O desejo sobre o luar
1 Capítulo único.
Selene chegou séria como de praxe em casa, seus pais ainda não haviam chegado de viagem, mas seu companheiro sempre estava lá atirado – em seu espaçoso tamanho — sobre o sofá. Ele se pôs a sentar-se ao vê-la cumprimenta-lo meio cabisbaixa, sabia que algo a incomodava. Ele a seguiu logo atrás pela escadaria sem emitir um som. Ao chegarem ao quarto dela, ela desabou sobre a cama, chorosa e contando seus problemas. Ele senta ao seu lado na cama.
“E mais uma noite ela vem, confessando seus desejos para um coitado como eu, perdido de amor por ela e ela ainda não percebe isso. Mesmo eu sabendo que ela me ama, também sei que seu amor nunca será igual ao que eu sinto. Como eu desejo tê-la apenas para mim...” – Ele pensou.
- Você é um amor. – Ela o tomou em seus braços e fez-lhe carinho, como se todo o seu dia valesse a pena naquele momento. E ele permitia, afinal, quem não gosta de receber carinho? Recostou a cabeça contra o peito da jovem que antes estava com o rosto abatido e meio choroso, dando espaço a um sorriso tão cheio de sentimentos bons que fazia ele se satisfazer com a alegria dela.
“Desejos...”
Ficou ao lado dela até esta ser pega pelo sono e cair em uma profunda paz de espírito. Deitado ao lado dela, podia ver a serenidade tomando conta de seu semblante, seu tórax enchia e relaxava em uma respiração suave que vez ou outra era interrompida por um soluço de resquício de um outrora choro. Era tão bom ficar perto daquela beleza de marfim, Selene era uma bela moça apesar de ter uma vida tão sofrida. Subiu um pouco mais sua visão até vislumbrar seus lábios rosados e ele morrer de tentação de enchê-la de ósculos apaixonados. Um brilho pela janela o fez desviar a atenção de sua amada, aquela luminosidade noturna lhe alertava: Tinha que sair dali e cumprir seu dever. Ele se levantou sem cometer um único barulho, cada passo que dava parecia uma forma de preencher o vazio do silêncio. Saiu pela janela aberta e pendurando-se entre os troncos de uma árvore próxima para fugir pela noite, onde apenas o som da brisa noturna cortava o ar e balançava preguiçosamente as folhas da frondosa árvore.
“ Todos têm um desejo, até mesmo nós...”
Fora dali, a lua cheia melancólica alertava os soturnos moradores das redondezas. Dois deles saltaram de um parapeito ao chão, outros — do outro lado da rua — reviraram e derrubavam latas de lixo. Um alerta acionou seus instintos animalescos, parecia que todos se encarregavam de alertar uns aos outros, e aos poucos foram indo e se acumulando em volta de uma lápide muito bem ornamentada do cemitério antigo e solitário daquela cidade. O mais vistoso entre os taciturnos estava sentado no topo da lápide, frondoso e sombrio, confundido nas sombras onde apenas seus orbes âmbares eram bem nítidos como o luar, ele era tão belo quanto o ébano e aspirava ser o líder daquele bando de coitados desesperados em busca de seus próprios sonhos de liberdade. – Vocês que videm a mim, que escutaram meu chamado, sejam bem vindos à nossa noite.
“ Sonhos, onde nosso tão estimado senhor dos sonhos, pode nos permitir chegar mais próximo de nossos mais íntimos desejos... Orfeu, tenha paciência de nós, você que tem que conviver com toda a imaginação e desejos reprimidos dos seres!”
- O que está pensando Hélio? Para quê nos reunistes aqui?! Já não basta eu ter que ficar mendigando ou caçando em latas de lixo minha comida, agora tenho de perder tempo aqui? – Disse um convidado irritadiço. – Não fale assim com nosso líder, esqueces que Heliodoro vez ou outra trás comida a você? Rato asqueroso. –
– Não me xingue sua rodada! – Retrucou, e de imediato foi silenciado pelo líder contemplativo.
- Parem com este balaio de gatos. Não vos chamei para que fiquem se atacando. Não vim aqui para tratar de nossos problemas rotineiros, não. E também não és obrigado de se manter em nossa presença Caleb, se preferir, podes se retirar. Apresento-me diante de todos para lhes fazer refletirem. – Caleb pareceu contrariado, se afastou de todos, mas ficou atrás de algum ornamento, para escutar o conteúdo da reunião.
“E o que mantém nossos sonhos?”
- Sabemos que em outra vida já fomos cães, humanos, aves, ou qualquer outro ser orgânico deste e de outros planetas... Séculos se passaram desde o surgimento do universo e continuamos aqui, encarnando e reencarnando, esperando nossa vez de termos um pouco da atenção do destino. Mas enquanto nossas vontades não se concretizam, temos uns aos outros. Nossa união nos faz nos tornarmos fortes o suficiente para esperar por nossa vez, por nossos sonhos. -
- Mas quanta faladeira... – Cochichou outro presente fadigado. – Gosto da forma como nosso senhor fala, queria um dia que ele me desse sua atenção. – Cochichou de volta uma pouco possível companheira de Hélio. – Soube que ele ama uma humana à séculos, mas nunca consegue ficar perto dela.- ; — É um sofredor por escolha, por que por falta de oportunidades... — ; — Sua promíscua, já tens inúmeros filhos largados por aí.
“Acreditar que um dia eles serão concretizados, essa é a verdadeira felicidade, quando os sonhos e a realidade se encontram. Mas isso só irá se concretizar se todos, sim, todos nós sonharmos.”
- Quero que quando vocês retornem para seus abrigos, reflitam nos seus sonhos, nossos sonhos que liberdade, nossos desejos mais íntimos. Idealizar e acreditar em nossos sonhos, pois unidos, com o sonho de milhões de nós, juntos, conseguiremos materializar nossos sonhos! Quero que retornem e pensem com todas suas forças em nossa liberdade, e quanto mais de nós sonharmos, maiores serão nossas chances. Espalhem nosso objetivo, façam com que todos em nossa volta sonhem e nessa não mais fria noite, mas acolhedora, nós retornaremos para nosso sono e sonharemos, para pelo menos chegarmos o mais próximo possível de nossos desejos. -
“Por que um sonho só se concretiza se idealizado juntos, unidos.”
Caleb parecia estar tocado, aquilo era realmente importante, não apenas para ele mas todos ali pareciam surpresos com o pedido de vosso líder. Parecia que todos estavam mais motivados e realmente fariam aquilo que Heliodoro, o mais sofrido de todos, vos pediu.
“Quem somos nós?”
Todos retornaram para seus locais de origem, inclusive Hélio, que agora estava deitado mais uma vez ao lado de sua Selene. Em um sono leve, ela despertou, aninhou seu querido Hélio mais próximo de si e voltou a dormir. Naquela noite, ébano e marfim dormiram num sono profundo e repleto de esperanças.
“É uma pergunta complicada de se responder, já fomos tão diferentes do que somos atualmente. Temos muitos adjetivos.”
O sonho era o mesmo para ambos, Hélio era um esquio homem, Selene uma gentil dama. Hélio era a personificação do sol e Selene a personificação da Lua, viviam longe um do outro, sim, mas ambos sabiam que em todo amanhecer e em todo entardecer estariam muito próximos, um vivia para se aproximar outro, e assim eram suas eternidades, sempre iam em busca naquilo que parecia impossível de se alcançar, mas no fim eram recompensados quando o sol deitava-se sobre a lua ou vice-versa. Amavam-se, era o que importava, e como era bom sonhar!
“Indiferentes, aqueles que não amam, esbeltos, gatunos, elegantes, felinos... Mas o que eu prefiro: Somos tudo e o nada.”
Notas finais
Sandman: Um sonho de mil gatos - Neil Gaimam.
Contos Greco-romanos.
The lovecats The Cure.
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