Terminou naquele domingo quando Taylor apareceu na sala e disse com todas as letras:

"Mãe e mãe, eu me batizei."

Foi o fim da picada. Nós havíamos aceitado tudo, tudo, tudo. Mas aquilo era demais.

Enquanto Taylor ainda estava resguardado no útero, eu passava horas passando a mão na barriga de Lilith. Nós duas nos perguntávamos como ela seria. Porque queríamos e críamos que era uma menina a caminho. Quem sabe seria uma presidenta, trabalhando em prol dos mais pobres? Quem sabe seria uma embaixadora na África? Trabalharia na ONU?

No entanto, para nossa decepção, a ultrassom revelou que o sexo biológico da criança era masculino. Okay, tudo bem. Sério. Lilith e eu nunca fomos misândricas. Tudo bem que viesse um menino. Afinal, todas as roupinhas e acessórios do quarto eram de cores neutras. E cor nem tem gênero mesmo, certo? O importante era que tínhamos nosso primeiro filho.

No fundo, acreditávamos que ele não seria um menino cis. Eu, principalmente. Imaginava que em algum momento ele demonstraria não se encaixar no seu sexo biológico. Imaginava tanto isso que sugeri a Lilith que déssemos ao nosso bebê o nome neutro de Taylor. Desse modo, ele não teria dificuldade alguma, caso se assumisse como uma mulher trans.

Mas durante toda sua infância, Taylor demonstrou padrões normativos no seu comportamento. Ignorou as bonecas que lhe dávamos, tinha preferência clara por carrinhos e bola. Gostava de cores historicamente masculinas: azul, laranja, verde. Sempre quis vestir shorts, nada de vestido, nada de cor-de-rosa. Era nosso pequeno “machinho”.

Okay. Nós não tínhamos preconceito com pessoas cis, visto que também éramos cis. Nenhum problema nisso.

Porém, outra esperança brotou. Ele poderia ser gay. Muitos gays crescem obedecendo padrões normativos como os de Taylor. E mesmo assim, se assumiram gays. Eu mesma fui uma princesinha quando criança e, ao chegar à adolescência, enxerguei que gostava de mulheres. Acontece com muita gente. Taylor também poderia ser desse jeito.

Aos 15 anos, ele trouxe a primeira namorada para casa. Eu nunca tive tamanha tristeza na minha vida. E, como se não fosse pouco, era uma namorada de beleza completamente europeia. Loira, olhos azuis, lábios finos, nariz nórdico, pele branca como a neve. Se era para nos causar amargura, por que não nos causar menos com uma negra de cabelos crespos, lábios grossos e olhos escuros? Nós certamente ficaríamos menos infelizes.

Nosso filho, aparentemente, era heterossexual.

Minha Deusa.

Nós certamente tentamos despertar o seu eu homossexual. Meio que inconscientemente, sim, nós temos ciência de que sexualidade não é uma escolha, mas nós estávamos TÃO decepcionadas que não conseguimos ser racionais. O nosso filho, o nosso filhinho, que criamos com tanto carinho, criamos tão bem, era hétero.

Convidamos o filho bissexual de um casal de amigos gays para nos visitar todo fim de semana, o Max. Menino tão lindo, meio oriental e meio negro... Mas Taylor não se interessou. Sequer deu importância. Preferiu a namorada loira (por que loira, Deusa?). E desse modo mostrou indiferença às nossas seguintes tentativas. Beyoncé? “Por favor, mãe, eu prefiro um rap...”. Roupas? Grife? “Mãe, eu visto qualquer coisa...”.

Que desapontamento.

Mas tudo bem.

Ser heterossexual não é uma escolha.

Ser homem cis não é uma escolha.

Mas ser cristão?

Onde estava a consideração de Taylor para com os valores de nossa família ateia desde a terceira geração? Onde ele estava com a cabeça?

“O que você disse, moleque?”

Eu me estressei. Eu jamais gritei dentro de casa, eu jamais briguei com Lilith diante de Taylor. Mas, por favor, se batizar?

“Eu disse que... Eu me batizei.”

“Filho” Lilith segurou meu braço e fez sinal para que eu me calasse “Por favor, explique”.

“Eu acho que Jesus é um cara legal e decidi ser cristão.”

Que absurdo. Passei dias e dias me perguntando onde que errei. Eu tinha que ter errado. Não era possível que tal aberração viesse de nossa família. Não era possível. No entanto, sem saída. Tive que aceitar meu filho frequentando a igreja, meu filho namorando mulheres, meu filho sendo um filho. Hoje mesmo, ele anunciou o noivado com uma moça. Não é mais a loira, mas essa ainda tem olhos azuis. Olha, sinceramente, não desejo para nenhum/a mãe/pai no planeta o desgosto de ter um filho homem, cis, heterossexual e cristão.

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