Notas iniciais
Não está revisada, infelizmente, mas espero que vocês gostem desse texto mesmo assim :3

Regras, esses pequenos dizeres podem salvar vidas, colocar ordem em sua cabeça e lar. Uma magia, palavras enfeitiçadas para o bem. Se acreditasse nisso com todas as suas forças, escrevesse claramente em um papel, no celular, organizasse os imãs de letras da geladeira de forma adequada, e esconder aquele outro imã de joaninha que ela lhe deu sem intenção alguma que podia desejar... talvez assim seu cérebro estúpido mandasse mensagem direta para o coração. Assim, não estaria agindo de forma tão ridícula.

Ela não era humana. Hinata lhe disse no primeiro dia em que se encontraram, apesar de que ela devesse ter mantido seu disfarce. Mas ela, no momento completamente dominada por um mal estar por falta de energia vital, acabou por deixar escapar dos lábios aquela informação absurda. Shino não teria acreditado naquela história, mesmo que Hinata não parecesse alguém que fizesse piadas com frequência, se ela não estivesse revertendo ao físico que ela realmente tinha no instante em que falava: grandes pares de asas de algo como um morcego, negras; presas no lugar de dentes comuns; garras no lugar das unhas; um rabo.

A moça, diferente de momentos antes em que parecia enfraquecida, acabou por pular em cima dele com força, de modo a subjugá-lo. As garras, ao segurar seus ombros, acabaram por rasgar parte de sua roupa, assim como perfuraram sua pele, rasgando sua carne. Cheiro de sangue, sua cabeça começou a girar para mal. Ele ainda conseguiu distinguir veias surgirem ao redor dos olhos de Hinata como se ela estivesse em um transe estranho. Shino sentiu uma forte sensação de que ele iria morrer àquela noite. Hinata aproximou seu rosto cada vez mais até que Shino sentiu seu corpo ficar mole, e a visão escureceu.

No dia seguinte, surpreendentemente ele ainda estava vivo. Mais: Hinata estava lhe fazendo café da manhã como um pedido de desculpas. Algo certamente suspeito. Houve um momento terrível em que nenhum dos dois soube o que poderia acontecer. Shino se lembrava da força com que tinha sido atacado e realmente era uma a qual ele não conseguiria contraatacar sozinho. O movimento mais esperto de sua parte seria aceitar o pedido de desculpas e ficar alerta, pelo menos até conseguir ter certeza de que não era mais um alvo.

Não demorou muito para Shino ver que aquele tinha sido um caso muito particular. Hinata não tinha elaborado uma personalidade para se misturar com os seres humanos: era justamente por ser uma garota introvertida que ela não conseguia flertar com seus alvos e ficava sem energia para ficar no mundo humano. O incidente do dia anterior foi seu corpo respondendo a fome extrema. E para ela parecer bem como estava naquela manhã, ela deveria ter absorvido mesmo energia vital dele. Mas como isso tinha acontecido? Porque ele não se sentia muito diferente...

— Foi só um pouco, para que eu voltasse a mim. — Hinata disse, tocando os dedos indicadores um contra o outro, com um sorriso pequeno, sem jeito — Eu já estou acostumada a me alimentar mal, então devo ficar bem por enquanto.

— Por que você ainda está aqui se não consegue se adaptar? Não era melhor voltar para sua casa real ou algo assim? — Shino sentiu que deveria questionar.

— Oh, eu não poderia mesmo que quisesse. — Hinata disse deprimida — Aqui é meu lar agora, é assim para todos nós. Voltar seria... seria que nem quando um bebê humano quisesse voltar para a barriga de sua mãe. Não seria algo impossível? E mesmo que fosse possível... não seria muito desprezível?

— Falando assim... não posso deixar de concordar. Mas assim você só vai estar causando problema a todos, além de você mesma — Shino não poderia deixar de dizer.

Então ele fez a Hinata Hyuuga uma proposta complicada para os dois, mais principalmente para ele: ele iria juntar esforços para que Hinata conseguisse seus alvos e garantiria que se alimentasse deles da forma menos letal possível.

Uma das principais complicações daquela proposta era que ele mesmo não sabia o que era ser popular entre as pessoas, sabia zero de encontros românticos. Outra complicação era que ele estava se propondo a ajudar alguém que poderia tê-lo matado no dia anterior, ele só tinha tido sorte de que Hinata tinha parado a si mesma. A última complicação seria se aquilo realmente fosse tudo uma farsa de Hinata e ela realmente estava procurando se alimentar dele em definitivo, era difícil que ele tivesse 100% de certeza.

Essas eram as complicações que Shino tinha contado, entretanto tinha a mais perigosa de todas, e foi justamente essa que deu errado e surpreendentemente não as outras: ele se apaixonou pela colega demônio que ele ajudou.

Agora Hinata não precisava mais dele. Ela já tinha ido muito longe com a ajuda de suas novas amigas, a qual Shino terminou por apresentar (porque com certeza tinham mais esperiência em encontros que ele), tinha um limite no quanto ele poderia ajudar naquele assunto.

Hinata ainda aparecia em sua casa. Mas quando isso acontecia não era exatamente “ela” quem Shino via. Era estranhíssimo. Isso passou a acontecer desde que tinha dito a Hinata que pararia de ajudá-la. E não achava que seria porque Hinata estava chateada com ele ou algo assim: eles ainda se encontravam no trabalho, ou fora dele para que Shino pelo menos checasse os alvos de Hinata de forma a ver que ela não tivesse exagerado, e Hinata interagia com ele em sua personalidade usual. Mas quando era para aparecer em sua casa, era apenas por um motivo repetido e não era exatamente mais ela mesma. A Hinata que estava aparecendo em sua casa falava a mesma coisa que Hinata tinha dito quando foi pela primeira vez em sua casa, e acabado por lhe revelar sua forma de demônio: “Shino-kun, esses documentos... você esqueceu deles”.

Entretanto, diferente da primeira vez que tinha sido sincera, Hinata realmente tinha ido a sua casa para lhe entregar os documentos que esquecera, aquela outra Hinata, após de ter ditos as mesmas palavras, começava a rir e o abraçava de forma largada como se estivesse bêbada. Apesar de ele nunca sentir esse cheiro nela. Mas sentia seus cheiros favoritos. Cheiro de terra e folhas.

E então ele provava o que os demais alvos daquela súcubo estavam tendo sem que percebessem, a mente nublada pelos feromônios da demônio colocados em prática. Ele devia estar também sob o efeito dos feromônios, porque começava a se sentir com sono, embalado por uma dança por demais complexa para que ele ficasse consciente, só uma sensação de felicidade alta, como uma droga, para depois sentir um vazio que beirava a um desespero.

E Shino questionava consigo, por que será que ele parecia tão mal no dia seguinte? Os outros alvos não pareciam estar sentindo aquele efeito. Ele sempre fazia questão de seguir os alvos de Hinata junto a moça para saber se tudo tinha ocorrido como deveria. E nenhum tinha ficado daquela maneira. Será que ela estava precisando compensar a sua falta de energia vital, e o corpo dela o tinha escolhido como um infeliz alvo? Assim como da primeira vez que ela o atacou? Possível. Mas também, se contasse a Hinata, como ela reagiria? Um medo estranho brincava no estômago dele, era possível que nunca tivesse mais experiência semelhança com Hinata, mesmo que distorcida.

Todavia, naquele ritmo ele poderia até mesmo morrer nesse processo. Seu cérebro em parte entendia, mas emburrecia muito quando ela falava dos documentos, de Shino-kun, começava a entrar sem que a tivesse permitido, o abraçava, começava a tirar as roupas dele. Eram como uma maldição, e não conseguia dizer nada quando encontrava Hinata no trabalho no dia seguinte ou quando se encontravam para seguir o alvo que Hinata tinha se alimentado.

Mas Hinata, aos poucos, estava percebendo alguma coisa. (Não queria que ela percebesse. Não queria, queria, queria, queria... os imãs, o que tinha escrito no papel, no celular. Não, não. Que infelicidade)

— Shino-kun, você não parece bem. — Hinata disse olhando para ele sem entender, e antes que Shino dissesse algo, ela colocou um mão na testa dele, enquanto colocava uma mão na sua própria testa — Haruno-san disse que era só fazer isso que eu conseguiria ver se algum humano tivesse febre... Hum, me desculpe, Shino-kun... Você achava que estou fazendo certo? Não sei se estou conseguindo entender bem...

— Hum, está tudo bem. Só que tem algo que eu quero te dizer, venha a minha casa hoje. — Shino disse, olhando para o lado, mesmo que ela não pudesse ver direito o que os olhos dele diziam por conta de seus óculos escuros.

— x —

Hinata tinha um sorriso triste para ele.

—... Shino-kun, mesmo que eu quisesse, não funciona para a gente dessa forma. — ela disse baixando os olhos, mesmo que seu sorriso triste ainda estivesse lá. — Tinha uma garota que, como você, também chegou a se declarar para mim antes. Mas não consegui me apaixonar, mesmo que ela tivesse sido tão boa para mim. Não é algo que acontece para nós de fato. “Atração”, “paixão”, “amor”, são como carne, sangue, para vocês. Precisamos disso, e é o fim do assunto. Se for mais... no mínimo, isso vai matar você. Você tem sido tão bom para mim também, Shino-kun, não queria que acabasse da mesma forma... eu pensava que você fosse mais esperto.

— Sinto muito, apesar de tudo, ainda sou um humano idiota. — Shino disse sem se sentir leve ou pesado, um tom de resignação.

Hinata esboçou um sorriso mais feliz por aquela tentativa de Shino em não se deixar abalar pelos fatos que ela lhe disse, e ousou a dar um beijo nos lábios do rapaz.

— E apesar de tudo, estou feliz, Shino-kun. Mesmo que você venha a sofrer, eu estou muito feliz agora.

— Você é realmente um demônio, Hinata...

—... O que você pretende fazer agora? — Hinata continuou a sorrir, sem desmentir a afirmação anterior de Shino, o que teria para desmentir? — Eu posso fazer você ter um sonho que não poderá mais acordar... dessa forma, você terá um fim mais feliz. Ou eu posso ir embora, e nunca mais aparecer em sua frente, mas eu não queria ter de fazer isso... Quando eu fiz isso da última vez, a Ino...

A demônio baixou o rosto mais uma vez, balançando a cabeça de leve, fazendo a franja cobrir os seus olhos. As mãos que se apoiaram uma na outra em reflexo tremeram um pouco. Mesmo que não pudessem se apaixonar pelos seus alvos, de certa forma parecia que Hinata e provavelmente seus irmãos ainda conseguiam sentir algum apego pelos humanos que interagiam.

Shino suspirou. O que poderia fazer? Todas aquelas noites que tinha passado com a outra Hinata realmente haviam sido por causa do que havia imaginado. Era realmente uma causa de compensação e nada mais. Respirou fundo... sinceramente, ele só via uma única alternativa...

Como estava no momento, não conseguia resistir a Hinata Hyuuga. Ela era como seu oxigênio agora. Talvez pudesse compreender um pouco como devia ter se sentido essa pessoa “Ino” quando Hinata sumiu, procurando protegê-la de mais dor que pudesse causar. Quando já seria há muito tempo tarde demais. E o que teria acontecido foi como se Hinata tivesse apunhalado com força seu peito. O ar se foi, e só há dor em seu ser, e definhamento. Uma loucura que provoca outras que não se poderia voltar atrás não seria uma “resposta” encontrada distante.

Shino disse o seguinte a Hinata:

— Você vai ter que ficar ao meu lado, Hinata. E quanto o tempo vier... que eu não conseguir mais suportar... por favor faça o que precisa.

Hinata abraçou Shino como se fosse a coisa mais preciosa em seu mundo.

E era. Ainda assim, não poderia dar a ele o que gostaria. Mesmo que ela estivesse mais ajustada que antes, aquele desastre aconteceu, porque ela tinha superestimado aquele sentimento que ela não entendia bem, apesar de ser tão necessário a ela para sobreviver. Seu peito estava pesado, apesar de também se sentir feliz. Ela sempre teve uma autoestima baixa, ela nunca foi habilidosa no que deveria ser boa desde o início, e saber que pessoas gostavam dela, mesmo que de forma distorcida por ser o que era, a deixava feliz. Queria não ter de recorrer a nenhuma daquelas alternativas que tinha dito a Shino, em reflexo, o aperto em seus braços mais um pouco. Talvez por conta dos feromônios de Hinata mais evidentes por estarem tão próximos, Shino deu um suspiro mais leve, como se estivesse começando a dormir...

— Eu sinto muito... — Hinata disse a Shino, ainda o abraçando, não querendo se separar, mas em breve tendo de ser necessário.

Até que seus olhos se abriram um pouco mais, surpresa com a ideia que lhe ocorreu. Entretanto, se era para salvar um amigo que tinha sido tão bom para ela, Hinata achava mais do que justo tentar.

Hinata apertou Shino em seu abraço com mais força, convocando suas forças...

— x —

— Minha nossa, Shino-kun, o que aconteceu com seu rosto? — Hinata perguntou com preocupação.

— Eu também não entendi bem, acho que ele ficou nervoso demais com a conversa que tivemos. — Shino disse, ponderando consigo, massageando um pouco o local da bochecha que tinha uma marca vermelha de um tapa.

“AQUELE SHINO, AQUELE SHINO...!” Em um lugar não muito longe de onde Shino e Hinata estavam, Naruto estava berrando aqueles dizeres, muito vermelho de embaraço. Enquanto isso uma Sakura estava ao lado dele, resignada pelo barulho que o amigo estava fazendo em local público.

Hinata riu um pouco.

— Isso é engraçado? — Shino questionou arqueando uma sombrancelha, mas sem nenhuma agressividade no tom.

— Sinto muito, Shino-kun, até que é um pouquinho... como está se sentindo? — Hinata questionou, tentando manter seu nível de interesse em um nível normal para a conversa que estavam tendo.

Tudo havia sido redirecionado, remodelado. Haviam inconcistências: nas memórias das pessoas, acontecimentos. Porém, era o que ela poderia fazer com o poder que tinha.

— Bem melhor, por algum motivo. — Shino disse pensativo.

— É assim que deve ser. — Hinata disse, sentindo o coração apertar demais ao dizer isso.

As regras se mostravam claras, estavam lá, como deviam ser seguidas, então porque seu coração insistia tanto em dizer que estava errado? Se perguntava o motivo.

Notas finais
Até!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!