O desaparecimento dos Noels!

1 Capítulo único - Fábrica, Papai Noel, presentes.


Notas iniciais
Queridos, resolvi escrever essa historia realmente do nada, para participar do desafio de ferias, acontece que me envolvi com a historia, e sai desesperada por um beta, ai encontrei uma beta perfeita, que me deu alguns puxões de orelhas bem merecidos -tenho que admitir - e graças a ela a historia levou um rumo não esperado por mim, por isso agradeço do fundo do meu coração a ela. Espero que se divirtam com a personagem Juliet, criei ela com muito carinho.

Elfa Juliet acorda pela manhã, pula da cama um pouco tonta. Ela tinha uns 3 mil anos, mas não aparentava mais de 16. Morava em um dos pequenos alojamentos dos elfos na própria fábrica Noel presentes; seu apartamento era constituído por um quarto grande, um minúsculo escritório, uma cozinha improvisada na pequena sala e um banheiro.

— Já passou das dez horas da manhã?! Como pude dormir tudo isso? Ele vai me matar! — Corre apenas de meia até porta do seu apartamento e, sem fechá-lo, se põe para fora.

Ela pega o primeiro bonde para o prédio principal da fábrica, saindo assim da pequena vila. Senta-se e logo em seguida sua amiga ocupa o banco ao lado.

— Ju, está tudo bem? — Nota que a amiga está descalça.

— Olá, Vi. Vou chegar atrasada e aquele pançudo vai querer me matar — choraminga.

— Não fale assim dele, muitos se matariam por este trabalho — Remexe em sua bolsa e retira de lá um par de sapatilhas — Aqui — Coloca-as sobre o colo de Juliet

— Pra que? — pergunta sem entender, Violet começa a rir — Qual é graça?

— Desculpe, mas Ju, você ainda não notou que não está usando sapatos?

Olha para seus pés e nota que está descalça, usando somente uma meia social preta. Ela cora de vergonha colocando as sapatilhas com pressa.

— Ai! Que mico... Obrigada. Sempre me salvando! — agradecia a amiga enquanto segurava as mãos dela.

— De nada, cabecinha de vento. Ainda bem que tinha esse par de sapatilhas — sorriu

— Você sempre os leva na bolsa? Por quê?

— É que eu só ando com esses sapatos altos e no fim do dia já não aguento meus pés, então troco de sapato — Violet se explica, sorrindo como sempre e apontando com os dedos os saltos de quinze centímetros.

— Entendi! Que lindos! — diz Juliet admirando os saltos. Eles eram pretos, estilo gladiador, com apenas um zíper do lado esquerdo de cada um — Mas não seria mais fácil usar as sapatilhas direto?

— É que eu gosto, Ju. O sacrifício vale a pena. Sim, qualquer sacrifício vale a pena para se ter o que é preciso — Sorriu novamente — Chegamos.

— Devolvo as sapatilhas pra você depois — diz Juliet, correndo para o elevador enquanto a amiga acenava para ela. O elevador fecha as portas e Violet o encara com uma cara de nojo.

Já na área de administração, Juliet corria apressada pelos corredores, com um livro enorme nas mãos e provavelmente muito pesado para qualquer pessoa carregar sozinha.

— Aonde vai com tanta pressa? — Correu atrás dela Davi, um elfo de bom porte, tendo mais ou menos a mesma idade de Juliet. Ele tinha cabelos loiros e olhos azuis, suas orelhas eram pontudas como deveriam ser, tinha lábios bem vermelhos e pele branca como a neve. Juliet não deu atenção e continuou a correr, o que o forçou a correr no mesmo ritmo que ela.

— Vou até a sala do barrigudo. Ele deve estar soltando os cachorros neste momento! — disse enquanto virava o corredor se direcionando a uma sala de porta redonda e vermelha.

— Ei, quando você não estiver tão ocupada, podemos sair, pra tipo... Comer alguma coisa ou... Quem sabe ir... — Ele foi interrompido por Juliet, que parou bruscamente na sua frente.

— Desculpe, mas não tenho tempo pra falar disso, Davi. Nos vemos depois — Ela então abriu a porta enorme e redonda com um pouco de medo, segurando firme o livro nas mãos. O elfo ficou observando a morena e linda elfa entrar devagar na sala.

Juliet era muito bonita, considerada uma das elfas mais belas das fábricas, tinha olhos esverdeados que ora estavam verdes, ora estavam acinzentados ou caiam para o azul escuro. Seus cabelos eram castanho escuro e caiam em cachos, era bem-apanhada e tinha um rosto perfeito, lembrando o de uma boneca de porcelana. Boca pequena e carnuda bem avermelhada. E usava uma franja, hoje puxada para trás por uma presilha.

Ela entra com cuidado na sala, fechando a porta atrás de si e desviando de um livro que voava em sua direção.

— O-ola, Papai Noel, como está seu humor hoje? Quero dizer, como está o senhor hoje? — Se agachou e recolheu o livro que estava no chão.

— Como estou hoje? Como estou hoje?! Uma certa elfa se atrasou por quatro horas! Sabe quantos problemas uma pessoa tem em quatro horas?! — gritou um velho barbudo vestindo um pijama laranja desbotado. O velho tinha uma barriga enorme e redonda, um cachecol em volta do pescoço, cabelos e barba brancos. Apesar de aparentar ter uma certa idade e algumas rugas em seu rosto, não perdia o brilho jovial em seus olhos azuis claros como o céu.

— Me desculpe. Mas jurava, Senhor Nicolau, que o Papai Noel deveria sorrir mais, e olha os seus nervos, não sei como ainda não morreu me recebendo desse jeito nervoso todos os dias. Vai acabar tendo um enfarte — reclama — Cheguei tarde por que fiquei revisando os nomes desse livro mágico que só me traz problemas. Se é mágico, por que eu tenho que checá-lo todos os dias?!

— Sempre a mesma desculpa! — gritou o velhinho se sentando na cadeira e abrindo o livro — Porque é seu trabalho e nunca, em mais de milênios, tive uma secretária tão teimosa e desastrada como você. É seu serviço e ...

— Bla bla bla — caçoou Juliet enquanto preparava uma xícara de chocolate quente com alguns biscoitos para o suposto “bom velhinho” — Aqui, com bastante açúcar.

— Obrigado. Como eu dizia... — Continuou um sermão quilométrico que não foi ouvido em momento algum por Juliet, que, ocupada, entregou ao Noel sua capa vermelha e suas botas pretas. Logo depois se sentou e resolveu checar seus e-mails, que, como sempre, estavam lotados de problemas.

— O senhor tem uma reunião em dez minutos... Dá pra tirar esse pijama listrado? Deixei a sua roupa no lugar de sempre: dentro do armário. E mesmo assim, todos os dias, você não a coloca e eu sou obrigada a vê-lo de pijama. Sabe como isso é traumático? — Se levanta — Rápido! Vá se trocar, depois termina de comer! Tenho pressa!

— Estou tomando meu café da manhã, depois de horas sem comer nada, por que alguém se atrasou! — falou o velho com uns 3 biscoitos da boca, deixando cair farelo em sua roupa.

— Você poderia preparar o seu café sozinho, não tem mais 150 anos, sabia? E está deixando o farelo cair na capa, droga! — Repreendeu, limpando rapidamente a capa e forçando Papai Noel a largar os biscoitos.

Depois de longos sete minutos, os dois foram para a sala de reuniões onde se encontraram com o duende do departamento de brinquedos Noel.

***

— Senhor Noel, não acho que seja apropriado o senhor comer enquanto estamos em uma reunião — alertou o Duende, notando que Papai Noel se sentava na cadeira vermelha e centralizada da mesa redonda com um prato cheio de biscoitos e um copo de leite.

Sentei-me ao lado dele e fiquei observando o duende se sentar também, lançando um olhar de desaprovação para Noel, que parecia não se importar. O Duende tinha a aparência de uns 45 anos, o que era incomum. Nós elfos e duendes nos mantemos jovens durante milhões de anos, eu mesma, já com meus 3 mil e quinhentos anos, não passava dos 16 na aparência humana. Nunca confiei naquele duende, ele tinha um olhar ambicioso, um sorriso estranho, sem falar que ele era todo problemático! Só me dava trabalho, o tempo todo marcando reuniões para discutir sobre assuntos banais, e por ser quem cuidava da parte financeira da fábrica, — juntamente a mim, que trabalho em todas as áreas, que fique bem claro — não podia simplesmente dizer um “não vamos” para ele.

— Bom, por que me chamou aqui? — Engoliu o último biscoito.

— Espero que seja por um bom motivo, senhor Gurli. Eu tenho muito trabalho e milhões de e-mails para responder — comentei.

— Claro que tem, minha jovem... Pensei em cortar metade do orçamento dos elfos que trabalham na parte da fabricação da madeira, aço, ferro e entre outras funções relacionadas à matéria prima. — Jogou um documento para Nicolau assinar, que o segurou tentando ler. Remexi minha bolsa e retirei de lá uma caixa de óculos.

— Como quer que eu leia com essas letrinhas minúsculas? Está tudo embaçado! Tem certeza que fez uma cópia decente? Está tudo borrado! — reclamou Papai Noel aos gritos.

— Senhor Nicolau, como pretende ler sem óculos? Sua visão é horrível, pense um pouco, por favor. — Entreguei a ele os óculos de leitura.

— Por que não me entregou antes?! — reclamou o mal-agradecido que colocou os óculos e começou a ler.

Enganam-se as pessoas que pensam que o “bom velhinho” é gentil, ele só sabe mandar e xingar. Acho que ele só é bom com crianças e animais, por que com todos os outros ele só sabe gritar; exceto com a Senhora Noel, que sempre o coloca na linha. Que saudades dela... Por que tinha que ir pra suíça ajudar aquele coelho?! Pra que? O NATAL DEPENDE MUITO MAIS DELA! Dez vezes mais!

— Senhor, você não pode cortar orçamento da matéria prima — Afirmei.

— Por que você diz isso? Exponha suas ideias, Juliet — pediu-me.

— Primeiro, porque sem a matéria prima não teremos recursos para fazer os brinquedos, e segundo, porque ele só quer cortar orçamento da matéria prima feita pelos elfos, sendo que a metade dos duendes continuará intacta. Ele só está protegendo o povo dele e não respeitando a lei número 5, que se trata de igualdade para todos os povos da fábrica, seja elfo, duende, fada, rena ou qualquer outra espécie. Devemos nos respeitar igualmente — Encarei o duende que me olhava com raiva.

Elfos e duendes brigaram há um certo tempo atrás pelas terras da fabrica; nós elfos conseguimos a melhor parte para morar e eles foram para a periferia. Claro que papai Noel deu um jeito depois de alguns anos e aquela vila deles ficou mais arrumada e bonita, mas, mesmo assim, os duendes nunca aceitaram isso. Desde então a raça baixinha passou a nutrir certo ódio pelos elfos. Digo que são baixinhos por que muitos deles não passam de 1,45. É uma raridade existir algum deles com mais de 1,65 de altura.

— E você só defende a sua raça! — Exclamou o duende nervoso.

— Não, senhor. Estou sendo justa com ambas as partes. Nenhum dos dois deve ter o orçamento diminuído, já que isso não nos atrapalha em nada, o que faz da sua reunião uma perda de tempo precioso, meu e de Papai Noel. — cuspi aquelas palavras na cara dele, sem me importar com nada. Levantei da cadeira e encarei Noel.

— Ela está certa, Gurli. O orçamento nunca nos atrapalhou em nada, e se cortar uma parte, cortarei igualmente a outra. — Bom, pelo menos era justo, o que me fazia suportar o fato dele ser ranzinza. Noel se levantou e jogou os óculos nas minhas mãos, eu os guardei dentro da minha bolsa, recolhi as pastas e os restos de comida deixados por ele, joguei fora as migalhas dos biscoitos e aproveitei para rasgar o documento e jogá-lo na mesma lata de lixo. — Não me chame mais para assuntos inúteis.

— Por que não tem um duende assistente? — Indagou Gurli.

— Se esforce e tente assumir meu lugar! — gritei de volta e logo me recompus — Estou aqui por merecer, senhor Gurli. Passe bem. — Saímos os dois da sala e senti que ele me observava com raiva.

***

— Onde vai? Tem muito trabalho aqui — Noel advertiu sem tirar os olhos de um papel vermelho.

— Vou trabalhar. Tem vida fora daqui, sabia? Tenho que ir checar uns setores. Com licença — Fechei a porta atrás de mim e segui direto para o setor dos elfos.

Chegando lá, me aproximei do gerente.

— Davi — chamei, fingindo ter esquecido o convite dele.

— Juliet! — Ele sorriu. Tenho que admitir era um sorriso perfeito, e ele era muito bonito mesmo, mas não tinha tempo para isso no momento — O que te traz aqui?

— Trabalho, como sempre — Entreguei a ele uma pasta vermelha.

— O que é isso? — perguntou, segurando a pasta e a abrindo.

— O relatório que você deve preencher e me entregar em uma semana. Quero saber como anda o setor aqui — expliquei, afinal, eu tinha que protegê-los de alguma forma — Ei, você viu Violet?

— Não. Faz mais de uma semana que ela não aparece por aqui — disse Davi com um semblante preocupado.

Como?! Eu a via todos os dias!

— Tem certeza disso? — perguntei.

— Absoluta. Ela entra na fábrica e some. Faz tempo já, está até com risco de ser demitida —completou a frase com delicadeza notando meu estado. Como esse tipo de coisa nunca chega aos meus ouvidos?

— Bom, vou tentar dar um jeito nisso... Por enquanto foque no relatório — murmurei

— Ei, você anda trabalhando muito, vá com calma — disse preocupado, com aquela face de anjo.

— P-pode deixar, não se preocupe, sou forte — gaguejei um pouco. Ele me deixa sem graça, mas não podia me envolver em relacionamento nenhum. Tinha muito com o que lidar agora.

Sai de lá as presas, ainda tinha que passar no setor de criação.

Entrei no elevador e desci, parei no setor 5 e fui andando por um corredor com milhões de papéis, pedaços de maquetes, pontas de lápis quebradas, lapiseiras esquecidas no chão, restos de borrachas e um ou outro duende correndo com pilhas de papéis nas mãos. Aquele lugar era o mais bagunçado, nem quem fabricava os brinquedos fazia aquela bagunça. Cruzei com Gurli, que me encarou com raiva e curiosidade — característica de duendes e elfos: éramos muitos curiosos.

— O que faz a elfa das alturas, no buraco dos criadores? — perguntou Gurli.

— Aqui está um inferno — Sibilei. Ri internamente com a cara de espanto daquele duende velho.

Varri o ambiente com os olhos, encontrando, para meu espanto, Violet, que estava um pouco mais baixa que o habitual, só com duas simples sandálias, e as orelhas... Onde estavam as orelhas pontudas dela?! Nossas orelhas! Todos os elfos tem! Por que as dela... estavam escondidas no cabelo? Por que eu não conseguia vê-las?

Violet saiu correndo quando percebeu que eu me aproximava. Ela entrou em um corredor, fazendo-me perdê-la de vista. Procurei o quanto pude, mas ela havia sumido.

— Mas o quê? — me perguntei em voz alta.

Gurli apareceu atrás de mim.

— O que foi, garota? Por que saiu correndo como louca? — Fingi não tê-lo ouvido, estava muito ocupada com meus próprios pensamentos — Ei, garota! — insistiu

— O que foi? Estou ocupada!

— Você assustou a coitadinha da minha estagiária! — Ai sim ele me estressou. Estagiária uma ova, não tem como uma elfa trabalhar para um duende — Ah, entendi. Notou como ela se parece com sua amiga? São primas distantes.

Sai de lá sem falar uma palavra e me dirigi até a sala principal. Como era bagunçado aquele lugar, cheio de mesas, com muitos duendes trabalhando sem nem notar minha presença. Estavam mesmo focados e cheios projetos. Entrei com duas pastas pesadas nos braços, subi algumas escadas até chegar na mesa principal, onde o duende Giovanni trabalhava. Ele era lindo, e olha que duendes não são bonitos, sempre tão baixinhos e fora de forma. Aquele não, ele tinha porte e era um dos mais altos, um sorriso bonito, olhos verdes claros e pele morena. Ele era o chefe daquela divisão, usava óculos pretos que entravam em contraste com os cabelos prateados, era normal, cores como essas nos cabelos e olhos. Apesar de ser o chefe, não aparentava mais de 20 anos humanos, quando na verdade tinha mais de cinco mil. Ele estava tão imerso no trabalho que não me notou.

— Com licença, senhor Giovanni. — chamei.

Ele sorriu gentilmente. Se não estivesse apaixonada por Davi, iria com certeza me apaixonar por ele. Amo pessoas com sorrisos gentis e bonitos. Simplesmente me encantam.

— Ah, olá, senhorita Juliet. Como tem passado? Esta ai há muito tempo? Estou com tanto trabalho que nem te notei. Perdoe minha indelicadeza — disse ele ainda sentado.

— Bom, vim lhe trazer alguns pedidos das crianças. Eles começaram a chegar, sabe? — Entreguei a ele as duas pastas enormes — E lhe dizer que quero um relatório completo sobre a divisão toda. O que estão fazendo, funcionários que estão faltando e todo o resto, inclusive uma tal nova estagiária. Sabe de algo sobre ela, senhor? — perguntei, precisava checar isso.

— Não temos estagiaria nova aqui há anos. A senhorita tem certeza de que é nesse setor? — perguntou-me espantado. Aquele Gurli...

***

Já estava indo em direção a sala de Papai Noel quando esbarrei com Violet.

— Violet! — Me surpreendi, sentindo algo como uma intuição feminina.

— Ju! — Ela sorriu e se aproximou de mim. — O que foi? Você parece diferente.

— Você não deveria estar trabalhando? — rebati, algo me assustava nela.

— Estou. Davi me pediu pra vir. — Pega no flagra, ela não aparecia no trabalho há mais de uma semana. Por que mentia pra mim? — Passei a manhã toda lá, sai só agora. — Mais uma mentira, eu fui lá e não a vi, e Davi era incapaz de mentir pra mim.

— E veio direto pra cá? — perguntei.

— Sim. Tinha essa papelada pra entregar — falou, fazendo menção para a pasta na mão.

— Entendo, o que é isso?

— Nada de mais, alguns relatórios — Outra mentira. Davi não teria acabado o relatório em menos de 10 minutos.

— Minha prima entrou para o setor dos duendes, sabia? Ela é mestiça, filha de elfa e duende. — comentou do nada — Apesar disso se dá melhor com os duendes, como pode? Vai ver que é por que nasceu mais com as características daquele povo — Riu, ela chegou bem aonde eu queria chegar.

— Pensei que sua família não ficasse com você.

— Não ficam, ela veio do setor sul, do outroooo lado. — explicou, enfatizando os “o's” para mostrar a distância.

— De um oi por mim a ela. Tenho que ir agora, tchau — Saí de lá correndo e entrei branca na sala de Noel, que notou meu embaraço.

— O que aconteceu? Você está sem cor — preocupou-se

— Acho que... Problemas... Muitos... — Falei, deixando-me deslizar para o chão.

***

Era final do dia, deixei as sapatilhas emprestadas no armário de Violet e, sem vê-la, sai de lá correndo. Encontrei com Davi na volta para casa, que notou que eu estava descalça.

— O que aconteceu com suas sapatilhas? — indagou.

— Não eram minhas, eram da Violet, tive que devolvê-las — falei um pouco perdida nas minhas próprias palavras.

— O que aconteceu? — Davi perguntou firme para mim

— Eu... — Não podia dividir aquelas dúvidas com mais ninguém, mas já estava me sentindo sufocada. Se a linha de pensamento que estava seguindo fosse correta, minha melhor amiga estava me enganando e eu nem sabia o motivo. Expliquei palavra por palavra para ele, que ficou tão pasmo quanto eu. Tomou um tempo para pensar e começou a falar:

— Você acha que ela é uma duende? — Pronto, ele falou o que eu não queria ouvir.

— É-é possível. Só não entendo por que ela se finge de elfa...

— Ou porque inventar essa história toda... — murmurou — Duendes são perigosos, nunca se sabe o que pensam. Se ela for uma duende, deve haver uma razão para isso tudo.

— Ela costumava trocar de sandália no trabalho?

— Nunca, sempre com saltos altíssimos. Agora que você mencionou... Se ela tivesse a altura de uma elfa comum, no mínimo ficaria da minha altura, mas ela era bem mais baixa que eu, mais baixa que você, mesmo usando saltos... — Aquilo era verdade, nunca tinha notado isso.

— Altura perfeita para uma duende, e orelhas falsas... — Não era difícil comprar orelhas falsas, os humanos viviam fazendo isso para seus filmes de ficção científica.

Caminhamos juntos até minha casa e agradeci a ele em frente a porta.

— Tem certeza que não quer entrar? — Perguntei um pouco envergonhada, ele me ouviu até tarde.

— Absoluta, está tarde, tenho muito trabalho amanhã cedo.

— Obrigada por cuidar de mim hoje. Foi mesmo um grande amigo — Opa, falei a palavra proibida.

— Bom, eu quero ser mais que um amigo... Quem sabe daqui para frente — Comentou com as bochechas rosadas, me fazendo corar também. Ficamos calados durante um tempo até que, me encarando sério, ele pergunta:

— Não tenho mesmo nenhuma chance? — Fiquei muda e o embaraço foi total, mas ele continuava ali, sério, esperando uma resposta. Dentro de mim, queria gritar aos quatro cantos do mundo “claro que tem! Muitas chances! Sou sua!” Mas como eu diria isso? Como administraria o amor e o trabalho? Seria impossível — Tenho ou não uma chance Juliet?! Não fique muda, assim acaba comigo. Se não tenho chances fala logo que eu desisto.

— Você... Você tem chances — Falei baixinho quase incompreensível, mas ele ouviu, ouviu bem e sorriu lindamente — Mas eu tenho muito o que fazer... Então...

— Promete pensar em nós dois? — Perguntou ele tentando conter o sorriso que ia de orelha a orelha.

— Uhum — concordei no calor do momento. Agora eu teria mesmo que pensar no assunto.

— Ótimo, finalmente consegui arrancar pelo menos isso de você! — Se virou para ir embora mas antes que pudesse se afastar, voltou, fitando-me com aqueles olhos azuis.

— O que fo... — Não consegui terminar a frase. Fui puxada pelo pulso e recebi um longo beijo apaixonado de tirar o fôlego, com o qual Davi nem precisou de muito esforço para me fazer retribuir.

— Só uma prova de que esta noite realmente existiu. — disse ele com as bochechas rosadas, se afastando de mim e me deixando totalmente corada. Naquela noite iria dormir bem até de mais, sonhando com o gosto dos lábios dele... Tão doces.

***

Acordei bem cedo, às seis da manhã, não queria correr o risco de encontrar com Violet no caminho. Certifiquei-me de colocar os sapatos e tropecei em uma pedra do lado de fora da minha casa indo direto com o rosto no asfalto, mas isso era normal, afinal, eu era bem desastrada. Sem tempo para perder, corri para o bonde. No caminho, meus pensamentos estavam cheios, mas não podia descuidar do trabalho e me focava em pensar nas listas dos garotos maus, os quais, logo, logo bicho-papão apareceria para dar um sustinho, e me lembrando também de que tinha que avisar para os anjos da guarda deles o que estava para acontecer. Mas mesmo me focando nisso, me lembrava mais e mais daquele beijo e pensava, por que não estar com Davi…? Seria ótimo...

Chegando na fábrica corri para sala de Noel, cruzando com Davi pelo caminho, que vinha me cumprimentar. Ele estava envergonhado, provavelmente se perguntando se o que tinha feito não havia sido ousado de mais. Claro que foi ousado, mas vamos concordar que certas ousadias são muito boas.

— Oi, Davi. — Me forcei a ser o mais natural possível.

— Chegou cedo, que milagre. — Ele sorriu.

— Não gostei da piada! — me fingi de ofendida, quando na verdade estava adorando conversar com ele logo cedinho.

— Ok — Ele riu, fazendo-me rir junto graças aquela risada fofa que era irresistível de não acompanhar. Ele notou algo em meu rosto e passou os dedos sobre ele, me fazendo ruborizar — Está arranhado e sangrando um pouco. Você caiu de novo? — perguntou preocupado, limpando um pouco do corte. Realmente eu tinha me machucado, mas nem tinha notado que estava sangrando.

— É, normal já. Só um pequeno corte — Comentei sem graça enquanto a administração fingia não perceber o que estava acontecendo entre nós, mesmo assim, notamos os olhos curiosos, claro, afinal, elfos e duendes são muito curiosos — Bom, eu tenho que ir trabalhar — disfarcei.

— Eu também. Coloque um curativo para não inflamar — Cada um saiu por um lado, sendo seguidos por aqueles olhos curiosos e intrometidos.

Entrei na sala de Noel, que tomou um susto ao me ver. Mandei-o trocar de roupa.

***

Os dias foram passando; eu recebia relatórios, não recebia nenhuma notícia de Violet, trabalhava, percebia que senhor Gurli estava quieto demais, respondia e-mails, não recebia sinais de vida de Mamãe Noel e trabalhava mais um pouco.

***

O que diabos estava acontecendo naquela fábrica?! Já estávamos no dia 23, quase véspera do Natal, e estava uma correria só, ninguém parava quieto. Não que a parte da correria fosse estranha, já estavam todos acostumados com isso, o estranho foi checar todos os setores, todos os relatórios, um por um, e não encontrar Violet, nem Gurli, nem mamãe Noel em nenhum deles.

Todos os presentes tinham sido checados e estavam sendo colocados no trenó do Papai Noel. O trajeto que ele percorreria já estava traçado. O sistema funcionava assim: colocávamos todos os brinquedos que tínhamos preparado lá no trenó, assim que Noel entregasse todos, ele pararia no armazém de outro continente, onde mais presentes estarão esperando por ele e seguiria dessa forma pelo mundo inteiro. Assim que desse cinco da manhã do dia 24 ele sairia para entregar, afinal o fuso horário atrapalhava bastante, como sempre... Meia-noite em um país e meio-dia em outro, mas tínhamos tudo cronometrado, o sino de atravessar divisões já estava na roupa de papai Noel, e as renas sabiam certinho que caminho seguir. Iriam no trenó eu, Davi, Gurli, Giovanni, Mamãe Noel e outros cinco elfos da divisão de entrega. Estava tudo pronto, só Mamãe Noel e Gurli não davam resposta. Enviei uma mensagem para o escritório de Gurli, intimando-o a ir no dia 24 às quatro e meia da manhã para frente do trenó, porque ele sempre chegava atrasado nesse dia. Mandei outro e-mail para mamãe Noel aparecer por lá, e enviei mais um e-mail, só por garantia, para o coelho da páscoa, para que lembrasse Mamãe Noel de voltar para fábrica.

Na frente da fábrica estava Davi, quieto como se esperasse alguém, me aproximei dele e ele sorriu gentilmente.

— Esperando alguém? — perguntei curiosa.

— Você — respondeu um pouco tímido.

— Eu? — Sorri — Vamos comigo para minha casa então?

— Claro — Andamos até o bonde e conversamos animadamente sobre tudo e todos.

Chegamos na minha casa e o forcei a entrar, remexi minha geladeira e trouxe biscoitos, refrigerantes e leite para nós dois. Na minha mente, agradecia por ter arrumado ontem a noite toda a bagunça do meu apartamento.

— Você só come besteiras? — perguntou, surpreso com o lanche que trouxe para ele.

— Não. É que não pude fazer o jantar hoje — expliquei, me sentando na frente dele e ligando a televisão.

— Que pena, queria provar sua comida caseira — Comeu alguns biscoitos — Descobriu alguma coisa de Violet?

— Não a encontrei em lugar algum depois daquilo — Falei preocupada. Já tinha me acostumado com a ideia de ter sido totalmente enganada por minha melhor amiga.

— Entendo, sinto muito... — Tentou me confortar.

— Nem acredito que depois de amanhã estaremos com duas semanas de férias. — comentei feliz, tentando aliviar o clima.

— Nem eu. Será ótimo. Estou quase pirando com tanto trabalho — Sorriu

— Acho que vou pedir férias durante 1 ano. Não aguento mais tanta pressão. Quero um tempo pra mim. — disse o que já estava pensando há alguns anos. Davi se surpreendeu, mais sorriu — Necessito de um tempo para cuidar de mim e ser feliz. Pra falar a verdade, iria pedir isso no começo do ano, mas Mamãe Noel não esteve na fábrica então pensei que não poderia deixar aquele velho sozinho e perdido sem mim.

— Vai ser bom, um tempo pra você. Vai viver normalmente então? — Perguntou-me se aproximando um pouco mais de mim.

— Uhum... — murmurei

— E vai ter tempo... Para nós? — Estava sério.

— Eu pensei bem. Davi, eu estou... Estou... Loucamente apaixonada, e acho que não sei mais viver sem você. — confessei vermelha, quase explodindo — Se você puder aguentar uma pessoa egoísta como eu e... — Senti Davi me puxando para um longo abraço.

— Sabe por quanto tempo esperei por isso? — Mantive-me muda, Davi me afastou lentamente de seu corpo para poder me encarar, inclinou a cabeça na minha direção, até que então tive seus lábios sedentos nos meus. Ficamos um bom tempo assim.

***

No outro dia acordei com Davi ao meu lado na cama, me lembrando da noite passada. Levantei e me troquei, preparei o café e sentei do lado de Davi que estava embrulhado no cobertor, lá era tão frio que ele estava até arrepiado, fiquei observando suas feições até que ele abriu os olhos e sorriu envergonhado pra mim.

— Isso é um sonho ou tudo aconteceu mesmo?

— Não é sonho, e o café está pronto. Se você não se levantar vamos nos atrasar.

***

Assim que chegamos na fábrica, tomamos um susto: tudo, TUDO estava vazio, Os presentes não estavam lá e Papai Noel não estava lá. Somente Gurli, Giovanni e os elfos que iriam nos acompanhar.

— Cadê, cadê todo mundo? Cadê os presentes? — gritei desesperada.

— Papai Noel sumiu! Os presentes de todos os armazéns também. As autoridades daqui a pouco chegam — contou Giovanni, visivelmente desesperado. Gurli permanecia quieto, com ar de travesso.

Subi mais de cinco lances de escada correndo, não dava tempo de esperar pelo elevador. Entrei na sala de Noel e abri meus e-mails, todos vieram correndo atrás de mim.

Um e-mail do coelhinho da páscoa me assustou ainda mais:

Querida Juliet,

Mamãe Noel nunca esteve comigo, espero que tenha se enganado. Qualquer coisa, por favor me avise.

Coelho.”

Levantei meio tonta e zonza, se não fosse por Davi, que me segurou, teria caído. Coloquei as mãos na testa e pensei no que fazer.

— Juliet, calma... — falou Davi me segurando firme.

— O que vamos fazer?! A chefe na ausência dos senhores Noel é você, Juliet — disse Giovanni esperando uma resposta minha.

— Quando foi a última vez que viram mamãe Noel? — perguntei.

— Não temos tempo para isso, esperaremos as autoridades — falou Gurli calmo.

— Calado! — gritei histérica — Só me respondam.

— Na última vez que a vi, ela estava conversando com uma elfa muito bonita de saltos altos e roupa elegante — informou Giovanni. Podia ser qualquer uma, mas na minha mente veio Violet.

— E papai Noel? — perguntei, ainda pensando.

— Ontem na mansão, andando pelo jardim — disse um elfo. — Passo por lá para ir para casa.

Pensei durante alguns minutos, calada, enquanto Gurli me observava com o olhar frio, Davi vasculhava a sala e Giovanni permanecia imóvel, como se esperasse ouvir que o Natal tinha acabado.

— Bom, se não consegue resolver a situação, Juliet, deveria passar toda a sua autoridade para o senhor Giovanni ou para mim — comentou Gurli, olhei para ele de boca aberta. Como aquele cara dizia algo assim? A responsabilidade sobre fábrica era minha!

— Como?! Eu não acredito nisso! Seu asqueroso, como se atreve a pensar em algo assim?! — gritei

— Você é muito inexperiente! Não pode comandar o Natal, nem a fábrica. Com Papai Noel e Mamãe Noel desaparecidos, não sabemos por quanto tempo, o melhor é que deixe a fábrica na mão de quem está acostumado a cuidar dela — sorriu. Suas feições eram iguais às de uma cobra traiçoeira.

— Calado! Vou deixar algo bem claro aqui e agora — Encarei os duendes ali, inclusive Giovanni — Na ausência daqueles dois, quem manda aqui sou eu! Quem dá a última palavra sou eu! Quem vai comandar o Natal sou eu! E não se fala mais nisso! — Me acalmei durante alguns instantes — Escutem bem, vamos entregar os presentes. Senhor Giovanni, prepare as renas.

— Certo — Ele saiu as pressas de lá.

— Vocês cinco! — chamei os elfos que me encaravam — Dois de vocês irão à sala número 68, no subsolo. Escutem bem, lá tem um telefone, vocês ligarão para o único contato que há na agenda ao lado dele, dirão "alerta vermelho" e desligarão o telefone. Vai sair um papel codificado do telefone, tragam-no para mim — Dois deles saíram correndo de lá o resto se aproximou de mim esperando ordens — Terão uma tarefa importante. Quero que fiquem aqui na minha mesa e atendam o telefone, caso dos sequestradores tentarem entrar em contato — De prontidão, sentaram-se na minha mesa.

— Senhor Gurli, vá a agora e entre em contato com todos os nossos setores de fornecimento de presentes — Sentei na mesa de Papai Noel, onde Davi vasculhava cuidadosamente cada papel.

— Ligue para as autoridades mundiais, acione todos! Papai Noel deve ser encontrado em, no máximo, duas horas! — Davi pegou o telefone e começou a telefonar e explicar o ocorrido. Sentei-me no chão e pensei, e pensei... Violet estava envolvida... E Gurli também... Não sabia como, mas tinha certeza — Vou me trocar, Davi. E depois é você.

— Eu? Por quê? Já estou com a roupa de entregar presentes e ...

— Não. Você vai se vestir de Papai Noel e colocará uma barriga falsa. Eu vou me vestir de Mamãe Noel, por sorte o meu físico é igual ao dela.

***

Já estava com a roupa de Mamãe Noel, que, apesar de muito velha, tinha o corpo em forma como o meu. Acreditem, ela não aparentava mais de 25 anos. No pátio estavam as renas bufando, elas nunca obedeceriam ninguém além deles... Isso daria trabalho.

Os elfos que enviei para a sala 68 já tinha voltado, e com o papel em mãos. Peguei o papel, desembrulhei e li. Tinha o desenho de uma borboleta azul e vermelha. Era um código, que significava "Entendemos, o auxilio está chegando. Salvaremos o Natal, explique o que aconteceu quando chegarmos". Senti-me aliviada.

— Há quanto tempo chegou essa mensagem? — indaguei ansiosa.

— Um minuto — informou o elfo, cansado de ter corrido com tanta pressa. Chequei o relógio, em três minutos eles estariam aqui.

— Senhor Gurli, checou todos os pontos de presentes? — perguntei.

— Sim, todos eles estão com os presentes desaparecidos. — Ai Meu deus... Agora sim eu dependia deles, mesmo não querendo.

Fiquei olhando para o céu até avistar grandes aviões, de lá, muitas pessoas pularam. Em uma questão de segundos estavam no chão, abrindo um saco gigante. Uma mulher com óculos de sol e saia curta preta se aproximou de mim.

— Como vai, Juliet? — ela perguntou, retirando os óculos e mostrando seus olhos negros.

— Nada bem. Não está com frio nessa roupa?

— Estou acostumada. Chequei com as autoridades: os dois desapareceram. Acredita que foi um sequestro?

— Exatamente. Só pode ser isso! — confirmei — Trouxe os presentes?

— Claro que sim, por sorte você nos enviou as listas dos pedidos de presentes durante o ano. Ainda bem que guardamos os presentes que sobraram de todos os Natais passados! Não se preocupe, temos equipes que estão carregando os outros armazéns — Sorriu vitoriosa.

Os presentes começaram a cair do avião direto no saco, qualquer um acharia estranho como os presentes não quebraram ou amassaram. Acontece que, no meu mundo, tudo é mágico. — Bom, agora a tarefa mais difícil será sua. Boa sorte.

Suspirei e caminhei até as renas, aproximando-me de Rodolfo, a Rena de nariz vermelho. Ele era gentil, apesar de ser o chefe das renas, mas também muito duro quando se tratava do Natal.

— Por favor, se ainda querem salvar o Natal, me levem para entregar os presentes. Por favor Rodolfo! — quase chorei enquanto implorava para as renas, elas nunca iriam sem papai Noel, nunca obedeceriam outras pessoas. Olharam pensativas para o chefe das renas.

— Qual o destino? — perguntou, compreendendo meu desespero. Segurei com força as lágrimas, e respondi quase gritando:

— A mesma rota! — Sentei-me no trenó e segurei as rédeas. Os presentes foram colocados no trenó e Davi, Giovanni e os elfos ajudantes subiram também. Gurli se sentou longe de mim com a cara emburrada. Tive uma crise de risos quando vi Davi vestido de Papai Noel, com uma barriga falsa, barba e cabelos grisalhos.

As renas começaram a voar tão rápido que não tive noção de tempo e espaço. Por sorte conseguimos entregar todos os presentes, mas ainda me restava uma dúvida: Onde estaria Papai Noel?

***

Janeiro, dia 14

Dava uma volta pela fábrica, agora já mais habituada com o meu cargo.

— Senhorita Juliet! — gritou — Ligaram! E querem falar com a senhorita!

— Quem me ligou? — perguntei interessada.

— Os sequestradores! — Aquela palavra fez meus neurônios saltarem e me vi correndo desesperadamente, chegando na minha sala já sem cor nenhuma, encontrando Davi no telefone.

— Me dê o telefone! — Não esperei que me entregasse, simplesmente o arranquei das mãos dele e atendi — Alô? Aqui quem fala é Juliet. O que raios você fez com eles?

— Quem dita as regras sou eu! — repreendeu uma voz feminina — Escute, querida, quero que vá até a fábrica abandonada na parte sul, às três horas — Procurei uma caneta e peguei um papel qualquer, onde anotei o que ela me dizia — Lá você irá me esperar. E venha sozinha, não avise a polícia. Irei pessoalmente lhe dizer o que fazer e não tente gracinhas, tenho espiões na fábrica que me dirão o que você faz — Ela desligou o telefone, sem nem ao menos me deixar responder nada.

Violet. Me joguei no chão. O que ela quis dizer com espiões? Gurli, claro isso era óbvio. Giovanni? Era possível. Quem mais? Além deles e de mim, com quem ela convivia na fábrica...? Com quem passava a maioria do tempo...? Davi! Ele era chefe dela... Mas desconfiar da pessoa que amo, e única pessoa que posso contar era tão triste...

— O que ela disse? — perguntou Davi, preocupado. Não queria desconfiar dele, mas, no momento, só confiava em mim mesma.

— Marcou um encontro, não se preocupe, lidarei com isso — Levantei-me as pressas, ela disse espiões na fábrica, não fora dela. Precisava telefonar para uma certa amiga minha.

Saí da fábrica sem que ninguém ao menos desse minha falta, parei em frente a uma loja de celulares e comprei um. Disquei o número e uma mulher atendeu:

— Alô — murmurou com voz de sono.

— Escute, sou eu, Juliet. Não posso explicar. Apareça na fábrica abandonada, na parte sul, às três horas. E não deixe que vejam você ou sua equipe. Ah, leve um gravador, será necessário. Não perca meu rastro. Desculpe, não posso explicar mais — Ouvi do outro lado da linha o barulho de uma caneta.

— Okay. Entendido, farei o que me pediu, descarte esse telefone. — Ótimo, ela me entendeu.

***

Estava na fábrica abandonada, exatamente às três horas, na frente do portão principal. Chequei o relógio e me senti aliviada por não estar nem um minuto sequer atrasada. Procurei ao redor e nada, nem ninguém. Estava tudo deserto. Nem a sequestradora, nem a equipe que deveria estar me protegendo.

De repente o portão se abriu e de lá saiu Violet, que estava sem os saltos, com sandálias baixas e sem as orelhas pontudas, elas estavam redondinhas e pequenas, como as dos duendes. Ela seria uma perfeita duende se não fosse pelo rosto.

— Violet — me espantei com a aparência dela.

— Ora, assustada? Aposto que não sabia que era eu — Riu como se ainda fossemos boas amigas.

— Não me assustei com isso. Assustei-me com a sua aparência. Está tão mínima. Sou bem mais alta que você agora, posso te olhar de cima — ironizei, deixando-a vermelha de raiva. — Mas isso sim é raro, ver uma duende bonitinha. O único duende bonito que vi até hoje foi Giovanni.

— Sou mestiça, mas vamos entrar.

— Como assim mestiça? — tentei ganhar tempo, se tivessem trago o gravador como pedi, gravariam aquela conversa toda e essa seria a maior prova de todas.

— Ah, você ainda não notou? Sou filha de Gurli e de uma elfa — explicou.

— Como assim?! Filha do Gurli! N-Não é possível... — Quase cai para trás com aquela revelação.

— Agora sim te surpreendi! — soltou um risinho de felicidade — Escute, vou te contar tudo, querida. Gurli, quero dizer, meu pai, se apaixonou por uma elfa que estava no seu cargo há milhões de anos atrás. Nesse tempo, os elfos e duendes ainda se davam bem e eu nasci, como fruto da união deles. Acontece, querida, que a guerra veio e nos separamos, nossa família foi destruída. Minha mãe, em vez de ficar ao lado do meu pai, me levou junto com ela, para morarmos com meus tios elfos. Fui muito mal tratada, Afinal, apesar de ser meio-elfa, também sou meio-duende. Tenho as características do povo de meu pai, a única coisa que tenho da minha mãe é o meu rosto. Com a guerra em explosão, perseguiram e mataram minha mãe, a única que realmente me amava como eu era naquele lugar onde todos eram hostis comigo. Eu a vi morrer... E ela não foi morta por duendes... FOI POR ELFOS! — gritou furiosa, e eu cai no gelo.

— Por que elfos? — interrompi.

— Por quê, querida? Não é razão o suficiente uma elfa ter sido casada durante anos com um duende, e ainda por cima trazer sua filha mestiça para morar perto dos elfos, quando na verdade a criança tem as características de um duende? E o medo de que ela passasse as informações preciosas para os duendes? Mataram-na! E se minha mãe não tivesse me escondido e deixado um bilhete com o endereço de meu pai, eu teria morrido também. Só tinha sete anos. Não sabe como foi horrível ver aquela cena. Minha amada mãe... Morta pela própria gente... — desabafou

Lágrimas rolaram no meu rosto, minha melhor amiga tinha passado por tudo aquilo e eu nem sabia, não sabia o quanto ela tinha sofrido, o quão difícil deve ter sido se passar por elfa durante todos esses anos e ainda por cima conviver com o povo que ela tanto odiava.

— Ora, por que está chorando, querida?! Não vê, Ju, que não temos tempo para pena? Não cheguei ao grand finale! — Sorriu — Peguei todo o ódio que sentia e bolei um plano com papai. Decidimos nos tornar o braço direito de Papai Noel, me apresentei como duende, depois de já adulta, mas você? Você estava lá! Você me venceu! E, mais uma vez, a fábrica estava nas mãos dos elfos! Queria morrer de ódio! Queria matá-la! Mas, fui mais esperta, usei a cabeça e me tornei sua melhor amiga. Foi divertido, não? As festas de pijama, os filmes, e o todo o resto... Você se divertiu comigo, certo? Bom, eu me diverti — Não esperou minha resposta — Mas, ainda sim, tudo fazia parte do plano. Então, depois de um tempo, notamos que Papai Noel sempre daria mais chances aos elfos e, com rapidez, executamos o plano neste Natal. Ah, não sabe o quão tedioso foi esperar tantos anos para poder realizar o plano... Foi cansativo! — Ela se esticou na neve e logo em seguida levantou — O resto do plano explico dentro da fábrica. Entre, Ju. Temos muito ainda do que falar.

***

Fomos em direção ao sótão.

— Quem eram seus espiões? — perguntei curiosa

— Meu pai, e dois duendes insignificantes — disse calmamente. Senti-me aliviada, então Davi não estava envolvido, isso era ótimo.

Parou em frente a uma sala iluminada, onde encontrei Papai Noel e Mamãe Noel amarrados em uma parte da parede. O local tinha muitas janelas, mas como ficava no alto da fábrica e o lugar era abandonado, a possibilidade de serem vistos era nula e pular da janela também, seria morte certa.

— O que pensa que está fazendo com eles? — Corri para ajudar dos dois, retirando as mordaças.

— Você é burra! — gritou Noel — Isso é uma armadilha! Você vai morrer!

— E você queria que eu fizesse o que?! — gritei de volta — Ou eu vinha ou você morria, besta!

— Ah, agora somos nós três. Pelo menos um não está amarrado — comentou Mamãe Noel desesperançosa.

— Senti tanto a sua falta, senhora Noel. Estava aqui o tempo inteiro? — Eu estava preocupadíssima! Coitada.

— Acredita que sim?! Eu estou aqui há meses. Não acredito que vocês pensaram que eu larguei o Natal para ajudar a Páscoa! Eles que se virem! O Natal é dez vezes mais importante — ela nos repreendeu.

— É o seguinte — começou Violet — Esses dois velhos vão assinar este papel, dizendo que concordam em entregar a fábrica, única e exclusivamente, aos duendes.

— E depois o que você fará com a gente? E por que precisa de mim aqui? — perguntei

— Primeiro, preciso que assine aqui, comprovando que concorda em entregar o seu cargo a mim. Em segundo, porque preciso de você na cena do crime. Vou matar todos, colocar suas digitais na arma, depois vou deixar algumas tiras dessa sapatilha aqui na cena do crime — Ela mostrou as sapatilhas que eu tinha usado há muito tempo — Deixarei ela no seu apartamento para as suspeitas caírem sobre você. Sumo com seu corpo, para dizer que você fugiu da fábrica e final feliz pra mim.

— Você vai me matar, Violet?! Matar a mim, que sempre te tratei como uma irmã? — Me espantei. Pensei, sim, que ela faria algo ruim comigo, mas não me matar.

— Claro. Assine o pape. — Ordenou.

— Não — teimei.

— Não tem problema, eu mato você primeiro então! — Riu histericamente, ela parecia louca, como se fosse uma psicopata! Retirou uma arma da cintura e apontou para mim, deixando-me incrédula. Ela realmente me mataria — Está muito calma, não vai suplicar nem chorar?

— Você está presa, Violet — Não demostrei emoção.

— Como?! É uma policial agora? Mesmo se for, já está praticamente morta.

Olhei para as janelas, e fiz um sinal de “positivo” com o polegar.

— Escute, Violet. Essa conversa foi só uma distração. O reforço já chegou, e estão atrás de você — Encarei-a com pena. Ela soltou um grito de terror quando viu que vários lasers vermelhos estavam mirados nela. A mulher morena de óculos e saia curta apareceu por trás dela, colocando as mãos em seu ombro.

— Solte a arma, menina. Está presa — Foi fria. — Violet ameaçou abaixar arma, só que, em uma questão de segundos, levantou a arma e atirou na minha direção. Fui acertada no braço, e ela, rendida, enquanto me contorcia de dor. Violet me lançou um último olhar, pedindo socorro.

— Ju, por favor, me ajude — implorou

Fechei meus olhos e chorei.

***

Recuperada de todas aquelas emoções, interrogamos Gurli, que havia sido pego e preso. Ele nos revelou o paradeiro dos presentes e finalmente voltamos. Foi feita uma grande festa, da qual não me lembro de nada, pois quase dormia em pé. Só lembro que recebi presentes e agradecimentos.

Definitivamente, pediria férias.

Notas finais
Bom pessoal... Fim. Obrigada por lerem, agradeço ainda mais a minha Beta Just Another Shadow, no fim, depois de mais de tres revisões o capitulo foi finalizado e finalmente pronto correto?! Estou extremamente feliz, e a você só tenho a agradecer. Por favor, se pudermos, espero trabalharmos juntas mais e mais vezes! Grand Finale = Fim/clímax. Se puderem, por favor deixem suas opiniões nos comentários. Obrigada. Visitem o perfil da minha beta:
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!