O destino dos Deuses - A história de kishan
8 De volta ao passado
Fui para a minha tenda e me sentei sobre as almofadas. Eu não conseguia parar de pensar no que Isha tinha me contado. Havia tanto tempo que eu não pensava em Yesubai. Eu pensei nela durante muitos anos, e sempre ficava perturbado com a possibilidade de ela ter me enganado, de ela nunca ter me amado e ter me usado para ajudar seu pai. Apenas depois que conheci Kelsey, principalmente depois de encontrar os corvos Hugin e Mugin em Shangri-la, eu pude perdoá-la e não pensar mais nela. Cheguei a duvidar que um dia a tivesse amado.
Mas agora, eu estava pensando nela novamente, pensando em como teria sido, se nós tivéssemos ficado juntos. Eu poderia ter fugido com ela e nós dois teríamos formado uma família. Pensei em como teria sido beijá-la, em como seria abraçá-la e senti-la junto a mim. Pensei que seu sorriso seria tão lindo quanto uma manhã ensolarada. E chorei, imaginando se ela um dia sonhou com isto.
Anamika entrou na tenda depois de algum tempo. Ela sentou-se no chão, de frente para mim e segurou minhas mãos. Eu levantei o rosto e olhei em seus olhos.
— Você esteve com ela?
— Sim. – Anamika não desviou os olhos – Eu estava lá quando ela morreu. Eu falei com ela e prometi que protegeria você e Dirhen.
— Então ela ainda estava viva. Porque você não usou o kamandal? Você poderia tê-la salvado.
— Não, eu não poderia. O sacrifício de Yesubai foi necessário. Ela era uma deusa poderosa, mas seu poder era limitado pelo jugo de seu pai demoníaco. Quando morreu, Yesubai liberou este poder e permitiu que outras deusas nascessem. Yesubai foi Sati.
— O que isso significa?
— A primeira esposa de Shiva foi Sati. Ela era uma mulher paciente e se dispôs a casar com o Deus, que era um asceta. Sati amava muito o marido, mas seu pai Daksha era um homem indigno. Ele não aceitou a união entre o Deus e sua filha, pois o invejava. Então passou a humilhá-los. Sati, tomada de tristeza e raiva, rejeitou o próprio corpo, pois o havia recebido de seu pai indigno e sacrificou-se no fogo purificador, para renascer como Parvati.
— Assim como Yesubai. – Concluí.
— Sim. A essência de Yesubai permitiu o nascimento de outra Deusa. Todo o poder que existe nas armas e nos presentes, que permitiram tanto a Kelsey quanto a mim nos tornarmos Durga, vieram da essência de Yesubai. – Anamika se levantou e esticou o braço para mim – Venha, você precisa ver.
Eu segurei a mão de Anamika e fiquei de pé. Ana tocou o amuleto em seu pescoço e fechou os olhos. Então estávamos em outro lugar, além do tempo.
Estávamos em um quarto. Uma jovem mulher dormia. Ao seu lado, um bebê recém nascido. Seus olhos cor de lavanda observavam o rosto do homem cruel que lhe olhava de cima. O bebê estava surpreendentemente quieto, enquanto Lokesh o olhava com raiva. A mulher abriu os olhos, cor de lavanda, como os do bebê e encontrou o rosto irado do homem, que lhe agarrou o pescoço, cuspindo com raiva, que ela teve uma menina.
Depois, Anamika e eu estávamos em outro quarto. A menina havia crescido. Uma Isha mais jovem do que a que eu conheci, penteava os cabelos longos da linda criança. Vários brinquedos estavam guardados ordenadamente pelo quarto.
— Yesubai, por que não brinca como as outras crianças?
— Eu prefiro deixá-los em um lugar onde eu possa vê-los e admirar sua beleza. – Respondeu sem expressar sentimentos.
Em seguida, estávamos em um salão, onde acontecia uma festa. Yesubai estava ao lado do pai, quieta e educada. Ela cumprimentava as pessoas com polidez, enquanto era observada por Lokesh. O rei elogiava a beleza e a boa educação da menina, e Lokesh sorri satisfeito.
Depois eu o vi espancando-a e à Isha. Lokesh descontava sua frustração na filha e a machucava. Vi Yesubai usar seu poder para curar as duas. Também vi outros homens, associados de Lokesh, tocarem-na de maneira imprópria, apalparem-na e lhe dizerem coisas vis.
Vi Yesubai descobrir sua capacidade de se tornar invisível e tentar compartilhar esse dom com Isha. Embora ela tenha falhado na época, de alguma forma, Isha recebeu esse dom após a morte de Yesubai e o transferiu para o lenço divino. Eu vi o medo que elas tinham de que Lokesh descobrisse sobre os poderes de Yesubai.
Senti raiva daquele homem e fiquei feliz por ele estar morto. Tive pena de Yesubai. Ela nunca tinha sido feliz, desde que nascera. Então eu vi outra coisa.
Yesubai estava em um jardim. Ela não usava nenhum véu e seus longos cabelos caíam por suas costas, as pontas quase tocando o chão. Um botão de flor branco descansava em seu cabelo. Ela segurava uma flor e a observava atentamente. Eu reconheci aquele jardim, eu já tinha estado ali antes. Era o jardim suspenso de Brheenan. A flor que Yesubai segurava era uma ninféia. Lembrei-me de ter ficado encantado por aquela flor quando estive ali e de ter pedido uma muda, que levei para o nosso palácio, como um presente para a minha mãe. Assim que Yesubai colocou a flor na água, ela se assustou com algo. Alguém entrou no jardim. Era eu.
Eu coloquei as mãos sobre a borda da fonte e suspirei. Então, vi a flor, a mesma que Yesubai havia segurado em suas mãos e a peguei, levando-a até meu rosto para sentir seu cheiro. Eu me lembrava daquilo. Lembrava-me de ter estado naquele jardim e me encantado por aquela flor. Lembrava de estar preocupado com o que o homem que marcara um encontro comigo naquele lugar iria me dizer. Mas eu não me lembrava de ter encontrado Yesubai ali.
Notei que enquanto eu cheirava a flor, Yesubai aproximou o rosto de mim e inspirou profundamente, como se estivesse me cheirando. Depois, ela me observou, olhando cada parte do meu rosto, pensativa. Compreendi que quando estive naquele jardim, Yesubai estava lá. Ela estava invisível. Eu notei o medo no rosto de Yesubai quando Lokesh entrou no jardim. Ela temia por mim?
Anamika me mostrou Yesubai em outros momentos: Com Lokesh, que aparecia em seu quarto em nosso palácio, exigindo que ela cumprisse seu propósito de se casar com meu irmão e depois, matar a nós dois e ao meu pai. Vi Yesubai comigo, com Ren. Eu podia ver como ela se sentia acuada, como ela buscava uma forma de salvar a todos nós.
Eu finalmente pude entender o porque de ela ter feito o que fez. Yesubai queria evitar que o pai nos matasse. Ela me amava, mas não tinha coragem de enfrentar Lokesh, que ela já sabia ser um demônio impiedoso.
Então, Anamika nos levou até o palácio de Brhennan.
Yesubai estava sentada ao lado de Lokesh. Seu cabelo estava enrolado, enfeitado com ouro e joias e ela não usava véu. Estava mais linda do que nunca.
Ren estava diante deles, machucado e humilhado. Eu me lembrei do traidor egoísta que eu fui, e aquilo me machucou. Vendo novamente meu irmão subjugado pelo demônio, graças a mim, senti-me o pior dos homens.
"Como eu posso ser um Deus, se me deixei manipular por um demônio?" .
Eu fiz tudo aquilo por amor, porque eu desejava ficar com a noiva de meu irmão. Yesubai fez aquilo para tentar evitar a minha morte e a de Ren, mas ela não podia nos salvar.
Eu vi quando Lokesh chamou Yesubai, ameaçando-a.
— Não!
Ren e eu gritamos ao mesmo tempo.
— Você quer ouvi-la gritar? Juro-lhe que ela faz isso muito bem. Eu lhe ofereço uma escolha mais uma vez. Renuncie a sua peça para mim.
Ren não usava seu astra. Lokesh se aproximou dele com uma faca e arrancou seu sangue, colocando-o em um amuleto, que agora eu conhecia bem. Vi uma luz surgir ao nosso redor. Eu me vi saltar contra Lokesh e lutar com ele, arrancando sua faca. Então eu vi Ren e eu gritarmos.
Eu me lembrei da dor que senti naquele dia. Ren e eu tínhamos o mesmo espírito. Nós dividíamos o mesmo sangue. Quando Lokesh colocou o sangue de meu irmão em seu amuleto, ele também me controlava. Nós estávamos feridos e prestes a sermos escravizados por Lokesh. Eu sabia que algo tinha impedido que isto acontecesse e que, ao invés de nos tornarmos seus escravos, tínhamos nos tornado os tigres imortais e com capacidade de se curar. Eu acreditava que este poder vinha dos nossos amuletos. Mas Ren não usava o dele.
"Será que o meu amuleto nos deu esse poder?".
Então eu vi Yesubai levantar-se da cadeira e erguer os braços, implorando aos deuses que lhe permitissem usar seu poder para nos ajudar. Ela fechou os olhos e direcionou suas mãos a nós dois. Então eu vi as feridas de Ren se fecharem e a minha dor cessar. Yesubai ficou invisível e aproximou-se de mim, pegando a faca que eu tinha deixado cair no chão. Então ela foi até Lokesh e cravou a faca em suas costas.
O demônio não parecia ter sentido dor. Ele gritou de raiva e arrancou a faca de suas costas. Sem enxergar Yesubai, Lokesh achou que eu o tinha atacado e virou sua fúria contra mim. Yesubai se tornou visível e estava à minha frente. Ela colocou a mão contra o peito de seu pai e gritou:
— Você não vai tocar nele!
— Yesubai, não! —
Eu gritei, tentando empurrá-la para o lado, mas Lokesh era um furacão em fúria. Ele usou o poder do vento, que explodiu para fora de seu corpo em todas as direções. Lokesh ergueu Yesubai e a jogou de lado. O vento levou seu corpo para longe. Meu corpo estava congelado pelo poder de Lokesh que se aproximava de mim. Então, tudo parou.
Anamika saiu das sombra e foi até o corpo caído de Yesubai. Os sinos de seu cinto e de sua tornozeleira tilintavam suavemente. Ela ajoelhou-se ao lado de Yesubai e segurou sua mão, gentilmente.
— Olá, Yesubai — ela falou. — Eu sempre quis conhecê-la.
— Quem... quem é você? O que está acontecendo?
— Eu sou a deusa Durga.
— Uma deusa? — lágrimas encheram seus olhos.— Então você está aqui para nos salvar?
Meu coração se encheu de tristeza e angústia. Eu queria que Anamika a salvasse, mas eu sabia que isto não poderia acontecer.
— Não. Esta não é a razão de eu ter vindo.
— Eu não entendo. Então, por que você está aqui?
— Como eu disse, eu queria conhecê-la.
— Por quê?
— Eu queria ter uma noção de quem você é. Especificamente, eu queria saber se você o amava.
— Se eu amo quem?
— Kishan.
— Sim — ela respondeu baixinho e eu senti meu peito explodir com uma chama estranha, que parecia felicidade. — Eu o amo. Sinto muito sobre o que aconteceu com Dhiren. Ele é um bom homem. Ele não merecia ser violentado desta forma. Se eu pudesse voltar e fazer as coisas de maneira diferente, eu o faria.
Anamika assentiu.
— Eu acredito em você.
— Eles não merecem ter seus destinos amarrados ao meu.
— Eu não quero que você se preocupe com o destino deles, Yesubai.
— Mas Lokesh...
Anamika tocou o rosto de Yesubai, inclinou-se e sussurrou:
— Seu pai será derrotado, mas não acontecerá neste momento.
— Será que eu viverei para ver isso?
Ela fez uma pausa, considerou a questão e então disse, quase como se fosse contra o seu melhor julgamento:
— Eu não penso como os outros a respeito de alguém saber o seu futuro, por isso vou responder a sua pergunta.
Anamika envolveu a mão de Yesubai com a sua.
— Você não sobreviverá ao dia de hoje. A queda quebrou o seu pescoço.
— Mas eu posso me curar.
Ela balançou a cabeça.
— O dom de proteção e cura que você ofereceu aos irmãos, veio com um grande custo. Ao defender os dois, o poder dentro de você foi consumido. Você tornou-se verdadeiramente mortal.
Finalmente eu compreendi. Yesubai se sacrificou por nós. Seu poder permitiu que outros deuses surgissem através de seu sacrifício. Anamika estava certa, o sacrifício de Yesubai era a razão de tudo.
Mas isto não fez com que eu me sentisse melhor. Ao contrário. Eu a julguei por tantos anos, duvidei do seu caráter e da verdade de seus sentimentos, quando tudo o que ela fez, foi tentar me proteger.
— Eu me provei digna para você, então?
— Você não tem nada a provar para mim, Yesubai.
— Talvez não, mas Kishan disse que um dom seria concedido até mesmo à mais humilde das criaturas a quem os deuses considerassem digna.
Anamika hesitou por um momento, enquanto eu voltava meu olhar para o rosto sereno de Yesubai.
— Qual presente que você procura?
— Você poderia... cuidar dele?
Anamika balançou a cabeça.
— Sim. Eu cuidarei de ambos os príncipes. Isso eu prometo a você.
— Você poderia salvar Isha também?
— Quem é Isha?
— Ela é minha serva. Lokesh vai se vingar em cima dela.
— Sim. Oferecerei a ela um lugar de refúgio.
— Então, o sacrifício valeu a pena.
— Sim. Descanse agora, pequena. Você é muito corajosa.
Em uma explosão de luz brilhante, Anamika e eu voltamos ao nosso acampamento.
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