Eu estava no alto de uma montanha. Não havia luz ou som. E não havia ninguém comigo. De repente, ouvi um barulho de algo batendo, como uma pedra batendo em outra. Então algo brilhando me chamou a atenção. Parecia uma pedra brilhante e luminosa. Era dali que vinha o som.

Eu me aproximei, tentando descobrir o que era aquilo. Então vi algo pontiagudo romper a pedra de dentro para fora. Uma luz riscou o céu e tudo se iluminou. Eu pude ver que não estava mais como Durga. Eu era apenas Anamika.

Uma pequena ave dourada saiu de dentro daquela pedra brilhante. Seu coração batia com força. A ave descansou a cabeça sobre a casca de ovo quebrado, deitado metade dentro e metade fora, piou alto e abriu os olhos. A ave me olhou por algum tempo enquanto eu a observava.

Muito rapidamente, a pequena ave amadureceu. Ela parecia maior e mais robusta depois de poucos minutos. A ave balançou as asas e então falou comigo.

— Olá Anamika. É muito bom revê-la. Vejo que sua alma finalmente alcançou a plenitude.

Eu estava surpresa porque aquele animal falou comigo. E porque ele parecia saber quem eu era.

— Nós nos conhecemos? Desculpe-me, mas eu não me lembro de você. Você não acabou de nascer?

A ave brilhante riu.

— Sim, eu acabei de nascer. Meu nome é Aurora e eu sou uma fênix. Todos os dias, uma fênix morre para que outra possa nascer. Somos como os deuses, só que nossa vida é mais curta. Em compensação, cada nova fênix adquire o conhecimento de sua antecessora. Assim, nós mantemos o conhecimento de eras. E nos lembramos de tudo.

— E como você pode se lembrar de mim? Eu nunca conheci uma fênix antes.

Aurora riu novamente.

— Sua alma é tão antiga quanto as fênix Anamika. Você apenas não se lembra. Você ficará aqui na montanha e nós te ajudaremos a se lembrar. Mas antes, eu gostaria de te ensinar uma coisa: Uma alma simples, é capaz de evoluir até a perfeição de uma divindade. Mas ela também pode regredir e perder toda uma era de evolução, por causa de atos vis. Você pode ser um Deus e agir mal, tornando-se um verme na próxima vida. É raro, mas pode acontecer.

— E por que você está me dizendo isso Aurora?

— Porque você precisa entender Anamika. O Deus que te trouxe aqui, levou anos para aprender. Você é mais sábia e aprenderá mais rápido.

— Deus? Phet é um Deus?

— Sente-se aqui Anamika, diante de mim. Dobre suas pernas uma sobre a outra e descanse seus braços sobre elas, com as palmas das mão para cima.

Eu obedeci.

— Agora feche os olhos e concentre-se na minha voz.

A ave começou a cantar. Sua voz era suave e agradável. Sua música entrava em meus ouvidos e parecia penetrar a minha alma. Eu comecei a me sentir leve, como se eu flutuasse. Então eu me senti como se estivesse em outro lugar, como se tivesse deixado meu corpo. E comecei a ver e sentir.

Eu vi uma fileira de formigas. Havia milhares delas. Todas dirigiam-se ao mesmo lugar. Todas trabalhavam intensamente. Uma formiga no meio da fila carregava uma grande folha verde. Muito pesada. Mas não tão pesada que a impedisse de continuar.

Então eu vi uma gata em um cesto. Ela havia acabado de dar à luz. A gata lambia cada um de seus cinco filhotes, enquanto eles, ainda com os olhos fechados, procuravam as tetas de sua mãe.

Depois disto, eu estava em uma floresta, densa e úmida. Uma tigresa espreitava do meio das árvores, enquanto uma gazela bebia água em um riacho. Então a tigresa saltou sobre a gazela, cravando os dentes em seu pescoço. A tigresa sentia o coração acelerado da gazela começar a parar. O sangue quente do animal diminuir o ritmo, até parar de correr em suas veias. O animal estava morto.

Agora eu estava em outro lugar. Um riacho silencioso, cheio de pedras brilhantes. Então um som rompe o silêncio. Hordas de macacos gritando ao longe. Os seres de dentro da água despertam. Há algo que precisa ser defendido. A criatura não sabe direito o que fazer. Ela segue por entre as árvores. Os outros foram destruídos por galhos espinhentos. Alguém esta deitado no fim da trilha. A criatura não pensa, ela apenas segue seus instintos. Então ela ataca. A mulher tenta lutar, mas a criatura é mais forte. A mulher está quase morta. Uma cobra desperta. É Fanindra. Ela olha nos olhos da criatura. A criatura para. Então ela é atacada. Seu pescoço é dilacerado e ela morre.

Agora, eu estou em uma casa, com outras pessoas. Há duas mulheres e dois homens. Eles são irmãos. E são extremamente bonitos. Mas são solitários, desejam companhia. São sereias. Alguém entra na casa, um homem e uma mulher. Eu conheço essas pessoas. A sereia deseja aquele homem. Ela e sua irmã fazem de tudo para que ele fique. Mas ele se vai.

Então, eu fui para uma floresta, a floresta de fogo. Eu vejo um grupo de demônios terríveis. Eles são caçadores. Seus cabelos brilham como fogo e sua pele é tatuada. Há uma mulher entre eles. Ela é terrível. É a rainha. Dois homens estão prisioneiros da rainha terrível. Uma outra mulher demônio se apresenta, exigindo que seus homens sejam libertados. As duas lutam. A rainha é derrotada e perde a liderança de seu grupo. A nova rainha exige que o grupo mude seus hábitos. O novo líder obedece. A antiga rainha está arrependida por todo o mau que causou. Ela se deita e dorme.

Então eu vejo uma mulher, em um belo quarto de um castelo. Há muitos tecidos, finos e delicados. A mulher está bordando os tecidos, muito concentrada. Então um homem entra. Ela sorri e seu coração dispara. Ela lhe entrega um lenço bordado. Ela o ama, mas deve se casar com outro. Seu amado jura que virá buscá-la. Ele pede que ela o espere. Então naquela noite, ela vê um cavalo. Ele está com o lenço bordado que pertencia ao seu amado, amarrado em seu pescoço. Mas o homem não veio.

A mulher esperou, mas o seu amado não chegou. Então o seu noivo veio aos seus aposentos. Ele era o imperador e a leva até um salão. Ele lhe entrega o lenço de seu amado. Ele a leva até a janela e ela vê o seu amado amarrado, machucado. Um homem o agride usando um chicote. Ela pede que não o machuquem. Ela nega que o ama. Então seu amado é morto. O imperador deixa a sala e a mulher chora, jogada no chão. Então alguém entra. Uma mulher de olhos cor de lavanda. Ela lhe oferece ajuda. A mulher lhe diz que seus dons ainda podiam ser usados para o benefício de outros. Ela lhe chama de Lady-Bicho- da- seda e lhe diz que sua penitência por ter traído o seu amor, será unir os casais que se amam, sem nunca mais amar novamente.

Agora eu estava em um campo. Uma menina corria e se escondia atrás de uma árvore. Dois meninos a procuravam. Ela estava feliz. Os meninos a procuram, mas ela os surpreende saindo de seu esconderijo. Os meninos se assustam e os três riem juntos. Os dois são idênticos. São irmãos gêmeos.

O tempo passa e agora os três são adultos. Os rapazes são especiais. Eles tem poderes. São capazes de manipular o fogo e controlá-lo. Eles ensinaram à mulher. Agora ela também é capaz de manipular a chama. Seu nome é Lawala. Ela ama os dois irmãos. E ambos a amam.

Lawala está sentada entre os dois irmãos quando o povo desesperado vem até eles. O vulcão tinha entrado em erupção e a lava vinha em direção à cidade. Shala e Wyea eram os únicos capazes de controlá-lo. Mas as explosões estavam cada vez mais violentas. Só havia um meio de parar com aquilo. Os jovens teriam que se sacrificar. Eles sabia quem eles eram: Eram deuses e precisavam ir embora. Mas eles precisavam de Lawala. Ela era seu Shakti. Mas só poderia haver um Deus. Lawala teria que se decidir. Ela seria a esposa de um, enquanto o outro se sacrificaria, doando seu poder para o irmão.

Os três foram até a grande montanha de fogo. Então os irmãos entraram. Lawala pensou no peso de sua decisão. Se ela entrasse naquele vulcão, teria que decidir qual dos irmão viveria e qual morreria. Ela amava a ambos. Não poderia fazer tal escolha. Então ela virou as costas e correu. Lawala fugiu para longe e se escondeu. O vulcão não se acalmou. Suas erupções ficaram mais intensas e constantes. Ela sabia que seus deuses precisavam dela. Ela sabia que precisava acalmá-los. Mas ela não conseguia voltar.

Lawala soube que as pessoas estavam sacrificando jovens puras para acalmar os deuses do vulcão. De fato, depois que uma jovem era empurrada para dentro da lava, o vulcão se acalmava por um tempo. Mas logo as explosões voltavam. Lawala sabia que só ela poderia acalmar seus amados gêmeos. Então ela foi até a beirada do vulcão e se jogou.

Então eu estava diante de uma mulher. Ela tinha os olhos verdes gritava de dor e desespero. Eu reconheci aquela mulher. Era a minha mãe. O primeiro bebê nasceu, um menino de olhos verdes. Em seguida, a menina.

— Sunil e Anamika, meus filhos.

Então eu despertei na montanha. E outra fênix me olhava. Ela era azul e disse que seu nome era Despertar. Ela era a décima fênix a nascer desde que eu chegara.

— Você está pronta para deixar a montanha Anamika. Vá e faça o que é preciso.

Eu me levantei e dei as costas para a fênix. Phet estava lá, olhando para mim. Ele sorriu e estendeu a mão, então nós deixamos a montanha.

Agora, eu estava com Phet, em um lugar que eu não conhecia. Eu me lembrava de tudo. Tudo o que eu aprendi na montanha da fênix era sobre mim. E agora eu tinha todo o conhecimento que eu adquirira em todas aquelas vidas.

Eu me sentia plena. Se um único ser é capaz de aprender tanto em sua curta vida, eu tinha o conhecimento de inúmeras vidas. Tudo me parecia claro. E Phet sabia disso. Por isso ele tinha me levou àquele lugar.

— Anamika, somente pessoas sábias podem ter acesso ao tempo. Este astra — ele apontou para uma das partes do amuleto de Damon. — permite que você atravesse o tempo, e possa ir a qualquer lugar que desejar. Você pode ir fisicamente ou apenas observar. Você pode interagir com pessoas de outras épocas, de outros mundos. Mas você não deve revelar os segredos do tempo e do universo. São informações muito poderosas para que uma alma comum compreenda. Você está pronta?

— Sim.

Então a minha primeira missão começou.