Notas iniciais
Olá meus queridos. Aqui está mais um capítulo que se passa no universo de INTERESTELAR, não é preciso ter visto o filme para compreender e espero que gostem. Ele não foi pedido por ninguém, mas surgiu uma inspiração vinda de lugar nenhum e decidi escrever. Para ser honesta esse capítulo é bem diferente dos outros por ser bem introspectivo. No próximo capítulo volto a atender os pedidos de vocês. Por favor me digam se gostaram, me digam se está bom e se devo escrever algo introspectivo as vezes ou se devo desistir de capítulos desse tipo. Boa leitura meus queridos.

3. Murphy: Significa que aquilo que pode acontecer...acontecerá.

Se passou trinta minutos. Trinta minutos nos quais ela morria no solo gélido de um planeta inóspito. Trinta minutos para Clara e trinta anos para a Terra.

A mulher sentia a dor dilacerante do frio que cortava a atmosfera de um planeta desconhecido. Voltou suas lembranças para o início de tudo aquilo. Tudo havia começado quando ela decidiu que deveria deixar o planeta Terra e embarcar em uma missão espacial que procurava um novo planeta habitável no qual a humanidade poderia sobreviver. Clara, evidentemente, era uma astronauta enviada pela única força espacial ainda restante em um planeta Terra cada vez mais destruído e cada vez mais incapaz de se reerguer.

A missão sempre fora considerada suicida porque as chances de encontrar algum local que pode ser habitado, cultivado e construído por humanos é praticamente impossível. Os astronautas que se deparassem com uma atmosfera ainda mais inóspita do que o esperado e descobrisse que não havia nenhuma chance de sobrevivência apenas era condenado a continuar no mesmo lugar, não era o tipo de viagem em que havia retorno caso houvesse fracasso. Era uma passagem de ida e se por mera ventura o sortudo astronauta encontrasse em sua missão um planeta habitável outros viriam e ele estaria então a salvo. Clara não havia sido uma das astronautas sortudas.

A garota estava agora no solo frio, deitada e quase sem nenhum ar no capacete. Clara sabia que morreria e isso era doloroso porque confrontava a incompletude de sua própria vida ao encarar a paisagem gélida de um planeta que deveria ter se provado habitado, mas que era tão inóspito quanto todos os outros. A humanidade não sobreviveria, ninguém sobreviveria e provavelmente nenhum astronauta encontraria um planeta que poderia servir como salvação.

Se passou quarenta minutos. Quarenta minutos nos quais seu corpo não conseguia se mover no traje espacial. Quarenta minutos para Clara e quarenta anos para a Terra.

Voltou os olhos para as geleiras distantes, tentou sentir as batidas do próprio coração, tentou não chorar e pensou no filho que havia deixado no planeta Terra e em como ele estaria adulto agora. Sentiu novamente que era jovem demais e que havia partido em uma missão espacial para oferecer a aquela criança a chance de conhecer um mundo melhor. Agora, Clara morria e apenas conseguia pensar no garotinho que ela deixou na Terra. Não seria esse o problema do tempo? Ele humilha as pessoas por toda a parte.

A mulher pensou em Murphy e em sua lei: aquilo que pode acontecer… acontecerá. Desejou que a única coisa que pudesse acontecer era ter o filho novamente, segura-lo mais uma vez e dizer em seu último tempo que o amava mais do que a própria vida. Queria dizer para ele que aquilo que pode acontecer de fato acontecerá e que o mundo ainda seria salvo. Clara sentia o ar acabando, fechou os olhos e pensou em todas as coisas incríveis que o filho havia feito, em todas as aventuras que estaria vivendo e pensou nos filhos que ele provavelmente tinha e que ela como avó nunca conheceria.

Escolheu pensar em todas essas coisas, preferiu acreditar que ele estava vivo e que estava sendo feliz. Preferiu essa realidade mais justa do que supor que ele morreu junto com o resto do planeta Terra, preferiu supor que alguém encontrou uma salvação. Ela seria a última humana restante? Esse é o problema do tempo, ele escolhe pessoas em todas as partes.

Se passou sessenta minutos. Sessenta minutos nos quais havia desistido de viver, faltava um minuto para o ar acabar. Sessenta minutos para Clara e sessenta anos para a Terra.

Não havia mais esperança quando ela sentiu o próprio corpo ser puxado, não haviam mais forças para abrir os olhos quando sentiu que seria salva. Clara foi levada nos braços de um astronauta para uma estação espacial e mesmo que seu corpo se recuperasse ela se recusava a abrir os olhos ou a deixar os braços dele. Não disse nada, não quis reagir e pensou mais uma vez no filho que deixara na Terra. Ele ainda estaria vivo? Clara teria netos? A Terra se salvou? O desconhecido tirou o capacete da jovem mulher, ela percebeu que teria de se sentar em uma das macas da grande estação espacial. Ele estava estava sentado em uma maca logo ao lado, os pés de ambos não tocavam o chão e ele havia retirado também o próprio capacete.

—Clara — Disse o homem de sobrancelhas suntuosas, olhos azuis e muitas rugas. — Viemos resgata-la.

—Encontraram um novo planeta? — Clara mal conseguia falar. — A humanidade foi salva?

—Sim, uma jovem chamada Murphy salvou todos na Terra — Garantiu o homem com um leve sorriso.

—O que pode acontecer…acontecerá — Recitou Clara olhando para o próprio traje com um sorriso leve — Por que voltaram para me resgatar?

—Faz quarenta anos que a Terra foi salva por Murphy — Explicou ele seriamente — Ela defendeu até o último suspiro que todos os astronautas ainda vivos em planetas distantes e inóspitos deveriam ser salvos e levados de volta. Foram décadas para arrecadar recursos e permitir as missões de resgate, você foi a última.

—Por que fui a última? — Questionou Clara com os olhos cheios de lágrimas.

—Era a que envelhecia mais devagar. Um minuto aqui corresponde a um ano na Terra. — Começou ele com o olhar cheio de tristeza — Você está aqui há cinquenta minutos, mas foram cinquenta anos para nosso planeta.

—Foi como viver cinquenta anos — Garantiu Clara com tristeza — Você sabe o que houve com o meu filho? Eu tinha um filho, ele era muito jovem…eu era muito jovem quando ele nasceu.

—Não está me reconhecendo? — Perguntou o homem também com os olhos cheios de lágrimas.

Clara abriu os lábios e então reconheceu os olhos azuis, a pele branca e aquele semblante. O homem diante dela tinha mais de sessenta anos, teria a idade do filho dela agora nesse momento na Terra. O próprio garoto que ela jamais pôde criar havia decidido partir como astronauta, mesmo em idade avançada, para a salvar a própria mãe que partira em busca de uma salvação para um planeta que afinal foi salvo por uma garota chamada Murphy.
Aquilo pode acontecer, acontecerá.

—John — Clara tremia demais para conseguir se mover, ele sorriu levemente para ela, cheio de tristeza e se aproximou se sentando ao lado da mulher na maca e a abraçando com força. — Meu filho.

—Mãe — Disse John Smith com a voz trêmula e eles se abraçaram fortemente por muito tempo.

Clara sentia que os outros tripulantes da estação já tinham tirado todos da orbita daquele planeta no qual foram sessenta minutos para uma mulher perdida e que significou sessenta anos para a Terra. Clara sentia que agora voltava para a casa, mas retornava sabendo que nunca vira o próprio filho crescer, que nunca esteve ao lado dele, que nunca fez nenhuma das coisas que pretendia fazer. Sentia os braços dele ao redor de sua cintura e sentia o peso de ser mais jovem que o próprio filho, sentia o peso de te-lo deixado e sentia a insatisfação latente por não ter demorado naquele planeta apenas dois minutos como o previsto e sim ter tido seus comandos danificados e se visto obrigada a ficar presa. Esse é o problema do tempo: ele fez o que prefere. Esse é o problema da lei de Murphy: aquilo que pode acontecer…acontecerá. O pior aconteceu a Clara e ela ficou presa e o tempo a condenou a aquele terrível jogo.

—Eu sinto muito, eu falhei com você — Começou Clara agora segurando o rosto envelhecido do filho que não vira crescer — Eu falhei com todos, eu sinto tanto.

—Eu voltei para salva-la, você é exatamente a mesma daquele dia há mais de sessenta anos. Nunca esqueci seu rosto — Declarou ele com a voz falha e com os lábios úmidos — Seu rosto não mudou nada, a mesma mulher das minhas lembranças.

—Estamos voltando para casa, para Terra — Assegurou Clara o abraçando com força.

Foi então que tudo se desfez ao redor de Clara, que tudo se desfez diante do Doctor. Por um segundo eles despertaram e compreenderam que haviam sido imersos em uma nova história e não haviam sido fortes o bastante para despertarem; sentiram as criaturas ficando mais fortes, mais complexas e mais abundantes. Sentiram o frio gélido e o oceano do lugar no qual realmente estavam e perceberam que a mente de ambos se afundava cada vez mais. Ainda estavam abraçados nesse momento, nesse momento no qual não puderam ser fortes o bastante. Temeram juntos que isso significasse que jamais despertariam, que seriam sugados até a morte e que provavelmente não poderiam mais se lembrar de seus “eus” verdadeiros perante a derrota que acabaram de sofrer. Clara Oswald ao ter consciência de sua verdadeira face e ter dentro de si os sentimentos e as lembranças de todas aquelas pessoas que fora compreendeu que talvez fossem salvos afinal pela Lei de Murphy. Afinal, aquilo que pode acontecer…acontecerá.

Notas finais
Gostaram? O que acharam? Me digam suas opniões, façam seus pedidos e deem suas sugestões. Por favor deixem um comentário e me digam também se devo fazer mais capítulos introspectivos. Beijos queridos. P.S. Gostaram dessa capa nova ou devo voltar para a antiga? Tenho sempre dúvidas sobre as capas das fics.