O desafio
4 Capitulo 10 -
– To com fome! — Octavio disse logo após ter colocado os pés no elevador.
– Mas você acabou de comer. — Retruquei e ele fez um tanto faz com os ombros.
O elevador era completamente dourado, percebi que nada por lá era "meio", tudo era inteiro e intenso. O elevador parecia um tanto quanto normal tirando pela cor marcante e pelos botões, aquele elevador só tinha dois botões; um com uma seta que apontava para cima (o qual nos havíamos apertado) e outro com um 'X' envolto de um circulo que ninguém ali entendeu qual a função dele.
– Tem certeza de que é seguro? — Kayla apoiou as mãos na parede firmemente.
– Se quisesse segurança ficasse em casa. — Sebastian revirou os olhos da mesma maneira que eu sempre fazia.
– Assim ela teria menos segurança ainda. — Disse em desaprovação a ele. — Fique calma Kayla, não vai acontecer nada.
– E agora vai dizer "eu prometo"? — Ele bufou.
– Eu prometo! — Elevei o tom de voz mais que o necessário fazendo eu mesma me assustar com o eco enorme que o elevador fez.
Todos ficaram em silencio por um bom tempo, queria saber no que cada um estava pensando mesmo não conseguindo organizar os meus próprios pensamentos. O único que parecia calmo agora era Octavio, ele é só uma criança, esta certo de não se preocupar demais.
– É impressão minha ou esse elevador sobe, sobe e não sai do lugar? — Foi a primeira vez que Jay disse algo desde que entrou no elevador, mas ela estava certa havia algo de errado acontecendo. Nos desencostamos da parede e ficamos atentos e realmente ela tinha razão, o elevador parecia uma daquelas bicicletas da primeira ordem que você pedalava o dia todo e ainda assim não sai do lugar.
– E la vamos nós! — Sebastian riu.
Observando em volta percebi que Dylan não havia dito nada esse tempo todo, ele ainda parecia muito preocupado; eu não conseguia olhar para ele sem que algo na minha mente clareasse, como uma lembrança querendo aparecer, mas nunca aparecia. Parei de encara lo e voltei a pensar no que poderia estar acontecendo.
– Outro teste? — Pensei alto.
– Aaah eu só quero deitar em algum lugar e dormir. — Octavio encolheu os ombros, e realmente todos nos estávamos exaustos, não só fisicamente, psicologicamente também, havia sido um dia longo ate agora e não parecia que iria terminar muito cedo. O elevador deu uma parada brusca, todos sentimos ele tremer.
– De novo não. — Kayla disse desesperada.
– Ótimo! — Sebastian e eu dissemos ao mesmo tempo.
– Acho melhor você parar de...
Antes que Sebastian pudesse terminar sua reclamação sobre a palavra "ótimo" ser sua propriedade, Jay disse:
– Ouviram isso? — Ela arregalou os olhos.
– O que?
– Shhh. — Jay colocou o dedo na boca em sinal de silencio.
Todos ficamos completamente quietos, a única coisa que dava para ouvir era a respiração ofegante de Kayla, me imaginei no lugar dela, não conseguindo respirar, como se a qualquer momento eu pudesse cair dura no chão, comecei a ficar mais preocupada ainda. Me lembrei do modo que meus pais haviam me ensinado: "Sempre se coloque no lugar do outro.", eles diziam.
– Kayla? — Disse sem pensar. — Quanto tempo mais você acha que pode aguentar?
– Não por muito tempo. — Ela estava realmente pálida.
– Droga! Nossas malas... O vaporizador esta lá! — Sebastian bateu na parede do elevador tão forte que pensei que a mão dele tivesse quebrado, mas em vez disso ele amaçou a parede.
Um barulho completamente estranho começou a surgir no teto do elevador.
– Tudo bem, agora eu ouvi. O que foi isso?! — Gritei.
– Não parece nada bom, nada bom mesmo. — Octavio começou a tremer.
O barulho parecia ficar cada vez mais perto, era como vários insetos juntos. Ate que a "voz instrutora" surgiu pelo alto falante.
– Bem vindos a mais um desafio conlitimistas. Dessa vez se um desistir o grupo em si não será prejudicado. Para desistir basta dizer Auribus teneo lupum e em seguida apertar o segundo botão do painel. Fortuna!
Agora nos podíamos "desistir" ? Como se isso fosse possível, todos ali sabiam o que aconteceriam se nos desistíssemos. Nenhum de nos poderia ao menos pensar em desistir, eu não deixaria ninguém dali fazer isso, mesmo que agora fosse individual eu me importo com eles.
– O que significa essa frase? — Sebastian perguntou para quem soubesse responder.
Todos ficaram em silencio, eu era péssima em latim por isso nem ousei tentar pensar no significado, olhei para Dylan que parecia querer dizer algo. Todo esse tempo e ele não disse uma palavra, pensei.
– Traduzido ao pé da letra significa "Segurando um lobo pelas orelhas", essa expressão é usada quando alguma situação é insustentável e particularmente quando fazer nada ou fazer alguma coisa para resolver um problema é igualmente arriscado. — Octavio deu uma aula, ele realmente sabia latim.
– Isso foi incrível Octavio. — Jay sorriu para ele.
– Muito bem comilão. Isso ate poderia ser legal se não fosse tão estranho, segurar um lobo pela orelha? Qual o problema deles? — Sebastian fez um sinal com as mãos.
Apesar de toda aquela situação consegui rir, Sebastian era realmente irritante, metido, sem escrúpulos algum, mas em partes era engraçado.
– Pessoal! — Dylan gritou e quando me virei pude ver Kayla caída no chão, fui ate ela e ajudei ele a levanta-la deixando-a sentada. Comecei a abana-la, mas sem resultado algum.
– Licença. — Disse Jay tirando um frasco do bolso e colocando no nariz dela. Demorou menos de 5 segundos para Kayla começar a abris os olhos. — Ela esta acordando.
– O que é isso? — Perguntei curiosa.
– Álcool de bergamota, levanta qualquer um.
Queria perguntar por que ela levava aquilo no bolso, mas não era uma boa hora para isso.
– Kayla? Consegue me ouvir? — Perguntei segurando seu rosto suavemente.
Ela tentou dizer algo, mas só conseguiu balançar a cabeça levemente em concordância. Não sabia mais o que dizer, o medo tomou conta de mim por alguns minutos.
– Eu fico com ela... Você ache uma solução.- Jay abaixou ao meu lado.
Me levantei rapidamente tentando pensar em algo.
– Vamos abrir uma porta de novo? — Disse e por algum motivo sorri.
– Não precisa nem perguntar. — Sebastian já estava indo em direção a porta e eu o segui.
Começamos a emburrar a porta da mesma maneira que fizemos mais cedo, mas essa parecia dez vezes mais forte, usamos toda nossa força e nada aconteceu. Dylan e Octavio se juntaram a nos para ajudar, contamos ate três e começamos a usar toda nossa força, ela parecia estar começando a se desprender ate um alarme horrível começar a tocar e a luz do elevador ficar vermelha e começar a piscar.
– Ótimo! — Gritei em meio ao barulho.
– Não podemos abrir a porta? — Dylan tapou os ouvidos.
– O que você acha? — Sebastian gritou.
Jay tapou os ouvidos de Kayla enquanto a abraçava protegendo-a, seria um momento fofo se não fosse pela situação. Ate que finalmente a luz voltou ao normal e o alarme parou de tocar. Tudo ficou em silencio novamente.
– Tudo bem, nada mal. — Octavio disse.
Ate que o elevador começou a se mexer , mas não de um modo normal e sim chacoalhando. Não se passou nem dois minutos com um silencio absoluto ate que o mesmo som de milhões de insetos se mexendo começou a soar novamente. O teto do elevador começou a se abrir, olhamos para cima e havia uma fresta aberta.
– O que? — Dylan disse incrédulo.
Algo acima da fresta começou a se mexer.
– Olhem! O que é aquilo? — Jay se levantou para ver melhor.
E do teto caiu um tipo de inseto que eu nunca havia visto antes, ele era tão pequeno que parecia inofensivo.
– O que é isso? — Fui chegando mais perto e antes que eu pudesse pega lo Octavio gritou "não" e logo após senti uma mão me puxar para trás, era Dylan. — Que foi? — estava assustada.
– Eu já estudei sobre insetos modificados e esse é um dos mais raros deles, ele é pequeno como uma semente, mas é o mais venenoso de todos. Quanto menor, mais perigoso. Ele é denominado venenum draconum que significa o veneno da serpente. — Octavio explicou, ele era realmente inteligente, antes que eu pudesse ficar preocupada com aquele inseto fiquei pensando o quanto era bom ter Octavio por lá, afinal ele nos salvou mais vezes que eu pudesse contar, não só ele e sim todos lá, nós parecíamos um grupo de verdade, todos se ajudavam.
– Ual, você é um livro ambulante... É bom te ter aqui comilão. — Sebastian disse.
– Se caso alguém for picado, o que exatamente ele causa? — Perguntei.
– Venenum draconum é conhecido por ter o veneno de varias serpentes em um único inseto, a picada dele causa uma dor tão forte que a pessoa prefere se matar antes de esperar o veneno fazer o feito, é como sentir todos seus ossos se quebrando, depois dessa primeira fase.
– Ah, ótimo, tem fases ainda. — Sebastian interrompeu.
– O sangue da vitima começa a engrossar ate ficar completamente duro e a ultima fase antes do falecimento da vitima é sentir seu próprio cérebro explodir.
– Oh, só isso? — Forcei um sorriso irônico.
– Sem problemas. — Sebastian foi ate lá e esmagou o venenum draconum.
Antes que pudéssemos ao menos ficar aliviados Jay gritou.
– Se eu fosse vocês não ficaria tão feliz assim, olhem!
O teto começou a se abrir cada vez mais, ate se abrir inteiramente e de lá caírem milhares de insetos modificados, haviam vários tipos que sem a ajuda de Octávio não saberíamos definir os venenosos. Sebastian correu ate Kayla e a pegou no colo, o chão do elevador estava quase sendo tampado com a quantidade de insetos que estavam caindo, Kayla se agarrou em Sebastian assustada enquanto ele dizia que tudo ficaria bem, por algum motivo parei de olhar para os insetos e apenas foquei neles, ate ouvir Octavio gritar:
– Os pequenos são mais venenos, fiquem longe dos insetos pequenos!
Haviam insetos de todos os tamanhos, é claro que os maiores davam mais medo, mas como os pequenos eram mais perigosos deixei de me levar pelo tamanho. Comecei a pisar em todos que chegavam perto, mas começou a ficar difícil pisar em todos. Sebastian estava tentando manter os insetos longe, mas estava carregando Kayla o que tornava tudo mais difícil, então resolvi ir ate eles.
– Kristen o que você esta fazendo? — Dylan e Jay gritaram.
Consegui chegar ate eles, fiquei na frente de Sebastian e comecei a pisar freneticamente em todos os insetos que ousavam chegar perto. Estava conseguindo manter o controle ate ouvir Octavio gritar socorro repetidas vezes, parei de olhar para os insetos e olhei para ele no canto do elevador, sozinho com centenas de insetos indo em direção dele. Jay e Dylan estavam indo na nossa direção para nos ajudar, mas esqueceram que Octavio não era tão bom em se defender fisicamente. Então disse para eles continuarem vindo para ajudar Sebastian e Kayla e mais uma vez tomei coragem para atravessar o elevador cheio de insetos venenosos. Enquanto atravessava, vários insetos grandes pulavam no meu braço, consegui tira-los dando tapas, finalmente consegui chegar ate Octavio e comecei a matar o máximo de insetos possíveis, mas haviam muitos naquela parte do elevador, queria leva-lo para o onde todos estavam.
– Me de a mão e vamos atravessar, tudo bem? — Olhei firmemente para ele e sorri tentando transmitir segurança.
– Não consigo. — Ele estava quase chorando.
– É claro que consegue, você é inteligente e corajoso. Vamos.
Ele se afastou mais ainda encolhendo os ombros e balançando a cabeça em sinal negativo, enquanto isso os insetos dominavam mais ainda o lugar onde ele estava.
– Tudo bem, tudo bem. — Me virei de costas pare ele. — Suba na minhas costas. — Gritei, eu era mais alta, mas ainda sim não sabia se iria aguentar com ele, ele parecia mais pesado que eu, mas eu tinha que tentar.
– Tem certeza ?
Os insetos começavam a aparecer mais e mais naquela parte.
– Octavio, rápido!
Ate que ele finalmente deu um pulo e subiu nas minhas costas, pensei que naquele momento nos dois cairíamos para trás nos afundando no meio de milhares de insetos, mas mais uma vez me surpreendi comigo mesma. Era como se Octavio não fizesse diferença alguma, andei tranquilamente sobre os insetos e ainda parando para pisar em alguns menores. Me virei e pedi para Octavio pular, ele foi para trás de Dylan a salvo, me senti aliviada finalmente, faltava alguns passos para chegar ate eles, antes que eu pudesse ir, Dylan gritou:
– Não se mecha!
– O que? — Ate ver ele apontando para minha perna, quando olhei para ela havia um venenum draconum grudada nela. — Ótimo.
– Kristen não se mecha, antes de levar a mão para tira-la ela ira perceber e te picar! — Octavio disse me deixando mais "calma" ainda.
Sebastian entregou Kayla nos braços de Dylan.
– Fique calma K, não se mecha. — Sebastian foi chegando perto. Ele tirou a blusa e com muita calma bateu no draconum que caiu da minha perna me fazendo voltar a respirar novamente. Logo em seguida ele me pegou no colo.
– Confia em mim? — Essa pergunta ecoou tão forte na minha cabeça que fez meu ouvido zumbir.
– Não.
– Ótimo. — Ele me jogou para a parte "segura" do elevador onde Dylan me segurou, ele acabará de deixar Kayla nos braços de Jay.
– Qual seu problema? — Gritei. — E você ?
Ele fez algo que já não me impressionava mais... Sorriu ironicamente. Fiquei parada olhando para ver o que ele faria, mas antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, a voz surgiu.
– Tenere!
A voz só disse isso e é claro que ninguém entendeu além de Octavio.
– Segurem se — Octavio gritou.
– O que? — Sebastian perguntou.
Mas antes que Octavio pudesse repetir o chão do elevador começou a se abrir lentamente, ele apontou para o chão e entendemos o que ele havia dito. Olhamos para acima e haviam barras de ferro onde podíamos nos segurar, ate que lembrei de Jay segurando Kayla.
– Ajudem elas! — Gritei para Dylan que estava mais próximo, mas antes que ele pudesse pensar em algo o chão se abriu rapidamente e nos seguramos nas barras, Jay tentava se manter pendurada enquanto segurava Kayla pelo braço, mas todos vimos que ela não iria aguentar por muito tempo.
– Eu vou tentar chegar ai. — Gritei, olhando para as barras de ferro.
– Não Kristen! Não tem como, eu aguento. — Jay disse com a voz fraca por estar fazendo tanta força.
Ao mesmo tempo que eu queria ajuda-las, também queria ajudar Octavio, ele estava por si só, mas não parecia estar se dando muito bem com as barras.
– Octavio? Consegue aguentar mais um pouco?
– Eu não sei Kris... — Ele estava se esforçando o máximo que podia.
Todos ficaram alguns minutos em silencio, apenas concentrados em se segurar, ate que olhei para baixo, sabia que não devia, mas... Era um buraco tão profundo que parecia que se algo caisse lá, ficaria caindo por dias ate chegar ao fim de tudo aquilo.
– Jay? — Kayla disse baixinho. — Obrigada... — Ela conseguiu dar um sorriso fraco.
– O que?
Mas antes que Jay pudesse dizer mais alguma coisa, Kayla tomou todo o folego e gritou:
– Auribus teneo lupum!
– Kayla não! — Gritamos ao mesmo tempo.
– Não precisa ser assim, você não precisa... — Jay disse quase sem folego.
– Tudo bem, tudo bem. — Ela sorriu mais uma vez e a cada sorriso fraco de Kayla, me doía a alma. — Você já me ajudou demais, na verdade, vocês todos. Obrigada. — Logo após dizer isso, ela chutou o botão que a voz instrutora havia mandado e soltou-se de Jay, assim caindo naquele buraco escuro. Jay gritou "não" tão alto que fez meus ouvidos zumbirem. Trinta segundos apos Kayla cair o chão se fechou novamente.
Meus braços estavam dormentes o que fez eu me soltar sem nem mesmo lembrar de apoiar minhas pernas, mas todos estávamos assim. Caímos simultaneamente no chão. Octávio gemeu de dor. A unica que não estava pensando em dor física, era Jay. Fui ate ela para consola-la, mesmo não sabendo o que dizer porque eu também estava sem reação, fazia menos de 24 horas que estávamos lá, mas era como se eles já fizessem parte da minha família.
– Hey. — Cheguei mais perto dela. — Eu sinto muito...
– Não sinta. — Ela me olhou fixamente. — Não é culpa sua, mas as pessoas que fizeram isso, vão pagar. — Seus olhos se encheram de ódio, ela se levantou e com toda a força começou a socar o elevador. O alarme começou a tocar freneticamente e junto a ele a voz-instrutora começou a falar repetidas vezes "Recedit".
– Ela esta dizendo para se afastar. — Octavio gritou em meio ao alarme. Parecia que ele já havia se acostumado a ser o nosso tradutor.
– Jay pare com isso! — Gritei, mas ela continuava a socar o elevador, Sebastian olhou para mim em sinal de "eu resolvo isso" e foi ate ela, tentando faze-la parar, mas ela começou a se debater tão insanamente que acabou acertando o com um soco então ele resolveu se afastar. Agora é minha vez, pensei. Cheguei perto dela e segurei seus braços e em seguida abracei a imaginando o soco que levaria, mas ela parou e retribuiu o abraço e não demorou muito para que ela caísse em prantos. Fiquei aliviada por ela finalmente estar colocando tudo para fora e principalmente por não ter levado um soco, suspirei aliviada.
– Eu não consegui. Eu tentei — Sua voz falhou com um soluço. — Tentei salva-la, mas ela simplesmente se soltou e eu não pude...
– Ei ei, você fez tudo o que podia. Nos sabemos disso, Kayla sabia disso. — Ela suspirou fundo.
– Eu só quero que eles paguem. — Jay já havia se recomposto completamente.
– Eles vão. — Sebastian disse atrás de mim. Me virei e vi o canto da sua boca sangrar.
– Sua boca.
– Pare de ser pervertida!
– Esta sangrando seu idiota. — Revirei os olhos.
– Ah sei. Se queria me beijar era só pedir. — Ele sorriu de canto, como eu odiava aquele sorriso.
– Acho que isso foi culpa minha, desculpe Sebastian. — Jay disse antes que uma guerra entre nós começasse; de novo.
– Tudo bem, você não é a primeira garota que quer tirar um pedaço de mim. — Ele riu.
– Oh não.
– Pensando bem, você merece mais. — Jay sorriu, era bom tê-la de volta,
– Vocês ficam conversando como se estivesse tudo bem, mas não perceberam que ainda estamos presos aqui. — Dylan finalmente disse algo depois desse tempo todo, ele foi o único que não disse uma palavra se quer sobre Kayla, talvez fosse apenas o jeito dele, pensei.
– E o que você quer que a gente faça ? Isso é um teste se você não percebeu. Temos que esperar a voz-instrutora se pronunciar. — Sebastian era tão grosso, mas ele tinha razão, não podíamos fazer nada, só esperar e estávamos conversando para tentar distrair Jay e a nos mesmos também.
– Ele tem razão. — Foi a única coisa que eu consegui dizer para acabar com aquele silencio perturbador.
Nos sentamos esperando algo acontecer, já havia passado horas e nenhum teto ou chão se abriu. Todos estavam exaustos, já não estávamos mais sentados normalmente e sim completamente jogados no chão. Ate que finalmente a voz surgiu:
– Bonum Nocte.
– Boa noite (?) — Falamos ao mesmo tempo e logo em seguida houve um apagão, algo começou a brilhar lentamente.
– Olhem. — Disse sorrindo e um vagalume modificado pousou no teto, me levantei e comecei a levar meu dedo ate ele fazendo-o pousar nele. Ele era lindo, a cada hora seu brilho mudava de verde para roxo e depois azul.
– Ual! — Octavio disse chegando mais perto. Levei meu dedo ate o dele entregando o vagalume a ele. Tudo ainda continuava escuro exceto pela pequena luz do vagalume.
– Acho que vamos ter um abajur bem legal essa noite. — Jay apontou para cima e no teto surgiu milhares de vagalumes, o ambiente estava ótimo, a luz deles estava dando uma sensação de sonolência seguido de um aroma incrível de lavanda.
– Acho que isso é minha deixa. — Octavio deitou no canto do elevador e dormiu instantemente.
– Tenho que concordar com ele. — Jay se ajeitou no chão e também apagou.
– Acho melhor eu ficar de guarda então. — Sentei no chão abraçando minhas pernas, o clima havia começado a ficar frio.
– Se quiser, eu fico. — Dylan parecia ser o mais cansado de todos, então recusei e disse que era melhor ele descansar para o dia seguinte. — Eu cubro a próxima então. — E dormiu na mesma hora.
O único que não havia dito nada ainda era Sebastian, ele continuava acordado e sentado quase da mesma maneira que eu. Ele estava girando uma mini lanterna no chão, estava focado no que fazia.
– E você?
– Eu o que? — Ele continuava a encarar a lanterna.
– Não vai dormir?
– Deveria?
Eu odiava que me respondessem em forma de pergunta, ele parecia fazer tudo o que eu mais odiava.
– Ahn, sim (?)
– Ahn, não (?) — Ele me imitou.
– Ótimo.
Pensei que ele fosse começar a gritar para eu não dizer mais essa palavra, mas ele fez algo que me surpreendeu, continuou calado mexendo na lanterna.
– Se você não vai dormir, eu vou.
– Nunca ninguém te disse que você fala demais?
– Ah, só uma vez, mas era só um idiota segurando uma lanterna. — Deitei e me virei para o lado contrario, Sebastian era tão desprezível.
Sabia que eu não conseguiria dormir, mas eu tinha que tentar. Fechei os olhos e tentei controlar meus pensamentos, eu imaginava apenas uma parede branca quando não conseguia dormir, isso fazia com que todos meus pensamentos se esvai assem, assim me fazendo dormir, mas dessa vez não funcionou. Comecei a me encolher porque o frio estava ficando cada vez pior. Senti algo me envolver, virei assutada e colocando sua jaqueta sobre mim estava Sebastian.
– Obrigada. — Disse sem entender, não fazia cinco minutos que ele estava sendo a pessoa mais grossa do estado, não o achava tão desprezível assim agora.
Fiquei olhando para ele que voltou a sentar no canto do elevador e voltar a seu hipnotismo na lanterna. Como não iria dormir mesmo me levantei e fiquei sentada com a jaqueta sobre minhas pernas. Olhei para Jay que dormia como se estivesse em um hotel 5 estrelas. Octavio suava muito, parecia estar tendo um pesadelo, mas não o acordei porque sabia que depois ele não dormiria mais e ele precisava descansar. Dylan não parecia estar dormindo tão bem quanto Jay, ele estava se encolhendo de frio, então resolvi pegar a jaqueta de Sebatian e cobri-lo. Fiquei um tempo observando-o, queria lembrar de onde eu o conhecia, mas como sempre, nada surgia.
– Você gosta dele. — Foi tudo o que Sebastian disse para atrapalhar minha concentração.
– O que? É claro que não.
– Claro... — Ele voltou a encarar a maldita lanterna.
Por um lado ate podia ter parecido isso, mas eu só queria lembrar de Dylan para finalmente poder definir meus sentimentos sobre ele, diferente de Sebastian...
– Ual, não sabia que você podia ler mentes. — Sorri ironicamente.
– Então isso é um sim.
– Não, isso é um não. — Como ele era irritante, parecíamos duas crianças brigando.
– O que tem demais nessa lanterna?
Ele apenas me encarou e não disse nada. Percebi que de dia ele era um idiota metido e a noite um idiota grosso. Ótimo.
– Ok. — Me levantei e sentei perto dele, eu odiava ficar sem fazer nada por mais que estivesse cansada, ficar observando uma lanterna não era meu programa favorito, mas era tudo o que tinha no momento.
Seria uma lanterna normal se ela não estivesse riscada na parte superior dela.
– Por que ela esta assim?
– Não sei.
– Mas a lanterna não é sua?
– É e dai?
– E dai que você deveria saber?
– Eu não me lembro.
Essa frase ecoou na minha cabeça me fazendo lembrar de um dos meus sonhos "normais". Uma voz masculina dizendo repetidas vezes "Lembre-se de esquecer" e eu deitada em uma maca (talvez ?) chorando e dizendo que não queria esquecer.
– Eu não quero esquecer, eu quero me lembrar, eu quero me lembrar! — Disse em meio as lagrimas enquanto a outra voz continuava a dizer "Lembre-se de esquecer", tudo estava um tanto embaçado por ser uma lembrança, eu acho e por conta das lagrimas não conseguia ver de quem era a voz que ecoava e me dava uma angustia enorme.
– Kristen? Ei Kristen? — Sebastian estava batendo com a lanterna no meu joelho, era como se eu tivesse entrado em transe e voltado.
– O que? — Pisquei fortemente.
– Em que estado você estava? — Ele riu, não, espera. Ele riu? Sem ao menos perceber, ri com ele. A um minuto atrás estava lembrando de um sonho ou lembrança seja lá o que aquilo fosse e havia ficado triste e Sebastian também não estava no seu melhor momento e agora estávamos rindo feito dois idiotas.
– Já pensou em não estar aqui ? — Nos já havíamos parado de rir. — Em estar em algum lugar que não fosse melhor que aqui, mas ainda sim, melhor?
– Como se o lugar não importasse e sim quem estava lá? Pessoas são lugares... — Olhei para ele que me olhava hipnotizado, do mesmo modo que olhava para a lanterna a dois minutos atrás, mas agora ele sorria.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ouvimos um ruído. Dessa vez não era um som de vários insetos e sim de patas. Era como se algo estivesse caminhando sobre o teto do elevador, algo pesado e grande, os passos eram lentos, mas apesar disso faziam um ruido tanto quanto alto. Jay, Dylan e Octavio estavam tão cansado que nem acordaram.
– Ta legal, o que é isso? — Perguntei.
– Algo nada bom. — Sebastian fez um sinal de silencio com as mãos, seguido de um "shhh".
Logo a voz-instrutora se manifestou com uma palavra em latim.
– Silentium!
Eu já estava para acordar Octavio, quando Sebastian me puxou pelo braço e fez novamente um gesto de silencio.
– O que? Eu só vou perguntar pra ele o que significa. — Sussurrei um tanto quanto alto.
– Não precisa! — Ele sussurrou do mesmo modo. Fiz um sinal com as mãos perguntado por que? — Eu sei o que significa. Significa silencio.
– Ah, faz sentido agora.
Ele fez uma cara de idiota, mais do que já tinha.
– Acordo eles?
– Melhor não, precisamos de silencio.
– É, mas se algo acontecer eles já estarão preparados.
– Não vai acontecer.
– Como pode ter tanta certeza?
– Eu não vou deixar. — Ele virou se para observar o teto.
– Ótimo.
– Quanto menos barulho fizermos, melhor.
– Essa voz não parece ser muito confiavel.
– Ótimo, quer fazer o que? Entrar em panico? Boa ideia.
– Não (?) Acabar com o que estiver ai em cima.
– Esqueceu que não podemos abrir a porta?
– E quem disse que precisamos?
– Acho que agora eu posso entrar em pânico.
Eu só precisava saber o que era aquilo que estava acima do teto, eu havia tirado muitas informações do livro de Blair, talvez seria uma boa hora para aquilo nos ajudar. Imaginei como ela agiria em uma situação dessas.
– Já sei. — Disse. — Preciso de algo pontudo. — Me virei e comecei a procurar por algo, mas não encontrei nada.
– Esse era seu incrível plano?
– E quem disse que só existe um plano? Plano B. — Sorri.
– Por que estou começando a ficar cada vez mais preocupado ?
Fui ate uma das barras de ferro, haviam vários vagalumes tampando-a, comecei a espanta-los suavemente para o lado ate não haver nenhum mais naquela parte.
–Pode me ajudar?
Pulei na barra e comecei a força-la para baixo, Sebastian foi ate lá e começou a fazer a mesma coisa. Quando a barra começou a se soltar, fez um barulho enorme, ficamos imóveis no mesmo momento. Ouvimos os passos ficarem mais rápidos, olhei para Sebastian e descemos da barra lentamente, demos um pequeno pulo, mas ainda sim sem barulho algum, continuamos em silencio. As pegadas começaram a ficar lentas ate parar. Verifiquei se estava tudo bem com todos que dormiam, vi Octavio se virar de barriga para cima e começar a abrir o olho.
– O que vocês estão fazendo? — Ele bocejou.
– Shhh. — Arregalei os olhos.
– O que, o que houve? — Ele ainda estava sonolento. Fui ate ele e me ajoelhei.
– Nada, Oc. — Sussurrei e comecei a acariciar seu cabelo.
– Oc... Gostei. — Ele sorriu e dormiu novamente.
Suspirei aliviada. Não queria assusta-lo e muito menos que ele perdesse o único momento que teria para dormir. Ainda ajoelhada ao lado de Octavio, me virei para ver o que Sebastian fazia e ele estava parado olhando para mim, mas com o pensamento completamente em outro estado.
– Sebastian. — Sussurrei e ele me olhou assustado. — Já podemos continuar.
Ele concordou e voltamos a forçar a barra para baixo, ela estava quase se soltando quando um barulho alto surgiu, mas dessa vez não era o que havia no teto e sim alguém roncando (?)
– Droga Oct... — Quando me virei e antes de terminar a frase vi que não era Octavio que roncava e sim Jay.
Sabia que deveria ir ate lá e faze-la parar, antes que o que estava no teto nós matasse, mas eu não consegui comecei a rir sem parar, Sebastian também não resistiu. Conforme o barulho ficou mais alto, eu ria ainda mais. Sebastian me cutucou.
– Faça-a parar. — Ele disse rindo.
– Nem pensar, sua vez. — Ri.
Ele foi ate Jay que dormia de barriga para cima e se ajoelhou ao lado dela ainda rindo, virou-a de lado. Ela ate tentou abrir os olhos, mas mal conseguiu, voltou a dormir e parou de roncar.
– No três, ok?
Finalmente retiramos a barra de ferro, fez um barulho que talvez não tenha sido tão grande, porque ninguém ainda havia acordado. Alguns estilhaços do teto caiu sobre mim, Sebastian começou a me ajudar a tirar o que havia ficado no meu cabelo.
– Obrigada.
– Estava melhor com os estilhaços, mas...
– Eu nunca mais digo obrigada pra você. — Ele riu.
– Qual é o seu plano B então?
Comecei a olhar onde nos havíamos tirado a barra e infelizmente não havia formado nenhum pequeno buraco no teto.
– Achei que se tirássemos a barra, algum buraco surgiria. — Disse decepcionada.
– Não seja por isso. — Ele ainda segurando a barra a girou no ar feito um ninja da primeira ordem.
– Não, espera! O que vai fazer?
– Abrir um buraco no teto.
– Mas dessa maneira vai fazer muito barulho.
– Acho que você não conhece minhas habilidades ainda. — Ele sorriu ironicamente. — Me de a blusa.
– O que? — Olhei indignada.
– A jaqueta, mas se quiser me dar a sua, eu não me importaria.
– Você é tão idiota. — Fui ate Dylan e peguei a jaqueta lentamente, tive a impressão que ele havia piscado, como se estivesse fingindo estar dormindo. Acho que havia sido algo da minha cabeça, eu estava morta de sono.
– Rápido!
Revirei os olhos. Entreguei a jaqueta a ele que colocou na ponta do ferro.
– Você acha que isso vai abafar o som?
Ele só me olhou e continuou a enrolar a jaqueta.
– Essas paredes são feitas de Sea lapis, conhecidas como pedra do mar. — Ele disse e eu pude entender.
– Mas você vai precisar de agua para abafar o som.
– Agua ou algum liquido.
– Ah não! Não me diga que você vai... — Parei de falar e ele levantou a sobrancelhas e sorriu.
– Você é tão idiota. — Ele riu. — Pegue o frasco no bolso da Jay.
Senti um alivio imenso e fui ate Jay pega-lo.
– Aqui. — Quando ia entregar o frasco para ele, me pediu para segura-lo.
Ele colocou o ferro com a jaqueta encostado a parede e fez algo que já não me surpreendia mais, tirou a camisa.
– To morrendo de calor. — Cruzei os braços.
– Se você não tira, eu tiro.
– Qual seu problema?
Ele sorriu enquanto rasgava a camisa em pedaços, cinco pedaços em tiras largas e me entregou uma.
– Aqui.
– Eba um pedaço da sua blusa, era tudo o que eu precisava.
– Vai precisar.
– Ta, o que eu faço com isso?
Ele pegou o pedaço de pano da minha mão, foi atras de mim e o colocou sobre o meu rosto fazendo com que tampasse minha boca e meu nariz e amarrou atras.
– Forte demais?
– Não, assim esta bom. — Ajeitei o pano sobre meu rosto.
– Se esqueceu que isso é mais forte que draco ignis? — Ele perguntou. Draco ignis era uma pimenta venenosa, a mais forte de todas.
– Talvez.
Sebastian me entregou os outros pedaços e enquanto ele colocava em Jay, eu colocava em Octavio tentando não acorda-los, logo depois coloquei em Dylan. Deixei o nó um pouco frouxo, primeiro para não acorda-los e segundo porque eles estariam longe do liquido, não precisariam tanto assim. Logo depois de termos colocado em todos, Sebastian me deu o dele. Ele se virou e eu não pude deixar de reparar em suas costas, havia varias cicatrizes. Coloquei o pano sobre seu rosto e amarrei um pouco forte demais.
– Calma ai.
– Desculpa. — Ri envergonhada.
Apos ter afrouxado o pano, por algum motivo comecei a passar os dedos nas cicatrizes, elas eram realmente profundas. Ele virou o rosto.
– Doem?
– Não.
– Como você?
Ele apenas balançou a cabeça e deu dois passos a frente antes que eu terminasse a pergunta.
– Você faz perguntas demais.
– Como eu já disse, gosto de conhecer meus concorrentes.
– Saber sobre isso não vai fazer diferença nenhuma no seu teste.
– E quem disse que é para o teste? — Sorri. Por algum motivo que ninguém nunca vai entender o por que, peguei a barra na mão. — Vamos ao trabalho. — Fiquei pensando por que eu havia feito isso, nunca vou saber.
– Vamos então, Rambo. — Ele riu.
– Rambo? — Perguntei indignada.
– É, aquele cara da primeira ordem com a faixa vermelha e...
– Sim, eu sei.
– Então.
– Só não sabia que você gostava de historia da primeira ordem.
Ele sorriu e pegou a barra da minha mão.
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