

Eu não consegui prestar atenção à cerimônia. Tudo o que eu via era a mulher dos meus sonhos, prestes a ser minha para sempre. Eu queria que aquilo acabasse para que eu pudesse ficar sozinho com ela.

Quando o sacerdote anunciou que nós estávamos casados, todo o povo se agitou e a grande festa começou. Todos comiam, bebiam e dançavam. Eu queria dançar também, mas eu nunca fora bom dançarino. Lembrei-me do meu irmão, Ren e de como ele dançava bem. Lembrei-me com carinho de quando dancei com Kelsey e com Nilima. Então segurei a mão de Yesubai e senti o fogo queimar em minha pele. Ela virou a cabeça para mim e seus olhos intensos queimaram nos meus. Eu dei um longo beijo na palma de sua mão, sem desviar meus olhos dos dela.

— Gostaria de dançar com seu esposo, linda Deusa?

Yesubai sorriu.

— Eu adoraria, meu amado Deus!

Então nós dançamos. E pela primeira vez eu me senti à vontade fazendo isto. Nós dançamos e festejamos o dia todo e quando anoiteceu, eu fui para a minha casa, no alto do monte Kailash, levando a minha esposa comigo.

Nós finalmente estávamos sozinhos e Yesubai era minha. Eu estava nervoso, nunca tivera intimidade com uma mulher antes. Mas Yesubai não parecia nervosa. Ela estava calma e serena.

Nós entramos na casa, que era iluminada por tochas distribuída pelas paredes. Em nosso quarto, uma fogueira estava acesa, iluminando e aquecendo o ambiente. Conduzi Yesubai para o interior do cômodo e parei diante dela. Segurei sua mão e a levei até os meus lábios. Yesubai me olhava com ternura. Um leve sorriso dançava em seu rosto e seus olhos brilhavam, refletindo as chamas quentes à nossa frente.

— Finalmente, meu amor. Você finalmente é minha!

Yesubai respondeu séria:

— Não Kishan, eu não sou sua. Eu sou muito mais do que isso. Sou parte de você. Nós somos parte um do outro. E hoje, nós iremos nos reunir.

Ela ergueu seu corpo, ficando nas pontas dos pés, e jogou os braços ao redor do meu pescoço. Eu baixei a cabeça para alcançar seus lábios. E nós nos beijamos.

Como da primeira vez, senti meu corpo tremer levemente, como se levasse um choque e minha pele arrepiou-se. Mas desta vez, senti meu corpo queimar, como se eu estivesse envolto pelo fogo.

Yesubai se afastou e me puxou pela mão, conduzindo-me até a cama. Eu ajeitei meu corpo sobre as almofadas, esperando que ela se juntasse a mim. Mas ela não o fez. Yesubai ficou de pé e retirou o véu que cobria-lhe a cabeça, então ela começou a movimentar aquele véu ao som de flautas, que tocavam ao longe. Ao perceber minha confusão, ela explicou:

— Nandi é um músico muito talentoso. Pedi a ele que trouxesse mais músicos e que tocassem para nós esta noite. Não se preocupe, ele ficará na sala. Nós teremos toda a privacidade de que precisamos durante essa noite.

Eu sorri, enquanto Yesubai movimentava-se ao som da música. Ela dançava para mim, movimentando as mãos e girando seu corpo, me olhando de forma muito sedutora o tempo todo. Ela começou a retirar seus enfeites, um por um. Então soltou os cabelos negros e longos. Em seguida, ela começou a retirar as peças de roupas, enquanto eu a observava completamente enfeitiçado. Yesubai era linda. Ela era a mulher mais perfeita que poderia existir. Uma verdadeira Deusa. Minha Deusa.

Ela continuou movimentado o corpo até estar diante de mim. Então parou e me olhou com desejo. Eu devolvi seu olhar cheio de paixão, agarrei-a pela cintura e a puxei para as almofadas. Então eu a beijei.