Muitos meses se passaram desde que Anamika me mostrara Yesubai. No início aquilo me perturbou bastante. Eu passava horas pensando em como teria sido:

"Como teria sido se nós tivéssemos fugido?" "Se ela tivesse sobrevivido". "Se tivesse conhecido Ren primeiro".

A relação entre Yesubai e Kelsey fazia sentido. Eu me lembrava da primeira vez em que vi Kelsey. Eu me senti diferente, como quando conheci Yesubai. Kelsey era tão doce e bonita quanto Yesubai e, agora que eu conhecia a verdade, percebia que as duas mulheres tinham a mesma capacidade imensa de amar e de se sacrificar.

Com o tempo, os pensamentos em Yesubai foram ficando menos constantes, até eu praticamente parar de pensar sobre aquilo.

Anamika e eu tínhamos muito trabalho como Durga e Damon. Nós dois nos tornamos muito íntimos. Éramos muito amigos, mas, embora nos tornássemos quase um ser único quando a deusa se apresentava com seu tigre, nós não nos tornamos um casal.

Eu sentia a necessidade de ter uma companheira de vida e sentia que esta poderia ser Anamika. Mas ela, embora me amasse e se sentisse atraída por mim, insistia que não poderíamos ficar juntos.

Nós viajamos para vários lugares, como Deuses, e travamos muitas batalhas contra demônios. Mas os demônios não eram evidentes como Mahishasur. Havia muitas pessoas inescrupulosas no mundo, que se aproveitavam dos mais fracos e os subjugavam. Nosso papel era ajudar àqueles que lutavam contra esses homens. Nós os aconselhávamos, cuidávamos dos necessitados, dando-lhes alimentos e roupas, fornecendo-lhes sementes e ajudando-os a plantar e a colher seus alimentos. Os presentes de Durga nos ajudavam a operar muitos milagres.

Anamika tornou-se uma Deusa perfeita: bondosa e misericordiosa. Ela se compadecia do sofrimento alheio e sacrificava-se para ajudar. Sempre que tomávamos conhecimento de que algum povo estava em dificuldades, deslocávamo-nos em seu socorro.

Quando o primeiro filho de Kelsey nasceu, Durga e eu estávamos em uma missão, além do Himalaia. Phet veio nos encontrar, depois de muitos meses sem aparecer. Anamika e eu descansávamos em nossa tenda. Estávamos vestidos como Deuses, mas ela não tinha os oito pares de braços. Phet entrou na tenda e curvou-se diante de nós.

—Meus queridos Deuses.

Anamika sorriu e tocou a cabeça do xamã:

— Não se curve meu querido. Sinta-se abençoado.

Eu me aproximei e Phet inclinou-se em reverência.

— Meu senhor.

— Boa tarde Phet, faz tanto tempo que não vem nos visitar.— Eu o abracei— Sentimos sua falta.

Eu nunca fora íntimo de Phet, mas a presença do pequeno xamã me deixou feliz. Ele tinha uma energia positiva, que fazia minha alma se regozijar. Phet retribuiu o meu abraço e então afastou-se.

— Bons Deuses, trago uma boa notícia. — Ele sorriu e olhou diretamente para mim — Kelsey vai ter um bebê.

Eu fiquei emocionado. Eu sabia que era o bebê de olhos dourados. Aquele que por tanto tempo, eu achei que seria meu filho. Mas agora eu sabia que ele era de Ren e estava feliz por ele. Como se lesse meus pensamentos, Phet falou:

— Tigre negro, o bebê é filho de Dirhen. Mas, de certo modo, ele é seu filho também.

Eu fiquei intrigado com aquela afirmação, mas não o questionei sobre aquilo.

—Obrigado Phet, por nos trazer tão boa notícia. — Virei-me para Anamika— Eu gostaria de vê-los.

Ela olhou rapidamente para Phet, então sorriu para mim e segurou a minha mão. Em um segundo víamos o quarto de Kelsey.

Ela segurava o pequeno bebê em seus braços e sorria, com os olhos cheios de lágrimas. Estava cansada, mas feliz, exatamente como no meu sonho. Então ela sussurrou:

— Seu nome será Anik. Anik Kishan.

Meu coração disparou de emoção. O bebê abriu os olhos e olhou para o rosto de sua mãe, como se a reconhecesse. Então Ren sentou-se ao lado de sua esposa, olhou orgulhoso para o seu pequeno filho e sorrindo falou suavemente com o bebê.

— Você é um belo garoto, eu te amo mera jaan.

Kelsey olhou sorrindo para Ren e ele a beijou rapidamente nos lábios, então voltou a olhar para a criança. Anamika se aproximou e parou ao meu lado.

— Ele será um grande homem. — Ela disse e segurou minha mão — Vamos, precisamos voltar.

Com o passar dos anos, Anamika e eu continuávamos viajando pelo mundo em nossas missões. Onde íamos, conquistávamos seguidores, pessoas cheias de fé, capazes de abandonar tudo para nos seguir. Essas pessoas nos acompanhavam em nossas meditações e abdicavam do próprio conforto para alcançar seu crescimento espiritual.

Conforme o número de seguidores ia crescendo, maior era o meu incômodo. Eu sentia a necessidade de me estabelecer em um lugar, construir uma casa e ter minha própria família. Falei com Anamika sobre isso. Ela ficou séria antes de me dizer, olhando para o horizonte:

— Você construirá sua casa tigre de ébano. Será um lugar lindo e abençoado. Muitos peregrinos irão até lá. O lugar será conhecido como "A morada de Shiva". Você encontrará a felicidade. Eu só preciso que você tenha paciência meu amado. Logo será o momento do meu sacrifício, então nós poderemos descansar.

Eu achava estranho a forma como Anamika falava do futuro. Quando ela falava sobre família, filhos e felicidade, ela sempre dizia que eu encontraria estas coisas, mas ela nunca falava de si.

Algum tempo depois, Anamika anunciou que iríamos para a cidade de Katra, onde ela se prepararia para a sua última missão. Fiquei feliz, porque ela tinha me prometido que, em breve, nós iríamos parar de viajar e construiríamos uma casa. Assim, partimos para Katra.

Era inverno e fazia muito frio no Himalaia. Eu subi a montanha na forma de tigre, Anamika estava montada sobre mim. Ela garantia que aqueles que nos seguiam tivessem roupas quentes e alimentos.

Lembrei-me da outra vez em que estive ali. Kelsey estava comigo e usava seu poder de fogo para nos aquecer. Agora, nós não tínhamos o amuleto de fogo, portanto, não conseguíamos produzir calor. Por isso, parávamos de tempos em tempos para que as pessoas pudessem descansar. Anamika usava o tecido para garantir abrigo a todos e, com a corda de fogo, acendia fogueiras para que as pessoas pudessem se aquecer. Ela também garantia que houvesse água e comida para todos, usando o colar de pérolas e o fruto dourado. As pessoas ficavam maravilhadas todas as vezes que ela demonstrava seu poder e ajoelhavam-se diante da grande Deusa.

Anamika parou e eu reconheci aquele lugar. Ali onde eu estivera com Ren, Kelsey e Kadam, no templo de Vaishno Devi, antes de encontrarmos o último prêmio de Durga. Perto daquele local, Kadam sacrificou-se para mandar Lokesh ao passado. Anamika entrou em uma caverna escura. Eu a segui até lá.

— Porque viemos aqui, Ana?

— Porque eu preciso me preparar para a minha última missão. E eu gosto desse lugar. Estamos perto de onde tudo começou. E será onde tudo terminará.

Eu olhei para ela, interrogativo, mas ela olhava para o outro lado, impassível. Então ela ergueu a mão indicando-me que saísse dali.

— Agora vá. Eu preciso ficar sozinha para meditar. Tenho algo importante a fazer. Por favor, cuide de nossos devotos, e diga-os que logo eu irei até eles.

Dois dias depois, Anamika voltou para o meio de nós. Ela usava um vestido azul, e eu me lembrei imediatamente de quando nos encontramos no templo que ficava naquele local. Anamika me olhou intensamente e sorriu com o canto da boca, e eu soube que ela tinha acabado de voltar daquela visita. Ela suspirou e virou-se para o povo que nos acompanhava.

— Queridos filhos. É chegada a hora de nos aquietarmos. Temos viajado muito nos últimos anos. Lutamos incontáveis batalhas contra o mal, e o vencemos. Eis que agora estamos em paz.

As pessoas se regozijaram e murmuraram louvores à Deusa.

— Muitos sacrifícios foram feitos para que tivéssemos vitórias em nossas lutas. E agora, um último sacrifício deverá ser feito, para mantermos a paz por um longo período.

Olhei para Anamika preocupado, mas ela continuou falando à multidão.

— Esta será a última vez que meu corpo físico estará no meio de vós. — As pessoas se olhavam e murmuravam preocupados. — Mas o espírito divino de Durga sempre estará com vocês. Agora, adeus meus filhos.

Anamika segurou minha mão e o medalhão. Eu ouvi as pessoas gritarem:

— Mata, mata Vaishno Devi.

Então eu não ouvi mais nada. Estávamos no palácio de Brhennam, onde Yesubai morrera. Seu corpo era embalado por uma mulher, que chorava baixinho. Não havia mais ninguém. Em um instante me lembrei do que ocorrera ali.

Eu me lembrava de ter visto o corpo de Yesubai caído no chão e de ter corrido até ela, de tê-la pegado em meus braços, sentado no chão e a embalado, implorando para que ela vivesse.Então eu encostei meus lábios nos dela, em um beijo de despedida. Nosso primeiro e último beijo. Mas ela já estava morta. Lokesh vociferava contra Ren e contra mim, exigindo nossos medalhões. Ele percebeu que não conseguiria nos controlar com seu amuleto. Então ele pegou sua faca e foi em direção a Ren. Naquele momento, a transformação aconteceu.

Eu ainda me lembrava da dor e do desespero que senti. Lembrava-me de ter largado o corpo de Yesubai e de tentar me levantar, caindo com os joelhos e mãos no chão. Senti a minha pele se rasgar, quando as garras cresceram. Senti minhas gengivas sangrarem, quando os dentes pontiagudos surgiram. Então eu me transformei em tigre pela primeira vez.

O tigre negro tinha consciência de quem ele era, mas naquele momento eu era mais fera do que homem. Ren também havia se transformado. A despeito de tudo o que tinha acontecido, Ren e eu corremos para fora daquele lugar, deixando o corpo de Yesubai para trás.

A voz de Anamika interrompeu minhas lembranças:

— Kishan, fique aqui. Eu preciso ajudar aquela mulher.

Eu balancei a cabeça em concordância e Anamika saiu das sombras, aproximando-se da mulher. Isha assustou-se ao deparar-se com a Deusa.

— Isha, fique calma.— Anamika pediu— Eu sou a Deusa Durga. Prometi à Yesubai que cuidaria de você. Eu a protegerei do inimigo que você tanto teme.

— Mas Deusa, eu não posso deixar a minha menina aqui desse jeito. —Dizia a mulher, entre soluços—Todos eles a deixaram para trás, como se fosse lixo. Eu não vou abandoná-la.

Senti tanta culpa ao ouvir aquilo. Depois que eu me transformei em tigre, eu fiquei mais instintivo. E meus instintos me disseram para fugir dali. Eu nunca soube o que tinha acontecido com o corpo de Yesubai. Eu pensei ter sido usado por ela e por Lokesh e me ressenti. Em razão disso, procurei não pensar mais nela. Mas ela me salvara. Yesubai se sacrificou para que meu irmão e eu sobrevivêssemos. Nenhum de nós sabia o quanto ela era especial.

— Não se preocupe, ela vai ficar bem. — Anamika falou à Isha. — Venha, eu vou te levar a um lugar especial. Existe uma pessoa lá que quer muito te conhecer. Seu nome é Ganesh.

Anamika tocou o ombro de Isha e o amuleto em seu pescoço.

— Ganesh? — Ouvi Isha perguntar, antes de as duas desaparecem.

Eu estava sozinho com o corpo de Yesubai e sabia que não havia mais ninguém ali. Lokesh havia deixado o local e levado seus guardas com ele. Eu saí das sombras e me aproximei do corpo, ajoelhei-me e olhei para o lindo rosto dela, segurei sua mão e lágrimas desceram pelo meu rosto.

—Yesubai, eu sinto tanto. Sinto por não ter percebido o quanto você estava sofrendo. Sinto por ter te pressionado e por ter duvidado de você. E por nunca ter percebido o quanto você era especial. Eu sei que o que houve foi necessário, mas você merecia mais Dayita. Prometo honrá-la, de hoje em diante, meu amor. Serei para sempre seu devoto.— Percebi que meu corpo tremia enquanto lágrimas desciam pelo meu rosto, caindo no corpo morto de Yesubai. — Eu vou levá-la daqui, vou enterrá-la no jardim de Deschen e irei te visitar sempre. Eu nunca mais me esquecerei de você, minha querida.

Toquei o rosto de Yesubai e beijei sua face. Apesar de seu corpo estar frio, ela parecia estar dormindo, em paz. Eu não percebi que Anamika havia voltado e me assustei quando ela falou comigo.

—Isso não será necessário, tigre negro.

Anamika estava de pé, atrás de mim. Coloquei o corpo de Yesubai de volta no chão, com cuidado e me levantei para falar com ela.

— Ana, para onde você levou Isha?

— Eu a levei para um lugar seguro. Um refúgio que eu criei com a ajuda de Phet, para que mulheres tristes e desamparadas possam desenvolver seu potencial e encontrar a paz. Esse era um sonho de Yesubai, inspirado por Deschen, que por tanto tempo, cuidou das viúvas de seu reino.

Olhei para o corpo de Yesubai, feliz em saber que Anamika a honrou, realizando seu sonho. Ela merecia. Então me lembrei de algo, e voltei a falar com Anamika, curioso.

— Ana, quem é Ganesh? E porque ele é especial para Isha?

Ela sorriu de leve.

— Há muito tempo, Isha teve um filho que ela chamou de Ganesh. O marido de Isha morreu pouco antes de Ganesh nascer. O bebê também morreu muito jovem, deixando Isha sozinha no mundo. Quando ela foi levada para a casa de Lokesh, Yesubai tinha apenas um dia de vida e Isha a criou como filha. Ganesh é neto de Isha.

Franzi a testa, tentando compreender. Se o filho de Isha morrera ainda bebê, como ela podia ter um neto?

"A não ser que..."

— Uma fênix quando morre, transmite seu espírito e sua consciência à que vem depois dela. Assim, a jovem fênix detém o conhecimento de eras. Eu precisei fortalecer meu espírito e minha consciência para aprender. Eu abdiquei do meu maior desejo e do meu amor para adquirir esse conhecimento, e agora, preciso transmiti-lo a outra pessoa. Mas antes, eu queria te pedir uma coisa. É algo que eu desejo há muito tempo, desde que olhei em seus lindos olhos dourados pela primeira vez.

— Ana, o que você vai fazer? — Perguntei preocupado.

— Eu apenas seguirei meu caminho, meu amado Kishan. Não se preocupe, todos nós ficaremos bem.

Balancei a cabeça, assentindo.

— E o que você precisa que eu faça?

Ela deu um passo em minha direção e ergueu a mão para tocar meu rosto.

— Um beijo.

Senti uma melancolia inexplicável, como se Anamika também fosse me deixar. Parecia que meu destino era perder todos aqueles que eu amava. Meus olhos ficaram cheios de lágrimas novamente.

— Por favor tigre de ébano.

Ergui a cabeça para olhar o semblante tranquilo de Anamika. Ela estava em paz. Então eu toquei sua face e desci até seu queixo, erguendo seu rosto. Toquei minha testa na dela e olhei em seus olhos verdes, admirando mais uma vez, a beleza divina e selvagem daquela mulher. Meu coração bateu depressa, em sintonia com o dela. Então eu a beijei.

No momento em que meus lábios tocaram os de Anamika, eu me lembrei do último beijo que dei em Kelsey, antes de ela entrar no vórtice para voltar para casa. Lembrei-me também do único beijo que dei em Yesubai, logo antes de ela morrer. O beijo de Anamika também era um beijo de despedida.

Quando terminou, Anamika me olhou e sorriu, então apertou meu braço e encostou a testa na minha, fechando os olhos.

— Obrigada, meu amor. — E afastou-se de mim.

Anamika retirou o amuleto, que estava em seu pescoço e o colocou ao redor do meu. Então aproximou-se do corpo de de Yesubai, pegou o lenço divino, cobriu-se com ele e transformou-se em Durga, com seus oito pares de braço. Fanindra ganhou vida e Anamika desceu o braço para que a cobra pousasse no corpo de Yesubai e deslizasse sobre ele. O colar de pérolas foi colocado no pescoço de Yesubai. Em seguida, Anamika pegou todas as armas e prêmios de Durga e os segurou em suas mãos. Então virou o rosto para mim.

— Obrigada por ter me honrado, tornando-me uma deusa. Obrigada por ter me ajudado a trilhar meu caminho. Sem você eu não teria conseguido, tigre de ébano. Agora, é você quem precisa encontrar seu caminho e se tornar o Deus que você nasceu para ser. — Ela fez uma pausa e meus olhos ficaram marejados novamente — Chegou a hora do meu sacrifício.

Anamika ajoelhou-se ao lado do corpo de Yesubai e colocou uma de suas mãos sobre ela, então fechou os olhos. As armas e prêmios começaram a brilhar intensamente. Uma luz dourada, muito forte, fluiu do corpo de Anamika e envolveu o corpo de Yesubai. E então eu soube o que Anamika estava fazendo.

A luz que envolvia as duas mulheres foi tornando-se cada vez mais intensa, a ponto de eu não mais enxergá-las. Eu tentei me aproximar delas, mas um calor intenso me impediu. O brilho tornou-se tão forte, que eu tive que virar o meu rosto. Anamika não gritou. Então a luz se extinguiu.